A galinha e o ovo!

(Hugo Dionísio, in CanalFactual, 06/12/2023)

Estas imagens, de um combatente do #Hamas a observar as forças sionistas, bem de perto, têm dado origem a todo um processo de construção de uma teoria, segundo a qual, tudo o que é feito pela resistência palestina acontece porque, os israelitas, deixam fazê-lo.

Não nego que existam oportunismos diversos e até elementos de provocação que tenham contribuído para a “inundação de Al-Aqsa”, um pouco à imagem do que sucedeu com o 11 de Setembro de 2001 em que tudo foi permitido fazer aos “terroristas de #benladen (nunca comprovado) e, logo de seguida, iniciando-se a era do estado de vigilância global, através da publicação do #PatriotAct e o lançamento da “Guerra ao terror”.

Contudo, este tipo de argumentação secundariza duas coisas muito importantes:

1. O ressentimento, rancor e desejo de punição que o povo de #Gaza, muito justamente, sente em relação a um estado que os encerrou definitivamente num campo de concentração a céu aberto, praticando todo o tipo de agressões desumanas a gente absolutamente indefesa, e sem sequer ter a liberdade de se movimentar ou fugir, para depois voltar novamente;

2. A necessária e consequente organização de forças de defesa que, num estado de total opressão, têm tendência a surgir, mesmo nas situações mais apocalípticas e aparentemente inescapáveis; o povo palestino nunca se furtou à resistência e à tentativa de repelir e defender-se da agressão que dura há mais de um século.

O facto é que, não seria de esperar outra coisa! Como não é de esperar que uma campanha de ódio, arrogância, supremacia racial e desumanização das vítimas, adicionada à contenção física, em larga escala dos seus movimentos – e à monitorização electrónica (algorítmica até) de todas as suas vidas -, não produza um sentimento de falsa segurança e de total desconsideração das forças oponentes.

É típico, nestes casos de ódio doente, provocado por décadas de propaganda em massa. Um exemplo paradigmático disto mesmo é o que se passou com a propalada “contraofensiva”, na #Ucrânia, quando as próprias tropas, do regime de #kiev, acreditavam poder chegar à #Crimeia em uma semana. Era comum ler-se nas redes sociais ucranianas – bem como na comunicação social financiada pela CIA e congresso (Kiev Post, Kiev Independent…) – que os russos quando vissem as #wonderwaffe da #NATO, como os Himars, Leopard2 e M777, desertariam em pânico ou render-se-iam em massa! Esta ilusão era tanto mais afastada da realidade, quanto mais #Zelensky recebia visitas de gente como #Marcelo, que chegavam a mentir descaradamente aos seus povos para não queimar o regime #Bandera.  Eram os tempos da saga “a Ucrânia vai ganhar a guerra”. A #Ucrânia não a ganha, mas é a #NATO que a perde! Como se sabia desde o início!

Este sentimento arrogante, próprio de quem se sente com o poder absoluto e, de forma narcisista, despreza o adversário, ao ponto da autodestruição, é imagem típica, não apenas dos apoiantes do regime sionista, mas também de muita gente no nosso Ocidente colectivo. Se quem anda de olhos abertos, sabe não ser possível viver em segurança através da violência; já as massas inconscientes, lideradas por elites narcisistas, egoístas e incompetentes, habituam-se ao discurso de desconsideração das suas vítimas. Já quando a coisa dá errado, a culpa nunca é deles, é sempre dos outros. É sempre das vítimas! essa coisa das vítimas se defenderem e contra-atacarem… Que chatice. “São uns terroristas” estas vítimas, como sempre acusaram as forças imperialistas, colonialistas, sionistas e reaccionárias.

E, neste caso, também se conjuga esse sentimento. Após mais de 100 anos (conto pelo menos a partir da  #balfour declaration  em 1917) de agressão, afinal, no final de tudo, a culpa é do #Hamas . Ou seja, após um século de agressão impune, mantendo sempre, nas suas mãos, o controlo da situação, e, escolhendo a barbárie ao invés da civilização, o todo poderoso decide, assim mesmo, atribuir a culpa à vítima que se defende! E quanto mais desesperadamente se defende, porque é levada, precisamente pelo agressor, a esse estado de desespero, mais culpada se torna, aos seus olhos. É exasperante tanta falácia, tanta desonestidade intelectual.

 Existe algo mais ocidental – numa perspectiva dos “valores” da civilização hegemónica liberal – que isto? Existe algo mais narcisista, egoísta, individualista, anti-social e reaccionário que isto? Eu acho que não e, hoje, vivemo-lo na Europa, em que, quem alimentou a barbárie, atira agora as culpas aos migrantes, aqueles que, nunca por acaso, são as primeiras vítimas da barbárie alimentada.

Este estado de ignorância, irresponsabilidade, inconsciência e ilusão, para o qual foram atiradas as massas, é o primeiro responsável, pela desconsideração do adversário, que estas imagens reflectem. A presunção arrogante e a autoconfiança no poderio militar exposto é tão grande, que gera uma falsa sensação de segurança. Um pouco como se comportam, os #EUA e #NATO, com os seus porta-aviões. Mas, depois, nem industria têm para produzir as munições que os seus canhões usam.

A verdade é só uma: aproveitando a condescendência, a presunção e a incompetência que daí resulta, o #Hamas fez o que considerou fazer sentido para voltar a colocar a #Palestina no mapa. Foi injusto para os civis mortos? Claro, mas quem poderá apontar isso ao #Hamas? os sionistas? Os apoiantes do sionismo? Tenham pena de mim!

Foi injusto para os civis sequestrados? Certamente! Mas que moral tem #Israel e o Ocidente para disso falar? Acaso um refém israelita vale mais do que uma criança #palestina? Uma daquelas que estão há anos em prisões, que aí cresceram e aprenderam a odiar o agressor? Tenham dó! E o mais grave, é que o sionismo vive desse ódio, do ódio que o próprio sionismo planta e fomenta. E esse factor também cabe aqui na análise da suposta conspiração, da teoria do “foram eles que fizeram, ou fomos nós que deixámos ou provocámos”!

Trata-se de uma relação dialéctica, estabelecida entre um povo que se defende da agressão e opressão, e um Estado – a entidade sionista – que beneficia das contradições que essa defesa levanta para poder, assim, semear o seu ódio. Se o #Hamas permitiu separar a #OLP e por isso se pode dizer que o sionismo o consentiu, também podemos dizer que, o maior fundamentalismo do #Hamas em relação à #OLP, é também aquilo de que o sionismo se alimenta para poder propagar o seu ódio e assim manipular o seu povo e os seus apoiantes. Daí que, responder á questão suscitada pelas imagens que aqui junto, não seja fácil, mas também não seja essencial.

Centrar a análise nessa resposta equivale a secundarizar todos os processos que, no seu âmago, se desenrolam. O facto é que tudo acontece porque existe um processo de colonização e limpeza étnica em curso há mais de 100 anos. Os restos, dos oportunismos às conspirações, à defesa contingente e desesperada, são filhos da mesma mãe: a violência que se abateu sobre o povo Palestino. Não há que mascará-lo. A susceptibilidade de, na origem de tudo estar a perfídia sionista, só confirma e valida os raciocínios anteriores.

Daí que, seja como for, o #Hamas, mais ou menos manietado ou consciente, fez o que considerou ser necessário para defender o seu povo! Porque não existe um povo palestino de #Gaza sem o #Hamas. O #Hamas é o povo #Palestino. O #Hamas é o instrumento contingente, resultante das condições materiais existentes, que reúne as características (identidade, doutrina, estratégia) que, de um ponto de vista evolutivo, se mostram aptas a responder ao tipo de agressão de que são alvo. Violência gera violência, a resposta é tão mais violenta quanto o for a agressão.

É absolutamente impensável, não é sério, é desonesto, cínico e hipócrita, pensar que um povo sujeito à agressão, a que o povo de #Gaza está sujeito, nunca encontrasse uma forma de se defender, e que essa forma de defesa se contivesse a umas quantas manifestações, resoluções e reuniões com o oponente.

Um pouco como até aqui… Empurrar com a barriga e enganar a vítima, tantas vezes quanto as necessárias até a aniquilar definitivamente.

As massas incultas até podem acreditar nisso, que é possível, indefinidamente oprimir sem que se gere uma resposta do outro lado, mas os responsáveis sionistas e os seus patrocinadores ocidentais, não podem, não devem e é criminoso pensarem desse modo!

O povo palestino, em #Gaza, construiu uma economia de túneis, precisamente para poder fugir à vigilância massiva do regime sionista. E pensar que esta gente falava da vigilância no bloco de leste, quando hoje somos todos vigiados pelos nossos telemóveis, automóveis, televisões, computadores, satélites, câmaras de rua e até frigoríficos e máquinas de lavar, as quais com a sua tecnologia wi-fi, nos roubam os dados pessoais, para que alguém nos possa vender, influenciar e programar a nossa vida.

Afinal, foi o regime sionista que atirou o povo palestino para uma espécie de submundo! Este povo não o fez por vontade sua, foi obrigado a isso. Logo, numa estratégia de defesa, seria impossível uma qualquer força de guerrilha, não utilizar essa vantagem. Por cá também não será muito diferente, pois, no Ocidente, a luta dos povos terá de ser feita também no submundo a que a #vigilância neoliberal não chegue.

O que o #Hamas fez, na minha humilde opinião, foi, de forma dramática, arrastar as forças sionistas, muito superiores em número e em capacidade instalada, para um terreno em que é possível alterar a relação de forças. Um pouco como fez Álvares Pereira em Aljubarrota ao escolher um local em que, segundo as crónicas, os espanhóis não conseguiriam projectar todo o seu poder numérico, nivelando, assim, a relação de forças.

Em #Gaza, e jogando também com a comunicação, o povo Palestino, através do seu instrumento #Hamas, atraiu as forças sionistas para um plano de combate, no qual 40.000 combatentes bem preparados, com o caracter moldado e forjado pelas amarguras da vida miserável que o sionismo lhes proporciona, serão capazes – assim o espero eu – de derrotar 500.000 rapazolas mimados, egoístas, narcisistas e com o caracter mole e maleável de quem se habituou a ter tudo à custa da miséria alheia. O caracter mesquinho e individualista de quem se habituou a viver numa redoma (o Iron Dome) pensando que a insegurança que provoca nos outros nunca se abateria sobre si.

#Israel é dos estados, do mundo, que mais gasta em segurança, mas sente-se permanentemente inseguro. Os #EUA são dos que mais gastam em vigilância, segurança e policiamento do seu próprio povo, não obstante, têm níveis de criminalidade próprios dos países mais subdesenvolvidos.

Esta forma cega de ver a realidade, apontando sempre às consequências e nunca às causas, porque as causas são difíceis de mudar, dão trabalho, exigem luta e consciência e implicam alterações profundas na estrutura, no modo de funcionamento e nos privilégios de quem vive dessas contradições… Será a derrota do sionismo, do neoliberalismo e do imperialismo hegemónico!

#Gaza é apenas uma etapa… Porventura a cidade mártir que iluminará a tomada de consciência da nossa juventude. Como #Cuba é a semente de esperança da luta dos pequenos contra os grandes!

Felizmente, por aqui, no Ocidente, bem como em #Israel, é por entre a juventude que encontramos alguns dos melhores exemplos de iluminação… terão de ser eles a fazer a #paz, porque até aqui, só fomos capazes da #guerra!

O que começa primeiro ou em segundo, não interessa! O que interessa é que existe!

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O Mundo perdeu o medo!

(Hugo Dionísio, in CanalFactual, 04/12/2023)

Embora os Estados Unidos tenham vindo a resistir à pressão para a desdolarização, conseguindo colocar o dólar a crescer 1% em relação ao ano passado (até Setembro), enquanto moeda de reserva, esta resiliência é conseguida à custa de muito endividamento. Com efeito, a estratégia utilizada pela Casa Branca para manter o dólar no topo e impedir a indesejada (também para a China) bola de neve em que se transformará a saída desta moeda, assenta em taxas de juro muito altas, entre as mais altas do mundo ocidental.

Ou seja, a informação para o mercado é que a economia americana está em expansão, mas, ao mesmo tempo, ao invés desta boa saúde se refletir em juros baixos para a emissão de títulos do tesouro, acontece, precisamente o contrário. Como forma de atrair compradores para o dólar, a estratégia da reserva federal tem sido a de garantir yields (rentabilidades) mais elevadas. Ver aqui.

O problema, desta estratégia, é que aumenta exponencialmente o serviço da dívida pública americana, prevendo-se que, dentro de poucos anos, o serviço chegue a 25% da receita fiscal anual. Daí que, se em Setembro a Reuters dava boas indicações para quem comprava dólares, agora, no final do corrente ano, o discurso mudou de forma diametral.

A maioria dos analistas que a Reuters inquiriu na sua pool, realizada entre dia 03 e 07 de Novembro, retirou a conclusão de que, para o ano de 2024, o dólar perderá espaço para outras moedas regionais e provenientes de mercados emergentes. Ver aqui.

Existem já várias movimentações que apontam nesse sentido: Lena Petrova, no seu canal Youtube, noticiou que, neste momento, os bancos americanos estão com mais de 684 biliões de dólares em perdas relacionadas com de títulos do tesouro americano não vendidos. Ver aqui .

Acresce agora que, para tornar tudo mais negro e depois da própria Reuters voltar a publicar que os investidores estão a despejar dólares no mercado, para poderem realizar ganhos, pois sabem que, para o ano a taxa de juro irá ser reduzida (não é preciso ser esperto, pois, o endividamento não pode continuar a este ritmo), depois do Iraque, vêm agora os Emirados Árabes Unidos anunciar que, para o ano de 2024, acabam-se os almoços grátis. Com efeito, com a entrada para os BRICS, os EAU deixarão de negociar petróleo em dólares, passando a fazê-lo apenas em moedas nacionais, tendo já começado a fazê-lo com a India, vendendo petróleo em rúpias. Ver  aqui. Está tudo farto de um papel que nem o papel vale. Só vale para se ser invadido, bloqueado, sancionado e ameaçado.

Ora, esta é apenas a face visível do processo de complexificação das relações internacionais entre os estados, processo esse a que se convencionou designar de “Multipolaridade”, por oposição a “Unipolaridade”. A este processo não estarão alheios dois factos:

  • O apoio inequívoco a Israel que visa segurar aquele que é a guarda avançada do petrodólar e que tem custado tanto apoio interno ao projeto hegemónico, nomeadamente, por parte da juventude que não consegue conviver com o genocídio ao vivo e a cores.
  • À entrada de dois porta-aviões, um no Mediterrâneo e outro no Mar Vermelho, que visavam praticar a chamada “deterrence” (dissuasão), usando uma arma que os EUA ainda possuem, a força naval.

Há que meter medo para tentar travar uma tendência que, no pensar da Casa Branca, nem deveria ter começado. Não parece é que esteja a dar certo, pelo menos pelas impressões que do Irão têm vindo. Com efeito, face à falta de armas que a NATO tem evidenciado, são os EUA, agora, a não estarem interessados em guerras militares de elevada escala.

Não podendo, ou querendo, ir já para a fase militar (pelo menos no Médio Oriente, como acredito), os EUA jogam tudo noutros campos. Neste processo enquadram-se também as recentes denúncias que acusam o presidente da COP-28 de usar a sua posição para fazer charme a favor do uso de combustíveis fósseis. Afinal, o Sultão Ahmed Al Jaber é apenas CEO da Abu Dhabi National Oil Company (Adnoc), que no ano passado vendeu 2.7 milhões de barris. Sabendo-se que os EAU querem aumentar a produção em 2024, não era preciso ser-se um génio para saber para que quereria o Sultão tal poiso.

E se isto diz tanto do que é a COP-28 e de como veem estes tipos o problema da poluição, também diz muito do porquê de só agora se ter levantado o problema. Por que razão, só agora, logo BBC e New York Times vieram denunciar a situação? Pois… O meu palpite está precisamente nas ações dos Emirados em matéria de petrodólar e de reposicionamento geopolítico. Ou seja, mais preocupação com o meio ambiente.

Mas, para aqui chegarmos, ao ponto em que os EUA tentam esconder a queda, em que já vão, por todos os meios ao seu alcance, inclusive, à custa de afundarem a vassalagem europeia; algo foi acontecendo que, na essência e no substrato, representou o despertar para a liberdade de muitas nações, antes prisioneiras, passarem a pensar pelas suas cabeças. O que é que se terá passado, então, que tão grande segurança dá a estas nações?

Enquanto descansavam à sombra da arquitetura hegemónica construída a partir da Segunda Guerra Mundial, segundo a qual dominam as instâncias saídas de Bretton Woods, fazendo-as dançar ao som do consenso de Washington, o resto do mundo, os chamados “países emergentes”, tão desprezados pelas elites oligárquicas americanas, foram-se reorganizando e cooperando mutuamente.

O estudo “multipolar ou Multiplex? Interaction capacity, global cooperation and world order” dá-nos uma visão do barro com que o mundo multipolar (ou o mundo multiplex como lhe chamam no estudo) foi sendo construído.

Analisando cerca de 33.104 tratados comerciais assinados entre 1945 e 2017, este trabalho permite retirar conclusões muito importantes:

  • É após a queda da URSS que se dá a construção da base sobre a qual irá assentar o “mundo multipolar”, sendo o período de 1991-2005 aquele em que mais tratados de cooperação comercial se assinaram;
  • Até 1990, os EUA eram o país que, todos os anos mais contratos assinavam, sendo ultrapassados pela Alemanha entre 1991-2005 e 2006-2017;
  • O Reino Unido que era sempre o segundo, entre 1976-1990 foi ultrapassado pela Alemanha;
  • Nos períodos 1991-2005 e 2006-2017, o Reino Unido foi ultrapassado por Brasil, França, Holanda, Coreia do Sul, Austrália, Turquia, Argentina, Japão, México Espanha, Suíça, Africa do Sul…;
  • Os próprios EUA, entre 2006-2017 estão na casa das duas centenas de acordos celebrados, tal como Austrália, Turquia, Argentina, Arica do Sul.
  • Ao longo dos anos, a própria centralidade dos EUA em matéria de cooperação foi-se mantendo, mas observa-se uma aproximação desse centro por vários países, principalmente europeus.
  • A China, por exemplo, passou do 37.º país a 13.º com mais acordos celebrados.
  • Interessante é também o aprofundamento do agrupamento de países (clusters), com muito relevo para um cluster nórdico estabelecido a partir de 1991, entre a Federação Russa e os países escandinavos, mais a Islândia e a Etiópia (sim, a Etiópia), a que se juntou, depois, Israel;
  • A partir de 1991 a Alemanha surge a liderar o segundo maior cluster mundial (a seguir ao dos EUA);
  • A Alemanha, a ASEAN, México, Brasil, China e Coreia do Sul parecem ser os que mais se fortaleceram com o adormecimento dos EUA.

Estes dados, que podem ser consultados aqui, dão-nos pistas extremamente importantes para caracterizar o declínio do império hegemónico, bem como para explicar o que aconteceu com a Europa.

Os EUA, está bom de ver, adormeceram à sombra da vitória. Derrotada a URSS, não mais os EUA se preocuparam como antes no estabelecimento e crescimento das suas redes transnacionais. Foi o tempo da arbitrariedade, da hegemonia, do quero, posso e mando. O que esta realidade reflete, a meu ver, é também a crescente incapacidade por parte dos EUA em fazerem acordos que não fossem exatamente como queriam. O mundo viu a verdadeira cara dos EUA, a sua arrogância e supremacismo, e não gostou, começando a trabalhar na base e surdamente, para a viragem que agora estamos a presenciar.

Quando acordaram, os EUA viram o perigo de autonomização da Europa, principalmente a União Europeia, resquício da guerra fria e instrumento de combate político anticomunista. A Alemanha crescia fortemente, à custa da energia e matérias-primas baratas da Rússia e dos tratados que ia fazendo por todo o mundo. Foi o tempo da Alemanha motor da EU e do Eixo Franco-Alemão. Não nos podemos esquecer do papel da NATO (keep Germany down; Russia out and other in – colocar a Alemanha em baixo, a Rússia fora e os outros dentro). As coisas estavam a sair “dos eixos”.

A norte, os países escandinavos iam resistindo às formas mais brutais de neoliberalismo, protegendo o seu modelo com recurso à energia e matérias-primas baratas da Rússia, bem como a um mercado de mais de 200 milhões de pessoas (Rússia e EAEU) para escoar os seus excedentes.

É aqui que se torna ainda mais trágico o suicídio europeu, em particular o alemão e o francês. Mas como é que, de uma assentada, entre 2017 e 2022, estes países prescindem dos seus fatores mais vantajosos? Degradação democrática à parte, infiltração da CIA e muita corrupção e tráfico via mundo académico e comunicação social, à parte, foi o reabrir do capítulo da guerra fria que permitiu o acordar dos arquétipos adormecidos que tinham estado na origem da EU – o anticomunismo primário, o reacionarismo e o pensamento neocolonial em relação aos países considerados “menores”.

Uma autêntica tragédia, que se agravou com a tragédia da NATO na Ucrânia e que se acelerará logo que já não se possa esconder que a NATO é supérflua, anacrónica e ultrapassada como estrutura. O mundo, a natureza e a história não precisa dela. Todos sabem que, quando olham para a NATO, é Washington que veem. A própria EU não está longe dessa visão também, pois quem aceita autoflagelar-se como o fez a Comissão Europeia, colocando em depressão os países que a alimentam, em nome de interesses que se situam do outro lado do Atlântico, não pode ir muito longe.

A guerra que opõe a NATO à Rússia, em solo Ucraniano e usando o povo ucraniano como exército, e, agora, a limpeza étnica sionista em curso, serão dois dos episódios trágicos da queda da “hegemonia liberal” como lhe chama o estudo.

O que já ninguém pode esconder, e apenas a comunicação social corporativa o tenta fazer (quantos milhões recebe para isso!), é que aconteceu o que os EUA andaram mais de 30 anos a evitar: o mundo perdeu o medo!

Só faltam agora os oligarcas que nos governam na sombra, se confrontarem com o medo que lhes sobra: o medo que os povos percam o seu próprio medo!

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Marketing para totós: Cimeiras do Clima e Congressos dos Jornalistas

(Elisabete Tavares, in Página Um, 03/12/2023)

É um caso de marketing e de propaganda para totós. Ainda assim, jornalistas cobrem estes eventos como se fossem sérios e realmente produtivos, com o objectivo de se melhorar o mundo e as vidas de todos. Ainda assim, se fazem debates sobre esses eventos, como se realmente houvesse algo, de substância, para se debater no que lá se diz que se vai fazer.

Um desses eventos é a “Cimeira do Clima” ou sobre o Ambiente, ou Alterações Climáticas, … O nome do “espectáculo” pode ir mudando, mas o assunto é sempre o mesmo: líderes mundiais deslocam-se nos seus aviões para um local remoto do Mundo, para anunciar a “atribuição” de dinheiros e criação de fundos e medidas que vão melhorar a saúde do planeta e o futuro de todos os que nele vivem.

Muitos comunicados de imprensa. Muitos discursos “inspiradores” e “assertivos” escritos pelas diversas equipas de comunicação e os melhores spin doctors. O resultado são, invariavelmente, clichés como “não há humanidade B”, frase de António Costa nesta última Cimeira do Clima, citado na Lusa, frase que foi repetida até à exaustão pelos gabinetes de relações públicas do Governo, ou seja, os principais media do país.

Nestas cimeiras e conferências, os políticos de repente acordam para a causa ambiental e, tal como um cristão renascido, banham-se nas límpidas águas das diversas cimeiras do clima para sair delas discípulos da Nova Terra salva da poluição e imaculada. Pelo menos, até aterrarem de novo com os seus aviões nos países de origem e tudo voltar ao “business as usual“, que é como quem diz, ao andar de carro para cima e para baixo, conceder o licenciamento de empresas poluidoras e apelar ao consumo desenfreado para salvar empregos e “a economia”.

Desde pequena que ouço falar na desertificação, na necessidade de se reduzir o consumo, na urgência de se poupar água e proteger o meio ambiente. Desde pequena que assisto a sucessivos governos portugueses e descurar a ferrovia e a despejar dinheiro dos contribuintes na construção de estradas (ou melhor, nas construtoras suas amigas que construíram as estradas).

E todos os anos, sem excepção, assistimos a descargas ilegais em rios, a poluição diversa no mar. A investimentos estapafúrdios em obras e construção de monos com dinheiros públicos. Fecha-se os olhos a projectos poluidores porque criam empregos? Baixam-se os requisitos ambientais para atrair aquele investimento na fábrica que até foi classificado de PIN (projecto de interesse nacional)? Autoriza-se o abate daquelas árvores protegidas para aquele empreendimento de luxo? Dá-se o OK a mais um campo de golfe em zona onde falta a água? Avança-se com a construção de um novo aeroporto em zona de migração e nidificação única na Europa? Olha-se para o lado para o uso de pesticidas que acabam com espécies de relevo e causam cancro? Arrasa-se aquele rio selvagem e aqueles ecossistemas para construir mais uma barragem?

E incentiva-se ao consumo. Muito consumo. A quantidade de embalagens e lixos produzidos hoje é estonteante. Avassaladora. Os governos lucram com isso através dos diferentes impostos cobrados. O ambiente é que se lixa, tal como todos nós. E o planeta.

Desta vez, Costa pediu acção mais rápida e ambiciosa. Todos concordaríamos com isso, se não tivéssemos visto o que Costa fez, por exemplo, na gestão da pandemia de covid-19, desde 2020. Mas, como vimos e sentimos na pele e nos bolsos o que fez, o que lemos nessa intenção do “rápido e ambicioso” é isto: muitos vão encher os bolsos (de novo) e nós vamos ficar agarrados aos problemas e aos prejuízos. Além do atropelo que fez à Constituição da República.

Ou seja: há o risco de um acelerar no caminho da destruição da democracia, por via de leis e medidas inconstitucionais, e um novo o empurrão para fortes cargas de impostos sobre “poluidores”, que vão acabar por cair afinal sobre os consumidores finais. Há o risco de se inventarem mais “políticas verdes”, mas que irão beneficiar empresas amigas. Vão anunciar-se regras que serão aplicáveis aos comuns dos mortais, enquanto os que têm amigos e cunhas serão poupados.

Talvez porque acompanhe os mercados de capitais há várias décadas, desconfio destas promessas “verdes” que até agora renderam milhares de milhões a fundos e “veículos” de investimento, filantropos, fundações e políticos a vender este peixe da economia “verde” e trouxeram mais e mais problemas ao planeta e às populações.   

Estas cimeiras do clima ou do ambiente fazem-me também lembrar os congressos dos jornalistas (vai-se agora para o 5º Congresso). Fala-se muito e não se muda nada. Fala-se muito, mas não se mexe naquilo que se precisa mesmo mexer para que haja mudanças.

Na política, continua a promover-se o crescimento eterno das economias e a cultura de consumo, como se isso fosse racional ou sensato. O crescimento eterno do Produto Interno Bruto, vendido nos telejornais como sinal de sucesso político…

Nos congressos de jornalismo fala-se que o sector está em crise, os jornalistas são mal pagos e até que há disparidade de salários e promoções entre homens e mulheres. Mas, hoje, há que assumir, que os jornalistas não têm quase nenhum poder e estão alinhadíssimos com o poder político e empresarial.

A liberdade de imprensa está ameaçada (sobretudo, desde 2020) e há notícias verdadeiras a serem censuradas no mundo digital. Os grupos de comunicação social estão vendidos (rendidos) às “parcerias comerciais” (conteúdos e eventos patrocinados por entidades públicas ou privadas). Directores de jornais, revistas, TVs e rádios fazem o papel de entertainers e apresentadores em eventos e conferências e actuam como embaixadores de políticos, de reguladores, de figuras da autoridade e todos os “clientes” que pagam as “parcerias comerciais” aos seus grupos.

As redacções estão magras, mas cheias de jornalistas e estagiários que fazem copy/paste (churnalism) das notícias da Lusa e de comunicados de imprensa. Não há tempo (nem pensamento crítico) para mais. E háá que falar nos jornalistas que têm empresas e funções incompatíveis com a profissão. Nos grupos de comunicação social com “clientes” que lhes pagam para escrever “notícias” e fazer eventos sobre os quais depois escrevem (sempre) favoravelmente. E há que falar na evidente subserviência do sector em geral face ao poder, seja do Governo, de autoridades, de reguladores, de direcções-gerais, da Comissão Europeia, (como, de resto, se viu na pandemia).

Além de que se tem obrigatoriamente de falar na falência completa de reguladores e dos que deveriam ser vozes em defesa da profissão e do sector, com destaque para a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Mas também a Entidade Reguladora para a Comunicação Social só tem actuado quando sente pressão. E o Sindicato de Jornalistas tem ficado em silêncio perante irregularidades e situações de promiscuidade inaceitáveis.

Como jornalista, ao longo dos anos sempre me mantive afastada de congressos e do corporativismo patente no sector da comunicação social. Não me identifico com operações de autopromoção, nem com os silêncios sobre os problemas graves, como as “parcerias comerciais”, nem com a cultura das palmadinhas nas costas enquanto o sector arde.

A meu ver, na defesa do ambiente e do planeta e na defesa do jornalismo existe algo em comum: jamais serão defendidos por políticos do actual establishment, nem pelas grandes indústrias, por bilionários donos de multinacionais ou filantropos com um histórico ético duvidoso. Nem por jornalistas que há muito se vergaram perante dinheiros públicos, privados ou de fundações, com medo de perderem o emprego, a nomeação a prémios e bolsas, além dos que não escondem agendas ideológicas.

Nem a defesa do planeta, nem a defesa do jornalismo irão ser feitos por aqueles que têm contribuído para criar os problemas existentes, seja pelas suas acções seja porque pactuaram com os ataques, ficando em silêncio.

Num mundo de árvores de Natal de plástico, enfeitadas de bolas e fitas de fantasia em material sintético, o jornalismo é hoje um adereço brilhante para vender frases bonitas sobre como políticos e bilionários que contribuíram para nos trazer ao desastre, são agora os maiores defensores do ambiente e da vida no planeta.

Num mundo de cimeiras do clima da tanga e congressos dos jornalistas da treta, temos de começar a pensar se está na altura de deixarmos de ser totós. Em relação aos políticos, aos media que destroem o jornalismo e em relação ao que podemos fazer sobre o futuro do planeta e do jornalismo.

Elisabete Tavares é jornalista


.Continuar a ler em: Um passeio dos banqueiros pelo Colombo: dava jeito! – Página Um


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