(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 13/07/2015)
A Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. É muito difícil acreditar que o plano acordado vá sequer ser implementado. É quase impossível crer que, sendo implementado, funcione. Não é à tareia que se erguem inanimados. Não é deprimindo que se recupera. Chamar ajuda ao que destrói é como chamar terraplanagem a um enterro.
Só pode haver alívio com o acordo deste fim de semana entre as instituições europeias e a Grécia porque sem ele a situação seria a esta hora caótica. Preferiu-se um mau acordo à falta de acordo. Mas só se preferiu isso porque chegámos ao ponto (e ainda devíamos perguntar-nos como pudemos chegar a este ponto) em que passámos a pensar num dia de cada vez. Mas basta ganhar um pouco de perspetiva para fazer as perguntas óbvias: terá o Syriza apoio social (e portanto político) para implementar este acordo? Será credível imaginar reformas do Estado em três dias? Alguém supõe que a dívida pública grega será paga? É com mais três anos de austeridade que se recupera a economia, o emprego, a estabilidade social e política da Grécia? Ou talvez baste uma única pergunta: será que Tsipras tenciona cumprir o plano e que Merkel sequer acredita que ele será cumprido?
1. A humilhação do Syriza
A intenção não foi humilhar a Grécia, foi humilhar o Syriza. A marcação do referendo foi uma perfídia mas o resultado foi uma vitória tão estrondosa de Alexis Tsipras que se tornou necessário vergá-lo. Para mostrar às demais opiniões públicas europeias que o extremismo não compensa. Para que não votem no senhor Pablo Iglesias em Espanha ou na senhora Marine Le Pen em França. Para que fique claro que o risco moral existe e a infração será punida.
Tsipras perdeu, sim, porque engoliu todo o programa eleitoral e fez do referendo que não devia ter marcado (mas ao qual o povo grego respondeu com uma coragem surpreendente) papel para embrulhar peixe. Mas isso põe em causa a própria legitimidade popular que granjeara. Veremos como, com o tempo, a resignação do povo grego permanece ou se esboroa. Porque o povo grego elegeu um governo contra a austeridade e referendou pelo “não” (“oxi”) a um programa que era menos bruto que o agora aprovado. Da glória Tsipras passou ao desespero. Fez do “oxi” um oximoro, um não de aprovação.
2. E no final manda a Alemanha
A imagem de que a França e a Itália fizeram frente à Alemanha não está errada, mas no final quem decidiu foi mesmo a Alemanha. Holande e Renzi não deram murro nenhum na mesa, deram pancadas nas costas um no outro e conseguiram evitar o pior sem impor nada de muito melhor. Não se trata de gostar ou desgostar de Merkel, nem de não compreender que a Alemanha lidera (e liderará) o grupo dos credores. Trata-se de assumir que a desconfiança se transformou em descrença e que a Alemanha só aceitou à última hora um acordo porque foi nos seus exatos termos.
A zona euro não está mais forte desde ontem, está mais fraca. O princípio de “no exit” foi quebrado pelo próprio Eurogrupo, que pela primeira vez assumiu formalmente a possibilidade de uma saída de um país. A importância dessa declaração é equivalente (e simétrica) àquela em que Mario Draghi disse que tudo o BCE faria para salvar o euro. A fragilização da moeda única vem agora de dentro, vulnerabilizando-a a ataques especulativos e movimentos nos mercados de dívida e cambial.
3. O maior resgate de sempre
A culpabilização da catástrofe está tão repartida que nem vale a pena assenti-la. Foram os governos do Pasok e do Nova Democracia que endividaram a Grécia ao longo de décadas, mentindo nas contas oficiais e deixando medrar um Estado ineficiente e uma economia onde a corrupção e a evasão se aninham facilmente. Depois, foram as instituições europeias e o FMI que impuseram um plano que falhou, destruindo muito mais a economia e o emprego do que era suposto. E nada regenerando. Finalmente, foi o Syriza que foi amador e não previu a fuga de capitais e a quebra de cobrança fiscal que a sua própria eleição provocou. Mas se olharmos para o programa de austeridade que acompanhará o terceiro resgate percebemos que podia ser o primeiro. E que, como o primeiro, ele está talhado para falhar.
O pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos. É assim que a Grécia recupera?
Os credores sentem-se autorizados a impor estas medidas por receio das suas opiniões públicas mas provavelmente também porque estão zangados. A Grécia vai aumentar aquele que já era o maior resgate de sempre. Somando os três resgates, o perdão de dívida e os empréstimos através do Banco Central Europeu, a Grécia receberá mais de 400 mil milhões de euros.
Quatrocentos mil milhões de euros!
É mais do que toda a sua dívida pública. É mais do dobro do PIB português. E é hoje maioritariamente dinheiro emprestado por parceiros europeus. Ou seja, são impostos pagos cidadãos europeus não gregos. A situação é ainda pior porque temos a consciência de que, seja qual for o plano, parte desse dinheiro nunca será devolvido. A Grécia já teve o maior perdão de dívida de sempre. Ele será um dia ainda maior.
Devia ser aqui que os políticos se tornavam políticos, na explicação do que está em causa e que é mais do que solidariedade. É o projeto de construção europeia não apenas como projeto económico mas sobretudo como projeto político de paz. Sim, de paz.
4. As contas da Grécia
A economia grega afundou-se cerca de 25% entre 2008 e 2013. O PIB per capita recuou 15 anos, está ao nível de 1999. Um em cada quatro gregos está desempregado. Um em cada três está em risco de pobreza ou de exclusão social. Em 2014, o PIB recuperou 0,8% e esse podia ser o princípio de uma curva positiva. Acontece que este ano de 2015 está perdido: depois de uma paralisia económica nos últimos meses, sem liquidez nos bancos nem no Estado, sem matérias-primas nas empresas, sem confiança generalizada. Não é difícil imaginar que a recessão está de volta. E como o pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos.
Termo de comparação: a economia grega poderá sofrer uma das maiores recessões acumuladas de sempre. Na Grande Depressão de 1929/1933, a economia norte-americana, que foi o epicentro do problema, teve uma quebra de 28,5%. O Chile, que foi a economia mais afetada, caiu 31,1% em termos acumulados. Mesmo que a Grécia não atinja estes valores (e todos desejamos que não), é já desta ordem de grandeza que estamos a falar.
5. Até já, até nunca
A situação é muito complexa e dificílima de solucionar. Mas é simples perceber que este acordo é uma corda que não aproxima a Grécia, estrafega-a. Está tudo feito para correr mal. E a não ser que tudo isto seja uma simulação para derrotar o Syriza e comprar tempo, negociando entretanto pela calada algo que faça sentido e que, em vez de castigar, fomente a economia, daqui a meses estaremos de novo a negociar planos e Grexits.
Não, a Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. Salvou apenas o dia.
A Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. É muito difícil acreditar que o plano acordado vá sequer ser implementado. É quase impossível crer que, sendo implementado, funcione. Não é à tareia que se erguem inanimados. Não é deprimindo que se recupera. Chamar ajuda ao que destrói é como chamar terraplanagem a um enterro.
Só pode haver alívio com o acordo deste fim de semana entre as instituições europeias e a Grécia porque sem ele a situação seria a esta hora caótica. Preferiu-se um mau acordo à falta de acordo. Mas só se preferiu isso porque chegámos ao ponto (e ainda devíamos perguntar-nos como pudemos chegar a este ponto) em que passámos a pensar num dia de cada vez. Mas basta ganhar um pouco de perspetiva para fazer as perguntas óbvias: terá o Syriza apoio social (e portanto político) para implementar este acordo? Será credível imaginar reformas do Estado em três dias? Alguém supõe que a dívida pública grega será paga? É com mais três anos de austeridade que se recupera a economia, o emprego, a estabilidade social e política da Grécia? Ou talvez baste uma única pergunta: será que Tsipras tenciona cumprir o plano e que Merkel sequer acredita que ele será cumprido?
1. A humilhação do Syriza
A intenção não foi humilhar a Grécia, foi humilhar o Syriza. A marcação do referendo foi uma perfídia mas o resultado foi uma vitória tão estrondosa de Alexis Tsipras que se tornou necessário vergá-lo. Para mostrar às demais opiniões públicas europeias que o extremismo não compensa. Para que não votem no senhor Pablo Iglesias em Espanha ou na senhora Marine Le Pen em França. Para que fique claro que o risco moral existe e a infração será punida.
Tsipras perdeu, sim, porque engoliu todo o programa eleitoral e fez do referendo que não devia ter marcado (mas ao qual o povo grego respondeu com uma coragem surpreendente) papel para embrulhar peixe. Mas isso põe em causa a própria legitimidade popular que granjeara. Veremos como, com o tempo, a resignação do povo grego permanece ou se esboroa. Porque o povo grego elegeu um governo contra a austeridade e referendou pelo “não” (“oxi”) a um programa que era menos bruto que o agora aprovado. Da glória Tsipras passou ao desespero. Fez do “oxi” um oximoro, um não de aprovação.
2. E no final manda a Alemanha
A imagem de que a França e a Itália fizeram frente à Alemanha não está errada, mas no final quem decidiu foi mesmo a Alemanha. Holande e Renzi não deram murro nenhum na mesa, deram pancadas nas costas um no outro e conseguiram evitar o pior sem impor nada de muito melhor. Não se trata de gostar ou desgostar de Merkel, nem de não compreender que a Alemanha lidera (e liderará) o grupo dos credores. Trata-se de assumir que a desconfiança se transformou em descrença e que a Alemanha só aceitou à última hora um acordo porque foi nos seus exatos termos.
A zona euro não está mais forte desde ontem, está mais fraca. O princípio de “no exit” foi quebrado pelo próprio Eurogrupo, que pela primeira vez assumiu formalmente a possibilidade de uma saída de um país. A importância dessa declaração é equivalente (e simétrica) àquela em que Mario Draghi disse que tudo o BCE faria para salvar o euro. A fragilização da moeda única vem agora de dentro, vulnerabilizando-a a ataques especulativos e movimentos nos mercados de dívida e cambial.
3. O maior resgate de sempre
A culpabilização da catástrofe está tão repartida que nem vale a pena assenti-la. Foram os governos do Pasok e do Nova Democracia que endividaram a Grécia ao longo de décadas, mentindo nas contas oficiais e deixando medrar um Estado ineficiente e uma economia onde a corrupção e a evasão se aninham facilmente. Depois, foram as instituições europeias e o FMI que impuseram um plano que falhou, destruindo muito mais a economia e o emprego do que era suposto. E nada regenerando. Finalmente, foi o Syriza que foi amador e não previu a fuga de capitais e a quebra de cobrança fiscal que a sua própria eleição provocou. Mas se olharmos para o programa de austeridade que acompanhará o terceiro resgate percebemos que podia ser o primeiro. E que, como o primeiro, ele está talhado para falhar.
O pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos. É assim que a Grécia recupera?
Os credores sentem-se autorizados a impor estas medidas por receio das suas opiniões públicas mas provavelmente também porque estão zangados. A Grécia vai aumentar aquele que já era o maior resgate de sempre. Somando os três resgates, o perdão de dívida e os empréstimos através do Banco Central Europeu, a Grécia receberá mais de 400 mil milhões de euros.
Quatrocentos mil milhões de euros!
É mais do que toda a sua dívida pública. É mais do dobro do PIB português. E é hoje maioritariamente dinheiro emprestado por parceiros europeus. Ou seja, são impostos pagos cidadãos europeus não gregos. A situação é ainda pior porque temos a consciência de que, seja qual for o plano, parte desse dinheiro nunca será devolvido. A Grécia já teve o maior perdão de dívida de sempre. Ele será um dia ainda maior.
Devia ser aqui que os políticos se tornavam políticos, na explicação do que está em causa e que é mais do que solidariedade. É o projeto de construção europeia não apenas como projeto económico mas sobretudo como projeto político de paz. Sim, de paz.
4. As contas da Grécia
A economia grega afundou-se cerca de 25% entre 2008 e 2013. O PIB per capita recuou 15 anos, está ao nível de 1999. Um em cada quatro gregos está desempregado. Um em cada três está em risco de pobreza ou de exclusão social. Em 2014, o PIB recuperou 0,8% e esse podia ser o princípio de uma curva positiva. Acontece que este ano de 2015 está perdido: depois de uma paralisia económica nos últimos meses, sem liquidez nos bancos nem no Estado, sem matérias-primas nas empresas, sem confiança generalizada. Não é difícil imaginar que a recessão está de volta. E como o pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos.
Termo de comparação: a economia grega poderá sofrer uma das maiores recessões acumuladas de sempre. Na Grande Depressão de 1929/1933, a economia norte-americana, que foi o epicentro do problema, teve uma quebra de 28,5%. O Chile, que foi a economia mais afetada, caiu 31,1% em termos acumulados. Mesmo que a Grécia não atinja estes valores (e todos desejamos que não), é já desta ordem de grandeza que estamos a falar.
5. Até já, até nunca
A situação é muito complexa e dificílima de solucionar. Mas é simples perceber que este acordo é uma corda que não aproxima a Grécia, estrafega-a. Está tudo feito para correr mal. E a não ser que tudo isto seja uma simulação para derrotar o Syriza e comprar tempo, negociando entretanto pela calada algo que faça sentido e que, em vez de castigar, fomente a economia, daqui a meses estaremos de novo a negociar planos e Grexits.
Não, a Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. Salvou apenas o dia.


