A Bélgica, a monarquia e a hipocrisia

(Carlos Esperança, 04/02/2020)

A Bélgica não é bem uma nação, é um Estado dividido entre Valónia e Flandres, mais a cidade-Estado de Bruxelas, antagonizados por idioma, religião e cultura. A monarquia é o anacronismo que finge aglutinar um espaço cosmopolita.

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Os reis são católicos por tradição e devassos por igual motivo, mas a religião é mostrada em público e a devassidão gozada em privado. Já foram donos de uma quinta em África, Congo Belga, uma coutada real.

O rei Balduíno terá mantido uma relação de alcova com duas rainhas, a própria, Fabíola, e a madrasta, mulher do pai, Leopoldo III. Não terá sido crime, mas não foi bonita ação. O que surpreendeu os belgas não foi a devassidão do monarca, mas a intensidade da fé que o fez renunciar ao trono entre os dias 4 e 5 de março de 1990, ao recusar assinar a lei de despenalização do aborto na Bélgica.

Cobiçar a mulher do próximo, mesmo ao pai, não foi original, mas promulgar a lei que legalizava a IVG, era uma ofensa à Igreja e um pecado que obstaria, três anos depois, ao conforto de todos os sacramentos, da liturgia e do bilhete para o Paraíso.

Sem filhos, apesar dos esforços alternados, nem sempre galinha, nem sempre Fabíola, o trono passou para o seu irmão mais novo, Alberto Félix Humberto Teodoro Cristiano Eugénio Maria, Rei dos Belgas de 1993 até à abdicação, em 2013, em favor do filho mais velho, Filipe. Os nomes dos reis parecem mais um cardápio do que a identificação.

Católico, como é hábito, parece ter sido fiel a outra tradição familiar, o gosto pela cama de mulheres casadas. Ainda príncipe frequentou, com assiduidade e durante largos anos, o tálamo conjugal de uma senhora que não era sua.

Enquanto reinou, a imunidade judicial permitiu-lhe o pleno gozo do adultério, o pecado é facilmente perdoado com o simples alvará de pároco, sem desfechos desagradáveis ou submissão a provas de paternidade a que um cidadão normal é obrigado.

O problema de Albert de Saxe Cobourg surgiu com a abdicação, em 2013, quando uma alegada filha continuou a reivindicar a paternidade e o pai tinha perdido a unção divina que o fez rei. A Bélgica é um Estado de direito democrático, sem medo de um ditador, como sucedeu em Espanha, onde se fez uma lei para impedir o escrutínio dos negócios do rei que o genocida Franco impôs ao País.

A lei belga obrigou o ex-rei a submeter-se à prova do ADN, que nos Estados de direito democrático precede o direito divino. Conhecidos os resultados, Sua Majestade, através de um comunicado do seu advogado, reconheceu a sua filha natural, Delphine Boël, sem prejuízo da paternidade legal de há mais de quarenta anos.

A Bélgica ganhou uma princesa, mas a monarquia perdeu o respeito, se ainda o tinha, e as consequências só a partir deste mês se farão sentir.

Não sendo exclusivo da realeza, a incidência em Espanha, Inglaterra e Bélgica mostra que o adultério é a tradição monárquica mais persistente do regime.


(Ver no link abaixo mais detalhes sobre o tema)

https://www.dn.pt/…/ex-rei-alberto-ii-da-belgica-reconhece-…


5 pensamentos sobre “A Bélgica, a monarquia e a hipocrisia

  1. Da leitura ficámos sabendo que o Carlos Esperança gosta e branqueia ditaduras mascaradas de democracia, caso da portuguesa, pois considera o generalíssimo Franco um genocida, mas os camaradas MSoares, ACunhal e WChurchill que assassinaram alguns milhões de pessoas em África ou na India, já não são genoocidas. Está na mesma posição que os comunistas para o seu “herói” José Estaline.

  2. No “El Escorial”, em Espanha, há uma secção no Panteão Real, com o nome de Panteão dos Príncipes, onde só Filipe II de Espanha, deixou 16 filhos ilegítimos. Filhos ilegítimos mas reconhecidos. Isto demonstra como a fornicação da criadagem, das amas e mesmo, figuras menos relevantes da monarquia, era tão popular como a caça.
    Isto faz-me lembrar uma certa elite Tuga que ia abortar em Espanha, algumas delas nas clínicas de Girona.

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