O maior resgate de sempre. O maior perdão de sempre. A maior depressão de sempre?

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 13/07/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                Pedro Santos Guerreiro

A Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. É muito difícil acreditar que o plano acordado vá sequer ser implementado. É quase impossível crer que, sendo implementado, funcione. Não é à tareia que se erguem inanimados. Não é deprimindo que se recupera. Chamar ajuda ao que destrói é como chamar terraplanagem a um enterro.

Só pode haver alívio com o acordo deste fim de semana entre as instituições europeias e a Grécia porque sem ele a situação seria a esta hora caótica. Preferiu-se um mau acordo à falta de acordo. Mas só se preferiu isso porque chegámos ao ponto (e ainda devíamos perguntar-nos como pudemos chegar a este ponto) em que passámos a pensar num dia de cada vez. Mas basta ganhar um pouco de perspetiva para fazer as perguntas óbvias: terá o Syriza apoio social (e portanto político) para implementar este acordo? Será credível imaginar reformas do Estado em três dias? Alguém supõe que a dívida pública grega será paga? É com mais três anos de austeridade que se recupera a economia, o emprego, a estabilidade social e política da Grécia? Ou talvez baste uma única pergunta: será que Tsipras tenciona cumprir o plano e que Merkel sequer acredita que ele será cumprido?

1. A humilhação do Syriza

A intenção não foi humilhar a Grécia, foi humilhar o Syriza. A marcação do referendo foi uma perfídia mas o resultado foi uma vitória tão estrondosa de Alexis Tsipras que se tornou necessário vergá-lo. Para mostrar às demais opiniões públicas europeias que o extremismo não compensa. Para que não votem no senhor Pablo Iglesias em Espanha ou na senhora Marine Le Pen em França. Para que fique claro que o risco moral existe e a infração será punida.

Tsipras perdeu, sim, porque engoliu todo o programa eleitoral e fez do referendo que não devia ter marcado (mas ao qual o povo grego respondeu com uma coragem surpreendente) papel para embrulhar peixe. Mas isso põe em causa a própria legitimidade popular que granjeara. Veremos como, com o tempo, a resignação do povo grego permanece ou se esboroa. Porque o povo grego elegeu um governo contra a austeridade e referendou pelo “não” (“oxi”) a um programa que era menos bruto que o agora aprovado. Da glória Tsipras passou ao desespero. Fez do “oxi” um oximoro, um não de aprovação.

2. E no final manda a Alemanha

A imagem de que a França e a Itália fizeram frente à Alemanha não está errada, mas no final quem decidiu foi mesmo a Alemanha. Holande e Renzi não deram murro nenhum na mesa, deram pancadas nas costas um no outro e conseguiram evitar o pior sem impor nada de muito melhor. Não se trata de gostar ou desgostar de Merkel, nem de não compreender que a Alemanha lidera (e liderará) o grupo dos credores. Trata-se de assumir que a desconfiança se transformou em descrença e que a Alemanha só aceitou à última hora um acordo porque foi nos seus exatos termos.

A zona euro não está mais forte desde ontem, está mais fraca. O princípio de “no exit” foi quebrado pelo próprio Eurogrupo, que pela primeira vez assumiu formalmente a possibilidade de uma saída de um país. A importância dessa declaração é equivalente (e simétrica) àquela em que Mario Draghi disse que tudo o BCE faria para salvar o euro. A fragilização da moeda única vem agora de dentro, vulnerabilizando-a a ataques especulativos e movimentos nos mercados de dívida e cambial.

3. O maior resgate de sempre

A culpabilização da catástrofe está tão repartida que nem vale a pena assenti-la. Foram os governos do Pasok e do Nova Democracia que endividaram a Grécia ao longo de décadas, mentindo nas contas oficiais e deixando medrar um Estado ineficiente e uma economia onde a corrupção e a evasão se aninham facilmente. Depois, foram as instituições europeias e o FMI que impuseram um plano que falhou, destruindo muito mais a economia e o emprego do que era suposto. E nada regenerando. Finalmente, foi o Syriza que foi amador e não previu a fuga de capitais e a quebra de cobrança fiscal que a sua própria eleição provocou. Mas se olharmos para o programa de austeridade que acompanhará o terceiro resgate percebemos que podia ser o primeiro. E que, como o primeiro, ele está talhado para falhar.

O pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos. É assim que a Grécia recupera?

Os credores sentem-se autorizados a impor estas medidas por receio das suas opiniões públicas mas provavelmente também porque estão zangados. A Grécia vai aumentar aquele que já era o maior resgate de sempre. Somando os três resgates, o perdão de dívida e os empréstimos através do Banco Central Europeu, a Grécia receberá mais de 400 mil milhões de euros.

Quatrocentos mil milhões de euros!

É mais do que toda a sua dívida pública. É mais do dobro do PIB português. E é hoje maioritariamente dinheiro emprestado por parceiros europeus. Ou seja, são impostos pagos cidadãos europeus não gregos. A situação é ainda pior porque temos a consciência de que, seja qual for o plano, parte desse dinheiro nunca será devolvido. A Grécia já teve o maior perdão de dívida de sempre. Ele será um dia ainda maior.

Devia ser aqui que os políticos se tornavam políticos, na explicação do que está em causa e que é mais do que solidariedade. É o projeto de construção europeia não apenas como projeto económico mas sobretudo como projeto político de paz. Sim, de paz.

4. As contas da Grécia

A economia grega afundou-se cerca de 25% entre 2008 e 2013. O PIB per capita recuou 15 anos, está ao nível de 1999. Um em cada quatro gregos está desempregado. Um em cada três está em risco de pobreza ou de exclusão social. Em 2014, o PIB recuperou 0,8% e esse podia ser o princípio de uma curva positiva. Acontece que este ano de 2015 está perdido: depois de uma paralisia económica nos últimos meses, sem liquidez nos bancos nem no Estado, sem matérias-primas nas empresas, sem confiança generalizada. Não é difícil imaginar que a recessão está de volta. E como o pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos.

Termo de comparação: a economia grega poderá sofrer uma das maiores recessões acumuladas de sempre. Na Grande Depressão de 1929/1933, a economia norte-americana, que foi o epicentro do problema, teve uma quebra de 28,5%. O Chile, que foi a economia mais afetada, caiu 31,1% em termos acumulados. Mesmo que a Grécia não atinja estes valores (e todos desejamos que não), é já desta ordem de grandeza que estamos a falar.

5. Até já, até nunca

A situação é muito complexa e dificílima de solucionar. Mas é simples perceber que este acordo é uma corda que não aproxima a Grécia, estrafega-a. Está tudo feito para correr mal. E a não ser que tudo isto seja uma simulação para derrotar o Syriza e comprar tempo, negociando entretanto pela calada algo que faça sentido e que, em vez de castigar, fomente a economia, daqui a meses estaremos de novo a negociar planos e Grexits.

Não, a Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. Salvou apenas o dia.

A Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. É muito difícil acreditar que o plano acordado vá sequer ser implementado. É quase impossível crer que, sendo implementado, funcione. Não é à tareia que se erguem inanimados. Não é deprimindo que se recupera. Chamar ajuda ao que destrói é como chamar terraplanagem a um enterro.

Só pode haver alívio com o acordo deste fim de semana entre as instituições europeias e a Grécia porque sem ele a situação seria a esta hora caótica. Preferiu-se um mau acordo à falta de acordo. Mas só se preferiu isso porque chegámos ao ponto (e ainda devíamos perguntar-nos como pudemos chegar a este ponto) em que passámos a pensar num dia de cada vez. Mas basta ganhar um pouco de perspetiva para fazer as perguntas óbvias: terá o Syriza apoio social (e portanto político) para implementar este acordo? Será credível imaginar reformas do Estado em três dias? Alguém supõe que a dívida pública grega será paga? É com mais três anos de austeridade que se recupera a economia, o emprego, a estabilidade social e política da Grécia? Ou talvez baste uma única pergunta: será que Tsipras tenciona cumprir o plano e que Merkel sequer acredita que ele será cumprido?

1. A humilhação do Syriza

A intenção não foi humilhar a Grécia, foi humilhar o Syriza. A marcação do referendo foi uma perfídia mas o resultado foi uma vitória tão estrondosa de Alexis Tsipras que se tornou necessário vergá-lo. Para mostrar às demais opiniões públicas europeias que o extremismo não compensa. Para que não votem no senhor Pablo Iglesias em Espanha ou na senhora Marine Le Pen em França. Para que fique claro que o risco moral existe e a infração será punida.

Tsipras perdeu, sim, porque engoliu todo o programa eleitoral e fez do referendo que não devia ter marcado (mas ao qual o povo grego respondeu com uma coragem surpreendente) papel para embrulhar peixe. Mas isso põe em causa a própria legitimidade popular que granjeara. Veremos como, com o tempo, a resignação do povo grego permanece ou se esboroa. Porque o povo grego elegeu um governo contra a austeridade e referendou pelo “não” (“oxi”) a um programa que era menos bruto que o agora aprovado. Da glória Tsipras passou ao desespero. Fez do “oxi” um oximoro, um não de aprovação.

2. E no final manda a Alemanha

A imagem de que a França e a Itália fizeram frente à Alemanha não está errada, mas no final quem decidiu foi mesmo a Alemanha. Holande e Renzi não deram murro nenhum na mesa, deram pancadas nas costas um no outro e conseguiram evitar o pior sem impor nada de muito melhor. Não se trata de gostar ou desgostar de Merkel, nem de não compreender que a Alemanha lidera (e liderará) o grupo dos credores. Trata-se de assumir que a desconfiança se transformou em descrença e que a Alemanha só aceitou à última hora um acordo porque foi nos seus exatos termos.

A zona euro não está mais forte desde ontem, está mais fraca. O princípio de “no exit” foi quebrado pelo próprio Eurogrupo, que pela primeira vez assumiu formalmente a possibilidade de uma saída de um país. A importância dessa declaração é equivalente (e simétrica) àquela em que Mario Draghi disse que tudo o BCE faria para salvar o euro. A fragilização da moeda única vem agora de dentro, vulnerabilizando-a a ataques especulativos e movimentos nos mercados de dívida e cambial.

3. O maior resgate de sempre

A culpabilização da catástrofe está tão repartida que nem vale a pena assenti-la. Foram os governos do Pasok e do Nova Democracia que endividaram a Grécia ao longo de décadas, mentindo nas contas oficiais e deixando medrar um Estado ineficiente e uma economia onde a corrupção e a evasão se aninham facilmente. Depois, foram as instituições europeias e o FMI que impuseram um plano que falhou, destruindo muito mais a economia e o emprego do que era suposto. E nada regenerando. Finalmente, foi o Syriza que foi amador e não previu a fuga de capitais e a quebra de cobrança fiscal que a sua própria eleição provocou. Mas se olharmos para o programa de austeridade que acompanhará o terceiro resgate percebemos que podia ser o primeiro. E que, como o primeiro, ele está talhado para falhar.

O pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos. É assim que a Grécia recupera?

Os credores sentem-se autorizados a impor estas medidas por receio das suas opiniões públicas mas provavelmente também porque estão zangados. A Grécia vai aumentar aquele que já era o maior resgate de sempre. Somando os três resgates, o perdão de dívida e os empréstimos através do Banco Central Europeu, a Grécia receberá mais de 400 mil milhões de euros.

Quatrocentos mil milhões de euros!

É mais do que toda a sua dívida pública. É mais do dobro do PIB português. E é hoje maioritariamente dinheiro emprestado por parceiros europeus. Ou seja, são impostos pagos cidadãos europeus não gregos. A situação é ainda pior porque temos a consciência de que, seja qual for o plano, parte desse dinheiro nunca será devolvido. A Grécia já teve o maior perdão de dívida de sempre. Ele será um dia ainda maior.

Devia ser aqui que os políticos se tornavam políticos, na explicação do que está em causa e que é mais do que solidariedade. É o projeto de construção europeia não apenas como projeto económico mas sobretudo como projeto político de paz. Sim, de paz.

4. As contas da Grécia

A economia grega afundou-se cerca de 25% entre 2008 e 2013. O PIB per capita recuou 15 anos, está ao nível de 1999. Um em cada quatro gregos está desempregado. Um em cada três está em risco de pobreza ou de exclusão social. Em 2014, o PIB recuperou 0,8% e esse podia ser o princípio de uma curva positiva. Acontece que este ano de 2015 está perdido: depois de uma paralisia económica nos últimos meses, sem liquidez nos bancos nem no Estado, sem matérias-primas nas empresas, sem confiança generalizada. Não é difícil imaginar que a recessão está de volta. E como o pacote de austeridade agora proposta é basicamente mais um choque recessivo (aumento de impostos e corte de pensões, para começar), podemos estar perante mais quebras do PIB e aumento de desemprego nos próximos anos.

Termo de comparação: a economia grega poderá sofrer uma das maiores recessões acumuladas de sempre. Na Grande Depressão de 1929/1933, a economia norte-americana, que foi o epicentro do problema, teve uma quebra de 28,5%. O Chile, que foi a economia mais afetada, caiu 31,1% em termos acumulados. Mesmo que a Grécia não atinja estes valores (e todos desejamos que não), é já desta ordem de grandeza que estamos a falar.

5. Até já, até nunca

A situação é muito complexa e dificílima de solucionar. Mas é simples perceber que este acordo é uma corda que não aproxima a Grécia, estrafega-a. Está tudo feito para correr mal. E a não ser que tudo isto seja uma simulação para derrotar o Syriza e comprar tempo, negociando entretanto pela calada algo que faça sentido e que, em vez de castigar, fomente a economia, daqui a meses estaremos de novo a negociar planos e Grexits.

Não, a Alemanha não salvou a Grécia. Não salvou a dívida. Não salvou o euro. Salvou apenas o dia.

A caminho da tempestade perfeita?

(Joseph Praetorius, in Facebook, 13/07/2015)

Joseph Praetorius

  Joseph Praetorius

Oiro em queda. Petróleo em queda. Euro em queda. Quedas moderadas.

Atenas terá dinheiro emprestado para pagar empréstimos de dinheiro – e juros usurários – à custa de “reformas” que viabilizam a pilhagem patrimonial do país e pilhagem pecuniária da sua gente. Amarga decepção. Com a virtualidade de suscitar radicalizações imprevisíveis. Quanto à pilhagem das gentes não há nenhuma dúvida. Quanto à pilhagem do património podem existir grandes surpresas. Os adquirentes podem ser a Rússia e a China e não a Alemanha ou a França, por exemplo.

Mas isto é assim no pressuposto de que nenhuma rebelião emerge, porque, com frequência, as revoluções são respostas a que vastos grupos sociais são compelidos – pela utrajante exploração – sem propriamente as terem assumido ou preferido no inicio do processo. A ruptura vai-se construindo e impondo à vítima, de intransigência em intransigência, de ultraje em ultraje.

É um resultado brutalmente decepcionante para o governo Tsipras, embora as coisas pudessem ser e ter sido piores sem ele. A UE mantém a asfixia dos gregos e com isso mantém a Grécia no limite material da sua subsistência. Mas a inversa é igualmente verdadeira. Mantendo-se a Grécia em risco iminente, todos ficam em risco iminente.

Um safanão insurreccional em Atenas e vai tudo raso, financeiramente falando, de Berlin a Washington… É o que começa a pretender a esquerda radicalizada. Pouco preocupada com a viabilização segura da vida do grego comum no próximo mês. O problema é que o grego comum pode não achar que quanto lhe resta sob esta canga deva chamar-se vida. Se assim for, o resultado vai ser desagradável. E definitivo.

A Rússia apressa-se a ponderar modos de auxílio. O abastecimento energético directo é uma das urgências em viabilização e passíveis de execução rápida. A Grécia tem de investir e crescer sob esta opressão asfixiante. E os russos terão nisso um papel. Com os países emergentes, eventualmente. Mas a Rússia quer salvar a Grécia. Apenas. Não quer salvar a UE de quem lhe parece que deve pagar o que deve pagar e sofrer o que deve sofrer, arriscando o que entender arriscar.

O herói continua a ser Varoufakis. Fez bem em não cortar o braço. E os idiotas da UE correm o risco de o virem a suportar como referência inesquecível – senão como presença dirigente de uma ruptura radicalizada – por terem ousado sugerir a sua substituição.

E as vitórias tácticas de Merkel serão a derrota estratégica da UE, plausivelmente. O vassalo finlandês (a propósito) esquece-se com frequência que não deve a viabilidade material da sua existência ao suserano alemão. que seria por si só incapaz de a assegurar. E – mudando o que deve mudar-se – o Tusk, labrego polaco, teria tudo a ganhar se conseguisse controlar-se no que diz.

Para já, o embate no Parlamento Grego vai ser brutal e os resultados disso são imprevisíveis. O embate com a comunidade nacional não vai ser de menor importância. Pode haver desenlaces fatais esta semana.

Emmanuel Todd sobre a crise na Europa

(Este texto é fundamental para compreender o que se está a passar na Europa. A visão de um antropólogo e historiador francês. Publicado no Jornal francês Mediapart. Tradução por Estátua de Sal)


Emmanuel Todd

                   Emmanuel Todd

As declarações de Emmanuel Todd, no jornal belga Le Soir, contemplam variados flashes e fórmulas ferozes que caracterizam o autor. Algumas pistas são já frequentes em comentários colocados no Mediapart. Aqui fica o texto completo para maior clareza dos debates …

Para Emmanuel Todd, a Europa está em processo de se cindir ao meio: norte contra sul. Se a sua insuportável intransigência não é apoiada por grande parte da opinião pública europeia, Alexis Tsipras ganhou, contudo, a simpatia de muitos fãs para além das suas fronteiras nacionais. Por empatia com os gregos anónimos que lutam contra medidas de austeridade consideradas desonestas? Sem dúvida. Mas não encarnará ele, aos olhos daqueles que o admiram, algo maior, que se assemelha à luta de um David, orgulhoso da sua história e da sua cultura, que enfrenta o gigante frio de Bruxelas, convencido de que a Razão é a faculdade da unidade?

Pedimos ao historiador, demógrafo e antropólogo francês Emmanuel Todd, autor, entre outros, de The Invention of Europe (Threshold), ensaio que ele esperava  “que permitisse a alguns europeístas uma outra espessura antropológica de entendimento das nações europeias “, que nos respondesse a várias questões.

Como é que analisa o psicodrama grego? 

O que me impressiona é que a Europa com que estamos lidando não é mais como era antes: é uma Europa controlada pela Alemanha e seus satélites bálticos, polacos, etc. A Europa tornou-se um sistema hierárquico, autoritário, “austeritario” sob gestão alemã. Tsipras, provavelmente, está a conseguir polarizar a Europa do Norte contra a Europa do Sul. O confronto é entre Tsipras e Schäuble (o ministro alemão das Finanças). A Europa está num processo de se cindir ao meio. Para lá do que os governos dizem, eu aposto que os italianos, espanhóis, portugueses… Até os Ingleses tem imensa simpatia por Tsipras.

Uma divisão norte-sul, em vez de uma divisão esquerda-direita? 

Veja a atitude dos sociais-democratas alemães: eles são particularmente duros para com os gregos. Toda a conversa dos socialistas franceses, até recentemente, era dizer: “Vamos fazer uma outra Europa, uma Europa à esquerda. E graças às nossas excelentes relações com a social-democracia alemã, vai acontecer alguma coisa “… Eu respondia:” Não, vai ser pior com eles “. Os social-democratas estão implantados nas zonas protestantes da Alemanha! Eles são ainda mais no norte, e aí ainda mais opostos ao “cathos rigolards” do Sul… O que emerge, portanto, não é de todo uma oposição do tipo esquerda-direita é uma oposição cultural tão antiga quanto a Europa. Tenho certeza que se o fantasma de Fernand Braudel (grande historiador francês: 1902-1985) saísse do túmulo, ele diria que o que está a ficar de novo exposto são os limites do Império Romano. Os países verdadeiramente influenciados pelo universalismo romano estão instintivamente do lado de uma Europa razoável, isto é, de uma Europa cuja sensibilidade não é autoritária nem masoquista, que entendeu que os planos de austeridade são autodestrutivos, suicidários. E do outro lado, há uma Europa centrada no mundo luterano – comum a dois terços da Alemanha, dois dos três países bálticos, e aos países escandinavos -, adicionando-lhe o satélite polaco – a Polônia é católica, mas nunca pertenceu ao Império Romano. É algo extraordinariamente profundo emerge.

 E a França, neste debate norte-sul, não se ouve…

Essa é a verdadeira questão: será que a França irá se mover? A França é dúplice. Há velha França maurrassiana, convertida em França socialista, descentralizada e europeísta, pró-alemã, que bloqueia o sistema. Mas é claro que dois terços das profundezas França estão no lado do sul da Europa. De alguma forma, o sistema político francês – que não cessa de produzir esses presidentes ridículos, onde o asténico sucede ao histérico – não está a desempenhar o seu papel. O sistema está bloqueado. Até agora, a França desempenhou o papel do polícia bom, enquanto a Alemanha é o polícia mau… Para Holland, este é o momento da verdade. Se ele deixar cair os gregos, ele entrará para a História ao lado dos socialistas que votaram a favor de dar plenos poderes ao marechal Pétain. Se os gregos forem massacrados, de uma forma ou de outra, com a cumplicidade e a colaboração da França, então saberemos que é a França de Pétain que está no poder.

Um Grexit irá apressar o fim do euro, como você tem antecipado há muito tempo?

A médio prazo, a saída da Grécia, irá certamente implicar a dissolução do conjunto. É provável que a Alemanha faça uma zona monetária com seus satélites austríacos, escandinavos, bálticos, e com o apoio da Polónia – que não está na zona do euro. Por outro lado, poderemos ver um retorno de uma parceria franco-britânica para equilibrar o sistema.

O que vimos em 2011 foi uma incrível obstinação das elites europeias – incluindo elites francesas neovichystas (deixe ficar “neovichystas”!): mistura de católicos zombies, de banqueiros e altos funcionários desprezíveis para prolongar este sistema que não está a funcionar. O euro é o buraco negro da economia global. A Europa tem-se obstinado numa incrível política de fracasso económico que parece decorrer de um estado de loucura. Estamos no irracional e na loucura: um excesso de racionalidade que produz uma irracionalidade coletiva. Por um lado isto não pode durar muito tempo. Mas, por outro lado, o que eu sinto, e não só entre os alemães e os gregos, é o início de uma vertigem, uma atração pela crise. Ninguém se atreve a dizer que isto não funciona, ninguém se atreve a assumir a culpa do fracasso – pois é um fracasso impressionante, esta história do euro! – mas sente-se também que os atores desta história sentem necessidade de a terminar. É preferível um fim terrível do que o terror sem fim. Neste caso, a Grécia seria o detonador. As pessoas estão a tomar consciência da tragédia real da situação. A tragédia real da situação é que a Europa é um continente que no século XX, ciclicamente, se suicidou sob orientação da Alemanha. Houve a guerra de 14, em seguida, a segunda guerra mundial. É certo que, hoje, o continente é muito mais rico, mais pacífico, desmilitarizado, envelhecido, artrítico. Neste contexto de desaceleração, ao ralenti, estamos em vias de assistir à terceira autodestruição da Europa, e de novo sob a orientação alemã.

E sobre a Grécia? 

Levará 5 anos? vai demorar 10 anos? – Demore o que demorar a Grécia vai começar a sentir-se melhor fora da zona euro. Os gregos são pessoas notavelmente inteligentes e adaptáveis, e terão o patriotismo como fator de unidade interna e reorganização. E é neste ponto que a situação se tornará insuportável para o euro. Deixar a Grécia sair do Euro, é correr o risco de ter que gerir a prova de que é melhor estar fora do que dentro da zona.

Quando se está numa Europa louca, parece que as forças anti Grécia predominam esmagadoramente. Mas quando lemos a imprensa internacional, percebemos que os gregos têm todo o mundo com eles! Basta ler a imprensa americana: considera os políticos de Bruxelas, Estrasburgo e Berlim estão totalmente loucos! Há muita gente que têm interesse em ajudar e salvar a Grécia, a começar pelos americanos, que não podem permitir que este país se desfaça em farrapos, dada a sua posição estratégica. Muita gente vai ajudar a Grécia, esse é que é o problema …