Atenção à escola

(António Guerreiro, in Público, 07/04/2017)

Autor

António Guerreiro

As sociedades desenvolvidas forneceram às instituições de ensino — escolas e universidades — o ambiente, os recursos e as regras para o cumprimento de tarefas que exigem a atenção profunda: o estudo, a aprendizagem, a tomada de consciência. A ideia de “atenção profunda” tornou-se quase um conceito, numa altura em que começaram a surgir estudos sobre uma nova economia, a economia da atenção, de onde emergiu uma verdadeira disciplina chamada neuro-marketing que estuda a actividade cerebral para orientar as técnicas de captação da atenção do consumidor. A atenção deu origem a uma economia e a uma ecologia porque se tornou um bem difícil de obter e pelo qual todos lutam. Mas o conceito de atenção profunda não nasceu no campo desta nova economia. Devemo-lo a uma professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, chamada N. Katherine Hayles, que desenvolveu a sua ideia de deep attention num artigo de enorme sucesso, publicado em 2007, numa revista especializada. Em oposição à deep attention, a autora definia a hyper attention. Enquanto a primeira se caracteriza pela incidência num único objecto durante muito tempo (a autora dá como exemplo a leitura de um romance de Charles Dickens), a segunda procede por rápidas oscilações entre diferentes tarefas e múltiplos fluxos de informação, buscando altos níveis de estimulação exterior; os tempos longos de que a primeira necessita são, para a segunda, causa de um tédio intolerável. Segundo Hayles, esta diferença cognitiva entre uma atenção profunda e uma hiperatenção é a marca de uma mudança geracional. O livro, o medium tradicional que assegurou a eficácia do ensino, ao longo de gerações e gerações, e promoveu a transmissão e a acumulação de saber, tornou-se de uso difícil para quem foi imerso desde a infância nos media digitais (e Hayles fornece números espantosos, retirados de um relatório que, em 2007, tinha sido acabado de publicar: os jovens americanos dedicavam, em média, seis horas e meia, por dia, nos novos media, muitos deles interactivos. À altura destes números, indiciando um uso maciço, estão os resultados estatísticos relativos ao uso de psicofármacos estimulantes da concentração por parte dos estudantes universitários dos Estados Unidos. A partir de um certo limite, o défice de atenção profunda é categorizado como uma doença (um dos seus nomes é aquilo a que hoje se chama, no ambiente escolar, “hiperactividade”), mas Katherine Hayles mostra que os dois regimes de atenção têm vantagens e desvantagens. E uma combinação equilibrada das duas seria muito interessante para a pedagogia. O problema é que a hiperatenção ganhou uma força descontrolada, generalizou-se, e veio provocar uma desordem. Os efeitos são irreversíveis: as crianças que cresceram em ambientes dominados pelos media são capazes de conexões diferente daquelas que atingiram a maturidade noutras condições.

Quem fez toda a sua formação escolar antes da mudança induzida pelos media digitais, de massa, quando o livro e a leitura eram os meios que reconfiguravam quase toda a actividade intelectual que a escola requeria, foi apanhado nesta mudança geracional quanto à capacidade de atenção. Muita gente ainda não percebeu o que se passou.

Mas isso pouco importa. O que é lamentável e bloqueia toda a discussão séria e produtiva é que são precisamente alguns dos que não perceberam ainda nada e não têm qualquer contacto com salas de aula (seja em escolas, seja em universidades) que continuam a debitar a ladainha por uma escola que preserve modelos e exigências de um outro tempo, como se não tivesse havido uma cesura.

A privatização do dinheiro, silenciosa e radical

(Brett Scott, in Blog OutrasPalavras, 07/03/2017)

Bancos e Estados querem substituir dinheiro público por moeda digital, corporativa. Se isso ocorrer, haverá muito mais desigualdade, discriminação e vigilância….

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FUJAM, VEM AÍ O UPDATE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 17/09/2016)

Autor

                                      Clara Ferreira Alves

Um dia, num ataque de modernização, resolvi digitalizar-me. Um dia igual àquele em que resolvi oferecer os meus vinis. Um dia modernamente estúpido

Vem aí o update. Melhor sair da cidade. Os updates dão-me cabo da vida. E não só os updates. Fiquei sem o meu Gmail. Sem as minhas notas digitais. Engolidas no éter. Tratadas, as minhas laboriosas notas, como um basket of deplorables.

Houve um tempo feliz, há muitos, muitos anos, em que as pessoas falavam com as pessoas e resolviam problemas das pessoas. Uma pessoa tinha um problema e telefonava a outra pessoa que não lhe dizia, se é para o assunto X carregue no 1, se é para o assunto Y carregue no 2, se é para o assunto Z carregue no 3, se é para outros assuntos fique em linha a secar e a escutar música de elevador até falar com um operador.

E se chego a falar com o dito operador, aparece-me um indígena que fala português com mistura de sotaque ucraniano e brasileiro. Nesse tempo feliz, usava-se o papel. O papel é uma pasta de celulose odiada pelo mundo digital. O papel das minhas notas, um caderninho, era leve, digno, fácil de transportar, era até bonitinho (diria o brasileiro) e prático. Com um caderno de notas e um livro de bolso, paperback, paper, podia-se afrontar a fila burocrática, aguentar o consultório médico, suportar a ansiedade do hospital, a senha da loja do cidadão, a espera do aeroporto. Resistia a trocar o caderninho pelo telemóvel. Apesar das tentadoras propostas das utilities da Apple — grave o seu memo, escrevinhe a sua nota, guarde os seus segredos —, achava o papel e a esferográfica insubstituíveis. Um dia, num ataque de modernização, resolvi digitalizar-me. Um dia igual àquele em que resolvi oferecer os meus vinis. Um dia modernamente estúpido. Guardei os caderninhos e passei ao iPhone. A escrever nas Notes. Mantive a agenda de papel, por razões fetichistas, trata-se de uma Smythson, e mandei fora o calendário e o postal ilustrado. Comunico por WhatsApp em vez de recorrer aos correios da Suazilândia ou da Cochinchina.

E, por medida de precaução, fui guardando capítulos de um livro que estava a escrever no Gmail. Havia lá coisa mais segura do que o Gmail da Google? E qual a ideia da letra em caixa alta unida à caixa baixa? Gmail, iPod, iPhone, etc.? Os fabulosos servidores, uma palavra que é todo um programa, guardariam para sempre, ao contrário dos prints, a minha produção literária e o meu arquivo de mensagens. Que diabo, estamos no século XXI, certo? Falta deitar fora os CD. iTunes, certo? (here we go again…). Cada vez que me apetecia escrever, abria as Notes e despejava ideias nesse dispositivo de segurança chamado iPhone tão simples de perder. Um dia, esta crónica seria toda escrita em emojis. A Google é a Google, nada corre mal em Silicon Valley. Os techies são confiáveis. Nunca desisti do paperback, o Bezos pode ir dar uma volta com o Kindle dele. Não vou contribuir para a fortuna de um tipo que está a destruir os direitos de autor.

O tempo foi passando. Dois anos de Notes guardadas no “celular”, como chamaria ao dispositivo o brasileiro do call-center. E um arquivo no Gmail. Seguríssimo. Ainda perguntei, não seria melhor fazer prints da coisa? Prints, estás maluca? Se quiseres, usa um disco duro. Tens isso na Cloud não tens? Tens backup? Sei lá. Nunca fui à Cloud. E se estas coisas são tão avançadas não deveriam ter backup automático? Não é da essência do progresso poupar-nos à redundância? Como diria o Marco Paulo a propósito da internet, se a Cloud me quiser eu estou disponível. Na verdade, comprei a Cloud em plano mensal de armazenamento mas não me ralei em perceber como a controlar. Eu é mais escritas. Mais Dostoievski que Zuckerberg. Resumindo. Um dia destes acordei e tudo tinha levado sumiço. As Notes, primeiro, e depois todo o meu Gmail. Todo. Tudo. Peritos foram convocados para me salvarem. Fez delete? Não. Foi ver o trash? Fui. Manobras foram praticadas de recuperação. Fora de horas, fui ver os chats, os fora (fóruns, diz a malta), fui aos sites. Corri tudo. Tentei tudo. Sei navegar na web melhor que muito tecnocrata. Havia muitíssima gente com o mesmo problema. Uns desgraçados como eu. Descobri muitas coisas. Parece que as minhas Notes estavam apensas ao Gmail e que não estava nada na Cloud. Nadinha. A Cloud é um albergue espanhol. Entretanto, a Apple mandava-me mensagens desesperadas sobre o El Capitán isto e aquilo. Eu quero que o El Capitán… podem preencher. Fui ao site da Google, onde não há pessoas a resolver problemas. Só algoritmos. Mandaram-me preencher um formulário de recuperação. Submit. Submeti. Dois segundos depois recebi uma mensagem automática a explicar quanto lamentavam (quem?) a minha perda, como num velório, e a dizer que aquele e-mail estava perdido para sempre. Se a mensagem é automática, isto deve estar sempre a acontecer. Mais de dois anos de notas perdidas. Todo o e-mail arquivado. O livro estava publicado. Lucky me. E nem uma pessoa me conseguiu explicar o que aconteceu. Um hacker? Talvez um update, disseram. Ah, o update. Bem me parecia.