Tanta verdade junta mereceu publicação – take IX

(Carlos Marques, 10/05/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Soares Novais ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 10/05/2022)


Muito bem. Bom texto.

Neoliberais e Neofascistas, uma história de amor com décadas. Perdi a paciência e passei a colocar tudo no mesmo saco: são os Capital-Fascistas. Afinal, para quê distinguir o indistinguível.

Pior que isto que fizeram contra o PCP, só o cúmulo da falta de vergonha e falta de decência que alguns (a começar nos Banderistas/Neonazis ucranianos) de insultar a memória de quem nos salvou do nazismo neste Dia da Vitória, fazendo coisas completamente inaceitáveis como chamar-lhe “dia do regime de Putin”.

Num canal francês: France 24 – até lançaram o debate: “porque é que o regime de Putin aumentou a glorificação deste dia”… Fiquei boquiaberto. Pela expressão usada, e pela necessidade de perguntar. Para quem não questiona porque é que a Ucrânia glorifica Bandera e outros nazis colaboradores no Holocausto e condenado em Nuremberga, esperava-se pouco, mas isto foi o bater no fundo da “imprensa livre” Ocidental.

No canal alemão DW, não passou uma única imagem dos povos libertados do Sul da Ucrânia a saírem hoje à rua em segurança para celebrar o que tinha sido proibido desde o golpe de 2014.
Em vez disso estiveram na típica conversa de chacha das “elites” fanáticas     atlantistas/europeístas, a falar de 2 engravatados, Macron e Scholz, e da futura Europa. Completamente alheados do povo, esta gente.

Fazendo aqui um aparte, cada vez percebo melhor como os Sinn Féin das (ainda) duas Irlandas se autodefinem orgulhosamente como populistas. Pois cada vez percebo melhor que o alegadamente “moderado” anti populismo é só mais uma lengalenga para não terem de dizer o que realmente são: a ditadura da burguesia.

Para além disto, andei também na TeleSur, que teve uma excelente de análise em língua PT-Br sobre como Bolsonaro está a preparar mais um golpe. Tem especial relevância pois comenta-se já que os EUA (mesmo estes alegadamente dirigidos por “moderados” “Democratas”) podem preferir que Lula não ganhe, sobretudo depois da verdade inconveniente que ele (tal como o Papa) se atreveu a dizer: estamos nesta situação por causa do imperialismo da NATO.

Vi também que esta perseguição e xenofobia contra russos (num momento em que voltam a dar as vidas contra nazis) os está a unir mais que nunca, e até a aumentar o apoio a Putin. Assim, em Caracas na Venezuela parece que houve pela primeira vez a marcha do Regimento/Exército Imortal, com os russos a levarem ao peito as fotos dos seus antepassados falecidos na Grande Guerra Patriótica na frente ocidental.

Foi assim um pouco por todo o Mundo, sempre com muitos símbolos comunistas e soviéticos, ora por convicção ideológica, ora por respeito à memória. Por outro lado, no site GeoPol vem um artigo interessante sobre os cossacos na Austrália, hoje também com um nacionalismo renovado mesmo sem partilharem qualquer simpatia com o regime da URSS que os expulsou da sua própria casa. Ver aqui.

Por fim, deixo uma sugestão à Estátua De Sal (e a quem quiser) para ler este histórico artigo, em inglês, no blog Moon Of Alabama, onde se explica, passo a passo e factualmente (com base em dados da OSCE) porque é que esta operação militar Russa foi mais que provocada e justificada. Ler aqui.

Chamo em especial a atenção para a parte em que se descrevem os eventos antes da Rússia decidir invadir, como as declarações belicistas do lunático Zelensky, mas em especial o mapa da OSCE de 21-Fevereiro-2022, três dias antes da Operação Especial Militar, que mostra que a guerra começou antes, que o Donbass (zonas civis e não alvos militares) estava a ser bombardeado, que se preparava uma tragédia, e como Putin, com base no precedente do Kosovo (aka Karma do Ocidente) e no artigo 51 da ONU, até fez tudo legal.

E tendo em conta o Direito Humano à autodeterminação dos povos, inscrito na Carta da ONU, a independência das repúblicas de Lugansk e Donetsk, e o seu reconhecimento pela Rússia, hoje vou mais longe e até digo que é caso para perguntar: quem é que invadiu quem?
Por isso usei pela primeira vez o termo “operação militar especial” em vez de invasão.

Neste site – obviamente dedicado a propaganda russa (e a vergonha é que mesmo um canal destes tem mais factos e objetividade do que a “imprensa livre” do Ocidente), vi as celebrações do Dia da Vitória, com bandeiras do Donbass, da Rússia, e da fita de São Jorge (laranja e preta, tal como o grande clube de futebol da região, o Shakhtar Donetsk). Imaginam em que sítio? Em Mariupol.

Na BBC fazem um especial a mostrar “o herói do regimento Azov a resistir na Azovstal”. Mas no terreno, na realidade, esse povo celebra a libertação, sem medo de desaparecer numa operação do SBU por se ter atrevido a cometer o “crime” de usar a tal fita laranja e preta ao peito.

Na Euronews, mas continuando em Mariupol, a já veterana agente do Pentágono disfarçada de jornalista, chamada Vakulina, tentava hoje recuperar a peça de propaganda sobre o teatro com a palavra “crianças” escrita na rua.

Baseia-se num recente artigo da Associated Press para anunciar que no local onde há umas semanas teriam morrido até 1300 pessoas, agora poderiam lá estar 600. Já está a corrigir o número, mas tem azar, eu já vi a peça da RT no local, e cruzei com a peça da AP. A AP diz que estariam muitas pessoas na rua na altura do bombardeamento porque era ali servida comida, diz que centenas de corpos podem lá estar, mas que nunca saberemos ao certo pois já está a ser limpo o entulho e estão proibidos de lá ir filmar. Azar do caraças, eu que não sou jornalista, já vi um vídeo da remoção desse entulho e não está lá corpo nenhum. E a RT já tinha falado com locais e já lá andou a filmar também a desmascarar esta história.
Ou seja, no Dia da Vitória, a Vakulina e a Euronews decidem inventar mais um “genocídio” com base numa estória da AP, que por sua vez se baseia em especulações e nada mais.

Voltando ao início, para falar do ataque ao PCP. Num mundo assim manipulado, onde até a maioria no Ocidente relativamente livre fica com o cérebro completamente lavado pela propaganda e Psy-Ops do Pentágono/Kiev difundidas pela “imprensa livre” sem qualquer verificação, como é que havíamos de querer que os ucranianos, vítimas há décadas de ainda mais propaganda (os 5 mil milhões  da Victoria Nuland foram também para isto), e de facto numa DITADURA desde 2014, como havíamos de querer, dizia, que ainda fossem bons da cabeça ou tivessem noção da realidade? Obviamente não podem ter. Daí eu dar também cada vez mais apoio ao objetivo do Kremlin da desnazificação. Isto não podia ser só invadir, bombardear, pilhar e ir embora, como os EUA/NATO fizeram no Afeganistão. Não. A Rússia tem de levar a cabo uma execução metódica e só descansar quando esse objetivo for atingido. Aos EUA não faz diferença deixar talibãs no poder do outro lado do Mundo. A Rússia não pode fazer isso na sua fronteira!

Por falar em fronteiras, Macron também já as começou a definir. Ou a boca começou a escapar-lhe para a verdade agora que a proxy war está perdida (foram inúmeros os avanços da Rússia no Donbass, de Rubiznhoe até Popasnaya, anunciados hoje e confirmados no terreno).
Disse então o delfim dos Campos Elísios que para a Ucrânia entrar rápido na UE, a UE teria de baixar muito os requisitos. Finalmente começam a admitir a natureza daquele regime. E lembremos que os requisitos nem são assim tão altos, pois na UE já estão (ou ainda estão a Polónia e a Hungria). A alternativa, dizia o Emanuel de Paris, é manter os critérios e esperar que a Ucrânia melhore, o que pode durar anos ou décadas. A continuar assim, um dia destes o Zelensly manda um míssil Tochka-U mas é na direção contrária…

Não estou a brincar, o “herói” que condecora neonazis de Azov, é mesmo lunático. Ou melhor, é aquilo que é: um ex-palhaço impreparado para aquele cargo. Nestes dois dias, ele mandou para a morte pelo menos 50 homens (ficará por saber quantos deles soldados de facto, e quantos deles civis reservistas a quem foi dada uma farda à pressa para serem carne para canhão, e por isso já tantas mulheres protestam contra a sua recruta na Ucrânia), e 4 aviões e 4 helicópteros e mais 2 barcos anfíbios e não sei quantos drones, só para tentar ter uma “vitória” que servisse de propaganda ao Dia da Vitória. Queria recapturar a Ilha da Cobra, o tal rochedo onde “morreram” os 13 guardas que ele condecorou postumamente apesar de estarem vivos…

Portanto eu só tenho uma pergunta para terminar o meu desabafo de hoje: o povo ucraniano, que diz que fez uma “revolução da dignidade” contra um Presidente democraticamente eleito em tempo de paz, porque alegadamente era corrupto e ia adiar um pouco o acordo com a UE, agora está à espera de quê?

Esta guerra prolongada artificialmente pela propaganda e pela NATO, com cada vez mais perda territorial, com tantos civis já transferidos para a linha da frente para substituir a carne para canhão que já foi triturada, com as declarações de Macron, e com os 850 Milhões na conta offshore do Zelensky, não justifica agora sequer uma manifestaçãozinha? A resposta é óbvia. Claro que justificam. Mas o SBU, a polícia política de Kiev que prende opositores e faz desaparecer “traidores”, não o permitem.

A sorte (no sentido em que estão soltos e vivos) dos comunistas portugueses, e bloquistas, e talvez até de Livres e “Socialistas”, é que estão num regime que, apesar de todos os defeitos, é incomparável com o ucraniano. E isso foi o que causou tanta estranheza aos Banderistas que agora vieram para Portugal. Não se trata de não perceberem como o PCP ainda está legalizado. Trata-se de ou não perceberem nada (pois são antidemocratas ou vítimas da propaganda e censura ao longo de 8 anos), ou de perceberem tudo bem demais, pois são parte do problema de nazificação em que o seu regime se tornou (contra a real vontade da maioria da população) e estão cá, agora ainda melhor treinados e avençados pela CIA/Pentágono/NATO, para espalhar a sua luta. Que é como quem diz: a sua kampf

Perante isto, só posso terminar com um V do dia da Vitória, um A de Avante camaradas, um F de Fascismo nunca mais e de Free Assange, e um Z de desnaZificação ou de Zelensky vai p’ró caralh…

O E do “dia da Europa”, esse deixo-o para os que gostam de reescrever a história em Bruxelas e arredores, ou para a história que se segue: Era a vez um país chamado Ucrânia, desenhado por Lenine, que um dia decidiu glorificar Bandera e ameaçar os seus irmãos e vizinhos. O urso deles atacou e a Ucrânia acabou. De 2022 em diante passou a ser dividido em duas regiões: um estado falhado a norte (cuja reconstrução ninguém vai pagar quando o tema se esfumar), e a NovoRússia a sul, acarinhada pelos irmãos e vizinhos e protegida pelo urso como se da sua cria se tratasse. Um novo estado tão legítimo como qualquer outro país da ex-Jugoslávia. E tal como nos Balcãs os bombardeados aderiram ao bloco militar “defensivo” que os bombardeou e criou, também agora o urso convidará a sua cria, que gosta de correr até à Transnístria, a entrar no bloco militar “não invasor” que os bombardeou e criou.

Quem diria que a Rússia também tinha este provérbio: cá se fazem, cá se pagam!
Eu nunca esquecerei o contributo do PCP para a Liberdade e Democracia portuguesas. Não voto no partido, mas pessoas como Cunhal são para mim como heróis. E nunca esquecerei que a ditadura fascista foi uma das fundadoras da NATO. Pelo contrário, os tais ucranianos amigos de “Liberais”, preferem esquecer que os seus “heróis” como Bandera foram nazis que colaboraram no Holocausto e que tais crimes foram provados em Nuremberga.

E até já ouvi alguns europeístas igualmente esquecidos, que disseram coisas como “a NATO defende a democracia e a liberdade” ou “a Europa está em paz desde a queda do muro de Berlim”. Duas alarvidades, como é óbvio.

Um povo que celebra todos os anos o Fogo da Memória, não se esquece e perdura no tempo. Já um povo que se esquece, mais tarde ou mais cedo volta aos erros do passado ou, pior, será passado. Porque nenhum futuro se constrói com base em mentiras!

O PCP, ainda no tempo de Cunhal, criticou o regime Soviético. Os galicianos (ucranianos do noroeste), em 2022, ainda glorificam nazis. O Kremlin fala de todo o contexto desde o início desta história. O Ocidente faz de conta que a história começou em 24 de Fevereiro. Não tenho dúvida de que lado estou, nem tenho dúvida sobre quem perdurará no tempo.

Tal como já disse que terminaria: V, A, F, e Z.


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Ucrânia e as cruzadas contemporâneas

(Maurício Ayer, in Outras Palavras, 09/05/2022)

As guerras são feitas de atrocidades, e quem paga um alto preço é sempre o povo: morte, destruição, desterro, luto, desrazão. A história vai precisar passar a limpo tudo o que está acontecendo na Ucrânia sob a responsabilidade de Vladimir Putin e seus generais. Dito isso, com toda ênfase, causa espanto o consenso midiático que se formou em torno da condenação unilateral da Rússia – e mais que ao país, da pessoa de Putin, pintado como um psicopata vil e frio, movido pelo desejo megalômano de reconstruir o império russo (czarista ou soviético, as imagens são intercambiáveis). Ignoram-se ou escondem-se fatos de importância incontornável para uma compreensão minimamente lúcida do caso.

Ignora-se também que os países que acusam a Rússia cometem, neste exato momento, crimes iguais ou piores aos que apontam, com consequências humanas ainda mais drásticas, numerosas e prolongadas, sem que os governos, a mídia e os órgãos internacionais se escandalizem ou mesmo pareçam se importar.

Recolho dois entre muitos exemplos: foi o que denunciou Jonathan Cook, neste texto em que compara a diferença de comoção da mídia ocidental com o povo ucraniano e com outros povos vítimas de ataque, como os palestinos, os iraquianos e os iemenitas. Ou Boaventura de Souza Santos ao nomear como uma “novilíngua” a linguagem invertida usada para cobrir a guerra.

Ignorando-se o contexto, revirando-se a linguagem, o conflito passa a ser explicado como uma agressão russa motivada pela sede de poder de um homem, e suas motivações declaradas ficam lançadas no rol das “alegações” de um rematado criminoso, a serem desprezadas de saída. Veste-se em Putin o figurino do anticristo, do grande vilão que quer dominar o mundo.

É esta clivagem entre o Bem e o Mal, entre o humano e o desumano etc., que dá um contorno francamente teológico ao conflito. Configura-se, passo a passo, uma guerra mística – ou guerra santa, que no Ocidente cristão teve sua realização histórica mais clara nas cruzadas. Trata-se de combater o Mal que poderá nos destruir, e tudo o que vier da boca do inferno será enganoso, indigno ou absolutamente execrável, enquanto tudo o que se fizer do lado de cá se justifica no horizonte de uma escatologia universal.

Daí que os crimes de guerra do lado de cá são justificados ou não são sequer mencionados (bombardeios, ataques de drones, massacres, laboratórios de armas biológicas, falsas alegações de armas químicas a serem imputadas aos inimigos etc.) e os de lá são justamente apontados, quando não sujeitos a distorções.

Esse tipo de construção ideológica desumaniza e desistoriciza, o julgamento se dá não pelos atos mas pelo grupo de pertencimento. Às vezes a divisão é designada entre “democracias” e “autocracias”, mas Lúcio Flávio Almeida mostrou como o enquadramento em um grupo ou outro depende, de novo, mais das alianças do que, efetivamente, da situação política do país.

A comparação com as cruzadas não é fortuita. Vale relembrar que, logo após os atentados de 11 de Setembro, ao anunciar a deflagração da “guerra ao terror”, as mensagens do governo George W. Bush falavam de uma “cruzada” contra os inimigos islâmicos e de um “choque de civilizações”. À época, Noam Chomsky apontou o que os governantes estadunidenses logo perceberam: que a escolha dos termos era infeliz caso desejassem manter algum diálogo com seus aliados muçulmanos (11 de Setembro, Bertrand Brasil, 2003). Passaram a usar o termo “guerra” – que Chomsky julga também inadequado diante de um substantivo mais apropriado, que seria “crime”, o mesmo a ser usado em referência aos atentados contra Nova York e o Pentágono – para designar o ataque a países como Afeganistão e Iraque, inclusive suas populações civis, como resposta a um ataque de um grupo terrorista, sob o pretexto, agora, de combater o “desumano”, a “barbárie”. Ao deixar escapar a palavra, depois escamoteada, o Império traía um desejo de cruzada. A evocação certamente se devia à associação religiosa, ao combate aos “pagãos”, como nos séculos XI e XII, mas a questão já era estrutural. Desejava-se pôr em curso a forma-cruzada, dividir a humanidade em mundos inconciliáveis por princípio.

Porém, se a palavra “cruzada” foi evitada, isso não quer dizer que ela tenha perdido eficácia na compreensão simbólica do contexto – ao contrário, seu sentido transborda como uma espécie de excesso. Nesse jogo de palavras – dessa atroz “literatura” cujo enredo define as vidas de povos inteiros… –, vale considerar o que Jorge Luís Borges escreveu: numa narrativa sobre o xadrez, a única palavra proibida é “xadrez”. Ocultar a palavra para que o seu sentido possa configurar estruturalmente a mensagem; ser centro e ausência das relações implicadas nesses eventos históricos. Trata-se de esconder o sentido fundamental e expressá-lo em termos socialmente aceitáveis, desde que funcionem como ordenadores do objetivo que realiza, em última instância, aquilo que foi ocultado.

A paz de Deus e as cruzadas

Permita-me fazer um recuo histórico para melhor compor essa comparação.

A ideia da primeira cruzada, que partiu rumo à Terra Santa no ano de 1095, foi longamente maturada no coração da Europa católica, como um enorme esforço de produzir a unidade no mundo cristão direcionando a violência para o seu exterior. Ou seja, contra os muçulmanos, que eram, sob a inspiração do Islão, tão expansionistas e belicistas quanto os cristãos. Alguns personagens históricos (como o papa Urbano III) e histórico-míticos (como Pedro, o Eremita) passaram anos percorrendo os diversos reinos em campanha pela realização de uma enorme expedição militar para salvar o Santo Sepulcro (o local onde fora enterrado o Cristo retirado da cruz), então sob o sacrílego domínio pagão. Além disso, os cristãos do Oriente pediam socorro aos seus irmãos europeus, e não socorrê-los equivalia a um ato fratricida.

As próprias noções de Cristandade e Europa, como uma coletividade e um território forjadores de uma identidade, surgem deste processo. O argumento ganhou força e um exército de milhares de soldados e cavaleiros foi – como na canção Agnus Sei, de Aldir Blanc de João Bosco – “levar ao reino dos minaretes | a paz na ponta dos aríetes | a conversão para os infiéis”. Mas as verdadeiras razões eram bem outras.

O primeiro ponto era resolver a questão da violência interna ao mundo cristão, tanto nos conflitos entre reinos quanto nos ataques aos mosteiros, muitas vezes perpetrados pelos próprios cavaleiros, de origem nobre. Outra preocupação central era a frequente apropriação das terras da Igreja. Foi nesse contexto que se forjou o conceito de “paz de Deus” ao longo dos anos 900 e 1000, a doutrina da defesa da paz entre cristãos.

De fato, entre a coroação do imperador Carlos Magno pelo papa no Natal do ano 800 e o início das cruzadas houve, primeiro, um tempo de prosperidade e unidade, mas que foi sucedido por um século de grande desagregação e violência, que ficou conhecido como o “Século de Ferro”. O vigoroso mas efêmero império de Carlos Magno se fragmentou, a começar entre seus filhos, e diversos principados surgem, multiplicando os conflitos, nada cristãos, entre cristãos…

Não é que o cristianismo nunca tivesse sido uma religião belicista, e que o amor propagado pela mensagem do Cristo no Novo Testamento tenha sofrido uma reviravolta para dar nas cruzadas. Jean Flori, no livro Guerra Santa – Formação da ideia de cruzada no Ocidente cristão (Editora Unicamp, 2013), mostra que a guerra santa cristã não foi uma invenção do século XI, mas uma intensificação de elementos de sacralidade da guerra que vinham desde muito tempo, e que ganhara especial força quando os povos germânicos, que ancestralmente cultuavam a guerra, foram evangelizados. Era o caso do próprio povo franco de Carlos Magno.

Sob o império de Carlos Magno, consolidou-se a visão de que o poder das armas tinha como obrigação moral – e mística – proteger a autoridade da Igreja, devendo os cristãos obedecer a Deus e a São Pedro, e não aos homens e seus interesses mundanos. O poder sagrado era regido pelo papa, mas Carlos era o braço forte que o garantia frente a ataques e riscos. Em muitos momentos o papa escreveu a Carlos pedindo proteção, e o mesmo se reproduzia em menor escala, entre bispos e nobres localmente. Da paz de Deus à guerra santa, há sobretudo uma mudança estratégica.

É aí que entra a “literatura”, com um papel preponderante na construção de um consenso europeu e cristão. Na verdade, o termo literatura é anacrônico para a época, as grandes narrativas eram veiculadas não por escrito, mas sim oralmente pelos chamados jongleurs, artistas múltiplos capazes de contar histórias, improvisar versos, atuar, cantar e tocar um instrumento. A cultura medieval, como a nossa contemporânea, era essencialmente audiovisual, e mesmo a literatura escrita era mais um suporte – um roteiro – para uma realização oral.

Não é por acaso que, na mesma década de 1090 foi produzido o mais antigo manuscrito conhecido da Chanson de Roland (ou Canção de Rolando), uma canção de gesta que é considerada o primeiro texto literário escrito em língua francesa. É possível que tenha havido algum manuscrito anterior e que depois se perdeu? Sim, mas a aceleração da produção de cópias do livro após este momento é sintomática. Por quê?

Rolando, o mito e a história

A história contada na Canção de Rolando tem base em um evento histórico, cujo teor, entretanto, foi se transformando ao longo de três séculos de transmissão oral, para finalmente adaptar-se às necessidades ideológicas daquele final de século XI. A canção conta a história da batalha de Roncesvales – com base em uma batalha que de fato ocorreu no ano de 778. Segundo o texto literário, o exército de Carlos Magno retornava à França após uma campanha vitoriosa na Espanha, então ocupada pelos sarracenos. Humilhado pelo exército carolíngio, o rei sarraceno de Zaragoza, Marsílio, resolve romper o código de honra da guerra para virar o jogo a seu favor. Em aliança com o traidor Ganélon – um cavaleiro de Carlos que tem inveja e despeito por Rolando, que está amigado com a sua enteada –, o sarraceno finge sua rendição e conversão ao cristianismo, para então atacar a retaguarda imperial rompendo um acordo de paz.

Ganélon, o traidor, manipula o imperador para que o comandante da retaguarda seja Rolando, auxiliado de perto por Oliveiros (Olivier). Rolando resiste heroicamente e trucida com sua espada milhares de soldados muçulmanos, mas seus feitos heroicos não são o bastante para salvar a si e seus comandados da derrota e da morte. O próprio Carlos Magno chega para socorrê-los, mas tarde demais, cabendo-lhe apenas impor a implacável (e justa) vingança contra a felonia dos pagãos.

Na estratégia de propaganda para conquistar adeptos para a cruzada, a Canção de Rolando caía como uma luva. Evocava-se o próprio arquétipo do imperador cristão, que era tão amoroso e puro quanto o mais duro mantenedor da lei de Deus, numa narrativa que rebaixa os muçulmanos à condição de ímpios traidores, verdadeiros ratos assassinos. A Igreja – controladora dos scriptoria onde se copiavam os livros – irá multiplicar as edições desse manuscrito e espalhá-lo pelos reinos. Trata-se claramente de uma ação de propaganda para cultivar o imaginário propício à adesão à cruzada. Difundir o escrito era um modo de estabilizar a mensagem oral, sempre sujeita a variações, inversões, intervenções do narrador, e assim trabalhar para legitimar as expedições junto ao povo e aos reinos.

Mas se a narrativa vinha a calhar, é porque ela havia sido moldada especialmente para isso. Confrontada com os fatos históricos, a narrativa de Rolando mostra-se como o resultado de uma série de convenientes adaptações. Por exemplo: a batalha de Roncesvales realmente ocorreu no ano de 778, porém não foram os sarracenos que atacaram as tropas de Carlos, na verdade foi um ataque dos bascos, um povo tão cristão quanto os francos. A derrota das forças carolíngias foi pesada e a notícia percorreu as terras europeias. Mas como as estórias precisam fazer mais sentido do que os fatos, a narrativa foi se transformando ao ser contada e recontada, de modo a transformar uma fragorosa derrota num símbolo fundacional do Império cristão europeu.

Se hoje vemos esse descompasso (e confusão entre ficção e história, na época não era o que acontecia. Nas feiras e festas onde Rolando era exaltado como herói acreditava-se estar ouvindo a própria história do povo francês e cristão. Parece tão antigo, e no entanto vemos algo muito parecido acontecendo hoje, com a omissão ou a falsificação de fatos históricos para se conduzir a coesão ideológica na direção que interessa ao Império.

Há ainda um outro aspecto que ganha especial relevo na comparação com o contexto atual. Como líder da retaguarda, Rolando carregava um instrumento, o olifant, uma espécie de trompa usada para alertar as outras seções do exército do imperador e, em especial, o próprio Carlos Magno, no caso de um ataque surpresa, para que possam vir em seu socorro. Quando percebe a chegada dos exércitos inimigos, Oliveiros exorta Rolando para que toque o olifant, para que a vanguarda do exército retorne em seu auxílio. Mas Rolando, tragicamente orgulhoso, recusa-se a tocar o instrumento e decide que enfrentarão sozinhos a batalha, mesmo absurdamente desproporcional. Somente quando já estão todos feridos e praticamente vencidos é que Rolando tocará o olifant, tarde demais, portanto. Se a atitude do comandante da retaguarda não parece sensata, e isso é ressaltado por Oliveiros, é também essa coragem desmedida que realçará ainda mais a injustiça cometida pelos sarracenos, os verdadeiros culpados pela morte dos maiores guerreiros cristãos.

Na história atual, vemos o presidente ucraniano Volodymir Zelensky no papel de um valoroso herói, um Rolando contemporâneo. Sua fama é cantada amplamente por toda a mídia ocidental, não nos becos e botecos do mundo mas pelos principais e mais ricos veículos de comunicação. Por um lado, ele figura como o corajoso herói que enfrentará até o último homem (ele excluído) o ataque vil de um inimigo sanguinário, pela defesa mais da dignidade e da honra do que da vida de seu povo. É particularmente simbólico o estímulo a que o povo resista com “coquetéis molotov” preparados em suas casas; trata-se de exortação ao suicídio, sem chance de vitória efetiva, mas que torna qualquer ucraniano um potencial herói e mártir.

Como Rolando lança seus valorosos cavaleiros e soldados a uma guerra desigual, Zelensky lança seu povo ao sacrifício ao invés de negociar a paz. A rigor, Zelensky participou desse atirar-se para a guerra desde antes, por exemplo, às vésperas do conflito, quando anuncia na Convenção de Munique que a Ucrânia, caso não fosse integrada na NATO, poderia desenvolver seu próprio programa de armas nucleares – o que foi o estopim imediato da invasão russa.

Enquanto se constrói a imagem trágica e heroica de um povo vítima da vileza do louco Putin, agora Zelensky sai tocando seu olifant pelo mundo. Fala aos parlamentos da Europa e de diversos países, como Alemanha, França, EUA e assim por diante. O discurso de Zelensky é belicista e heroico. Alinha-se ao tom dos colunistas dos principais veículos de mídia dos EUA que trata um eventual acordo com a Rússia como frouxidão diante de uma ameaça mundial tão grave quanto o acordo feito pela Inglaterra e a França com a Alemanha de Hitler a respeito da Tchecoslováquia às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Caracterizar Putin como um novo Hitler faz todo sentido na lógica da guerra escatológica.

Fidelidade e fé

No século XI, o mesmo movimento histórico que levou às cruzadas também produziu a chamada “revolução feudal”, que criou o tecido de coesão de uma sociedade ao mesmo tempo belicista e religiosa, integrada ideologicamente mas isolada nas bolhas dos feudos. O medo cultivado naquele momento tinha suas razões, mas foi certamente hiperbolizado pela Igreja. As invasões dos normandos, por exemplo, entre outros povos, de fato existiram, mas suas narrativas provavelmente foram bastante amplificadas pelos mosteiros, como modo de cultivar o medo e provocar ideologicamente a formação de uma outra estrutura social.

Essa enorme operação ideológica, tendo a cruzada como modelo e evento mobilizador, modulava os dois sentidos da palavra latina fides e fidelidade. A  para obedecer a vontade de Deus, elemento fundamental nas guerras santas como as cruzadas, mas também na submissão dos homens em geral ao poder clerical; a fidelidade como elemento fundante nas relações de suserania e vassalagem que darão coesão ao mundo da chamada Baixa Idade Média, aquele cujos elementos mais povoam o nosso imaginário sobre o período: castelos e cidadelas, nobres guerreiros e seus códigos de cavalaria, a Igreja católica como poder onipresente, com mosteiros, igrejas, catedrais e universidades, um povo pobre e eminentemente rural.

Também é de fé e fidelidade que se faz a guerra comunicacional presente. De certo modo, o esforço de propaganda ocidental expande ao nível global a lógica das bolhas, reafirmando para os de dentro discurso, imagens e narrativas convenientes ao esforço de guerra, com uma intensidade brutal. Desmontam-se os mecanismos científicos ou universais de produção do discurso de verdade (por discutíveis que sejam) para criar modos fundados no pertencimento, em outras palavras, na fidelidade e na fé aos nossos, assegurando modos circulares de validação dos discursos e narrativas.

Veja-se o caso das brutalidades que teriam sido cometidas pela Rússia em Bucha, por exemplo. Os russos trazem em sua defesa o fato de que, logo após suas tropas deixaram o local, o prefeito da cidade fez uma transmissão mostrando a cidade, compartilhando o alívio pela desocupação militar do inimigo, sem mencionar nada do que seria divulgado depois. Nem no dia seguinte, nem no outro. Apenas quatro dias depois as imagens que chocaram o mundo vieram a público. São bizarras, pois é como se fosse um cenário deixado para ser descoberto pelo inimigo – ou seja, exatamente o que não interessaria à Rússia, que obviamente faria todo o esforço para “limpar” evidências dos crimes que tenha cometido. A chancelaria russa pede investigação ou auditoria dos órgãos internacionais para estabelecer a verdade dos fatos, o que é negado pelo Reino Unido e depois por maioria na ONU.

A partir desse momento, há uma espécie de condenação sumária da Rússia pela imagem que se construiu dela. A lógica da cruzada coloca o inimigo na posição do Mal, do anticristo, da vileza a ser extirpada do mundo, tornando-o uma entidade com a qual jamais caberá uma negociação de paz e para a qual não se deve deixar seduzir pelas regras do direito – essas são feitas para os homens de bem. Não se negocia com o diabo. O ponto é que se Bucha for uma mentira forjada pela Ucrânia ou pela NATO, seria uma manipulação tão grave que não pode sequer ser considerada. Mas então por que não permitir a auditoria? Joga-se com essa impossibilidade. Mas esquecemos das armas químicas de Sadam? E 200 mil civis (e 400 mil militares) iraquianos morreram com base nessa desculpa que se reconheceu mentirosa.

Boaventura de Souza Santos definiu que o conflito na Ucrânia dá lugar a três guerras. A primeira, mais visível por seu tétrico espetáculo, é a militar, embora não seja neste momento a mais importante. Outra é a guerra informacional ou de propaganda – aquela em que, do lado de cá do muro e amplamente ao redor do mundo, os EUA e a Otan têm superioridade incalculável. Finalmente, a mais fundamental e que move as demais é a guerra econômica, travada entre os EUA e a China, estando a Rússia por força estratégica no campo chinês. O que a guerra na Ucrânia produz é a sintonia de fase entre os movimentos dessas três guerras. Neste jogo, interessa mais ao Ocidente manter a guerra do que negociar a paz – e para isso está Zelensky, o “Winston Churchill de nosso tempo”, segundo as iniludíveis palavras do ex-presidente George W. Bush.

Do ponto de vista da guerra informacional, o conflito militar no território da Ucrânia cumpre a função de produzir a iconografia e a literatura – com inevitável contraparte hagiográfica dos heróis do momento – necessárias para unificar o lado de cá contra as ameaças existenciais provenientes do outro lado. Fazem-no sem proibir formalmente outros discursos de existirem, mas eles vão sendo isolados, tornam-se estatística e algoritmicamente residuais e incomunicáveis com os outros. Está dando certo. A Europa, mesmo sendo uma das maiores prejudicadas pelo corte de relações com a Rússia e pelo acirramento e prolongamento dos conflitos na Ucrânia, já aderiu plenamente à cruzada estadunidense.

Reavivar as cruzadas – mesmo (e sobretudo) sem nomeá-las – tem sido o modo como o Império estadunidense tem operado a sua complexa campanha de reposicionamento global. O esforço é o de provocar o isolamento (e se possível a destruição) das forças políticas, econômicas e militares que podem fazer ruir a lógica imperial no globo. Em resumo: a China e a Rússia, e seus aliados eurasiáticos e globais – que falam hoje em Nova Rota da Seda, União Eurasiática, BRICS e outros projetos de mundo multipolar. Para sobreviver, o Império se tornou, de uma hora para a outra, antiglobalista. Resta entender qual é o “Deus”, de qual “religião”, que realmente inspira e “deseja” estas novas cruzadas.


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A ciência política e a fé

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/05/2022)

Um misto de firmeza e moderação é, porventura, a melhor forma de caracterizar a postura de Raymond Aron em relação à política internacional, mas cabe também referir a plena consciência que tinha das complexidades e da necessidade de agir e de fazer escolher, ciente de que, tal como aliás já o referira na sua tese «Introduction à la Philosophie de l’Histoire», uma decisão é sempre tomada entre a ignorância e a incerteza. Contudo, o primeiro princípio do método de Aron consiste em nunca perder de vista a complexidade, mesmo quando se age, nem nunca esquecer a necessidade de efetuar escolhas, inclusivamente quando se analisam essas complexidades. Outros princípios ficaram bem patentes no final da sua sessão inaugural na Sorbonne. E a eles sempre se manteve fiel, fosse qual fosse a polémica: respeito pelos factos e respeito pelos seus interlocutores, disposição para admitir os casos, raros, em que fizera um juízo errado e para alterar a sua postura em consequência. Pierre Hassner.


O que distingue, no atual contexto, um cientista político, indígena luso e televisionável, e das «breaking news» da TVI, da SIC ou da RTP de um pastor religioso da IURD, das Testemunha de jeová ou dos Talibans? Nada!

Pelo que me tem sido dado a ouvir aos “cientistas políticos” com graus de “professores universitários” e a ler o que escrevem nas redes sociais, nas análises sobre a guerra na Ucrânia, o guerra, o fenómeno social mais total e antigo da Humanidade é por eles, “cientistas”, explicado em termos de fé! As mesas dos estúdios são altares, os seus sites nos FB são publicidade patrocinada! Aguardam na Ucrânia a repetição do milagre das muralhas de Jericó! Estamos perante meninos de Deus que vendem bíblias, mas surgem identificados nos rodapés como “cientistas sociais”!

Há, por parte dos ditos “cientistas sociais”, uma proposição de partida: ou se acredita neles e se pertence ao reino dos bons e se vai para o Paraíso, ou se duvida, questiona e pertence-se aos satânicos e vai para um Inferno. Quem já viu televisão num país islâmico percebe bem o que são hoje as sessões de análise do conflito pelos “cientistas políticos”.

Há muitos anos que sou um crítico da atribuição do estatuto de ciência aos estudos sociais. A epistemologia das ciências sociais funda-se em 3 linhas: positivismo, fenomenologia e marxismo. Mas a questão que nenhuma das escolas resolve é a questão de fundo: O cientista das ciências exatas está separado do fenómeno. Newton estava separado da maçã. Uma velha e nunca resolvida questão: O “cientista político” e social está inserido no objeto que analisa, na sociedade, com os seus preconceitos, as suas experiências anteriores. Ele é parte do fenómeno. Está dentro da maçã que cai na cabeça do Newton. É a água que fez o Arquimedes flutuar.

O bombardeamento de análises de uma multidão de “cientistas políticos” chamados aos púlpitos para explicar o fenómeno desta guerra na Ucrânia revelou a ausência de qualquer método científico na abordagem do fenómeno. A ciência assenta da dúvida. A tal dúvida metódica, ou cartesiana que é (era) o beaba da entrada na ciência. Só tenho ouvido certezas. Quando um cientista tem certeza passa, para mim, à categoria de delegado de propaganda. É o que temos, que bonda.

Os princípios da ciência são neutros, tenho visto “cientistas políticos” a cientificarem com base na moral! (E sorridentes!!!)

Alguns chegam ao ponto de considerar bons os projéteis ocidentais e maus os projéteis russos!

A ciência baseia-se na comparação de um dado fenómeno com outro idêntico: por isso podemos fazer tabelas de marés, de eclipses, de terramotos… Os “encartados” “cientistas políticos” e sociais desta guerra, como de outras, diga-se, incluindo a das colónias portuguesas, nunca referem, nunca os ouvi referir, a não ser a alguns militares chamados a colocar alguma racionalidade na algazarra, os princípios da guerra, os tratadistas da guerra, de Sun Tze a Clausewitz, de Napoleão, a Mckinder, não falam de estrategas políticos, de Kissinger a Brzezinski, nem de pensadores políticos, de Platão, Machiavel, Montesquieu, Hobbes, Kant, Sartre, ou ao muito ocidental e atual e felizmente ainda vivo Raymon Aron.

Sobre o pensamento a propósito da guerra, os “cientistas políticos” dizem: Nada! Estão em branco! Presume-se que os desconheçam e que se tomem eles próprios como manancial de saber e conhecimento. Gritam Deus salve a Ucrânia! Acreditam num deus que sabe onde é a Ucrânia e que a Ucrânia tem um Deus, não sei de Biden, se Zelenski! Mas eles sabem. Ciência pura!

Cientistas políticos portugueses (existe um estranho fenómeno de provincianismo que faz os cientistas políticos portugueses ainda mais marginais a qualquer teoria aceite do que noutros países com outras tradições intelectuais) surgem em público a garantir que não admitem quem ponha em causa qualquer outra posição sobre a guerra na Ucrânia que não seja a da condenação. Uma atitude moral, mas que destrói o fundamento de a ciência ser por natureza, materialista (i.e. neutra) e que transforma a análise política em teologia.

Estes cientistas morais (desculpem a contradição) não têm consciência da existência de várias «modalidades do Juízo», vivem em pousio (ou vazio) intelectual, não distinguem entre diversas categorias de juízos: assertóricos ou afirmativos; juízos apodíticos, os que proclamam o carácter necessário ou incontestável de um juízo.

Eles, os “cientistas políticos” televisionáveis e sociáveis, são pela imposição do juízo hipotético: o seu! Para eles, se algo é possível e lhes convém, passa a ser a realidade! Oiçam-nos a falar (divagar), leiam-nos sobre as intenções de Putin, da NATO, de Biden, da China , da Índia, até das Ilhas Salomão!

Como respeitar uma ciência cujos “cientistas” não poem em causa o que vêm? Que são adivinhos e feiticeiros que leem a realidade em búzios e tripas de galinha? Que jamais duvidariam que é o Sol que roda à volta da Terra. Ou que, vendo cair flocos de neve e pedras de granizo, concluiriam que a neve é mais leve que o granizo, pois cai a uma velocidades menor!

Como respeitar “cientistas políticos” que tratam esta guerra como se fosse a primeira guerra de que têm conhecimento na História da Humanidade? E se arregalam de espanto com o que veem?

Acredito que esses “cientistas empíricos” e assentes na investigação com base na moral (na sua), se afastariam de Newton, e até de Arquimedes, não porque a um tenha caído uma maçã na cabeça e o outro surgisse nu a gritar Eureka!, mas porque contrariavam o que se está mesmo a ver que é assim. As maçãs caem e a água serve para o banho!


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