O papagaio e o corvo

(João Gomes, in Facebook, 09/03/2026)


Quando Marcelo Rebelo de Sousa entrou em Belém, trouxe consigo uma qualidade rara na política portuguesa: a ubiquidade. Marcelo esteve em todo o lado. Nas cheias, nas praias, nos incêndios, nos hospitais, nas feiras, nas televisões e – talvez mais importante – nas câmaras dos telemóveis de qualquer cidadão que tivesse a oportunidade de o encontrar a menos de três metros de distância.

Foi uma presidência ruidosa, quase tropical. Marcelo falou muito, apareceu ainda mais e pareceu possuir uma curiosa incapacidade de permanecer ausente. Como um papagaio numa varanda virada para o Tejo, repetiu, comentou, explicou e por vezes antecipou-se a tudo. A política portuguesa, que sempre preferiu a discrição de gabinetes e a prudência das frases medidas, ganhou durante dez anos um presidente que não temeu o excesso de palavra.

Não faltaram críticas. Demasiado presente. Demasiado comentador. Demasiado pronto a surgir onde talvez bastasse o silêncio institucional. Mas também não faltou algo que raramente se vê no poder: proximidade real com o público. Marcelo compreendeu cedo que a política moderna se faz tanto de gestos como de decisões. E cultivou ambos, com uma habilidade que poucos lhe negam. Agora sai. E entra António José Seguro.

Se Marcelo é (foi) um “papagaio” – colorido, ruidoso e impossível de ignorar – Seguro parece outra “ave”. Mais escura. Mais silenciosa. Talvez um corvo.

A ideia pode parecer pouco simpática, e talvez seja injusta para o corvo. Na história de Lisboa, dois corvos acompanharam as relíquias de São Vicente e ficaram para sempre no brasão da cidade, empoleirados num barco. Não falavam, não gesticulavam, não comentavam. Observavam. É possível que essa seja precisamente a presidência que agora começa.

António José Seguro chega a Belém num país onde a política se tornou mais nervosa. A extrema-direita, personificada por Ventura, descobre finalmente que existe espaço eleitoral para o ruído permanente. O discurso político torna-se mais áspero, mais teatral, mais impaciente. Neste ambiente, o silêncio pode parecer fraqueza. Mas também pode ser vigilância.

A presidência portuguesa não governa. Não legisla. Não dirige maiorias parlamentares. O seu poder é outro: esperar. Observar. Escolher o momento exato em que uma palavra, um veto ou uma dissolução do parlamento se tornam inevitáveis. Marcelo preferiu  ocupar o palco. Seguro talvez prefira o mastro.

É um lugar menos visível, mas não necessariamente menos importante. De lá vê-se o horizonte – e também os navios que se aproximam. Alguns trazem mercadorias. Outros trazem corsários.

A esperança, modesta e um pouco irónica, é que o novo ocupante de Belém saiba fazer aquilo que os corvos fazem melhor do que qualquer papagaio: permanecer imóvel tempo suficiente para perceber o que realmente está a acontecer. Porque, na política portuguesa, falar é fácil. Difícil é saber quando ficar em silêncio.

De todo o modo, boa sorte para o que sai, melhor sorte para o que entra. É preciso desejar-lhe excelentes voos e que – sempre que for preciso – saiba sair do mastro.

Bom dia!

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Uma noite dos bisnetos de Salazar

(Por José Goulão, in SCF, 27/01/2026, revisão da Estátua)


Ainda não é certo que uma vitória intermédia de Seguro seja suficiente para impedir a ascensão dos bisnetos de Salazar às cadeiras mais altas do poder em Lisboa.


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A primeira volta das eleições para a Presidência da República Portuguesa confirmou o estado deplorável e contaminado por tendências antidemocráticas a que chegou a política nessa velha nação, amarrada aos mecanismos apátridas e desumanos do federalismo europeu e do militarismo da NATO.

O primeiro lugar obtido em 18 de Janeiro por António José Seguro, o candidato apoiado pelo Partido Socialista (praticante do neoliberalismo económico), foi enfrentado com algum rompimento pela generalidade dos democratas. Seguro parece ser uma espécie de mal menor depois das sondagens, usado como instrumentos manipuladores de opinião pública, eles montaram um cenário de empate técnico entre candidatos oriundos da “classe política”, uma elite que se considera proprietária do direito absoluto de governar.

A insistência nesse falso empate técnico pressionou muitos participantes a adaptar as suas escolhas imediatas a uma realidade que não existia e a tomar à primeira volta as decisões que normalmente deixariam para a segunda. O candidato mais derrotado pela suposta urgência do “voto útil” foi António Filipe, apoiado pelo Partido Comunista Português e pelos seus aliados na CDU – Coligação Democrática Unitária. Uma percentagem elevada dos votos que lhe eram destinados foi logo desviada para António Seguro. De nada valeu a António Filipe ter feito a campanha considerada mais séria e competente. É uma situação crónica nesta distorcida “democracia liberal” portuguesa: a honestidade, a seriedade e a competência são valores que têm peso ínfimo nas campanhas eleitorais e na cobertura mediática que elas são feitas, de cariz propagandístico, superficial e manipulador.

Os cerca de 20 por cento que as sondagens atribuíam a Seguro não diferiam muito das variações para o almirante militarista e reacionário Gouveia e Melo, para o candidato ao governo em cargos, Marques Mendes, para Cotrim de Figueiredo, candidato oficial neoliberal inspirado nos Chicago Boys que, por sua vez, inspiraram o carniceiro Pinochet no Chile; e para o candidato fascista e salazarista André Ventura, chefe do partido Chega.

António José Seguro, de 64 anos, um “apparatchik” do Partido Socialista desde os tempos em que chefiou a juventude partidária, até chegar ao secretário geral, onde foi vítima das manobras e das ambições transnacionais de António Costa, alcançou, finalmente, inesperados 31%.

É um político pouco consistente, “moderado” e “centrista” por natureza, o que significa estar sempre disponível, na última análise, para dar o seu aval às políticas de direita e ao domínio do “Bloco Central” ou “Centrão”. Esta espécie de aliança política tácita entre o chamado “arco da governação”, constituída no país por três braços do neoliberalismo – PS, PSD e CDS – tem governado o desde o golpe reacionário de 25 de Novembro de 1975 e, subserviente ao federalismo europeísta e ao militarismo da NATO, substituindo Portugal ao estado degradante em que se encontra.

Seguro, que se transfigurou em candidato “independente e apartidário”, antecipou muitos votos logo à primeira volta, em consequência da artimanha do “voto útil”. Por isso, os seus resultados deixam uma interrogação quanto à margem de crescimento até aos necessários 50,01%. O Bloco de Esquerda (esquerda “radical”, social-democrata), que foi poupado à pressão do “voto útil” por ser um aliado instrumental do PS, contribui com dois pontos percentuais; e o “Livre”, federalista de “esquerda”, valerá mais dois ou três pontos. A vitória de Seguro é, de facto, dependente da fidelidade republicana dos candidatos comunistas e aliados (que há 40 anos garantiram a eleição de Mário Soares, “engolindo um sapo”, como disse Álvaro Cunhal) e de dissidências hipotéticas na direita tradicional em relação a Ventura.

A campanha do voto útil não impediu, afinal, que o cenário político português seja dramático à partida para a consulta presidencial decisiva, marcada para 8 de Fevereiro.

O salazarista Ventura passou à segunda volta, com 23,5%, e não está excluído das possibilidades de ser eleito. O terceiro classificado foi o fascista bem falante Cotrim de Figueiredo, com 16%. Estas duas faces da mesma moeda, que reúnem os bisnetos políticos de Salazar nas suas variantes caceteira da Legião Portuguesa/PIDE e “aristocrática”, seguidara da Escola Austríaca ao serviço de gente como Pinochet ou Milei, partem com 40% para a segunda volta.

Como o governo direitista de Luís de Montenegro não deu indicação de voto, mas não atacou Ventura nem poupa críticas a Seguro, é previsível que percentagens significativas de votos de Marques Mendes e do Almirante Gouveia e Melo, quase 24% no total, se rendam ao discurso populista, racista e anti-imigração de Ventura.

Não há dúvidas de que, apesar da sua carreira política afastada dos interesses populares, António José Seguro está do lado “de cá” do 25 de Abril e da democracia, ainda que pervertida sob o rótulo “liberal”; e que Ventura, mesmo fingindo não ter camadas com os “tios” e “betos” de Cotrim – o jetset fascista das periferias urbanas ricas de Lisboa e do Porto – converge objectivamente com este na criação de condições para o regresso ao passado político totalitário em Portugal.

Ou seja, ainda não é certo que uma vitória intermédia de Seguro seja suficiente para impedir a ascensão dos bisnetos de Salazar às cadeiras mais altas do poder em Lisboa.

Fonte aqui

Espécime

(Rui Pereira, in Facebook, 22/01/2026)


Numa sociedade em regressão civilizacional, a questão fundamental consiste em administrar a barbárie e a resistência passível de se lhe opor.


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É mais que semântica. Dizer que o voto a 8 de fevereiro é um combate entre “democracia” e “fascismo”, ou que a natureza dessa escolha a torna substantivamente irrelevante, não depende só do que cada um de nós entenda por cada um daqueles conceitos. Sabemos que, aconteça o que acontecer, o primeiro termo nunca deixará de ser pronunciado, da mesma maneira que nunca se pronunciará o segundo.

Na minha interpretação, Ventura é, antes de tudo, o fantoche animado e eficaz de um programa, sem dúvida antidemocrático, independentemente do que se possa caracterizar por essa expressão. Seguro, por seu lado, é uma figura emblemática da “água chilra” em que, o que vulgarmente se chama entre nós “democracia” tem vindo, nas décadas contra revolucionárias, a assumir formas crescentemente oligárquicas -em que a pequena elite dirigente política, económica e mediática que ocupa o poder o usa para se servir sem quaisquer considerações por aqueles a quem deveria servir. Esse deslizamento tem vindo a ganhar, nos últimos anos, um carácter sobretudo oligocrático, isto é, irresponsavelmente demagógico, antissocial e, por consequência, predominantemente violento.

“Arkos” e “kratos” são duas partículas gregas que significam, a primeira, um poder legitimado pela sua origem e antiguidade, mais próximo de uma autoridade de alguma forma legitimada (“auctoritas”, da sua expressão latina); enquanto a segunda nos remete para um poder em exercício tão violento quanto necessite, mais próximo da expressão latina (“potestas”) e cuja legitimação se encontra principal ou unicamente na força persuasiva da sua violência.

A sua forma (mais liberal ou menos) não ilude em nenhum dos casos a natureza comum a ambos: trata-se de oligarquias (oligoi, poucos + arkos, poder), o domínio de poucos sobre muitos. Na modernidade, a governação de comunidades a larga escala, cuja forma mais recente é o Estado-Nação, tem oscilado sempre entre uma e a outra, sem exceção para regime ou forma política alguma.

As transformações de grau entre uma e outra dependem menos das figuras circunstanciais que as protagonizam do que das necessidades que a dominação enfrenta para continuar a sê-lo.

É por isso que podemos hoje encontrar com facilidade a linha de ligação que une (menos subterraneamente do que já uniu) o chamado “neoliberalismo” com o chamado “neofascismo”. Algo que, quando alguma coisa lhes complica a vida verdadeiramente, vem de imediato à boca dos “liberais” que apenas encontram para disfarçar, a divertida razão de não saberem o que lhes passou pela cabeça (ver aqui).

O que lhes passou pela cabeça foi este arco de continuidade. A mesma piadola que leva Ventura a reclamar pela sua “liberdade de expressão” quando bolsa um ódio genuíno ou forjado sob a forma de propaganda suja, ou a declarar que é com ele que o governo de Montenegro se tem entendido para fazer passar no Parlamento legislação oligocrática e já não, “apenas”, oligárquica. Uma necessidade que se mantém, como bem sabem o Partido “Social-Democrata” e o seu Primeiro-ministro, que fingem ainda não ter reparado na diferença entre Ventura e Seguro, como, com frequência, o centrão não distingue entre PS com D e PS sem D.

Mas essas distinções existem. Elas existem na medida em que a questão para a esquerda, para os trabalhadores e para as populações não consiste numa questão de teoria política, nem numa opção semântica entre democracia e fascismo. A diferença reside nas condições políticas, culturais e sociais, para resistir à ofensiva, aos ritmos e impulsos do deslizamento da oligarquia para a oligocracia, muito mais abruptos e generalizadamente violentos com qualquer Ventura do que com qualquer Seguro.

Daí que o problema não se ponha no “menos mal” de votar em Seguro, para derrubar ou não Ventura 0numa eleição que pouco lhe importa (o homem quer poder executivo e não meramente institucional).

Numa sociedade em regressão civilizacional, a questão fundamental consiste em administrar a barbárie e a resistência passível de se lhe opor. Isto é, nas condições em que as lutas anticapitalistas podem ou não travar-se, de momento, com menos sangue ou com mais. E se puder ser com menos, parece indiscutivelmente melhor do que com mais, sobretudo para aqueles que terão de o derramar.

Daí que a coisa se resuma a fazer o que há a fazer por mais relutantemente que se faça.