Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és

(Soares Novais, in a Viagem dos Argonautas, 09/05/2022)

Fonte aqui


A tempo: Depois do PCP ter exigido um “posicionamento inequívoco dos órgãos de soberania” portugueses, o primeiro-ministro, interrogado a propósito, considerou “inconcebível” a ideia de uma ilegalização daquele partido, salientou o papel dos comunistas para a democracia portuguesa e condenou quem pretende criar “um clima de caça às bruxas”. Quanto a Marcelo apenas disse: “Nunca comento, como sabem posicionamentos partidários, debates partidários, debates entre instituições da sociedade civil e partidos políticos, partidos políticos entre si. São legítimos, fazem parte da vida democrática, terem pontos de vista diversos e terem o confronto de pontos de vista”. Com esta afirmação o senhor presidente prova que é possível falar muito e não responder objectivamente áquilo que lhe foi perguntado.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

As forças do trabalho contra a guerra

(Armando Farias, in AbrilAbril, 09/05/2022)

Na noite de 8 para 9 de Maio de 1945 a Alemanha assinava a rendição incondicional. O dia 9 de Maio, passou à História como o Dia da Vitória sobre o nazi-fascismo. Com a rendição do Japão a 2 de Setembro, terminava a Segunda Guerra Mundial.

Evocamos a II Grande Guerra para respeitar e homenagear a memória de todos aqueles que morreram e sofreram, vítimas da barbárie fascista. Para louvar a luta heróica dos resistentes anti-fascistas que enfrentando a mais cruel repressão e as retaliações mais brutais, resistiram corajosamente às forças de ocupação.

Resistência que desde o primeiro momento e na primeira linha da resistência armada contra o nazi-fascismo teve o contributo valoroso e determinante do movimento operário, num dos mais exaltantes exemplos de entrega à causa da liberdade.  

Evocamos a II Grande Guerra para não silenciar um dos períodos mais negros e trágicos que a Humanidade já viveu. Para nunca esquecer que nesta guerra morreram 60 milhões de pessoas, a maioria civis, que muitos outros milhões de vítimas ficaram para sempre estropiados e sofreram o horror nos campos de concentração, que populações inteiras foram massacradas, viram as suas terras e casas ocupadas, que milhões de trabalhadores foram escravizados.  

Evocamos a II Grande Guerra para lembrar que ela teve origem na maior crise do capitalismo até então verificada, levando o capital monopolista, em particular o capital financeiro alemão, com o apoio das grandes potências capitalistas, a colaborar na ascensão do fascismo e no seu projecto tenebroso de dominação imperialista. 

Para lembrar o apoio da ditadura de Salazar às hordas franquistas na Guerra de Espanha e a sua colaboração, sob a máscara de uma falsa «neutralidade», com o fascismo italiano e o nazismo alemão durante a Segunda Guerra Mundial.

Evocamos a II Grande Guerra para recordar que o fascismo constituiu a resposta do grande capital ao desenvolvimento da luta dos trabalhadores e do movimento operário que em todo o mundo combatiam por melhores condições de trabalho, contra o desemprego, a miséria e a fome, por profundas transformações políticas, económicas e sociais, inspirados nos êxitos e conquistas alcançadas pela Revolução Socialista de Outubro, na ex-URSS. 

Para lembrar as corajosas e grandes lutas operárias que nessa altura tiveram lugar em Portugal, nas condições de ausência das liberdades políticas, cívicas e sindicais impostas pela ditadura de Salazar, de que são exemplo as poderosas greves e manifestações realizadas de 1942 a 1944, contra a carestia de vida, pelo pão, contra a guerra e a ditadura fascista. 

Evocamos a II Grande Guerra para denunciar os responsáveis e os objectivos que estão por detrás de todas as guerras, as de hoje como as de ontem. Para lembrar que as guerras são inseparáveis dos projectos de dominação do grande capital e do imperialismo sobre os trabalhadores, os povos e os países, com o exclusivo objectivo de pilhar os recursos, dominar os mercados e aumentar a exploração, de que são exemplo os criminosos lançamentos pelos Estados Unidos das bombas atómicas sobre os milhões de habitantes de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava resolvida.

Para avivar a memória da Guerra Colonial portuguesa que consumiu recursos enormes, impôs pesados encargos aos trabalhadores e ao povo e provocou trágicas consequências: um milhão e quatrocentos mil homens mobilizados, nove mil mortos e cerca de cem mil feridos ou incapacitados, incluindo cento e quarenta mil ex-combatentes sofrendo distúrbios pós-traumáticos, além das vítimas civis, até hoje ainda não contabilizadas. 

Para mostrar que na complexa e instável situação internacional dos nossos dias, os sectores mais agressivos do grande capital apostam na continuação das guerras, como resposta para a crise do sistema. Foi assim, com as guerras do Golfo à Jugoslávia, do Afeganistão ao Iraque, ao Líbano e Palestina.

O imperialismo tentou nestas duas décadas impor a sua dominação em cada país e em todo o mundo, procurando assegurar o controlo directo dos principais recursos energéticos mundiais, aniquilar os direitos soberanos dos povos e submeter todo o planeta à exploração do grande capital. 

Evocamos a II Grande Guerra para advertir que o mundo atravessa a mais grave crise económica e social desde esse trágico acontecimento. Que o grande capital, as suas instituições e os governos a ele submetidos, tentam fazer pagar aos trabalhadores e aos povos o preço da sua profunda crise, lançando uma ofensiva sem precedentes contra as suas conquistas e direitos económicos, cívicos e sociais, aumentando a exploração dos trabalhadores, aplicando sucessivas e brutais medidas de austeridade, enquanto intensificam os seus escandalosos lucros, numa lógica de preservação do sistema capitalista de exploração.

Para evidenciar que o violento ataque aos direitos dos trabalhadores e dos povos é indissociável do acelerado aumento da agressividade das grandes potências imperialistas, lideradas pelos EUA, envolvendo vários aliados europeus e a NATO, traduzida em conflitos, ingerências, bloqueios, ocupações e agressões militares, num quadro de uma persistente ofensiva contra as soberanias nacionais, rapina dos recursos naturais e domínio geoestratégico. É o que passa actualmente nos países do Médio Oriente, em África ou na América Latina. O perigo de um conflito militar de grandes proporções não deve ser subestimado.

Evocamos a II Grande Guerra para exigir o cumprimento, pelas autoridades portuguesas, dos princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa (CRP) e na Carta das Nações Unidas, de respeito pela soberania, independência, igualdade de direitos e resolução pacífica dos conflitos entre os Estados.

Para avivar a memória de quem faz por esquecer o preceito constitucional contido no Art.º 7.º da CRP, que determina:   
«1. Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.
 2. Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.
3. Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão.»

Evocamos a II Grande Guerra para lembrar que, com quase 70 anos de existência, a NATO é um instrumento ao serviço dos interesses políticos, económicos e geostratégicos dos EUA e das grandes potências. A evolução da situação internacional demonstra que a NATO está ao serviço da ambição de domínio mundial dos EUA, representando a principal e a mais séria ameaça à paz no mundo, através da corrida aos armamentos e do aumento das despesas militares, mas também da ingerência, da desestabilização e das guerras de agressão contra os Estados e os seus povos.

Evocamos a II Grande Guerra para expressar solidariedade para países e povos que estão a sofrer ignóbeis guerras de agressão. É o caso, entre outros, do povo palestiniano que desde 1948, data da criação do Estado de Israel, tem sofrido a continuação de uma limpeza étnica, com a destruição de quatro quintos das suas cidades e aldeias e a expulsão de mais de 700 mil pessoas das terras roubadas por Israel, para repovoamento dos colonatos judaicos. 

Mais de 3 milhões de palestinianos estão refugiados em outros países na região. Mais de 80% do seu território é hoje ocupado por Israel e cercado por um muro de mais de 700 quilómetros na margem ocidental.

São 70 anos de guerras bárbaras, de violência, de milhares de mortes, de torturas e prisões, que Israel tem desencadeado contra as populações palestinianas. São 70 anos de discriminações sobre os trabalhadores palestinos, designadamente, nos salários, protecção social e condições de trabalho, negando-lhes assim os mais elementares direitos laborais e sociais, impedindo-os de viver e trabalhar com a dignidade a que têm direito.

São 70 anos em que o agressor, o Estado de Israel, com o apoio dos EUA e das potências capitalistas e a conivência das instâncias internacionais, mantém o povo palestino aprisionado na sua própria pátria.

Finalmente, evocamos a II Grande Guerra para saudar os resistentes, os combatentes que derrotaram o nazi-fascismo e impuseram uma nova correlação de forças, possibilitando que muitos países seguissem uma via progressista e socialista, que muitos povos se libertassem da secular exploração e opressão colonial, levando à derrocada dos impérios coloniais; que o movimento operário alcançasse enormes conquistas sociais, económicas e políticas nos países capitalistas.

Em suma, que se tivesse trilhado um novo caminho de progressos e avanços libertadores nunca antes alcançados na História da Humanidade, que ainda hoje marcam a vida de milhões de homens e mulheres.

Evocamos a II Grande Guerra para afirmar que as guerras não são inevitáveis. Que as forças da Paz, os trabalhadores, os homens e as mulheres, a juventude, os povos têm uma palavra a dizer, porque a luta pela paz é inseparável da luta pelos direitos laborais e sociais dos trabalhadores e do povo.

Acreditamos que é possível construir um mundo mais justo, mais solidário, de progresso e de paz, no respeito pela independência e soberania dos Estados, na solidariedade internacionalista de todos os trabalhadores e na cooperação e amizade com todos os povos do mundo. 

Para defender a Paz, todos não somos demais! 


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Megalópole x Rússia: Guerra total

(Pepe Escobar, in TheSaker, 07/05/2022)

A Operação Z é a primeira salva de uma luta titânica: três décadas após a queda da URSS, e 77 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, após uma avaliação cuidadosa, o Kremlin está a rearranjar o tabuleiro de xadrez geopolítico para acabar com a hegemonia unipolar da “nação indispensável”. Não admira que o Império das Mentiras tenha ficado completamente louco, obcecado em expulsar completamente a Rússia do sistema Ocidental.

Os Estados Unidos e os seus cachorros da OTAN não conseguem lidar com a sua perplexidade quando confrontados com uma perda espantosa: já não há direito de permitir o uso exclusivo da força geopolítica para perpetuar “os nossos valores”. Acabou-se a Dominação de Largo Espectro.

O Estado Profundo dos EUA está a explorar plenamente o seu plano de ação na Ucrânia para mascarar um ataque estratégico à Rússia. O “segredo” era forçar Moscovo a entrar numa guerra intra-eslava na Ucrânia para quebrar o Nord Stream 2 – e assim o fornecimento à Alemanha dos recursos naturais russos. Isto acabaria – pelo menos num futuro previsível – com a perspetiva de uma ligação russo-alemã bismarckiana que levaria os EUA a perderem o controlo da massa terrestre eurasiática que vai do Canal da Mancha ao Pacífico, a favor de um pacto emergente China-Rússia-Alemanha.

Até agora, a aposta estratégica americana tem corrido às mil maravilhas. Mas a batalha está longe de ter terminado. Os silos psicológicos neoconservadores/neoliberais dentro do Estado profundo veem a Rússia como uma ameaça tão séria à “ordem internacional baseada em regras” que estão dispostos a arriscar, se não a incorrer, numa guerra nuclear “limitada” por causa do seu jogo. O que está em jogo é nada menos do que a perda do domínio mundial anglo-saxónico.

Dominando os Cinco Mares 

A Rússia, com base em paridades de poder de compra (PPP), é a 6ª maior economia do mundo, logo atrás da Alemanha e à frente do Reino Unido e da França. A sua economia “dura” é semelhante à dos EUA. A produção de aço pode ser praticamente a mesma, mas a capacidade intelectual é muito superior. A Rússia tem aproximadamente o mesmo número de engenheiros que os EUA, mas os russos são muito mais instruídos.

A Mossad atribui o milagre económico de Israel, que criou um equivalente ao Vale do Silício, a uma base de um milhão de imigrantes russos. Este Vale do Silício israelita é, por acaso, um bem-chave do MICIMATT dos EUA (military-industrial-congressional-intelligence-media-academia-think tank complex), como Ray McGovern o nomeou de forma indelével.

O ladrar histérico dos meios de comunicação social do NATOstão que o PIB da Rússia é da dimensão do PIB do Texas é um disparate. PPP é o que realmente conta; isso e os engenheiros superiores da Rússia é a razão pela qual as suas armas hipersónicas estão pelo menos duas ou três gerações à frente das dos Estados Unidos.

O Império das Mentiras não tem mísseis defensivos dignos desse nome, nem equivalentes a Mr. Zircon e Mr. Sarmat. A esfera do NATOstão simplesmente não pode ganhar uma guerra, qualquer guerra contra a Rússia por essa razão.

A ensurdecedora “narrativa” do NATOstão de que a Ucrânia está a derrotar a Rússia nem sequer se qualifica como uma piada inócua (compare-a com a estratégia russa “Reach Out and Touch Someone“). O sistema corrupto de fanáticos da SBU misturado com as fações UkroNazi está destruído. O Pentágono sabe disso. A CIA não o pode admitir. O que o Império das Mentiras ganhou, até agora, é uma “vitória” mediática para os UkroNazis, não uma vitória militar.

O General Aleksandr Dvornikov, famoso pela intervenção na Síria, tem um mandato claro: conquistar todo o Donbass, libertar totalmente a Crimeia e preparar o avanço para Odessa e Transnístria, reduzindo ao mesmo tempo uma Ucrânia de alcatra ao estatuto de Estado falhado sem qualquer acesso ao mar.

O Mar de Azov – ligado ao Cáspio pelo canal de Don-Volga – já é um lago russo. E o Mar Negro é o próximo, a ligação chave entre o Heartland e o Mediterrâneo. O sistema dos Cinco Mares – Negro, Azov, Cáspio, Báltico, Branco – consagra a Rússia como uma potência naval continental de facto. Quem precisa de águas quentes?

Movendo-se “à velocidade da guerra”.

O nível da dor, a partir de agora, subirá sem parar. A realidade – ou seja os factos no terreno – tornar-se-á em breve evidente mesmo para a LugenPresse em todos os países da NATO.

O Presidente acordado dos Chefes do Estado-Maior Conjunto, General Mark Milley, espera que a Operação Z dure anos. Isso é um disparate. As Forças Armadas russas podem dar-se ao luxo de ser bastante metódicas e levar todo o tempo necessário para desmilitarizar devidamente a Ucrânia. O Ocidente coletivo, por seu lado, é pressionado pelo tempo – porque o revés da economia real já está em curso e está destinado a tornar-se virulento

O Ministro da Defesa Shoigu deixou bem claro: quaisquer veículos da NATO que tragam armas para Kiev serão destruídos como “alvos militares legítimos”.

Um relatório do serviço científico do Bundestag estabeleceu que a formação de soldados ucranianos em solo alemão pode equivaler, ao abrigo do direito internacional, à participação na guerra. E isso torna-se ainda mais complicado quando associado às entregas de armas da NATO: “Só se, além do fornecimento de armas, a instrução da parte em conflito ou o treino em tais armas fosse também um problema é que se deixaria a área segura de não guerra”.

Agora, pelo menos é irremediavelmente claro como o Império das Mentiras “se move à velocidade da guerra” – como descrito em público pelo vendedor de armas que virou a cabeça do Pentágono, Lloyd “Raytheon” Austin. Em “pentagonês”, isso foi explicado pelo proverbial “oficial” como “uma combinação de um centro de chamadas, uma sala de vigilância, salas de reuniões. Eles executam num ritmo de batalha para apoiar os decisores”.

O “ritmo de batalha” proposto pelo Pentágono para um exército ucraniano supostamente “credível, resistente e com capacidade de combate” é alimentado por um sistema EUCom que transfere essencialmente encomendas de armas dos armazéns do Pentágono nos Estados Unidos para as bases da filial do Império na Europa e depois para a Frente Oriental da NATO na Polónia, onde são transportadas através da Ucrânia mesmo a tempo de serem devidamente incineradas por ataques de precisão russos: a gama de opções russa inclui mísseis supersónicos P-800 Onyx, dois tipos de Iskander e Kinjals lançados a partir de Mig-31Ks.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, salientou que Moscovo está perfeitamente ciente de que os EUA, a OTAN e o Reino Unido estão a transferir não só armas, mas também um grande volume de informação. Paralelamente, o Ocidente vira tudo de pernas para o ar 24 horas por dia, 7 dias por semana, moldando um novo ambiente totalmente voltado contra a Rússia, não se preocupando sequer em manter uma aparência de parceria em qualquer área. O Ocidente não considera sequer a possibilidade de diálogo com a Rússia.

Falar com Putin é, portanto, “uma perda de tempo”, a menos que uma “derrota russa” na Ucrânia (de acordo com a propaganda estridente de Kiev) o torne “mais realista”.  Apesar de todas as suas falhas, o Pequeno Rei Macron/McKinsey tem sido uma exceção, ao telefone com Putin no início desta semana.

A hitlerização neo-Orwelliana de Putin reduz-lo, mesmo entre os chamados euro-inteligentes, ao estatuto de ditador de uma nação cloroformizada no seu nacionalismo do século XIX. Esquece-se qualquer resquício de análise histórico-política/cultural. Putin é um Augustus atrasado, vestindo o seu Império como uma República.

Na melhor das hipóteses, os europeus pregam e rezam – como yappy Chihuahuas à voz do seu mestre – para que uma estratégia híbrida de “contenção e compromisso” seja desencadeada pelos EUA, ecoando desajeitadamente os rabiscos dos habitantes dessa zona de exclusão aérea intelectual, Think Tankland.

Mas de facto, os europeus prefeririam “isolar” a Rússia – como se 12% da população mundial “isolasse” 88% (claro, a sua “visão” ocidentalizada ignora completamente o Sul). A “ajuda” para a Rússia só virá quando as sanções forem eficazes (o que nunca é: o backlash será a norma) ou – o derradeiro sonho molhado – quando houver uma mudança de regime em Moscovo.

A Queda

A agente UkroNazi P.R. Ursula von der Lugen apresentou o sexto pacote de sanções da (Dis)Union Europoodle.

O topo da fatura é excluir mais três bancos russos do SWIFT, incluindo o Sberbank. Sete bancos já estão excluídos. Isto irá impor o “isolamento total” da Rússia. É ocioso comentar algo que só engana a LugenPresse.

Depois há o embargo “progressivo” às importações de petróleo. Não mais importações em bruto para a UE em seis meses e não mais produtos refinados até ao final de 2022. Na situação actual, a Agência Internacional de Energia mostra que 45% das exportações de petróleo da Rússia vão para a UE (com 22% para a China e 10% para os EUA). A voz do seu mestre continua e continuará a importar petróleo russo.

E claro, 58 sanções “pessoais” também estão a aparecer, visando figuras muito perigosas como o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa, bem como a esposa, e o filho e filha do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Esta espantosa demonstração de estupidez terá de ser aprovada por todos os membros da UE. É garantida uma revolta interna, especialmente da Hungria, enquanto tantos países continuam dispostos a cometer suicídio energético e a desperdiçar a vida dos seus cidadãos, em grande parte em defesa de um regime neonazi.

Alastair Crooke chamou-me a atenção para uma interpretação original e surpreendente do que se passa, oferecida em russo por um analista sérvio, o Professor Slobodan Vladusic. A sua tese principal, em poucas palavras: “Megalópole odeia a Rússia porque não é Megalópole – não entrou na esfera do anti-humanismo e é por isso que continua a ser uma civilização alternativa. Daí a “Russofobia”.

Vladusic argumenta que a guerra intra-eslava na Ucrânia é “uma grande catástrofe para a civilização ortodoxa” – refletindo a minha primeira tentativa recente de abrir um debate sério sobre o Choque das Cristandades.

No entanto, a cisão principal não é sobre religião mas sobre cultura: ‘A diferença essencial entre o Ocidente antigo e a Megalópole atual é que a Megalópole renuncia programática e programaticamente à herança humanista do Ocidente’.

Assim, de agora em diante, “é possível apagar não só o cânone musical, mas também todo o património humanista europeu: toda a literatura, belas artes, filosofia” devido a uma “trivialização do conhecimento”. O que resta é um espaço vazio, na realidade um buraco negro cultural, “preenchido pela promoção de termos como ‘pós-humanismo’ e ‘trans-humanismo'”.

E é aqui que Vladusic chega ao cerne da questão: a Rússia opõe-se ferozmente à Grande Reinicialização inventada pelos autoproclamados “hackers” da Megalópole.

Sergey Glazyev, que está atualmente a coordenar o desenvolvimento de um novo sistema financeiro/monetário pela União Económica Eurasiática (UE) em parceria com os chineses, encaixa Vladusic nos factos no terreno.

Glazyev é muito mais direto do que nas suas meticulosas análises económicas. Embora registando os objetivos do Estado profundo de destruir o mundo russo, o Irão e bloquear a China, salienta que os EUA “não conseguirão vencer a guerra híbrida global”. Uma razão chave é que o Ocidente “confrontou todos os países independentes com a necessidade de encontrar novos instrumentos monetários globais, mecanismos de seguro de risco, restaurar as normas do direito internacional e criar os seus próprios sistemas de segurança económica”.

Portanto, sim, é Totalen Krieg, guerra total – como explica Glazyev sem complacências, e como a Rússia denunciou esta semana na ONU: “A Rússia deve fazer frente aos EUA e à NATO no seu confronto, levando-o à sua conclusão lógica, de modo a não ficar dividida entre eles e a China, que está a tornar-se irrevogavelmente o líder da economia mundial.”

A História pode eventualmente registar, 77 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, que a ação dos psicos neoconservadores/neoliberais-conservadores nos silos de Washington, instigando uma guerra inter-eslava ao ordenar a Kiev que lançasse uma blitzkrieg contra o Donbass, foi a faísca que levou à queda do Império Americano.

Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.