A prova dos nove

(Daniel Oliveira, in Expresso, 27/04/2019)

Daniel Oliveira

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Se há assunto que sempre distinguiu a esquerda da direita portuguesa foi o SNS. Isso ficou evidente em 1979, quando a direita se opôs à lei que o fez nascer por a considerar demasiado estatista. E em 1990, quando votou sozinha uma Lei de Bases de Saúde que punha privado e público a competir dentro do SNS. Por isso, este tema era de consenso fácil na ‘geringonça’. Enquanto as propostas do PSD e do CDS para a nova lei de bases aprofundavam o papel dos privados dentro do SNS, tendo o Estado como financiador, a esquerda dava ao privado um papel suplementar. É um debate semelhante ao dos contratos de associação com colégios privados. Nesta relação com os privados, as PPP eram o teste do algodão. Os estudos comparativos de eficácia financeira têm resultados contraditórios. Mas o essencial é que os privados olham para um doente com critérios de rentabilidade. Se não for rentável é um problema a ser transferido, se for rentável não deve ir para o centro de saúde. Se o doente for a um hospital gerido pelo Estado receberá o que tiver de receber, se for a uma PPP receberá o que estiver no contrato com o Estado. Aceitaria Isabel Vaz, CEO do grupo Luz Saúde, que um dos seus hospitais fosse gerido pelo Estado?

Um político que afete os negócios privados na saúde ou nas pensões sofre e é sempre cercado. Está muito dinheiro em jogo e grande parte do capitalismo nacional depende destes negócios em que é o Estado que garante a clientela. Como seria de esperar, as pressões são brutais. E estão a resultar.

A última versão do resultado das negociações do Executivo com o PCP e o BE foi a enviada pelo Governo a estes partidos. A confiança de António Costa era tal que, no debate quinzenal de 4 de abril, falou dela numa resposta a Catarina Martins: “Creio que, ainda recentemente, o Governo fez chegar uma redação em função dos últimos contactos que tínhamos mantido sobre esta matéria”. E acrescentou: “Não temos que nos deprimir com a ausência de partidos que nunca apoiaram o SNS, ele tem passado bem sem o seu apoio ao longo destas várias décadas.” Por fim, congratulou-se com o facto de se provar que não há só um tipo de maioria possível. Ninguém poderia prever este recuo e não vale a pena dizer que ele se deve à indiscrição do BE ou à irritação do PCP. Se não havia acordo fechado é porque ainda não havia contraproposta dos parceiros. O Governo recuou em relação à sua própria proposta, não à de outros.

As alterações que estão a ser introduzidas pelo grupo parlamentar do PS têm um sentido evidente: ceder, no que toca às PPP, aos protestos dos grupos privados de saúde. Terá sido efeito da pressão do Presidente? Também, mas com isso já Costa contava. De tal forma que BE e PCP também receberam nos seus mails um calendário que incluía o veto político de Marcelo e um guião para o ultrapassar. Das Marias de Belém que pululam pelo grupo parlamentar? Sempre lá estiveram.

As pressões dos privados tiveram de chegar a Costa. E é ele que terá de dizer com quem se quer entender. Se for com o PSD, logo neste tema, será claro o que pretende para depois das eleições. Cabe a Costa escolher entre as pressões dos que foram abocanhando o SNS ou o legado de António Arnaut. Será Costa o coveiro do entendimento histórico que a esquerda sempre manteve sobre o SNS e que ele festejou ainda há 15 dias? Se for, é o anúncio do fim da sua aposta na ‘geringonça’.


Governo deu ao BE um guião para ultrapassar veto de Marcelo. Era este

(In Expresso Diário, 26/04/2019)

(READ MY LIPS

Depois desta notícia acho que António Costa se devia esconder debaixo da mesa por ter sido apanhado a roubar chocolates depois de dizer que quem roubou foi o  menino do lado. Uma vergonhaça das grandes. Não se percebe as razões pelas quais o PS, nos últimos tempos só dá tiros nos próprios pés. Será que António Costa já se cansou de Portugal e quer mesmo perder as eleições?! Será que vai fazer como Durão e largar asas para um lugar na Europa?! Será que não é só o Centeno que está de mala aviada?!

A Estátua fartou-se de pensar e não encontrou explicação melhor para tanta azelhice…. 🙂

Comentário da Estátua, 26/04/2019)


Para além de ter aceite o fim total das PPP na Saúde, o Governo chegou a entregar ao BE e PCP um guião para ultrapassar o veto certo de Marcelo.


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Assim não, António Costa

(Por Estátua de Sal, 25/04/2019)

Nada pior, como prenda de aniversário do 25 Abril, do que este zig-zag do PS no caso da Lei de Bases da Saúde, que António Costa não se cansou de informar o país que a Assembleia da República iria aprovar brevemente com o apoio dos partidos à sua esquerda. Em suma, seria verdadeiramente uma Lei subscrita pelo espírito da Geringonça.

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É feio um líder político dar o dito por não dito com tanta leviandade. Cai mal ao olhar dos eleitores, revela fraqueza, calculismo político e falta de lealdade para com um ideário político firme e consistente. São tergiversações deste género que minam a confiança dos eleitores na classe política, que afastam os eleitores das urnas, e que são o terreno fértil para o crescimento dos populismos.

É óbvio que é sabido que o PS não é um bloco unânime no que toca às opções de gestão, mais ou menos liberal, da economia. É óbvio que sempre existiu no PS uma ala permeável às pressões emergentes do mundo dos negócios privados, seja na área da saúde, nas autoestradas ou nas empresas públicas. Costa sempre conviveu com uns e com outros conseguindo, em última instância, fazer uma bissectriz mais ou menos consensual, satisfazendo umas vezes mais a ala direita, e de quando em vez a ala esquerda. Neste caso, parecia claro que o pensamento pessoal do próprio António Costa seria mesmo acabar com a inscrição da possibilidade de PPP na Lei de Bases da Saúde a aprovar.

Só que, entre o parecer e o ser, pode existir alguma distância significativa. Marcelo foi fazendo as suas prédicas preventivas contra tal opção, num exercício de ingerência e de abuso dos poderes presidenciais sobre o Governo e sobre o Parlamento, e Costa parece ter cedido ao cerco da direita, dando uma imagem de líder fraco e pusilânime.

E, ainda que seja difícil de quantificar, tal cedência terá certamente influência na prestação eleitoral do PS, quer nas próximas eleições europeias, quer nas legislativas de Outubro. Os eleitores não solidificam a sua confiança em políticos que alteram as suas propostas só porque são acossados pelos seus opositores. E sem confiança não há seguidores, não há apoiantes, e os votos fogem, seja para outras forças políticas, seja para a abstenção, como resposta ao desencanto.

Acresce que o BE, surgindo como o consorte traído e corneado em toda esta história, só pode ter razão em se sentir como tal, pelo que amplificará a sua vitimização perante o eleitorado e só terá a ganhar eleitoralmente com o sucedido.

Na verdade, o BE – apesar de por vezes ser demasiado lesto a dar conta do estado das suas negociações com o Governo de forma a colher os louros da aprovação de certas medidas -, neste caso não exagerou naquilo que anunciou, no que toca ao acordo que já tinha fechado com o Governo. Ver a notícia do Expresso e cópia do documento da Presidência do Conselho de Ministros enviada pela Ministra da Saúde, Marta Temido, ao BE, aqui.

Depois de termos passado semanas a discutir a endogamia que perpassa pelo Governo e pelos gabinetes que o apoiam, os primos dos primos e demais familiares à mesa do orçamento. Depois de termos andado a discutir leis a haver, tanto mais ridículas quanto mais apertadas, para acabar com tais promiscuidades malsãs, o que parece concluir-se deste recuo do PS é que há outro tipo de endogamia muito mais perigosa e onerosa para o erário público.

É a endogamia entre o poder político e os interesses económicos rentistas privados, que tão mal tem feito a Portugal e aos portugueses.

Assim não, António Costa. Mal por mal sempre é melhor contratar os primos até ao quarto grau. Fica mais barato e há mesmo Ministros que tem familiares muito competentes.