E se o eleitorado alemão também fosse contrariado?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/02/2015)

Daniel Oliveira

Daniel Oliveira

As manchetes do tabloide “Bild” não costumam chegar a Portugal. Se chegassem talvez percebêssemos um pouco melhor o que pensa o eleitorado alemão. A partir daí, talvez fosse mais fácil compreender a dificuldade em convencermos a Alemanha a comportar-se de forma diferente. A narrativa que os alemães compraram desta crise é mais ou menos a mesma que foi vendida a todos os europeus: uma crise das dívidas soberanas, resultado da irresponsabilidade de Estados gastadores – e não, como de facto aconteceu, uma crise financeira para a qual a zona euro, feita ao gosto alemão, não estava preparada. E que acabou por ser transferida para os Estados.

Como acontece sempre nestes momentos, a narrativa costuma ter uma versão mais simples para consumo popular. Para os alemães é esta: os poupados e conscienciosos contribuintes alemães estão a pagar as despesas dos estroinas da Grécia e de Portugal. As suas irresponsabilidades. É a eles que estes países devem o facto de ainda sobreviverem. E por isso a Alemanha não aceita pagar nem mais um cêntimo. E quer o dinheiro de volta. De nada vale tentar explicar aos alemães que isto é falso. Que, apesar da arquitetura do euro que impuseram aos seus parceiros ter deixado todo o resto da Europa desprotegida, não são eles que estão a pagar, são todos os europeus. E que não salvaram gregos e portugueses, salvaram a sua própria banca. É por isso mesmo que aqueles que se têm oposto à austeridade foram os mesmos que foram contra estas operações de resgate. Porque não éramos nós que estávamos a ser resgatados. Eram os credores privados que se conseguiram livrar das nossas dívidas.

A contribuição alemã para os resgates foi a normal, tendo em conta a sua população e a dimensão da sua economia. É até provável que, em termos relativos, tenha pesado menos ao contribuinte alemão do que ao italiano, português ou grego. A Alemanha foi responsável por 27% dos fundos de resgate, como o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE). A França ficou com 20,3%. A Itália com 17,9%, a Espanha com 11,9%. Se medirmos per capita, cada cidadão alemão contribuiu com 3,34€, o francês com 3,10€, o italiano com 2,92€, o espanhol com 2,53€. Se tivermos em conta a dimensão de cada economia, veremos que a Alemanha está muito longe de ser a que mais sofreu com estes resgates. E, no entanto, está absolutamente convencida que está sozinha a pagar tudo isto.

Os contribuintes alemães acham que estão a sustentar gregos e portugueses. Não são eles que estão a pagar, são todos os europeus. Pesa menos ao contribuinte alemão do que ao italiano, português ou grego.

Na realidade, a Alemanha foi a principal beneficiária da forma como a Europa lidou com a crise. Já o era, quando foi, de longe, o país que mais lucrou com uma moeda única feita à imagem e semelhança do marco, desenhada para a prender ao projeto europeu, graças a um Mitterrand que sabia tudo de política mas foi incapaz de prever as consequências económicas das enormes cedências que fez. Voltou a ser durante esta crise, quando os seus excedentes comerciais batem recordes todos os anos, levando ao endividamento das restantes economias. É de novo, quando a crise rebenta e, para salvar a banca alemã e francesa, a Alemanha obriga as instituições europeias e, com elas, todos os cidadãos europeus (alemães incluídos) a assumir-se como credores de dívidas a privados. O preço de limitar a capacidade negocial grega e portuguesa foi exatamente este: institucionalizar a dívida, transformando as instituições europeias em cobradoras e destruindo assim o pouco que sobrava da democracia europeia.

Em 2008, antes de rebentar a crise, cerca de 80% da nossa dívida era detida por bancos e investidores estrangeiros privados. Tal como na Grécia e noutros países, com especial presença da banca alemã e francesa. Em 2012, já só tinham 23,5%. A troika ficou com 32% (ou 42,1%, se contarmos com a dívida adquirida pelo BCE através do Securities Market Programme). Em 2008, a banca nacional tinha 4% da dívida, outras instituições nacionais 8,3% e as famílias menos de 5%. Em 2012 a dívida em mãos nacionais duplicava, para 34,4%. Desde o início da intervenção do BCE e depois de forma mais rápida com a intervenção da troika, houve uma substituição dos credores privados não portugueses por entidades oficiais internacionais. O “resgate a Portugal” correspondeu a este processo de concentração da dívida nas mãos de instituições políticas com poderes extraordinários, salvando os credores privados europeus, mais dispersos e com menos poder, de qualquer reestruturação futura. E essa é a razão porque se diz o resgate foi à banca alemã e francesa. Entre 2009 e 2011,em plena crise financeira e do euro, o Deutsche Bank,  teve lucros extraordinários e crescentes.

É difícil criticar o povo alemão. A lavagem ao cérebro não lhe foi dirigida apenas a ele. Até nós nos convencemos que andamos mesmo a ser sustentados pelos alemães. E partilhamos com eles todos os preconceitos em relação aos gregos (José Rodrigues dos Santos é sempre um bom barómetro do “vox populi” desinformado) e, coisa mais extraordinária, até alguns preconceitos falsos em relação a nós próprios. O síndrome de Estocolmo, que faz o refém apaixonar-se pelo sequestrador, foi, nos últimos anos, um elemento central do nosso comportamento político.

Quando todos os outros argumentos falham, o último que é usado contra qualquer mudança na Europa tem sido a indisponibilidade do eleitorado alemão mudar de posição. E como Merkel até é moderada quando comparada com o sentimento do seu povo. Como o SPD não tem, nesta matéria, posições muito diferentes da CDU. Esta posição é, ela própria, digna de um colonizado. A Alemanha é um dos 28 Estados Europeus. Os alemães representam 16% da população europeia e cerca de 20% do PIB europeu. Há Europa para lá da Alemanha. E há quem a pague para lá dela.

O problema é que Europa não só permitiu que o populismo fácil tomasse conta do discurso político na Alemanha – por vezes a roçar o racismo, em muitas apreciações que se fazem sobre os povos do sul da Europa – como aceitou a ideia de que o eleitorado alemão tem direito de veto sobre o futuro da Europa. Não tem. E ao ter dado este poder à Alemanha poupou a chanceler de qualquer esforço negocial. Olhando para os últimos quatro anos, o resultado político está à vista. Enquanto os governos dos vários países europeus caem como tordos, Merkel ganha popularidade interna.

Cometido o erro, nada mais podemos esperar que não seja um braço de ferro que termine, para nosso bem e para a salvação do projeto europeu, com uma derrota alemã. Isso incomodará o eleitorado alemão? De certeza. Mas convenhamos que os terramotos eleitorais a que assistimos na Grécia, em Itália, em Espanha, em França ou no Reino Unido são suficientemente claros quanto ao desgaste que as democracias europeias sofreram nos últimos anos. A Alemanha foi protegida de grande parte dos efeitos económicos e sociais desta crise. São os países mais fracos que estão a pagar a fatura de uma moeda mal planeada e feita à vontade alemã. E agora, enquanto as democracias de vários países são sujeitas a um enorme teste de esforço, anda tudo preocupadíssimo com a hipersensibilidade do eleitorado alemão. Todos fomos contrariados neste processo. Talvez tenha chegado a altura de também a Alemanha conhecer as desvantagens de andar acompanhado. Às vezes perde-se.

3 pensamentos sobre “E se o eleitorado alemão também fosse contrariado?

  1. Meu caro independentemente disso que eu concordo e a minha mullher que e alema e tambem mas a um problema nos temos que ser objectivos e nao termos a mania que somos mais patriotas do que os patriotas a nossa economia nao aguenta uma moeda forte como o euro, portanto na minha opiniao como portuguese e negociar a saida o mais rapido que for possibel voltar ao escudo e hovio que vai haver Bancos que vao abrir falencia e o estado vai ter que
    Suportar o empacto mas vai ser a melhor para todos nos. porque a nossa divida e inpagavel e a austeridade nao resolve o nosso problema, agora nos temos uma boa solucao que e economia lusofonica ex Brasil, guine, Cabo Verde,Angola,Mochambique,Timor Leste fazer como engleses dizeram nas es-colonias so a sim e que podemos recoperar a nossa intregridade e soberania porque a Europa nao quer saber de nos para nada.

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