Há um Cavaco dentro do Presidente

(Bernardo Ferrão, in Expresso Diário, 12/02/2015)

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Passos Coelho já tinha estado mal com o seu “conto de crianças”. Mas Cavaco Silva, seguindo a mesma linha, conseguiu estar pior ao dizer que já saíram para Grécia muitos milhões de euros da bolsa dos contribuintes portugueses. Como se Portugal não tivesse passado por uma intervenção externa. E se, durante o aperto do nosso programa, outros chefes de Estado ou de Governo dissessem o mesmo de nós? Como reagiria Cavaco?

Quem falou não foi o Presidente de todos os portugueses. Não pode ter sido. O sentido de Estado não é aquilo. Não pode ser. Hoje quem falou foi sobretudo o cidadão Cavaco Silva, o mesmo que se queixou da sua magra reforma a um Portugal sacrificado pela troika. O mesmo que se mostrou incomodado quando foi confrontado com o que tinha dito sobre o GES/BES, depois das reuniões com Ricardo Salgado. O mesmo que nunca se engana e raramente tem dúvidas. Serão só problemas de expressão?

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Ao falar da “bolsa” dos portugueses, Cavaco Silva seguiu, uma vez mais, a narrativa do Governo. Mais colado era impossível. Mas quis também mostrar-se alinhado com os grandes da Europa. Quis ser alemão, finlandês, holandês. Optou ficar no lado dos que mandam. E logo no dia em que o EuroGrupo decidia a Grécia de Tsipras e Varoufakis. Que fraca… coincidência

Nos relatos dos jornais internacionais, Portugal aparece como um dos mais duros na mesa das negociações, claramente receando que no fim do dia a Grécia consiga alguma coisa. Se assim for, os portugueses vão querer saber porque é que o Governo (e também Cavaco Silva) não fez o mesmo, em vez de assumir que só havia a cartilha da troika. Com que cara aparecerá o país dos cumpridores a reclamar o seu quinhão?

A União Europeia vive um momento único e as propostas gregas levantam muitas interrogações. É legítimo que o PR manifeste as suas dúvidas. Mas não desta forma, agitando uns contra outros. Portugueses de um lado, gregos do outro. Os que cumprem e os que vivem do bolso dos outros. É esta a Europa de Cavaco Silva? São estes os valores que Belém defende para o projeto europeu?

Cavaco Silva é o Presidente que registou os mais baixos índices de popularidade juntos dos portugueses. Não é difícil perceber porquê.

E se o eleitorado alemão também fosse contrariado?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/02/2015)

As manchetes do tabloide “Bild” não costumam chegar a Portugal. Se chegassem talvez percebêssemos um pouco melhor o que pensa o eleitorado alemão. A partir daí, talvez fosse mais fácil compreender a dificuldade em convencermos a Alemanha a comportar-se de forma diferente. A narrativa que os alemães compraram desta crise é mais ou menos a mesma que foi vendida a todos os europeus: uma crise das dívidas soberanas, resultado da irresponsabilidade de Estados gastadores – e não, como de facto aconteceu, uma crise financeira para a qual a zona euro, feita ao gosto alemão, não estava preparada. E que acabou por ser transferida para os Estados.

Como acontece sempre nestes momentos, a narrativa costuma ter uma versão mais simples para consumo popular. Para os alemães é esta: os poupados e conscienciosos contribuintes alemães estão a pagar as despesas dos estroinas da Grécia e de Portugal. As suas irresponsabilidades. É a eles que estes países devem o facto de ainda sobreviverem. E por isso a Alemanha não aceita pagar nem mais um cêntimo. E quer o dinheiro de volta. De nada vale tentar explicar aos alemães que isto é falso. Que, apesar da arquitetura do euro que impuseram aos seus parceiros ter deixado todo o resto da Europa desprotegida, não são eles que estão a pagar, são todos os europeus. E que não salvaram gregos e portugueses, salvaram a sua própria banca. É por isso mesmo que aqueles que se têm oposto à austeridade foram os mesmos que foram contra estas operações de resgate. Porque não éramos nós que estávamos a ser resgatados. Eram os credores privados que se conseguiram livrar das nossas dívidas.

A contribuição alemã para os resgates foi a normal, tendo em conta a sua população e a dimensão da sua economia. É até provável que, em termos relativos, tenha pesado menos ao contribuinte alemão do que ao italiano, português ou grego. A Alemanha foi responsável por 27% dos fundos de resgate, como o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE). A França ficou com 20,3%. A Itália com 17,9%, a Espanha com 11,9%. Se medirmos per capita, cada cidadão alemão contribuiu com 3,34€, o francês com 3,10€, o italiano com 2,92€, o espanhol com 2,53€. Se tivermos em conta a dimensão de cada economia, veremos que a Alemanha está muito longe de ser a que mais sofreu com estes resgates. E, no entanto, está absolutamente convencida que está sozinha a pagar tudo isto.

Os contribuintes alemães acham que estão a sustentar gregos e portugueses. Não são eles que estão a pagar, são todos os europeus. Pesa menos ao contribuinte alemão do que ao italiano, português ou grego.

Na realidade, a Alemanha foi a principal beneficiária da forma como a Europa lidou com a crise. Já o era, quando foi, de longe, o país que mais lucrou com uma moeda única feita à imagem e semelhança do marco, desenhada para a prender ao projeto europeu, graças a um Mitterrand que sabia tudo de política mas foi incapaz de prever as consequências económicas das enormes cedências que fez. Voltou a ser durante esta crise, quando os seus excedentes comerciais batem recordes todos os anos, levando ao endividamento das restantes economias. É de novo, quando a crise rebenta e, para salvar a banca alemã e francesa, a Alemanha obriga as instituições europeias e, com elas, todos os cidadãos europeus (alemães incluídos) a assumir-se como credores de dívidas a privados. O preço de limitar a capacidade negocial grega e portuguesa foi exatamente este: institucionalizar a dívida, transformando as instituições europeias em cobradoras e destruindo assim o pouco que sobrava da democracia europeia.

Em 2008, antes de rebentar a crise, cerca de 80% da nossa dívida era detida por bancos e investidores estrangeiros privados. Tal como na Grécia e noutros países, com especial presença da banca alemã e francesa. Em 2012, já só tinham 23,5%. A troika ficou com 32% (ou 42,1%, se contarmos com a dívida adquirida pelo BCE através do Securities Market Programme). Em 2008, a banca nacional tinha 4% da dívida, outras instituições nacionais 8,3% e as famílias menos de 5%. Em 2012 a dívida em mãos nacionais duplicava, para 34,4%. Desde o início da intervenção do BCE e depois de forma mais rápida com a intervenção da troika, houve uma substituição dos credores privados não portugueses por entidades oficiais internacionais. O “resgate a Portugal” correspondeu a este processo de concentração da dívida nas mãos de instituições políticas com poderes extraordinários, salvando os credores privados europeus, mais dispersos e com menos poder, de qualquer reestruturação futura. E essa é a razão porque se diz o resgate foi à banca alemã e francesa. Entre 2009 e 2011,em plena crise financeira e do euro, o Deutsche Bank,  teve lucros extraordinários e crescentes.

É difícil criticar o povo alemão. A lavagem ao cérebro não lhe foi dirigida apenas a ele. Até nós nos convencemos que andamos mesmo a ser sustentados pelos alemães. E partilhamos com eles todos os preconceitos em relação aos gregos (José Rodrigues dos Santos é sempre um bom barómetro do “vox populi” desinformado) e, coisa mais extraordinária, até alguns preconceitos falsos em relação a nós próprios. O síndrome de Estocolmo, que faz o refém apaixonar-se pelo sequestrador, foi, nos últimos anos, um elemento central do nosso comportamento político.

Quando todos os outros argumentos falham, o último que é usado contra qualquer mudança na Europa tem sido a indisponibilidade do eleitorado alemão mudar de posição. E como Merkel até é moderada quando comparada com o sentimento do seu povo. Como o SPD não tem, nesta matéria, posições muito diferentes da CDU. Esta posição é, ela própria, digna de um colonizado. A Alemanha é um dos 28 Estados Europeus. Os alemães representam 16% da população europeia e cerca de 20% do PIB europeu. Há Europa para lá da Alemanha. E há quem a pague para lá dela.

O problema é que Europa não só permitiu que o populismo fácil tomasse conta do discurso político na Alemanha – por vezes a roçar o racismo, em muitas apreciações que se fazem sobre os povos do sul da Europa – como aceitou a ideia de que o eleitorado alemão tem direito de veto sobre o futuro da Europa. Não tem. E ao ter dado este poder à Alemanha poupou a chanceler de qualquer esforço negocial. Olhando para os últimos quatro anos, o resultado político está à vista. Enquanto os governos dos vários países europeus caem como tordos, Merkel ganha popularidade interna.

Cometido o erro, nada mais podemos esperar que não seja um braço de ferro que termine, para nosso bem e para a salvação do projeto europeu, com uma derrota alemã. Isso incomodará o eleitorado alemão? De certeza. Mas convenhamos que os terramotos eleitorais a que assistimos na Grécia, em Itália, em Espanha, em França ou no Reino Unido são suficientemente claros quanto ao desgaste que as democracias europeias sofreram nos últimos anos. A Alemanha foi protegida de grande parte dos efeitos económicos e sociais desta crise. São os países mais fracos que estão a pagar a fatura de uma moeda mal planeada e feita à vontade alemã. E agora, enquanto as democracias de vários países são sujeitas a um enorme teste de esforço, anda tudo preocupadíssimo com a hipersensibilidade do eleitorado alemão. Todos fomos contrariados neste processo. Talvez tenha chegado a altura de também a Alemanha conhecer as desvantagens de andar acompanhado. Às vezes perde-se.

Meu caro Vítor Bento: não aguento tanta clarividência vinda de si

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 09/02/2015)

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Vítor Bento acaba de publicar uma excelente reflexão sobre o que se passou na zona euro, seis anos após o início da crise. Ele diz que não mudou, que já tudo estava nos livros que escreveu. Mas é pelo menos surpreendente que diga agora que a Eurolândia está pior que os Estados Unidos ou os países europeus fora da zona euro – porque seguiu uma receita errada ou porque esta não funcionou. E, surpresa das surpresas, desta vez a culpa não é dos países deficitários (ou periféricos) mas dos excedentários.

Vítor Bento é um excelente economista e seguramente uma pessoa séria. Mas neste processo de ajustamento sempre esteve ao lado da receita contemplada no memorando de entendimento. Que era preciso aplicarmos toda a austeridade e reduzir salários. E que não era a austeridade que travava o crescimento. Agora Bento constata que na zona euro «A situação de 2014 é, do ponto de vista macroeconómico, pior do que era em 2008 e caracteriza-se por um duplo desequilíbrio – interno (elevado desemprego) e externo (excedente)».

Depois Bento compara a situação na Eurolândia com os Estados Unidos e com o grupo de “membros da UE não euro” e conclui: «Desta comparação parece resultar claro que o mau desempenho da zona euro durante a crise não era inevitável; que esse desempenho poderia ter sido melhor; que se o não foi, tal não pode deixar decorrer da política económica seguida; e que, por conseguinte, tudo sugere que a política económica usada pela zona euro para responder à crise foi desadequada. De facto, se os três blocos comparados sofreram o mesmo choque e ao mesmo tempo, a diferença de resultados só pode ficar a dever-se à diferentes níveis de fragilidade com que as economias receberam a crise e, sobretudo, à forma como as autoridades responderam ao choque».

Eu peço muita desculpa a Vítor Bento, mas por mais que ele diga que tudo isto estava nos seus livros e nas suas intervenções anteriores, pois devia estar muito bem escondido e, em qualquer caso, nunca Bento colocou a tónica neles. Pelo contrário, sempre defendeu os processos de ajustamento que estavam a decorrer na Europa e não me lembro que tenha sublinhado que não deviam ser aplicados ao mesmo tempo em vários países. Não me lembro também que ele tenha insistido que o problema europeu resultava da insuficiência da procura interna – porque, se assim fosse, então não deveria ter insistido com tanta veemência na desvalorização salarial.

Vítor Bento sempre defendeu os processos de ajustamento que estavam a decorrer na Europa e não me lembro que tenha sublinhado que não deviam ser aplicados ao mesmo tempo em vários países

E que dizer desta frase: “é razoável concluir-se que a zona euro dedicou mais de um terço da sua vida a um ajustamento desequilibrado, que empobreceu toda a zona. Os custos desse ajustamento recaíram quase exclusivamente sobre os países mais pobres, empobrecendo-os ainda mais e aumentando o seu desnível para com os mais ricos”. Quem a escreveu? Um economista do Bloco de Esquerda? Não. Vítor Bento. Digamos que é, no mínimo, surpreendente.

Mais: “E ao fim deste tempo todo, os Deficitários estão presos numa armadilha: atingiram o equilíbrio externo, à custa do equilíbrio interno (visível nos níveis de desemprego). Pelo que, sem um choque de procura externa, só conseguirão recuperar o equilíbrio interno, sacrificando o equilíbrio externo e só conseguirão manter este, continuando a sacrificar o equilíbrio interno (isto é, a manter elevados níveis de desemprego). Com uma elevada alavancagem financeira, dificilmente conseguirão sair deste círculo vicioso sem um choque financeiro de origem externa, mas que não lhes aumente a dívida”.

Bento faz ainda outra afirmação verdadeiramente surpreendente (para quem lhe segue o pensamento): “O problema tem sido, desde o início, identificado como um problema de finanças públicas e de dívida soberana, quando o não é. Há, de facto, problemas de finanças públicas e de dívidas excessivas, e que têm que ser resolvidos, mas não são estes que estão na origem da crise da zona euro, nem eram o seu principal problema, quando esta eclodiu. Pelo contrário, os problemas das finanças públicas agravaram-se profundamente em consequência da crise e da forma como esta tem sido tratada”.

E assim, remata, “centrar a abordagem da crise nas finanças públicas, como tem sido feito, nunca poderia conduzir a uma boa solução, como se tem visto, pelo impacto negativo que essa abordagem tem tido no crescimento económico. E porque não é a situação das finanças públicas que tem entravado o crescimento, é a insuficiência de procura (em boa parte causada por um excesso de austeridade sistémica) que entrava o crescimento e dificulta o ajustamento das finanças públicas”.

E a concluir: “É claro que também há problemas sérios de finanças públicas e de sustentabilidade das dívidas, que têm que ser resolvidos. Mas a sua resolução não tem sido facilitada pela forma como se tem reagido à crise, porque a reação foi excessivamente recessiva. A abordagem prosseguida nas finanças públicas enferma, aliás, de um interessante paradoxo: a receita recomendável para cada caso individual é inadequada para o todo. Paradoxo que é bem conhecido da dialéctica hegeliana (e marxista) – alterações de quantidade modificam a qualidade. E é deste paradoxo que decorre a principal falha conceptual do Tratado Orçamental: a receita prescrita para cada país é certa – cada um deverá fazer o ajustamento prescrito –, mas a sua aplicação por todos os países ao mesmo tempo, conduzirá, como tem vindo a conduzir, a um resultado indesejado e à impossibilidade de sucesso a nível individual, porque o seu efeito sistémico é globalmente recessivo”.

Pode ser que Vítor Bento já tivesse dito e escrito tudo isto, que tudo esteja nos seus anteriores livros. Mas ou me engano muito ou ninguém o associava às ideias acima transcritas. Por mim desculpe-me, meu caro Vítor Bento, mas não aguento tanta clarividência vinda do seu lado.