Morreu Francisco – Take 2

(Carlos Esperança, in Facebook, 22/04/2025, Revisão da Estátua)


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Para lá do escândalo da TV pública a dedicar infindáveis horas dos três canais à morte do Papa e das piruetas dos que nunca o apreciaram, surpreendeu a transferência dos comentadores das guerras na Ucrânia e na Palestina para o comentário pio.

Podiam ter-nos poupado a ouvir tantos padres e bispos, e a ver tantas batinas e tantos colares romanos a emoldurar cachaços eclesiásticos, enquanto o mundo continuou a girar e as outras notícias importantes foram omissas!

Quando disseram que Francisco sucedeu a um Papa erudito, ignoraram o valor dele e a razão dos padres jesuítas, os mais preparados, não quererem ser bispos, salvo em casos excecionais, o motivo por que foi ele o primeiro Papa oriundo dos discípulos de Loyola.

Foi inaceitável a manutenção do protocolo salazarista na declaração de três dias de luto para chefes de Estados amigos falecidos em funções, pelo que ele, Salazar, decretou três dias de luto insólito por Hitler, em teimoso zelo fascista que os Aliados ignoraram.

Era importante dizer por que motivo provável Francisco optou pela Casa de Santa Marta, onde morou desde a eleição em 2013, mais salubre do que os aposentos papais e com menos riscos alimentares ou medicamentosos em vez do habitat tradicional do Vaticano.

Talvez o desejo de ser enterrado longe dos antecessores revele uma mensagem do único Papa jesuíta, o que infligiu uma colossal derrota ao Opus Dei seita que, após dois papas seus, fracassou com Francisco, para azedume de todos os Venturas do mundo.

Ver os próceres das religiões concorrentes que não poupam a vida aos crentes das outras religiões a manifestar consternação pela morte de Francisco, é como ver um vegetariano com sanduiches de leitão na marmita ou um pacifista com o cinto de bombas à cintura.

Falta julgar os ratos de sacristia portugueses eleitos para os mais altos cargos do Estado, inimigos da descriminalização da IVG, das leis da eutanásia, do planeamento familiar, e da autodeterminação sexual da mulher. É urgente analisar o mal que o catolicismo fez às mulheres para impedir o que podem fazer religiões bem mais misóginas e perversas.

Foram pobres os testemunhos dos eclesiásticos sobre o Papa Francisco e oportunistas os dos políticos que se colaram ao cadáver na suposição de que renderá votos. Até o tartufo Ventura teve direito a um comício pio antes do tartufo-mor, um parasita da fé, ir debitar às 20h um ror de adjetivos laudatórios. E desperdiçou-se a oportunidade de discutir a discriminação da mulher nas Igrejas incluindo a do Papa que se finou.

Para quebrar a unanimidade podiam ter sido ouvidos João Monteiro e Ricardo Alves, respetivamente presidentes da Associação Ateísta Portuguesa e da Associação República e Laicidade no desfile no espaço televisivo onde até a tarologa Maya teve lugar.

As televisões preferiram ouvir as ovelhas mediáticas do rebanho católico com estúdios transformados em redis onde ecoaram redundantes e repetidos balidos encomiásticos!

Morreu Francisco

(Carlos Esperança, in Facebook, 21/04/2025, Revisão da Estátua)


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Não esperem, os leitores, que o primeiro presidente da Associação Ateísta Portuguesa (2008/2020) se manifeste desolado com a morte do Papa. Nem sequer sinto tristeza, sinto-me, aliás, aliviado pelo fim do sofrimento do homem bom e generoso.

Deixo a consternação aos parasitas da fé, aos narcisistas que se gabam dos minutos de vida que estiveram com o líder dos católicos, aos vampiros do seu prestígio.

Ainda ontem vi o moribundo exibido e explorado pela Cúria, pelos funâmbulos da Cruz, como o fazem há dois mil anos ao corpo de Jesus, usando palavras dos versos de Guerra Junqueiro. Obrigaram-no a receber J. D. Vance, um celerado mais próximo do Opus Dei do que do Papa.

Agora que morreu, é ver os parasitas a explorar os sentimentos dos devotos para fins de propaganda pessoal, o Moedas a atribuir ao Papa o tratamento por tu que lhe teria dado, o Paulo Rangel a dizer que, para lá das questões que foi tratar como ministro, Francisco quis saber quem era o Paulo Rangel (sic), e o comentador Jorge Botelho Moniz, o nome causa calafrios a quem recorda o papel de outro Jorge Botelho Moniz na Guerra Civil de Espanha, a enaltecer o Papa que o horrorizou nas declarações sobre a guerra na Ucrânia.

Falta Marcelo a usar o telejornal das 20H00 para manifestar a bajulação habitual de um PR a que a Constituição exige respeito pela laicidade e de Montenegro que usará a sua morte para proveito próprio como fazem todos os parasitas da fé.

Os que se calam perante as perseguições aos cristãos e aos seus templos – que metódica e inexoravelmente vão sendo queimados pelo fundamentalismo islâmico -, os que ocultam a vindicta contra os cristãos na Síria por um terrorista da Al Qaeda promovido a aliado do Eixo do Bem, são aqueles que agora manifestam compunção com a morte do Papa.

Como ateu, recordo o líder de uma teocracia que é hoje a sede espiritual de uma religião bem melhor do que qualquer outra da concorrência, o primeiro pontífice que condenou a pena de morte, quem foi a Lampedusa chamar a atenção para os refugiados sobrevivos do Mediterrâneo e que foi insultado por defender a paz quando o belicismo interessava aos que vivem do negócio das armas. Destaco particularmente a oposição às guerras na Ucrânia e em Gaza, que lhe valeram a ira dos responsáveis e o silêncio dos covardes.

Pela influência que o Papa exerce em milhões de crentes e pelo exemplo que pode dar a não crentes, desejo que os cardeais que criou, uso o termo canónico, não traiam e votem em quem seja capaz de continuar o seu profícuo magistério.

A Bélgica, a monarquia e a hipocrisia

(Carlos Esperança, 04/02/2020)

A Bélgica não é bem uma nação, é um Estado dividido entre Valónia e Flandres, mais a cidade-Estado de Bruxelas, antagonizados por idioma, religião e cultura. A monarquia é o anacronismo que finge aglutinar um espaço cosmopolita.

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Os reis são católicos por tradição e devassos por igual motivo, mas a religião é mostrada em público e a devassidão gozada em privado. Já foram donos de uma quinta em África, Congo Belga, uma coutada real.

O rei Balduíno terá mantido uma relação de alcova com duas rainhas, a própria, Fabíola, e a madrasta, mulher do pai, Leopoldo III. Não terá sido crime, mas não foi bonita ação. O que surpreendeu os belgas não foi a devassidão do monarca, mas a intensidade da fé que o fez renunciar ao trono entre os dias 4 e 5 de março de 1990, ao recusar assinar a lei de despenalização do aborto na Bélgica.

Cobiçar a mulher do próximo, mesmo ao pai, não foi original, mas promulgar a lei que legalizava a IVG, era uma ofensa à Igreja e um pecado que obstaria, três anos depois, ao conforto de todos os sacramentos, da liturgia e do bilhete para o Paraíso.

Sem filhos, apesar dos esforços alternados, nem sempre galinha, nem sempre Fabíola, o trono passou para o seu irmão mais novo, Alberto Félix Humberto Teodoro Cristiano Eugénio Maria, Rei dos Belgas de 1993 até à abdicação, em 2013, em favor do filho mais velho, Filipe. Os nomes dos reis parecem mais um cardápio do que a identificação.

Católico, como é hábito, parece ter sido fiel a outra tradição familiar, o gosto pela cama de mulheres casadas. Ainda príncipe frequentou, com assiduidade e durante largos anos, o tálamo conjugal de uma senhora que não era sua.

Enquanto reinou, a imunidade judicial permitiu-lhe o pleno gozo do adultério, o pecado é facilmente perdoado com o simples alvará de pároco, sem desfechos desagradáveis ou submissão a provas de paternidade a que um cidadão normal é obrigado.

O problema de Albert de Saxe Cobourg surgiu com a abdicação, em 2013, quando uma alegada filha continuou a reivindicar a paternidade e o pai tinha perdido a unção divina que o fez rei. A Bélgica é um Estado de direito democrático, sem medo de um ditador, como sucedeu em Espanha, onde se fez uma lei para impedir o escrutínio dos negócios do rei que o genocida Franco impôs ao País.

A lei belga obrigou o ex-rei a submeter-se à prova do ADN, que nos Estados de direito democrático precede o direito divino. Conhecidos os resultados, Sua Majestade, através de um comunicado do seu advogado, reconheceu a sua filha natural, Delphine Boël, sem prejuízo da paternidade legal de há mais de quarenta anos.

A Bélgica ganhou uma princesa, mas a monarquia perdeu o respeito, se ainda o tinha, e as consequências só a partir deste mês se farão sentir.

Não sendo exclusivo da realeza, a incidência em Espanha, Inglaterra e Bélgica mostra que o adultério é a tradição monárquica mais persistente do regime.


(Ver no link abaixo mais detalhes sobre o tema)

https://www.dn.pt/…/ex-rei-alberto-ii-da-belgica-reconhece-…