O monstro do genocídio desiste e apoia a sua colega monstra do genocídio

(Caitlin Johnstone, 22/07/2024, Trad. Estátua de Sal)

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O presidente Biden cedeu à pressão crescente para abandonar a corrida presidencial devido a preocupações generalizadas sobre o seu óbvio declínio neurológico, renunciando e endossando o seu clone ideológico perfeito, Kamala Harris. Aparentemente, o consenso é que ele está demente demais para concorrer à presidência, mas não está demente demais para ser presidente nos próximos seis meses.

E, no fundo, tanto faz, meus caros. Tal não significa nada nem muda nada, a não ser, talvez, diminuir um pouco a probabilidade de um gestor do império republicano ser empossado como presidente, na Casa Branca, em Janeiro. Harris difere de Biden apenas na voz e na aparência, e tem sido uma defensora entusiástica das atrocidades genocidas de Biden em Gaza, nos últimos nove meses e meio.

Harris, presumindo que ela ganhe a nomeação, fará campanha com a promessa de continuar a incineração de Gaza apoiada por Biden, continuar o apoio “firme” de Biden a Israel, continuar a guerra por procuração de Biden na Ucrânia, continuar as escaladas de Biden contra a Rússia e a China, continuar a expansão da máquina de guerra, promovida por Biden nos EUA , continuar a facilitação do capitalismo ecocida de Biden e continuar as políticas desumanizantes de exploração mundial e extração imperialista de Biden. Se ela entrar na Casa Branca, a face deste projeto mudará, mas o projeto, em si, não.

E o mesmo acontecerá se Trump entrar.

De tempos em tempos, o império dos EUA realiza este pequeno e estranho festival onde finge que o governo está a mudar de mãos e que agora começará a operar de uma forma significativamente diferente da forma como operava antes. Mas, depois a exploração continua, a injustiça continua, o ecocídio continua, as guerras continuam, o militarismo continua, o imperialismo continua, a doutrinação da propaganda continua, o autoritarismo e a opressão continuam.

O comportamento do império não muda com a contratação de um novo presidente, assim como uma corporação não muda com a contratação de um novo secretário na recepção de seu escritório principal.

Muito será dito sobre a raça e o gênero de Kamala Harris. Muito será dito sobre o fato de ela não ser Donald Trump. Muita emoção envolverá a sua campanha. E então, quer ela ganhe ou perca, nada mudará. Não será possível concluir isso, olhando apenas para a maquinaria do império que assumirá o poder em janeiro. Mas o seu comportamento permanecerá o mesmo.

Nada de real está a acontecer ao nível da política eleitoral na América. Os protestos são reais. O ativismo é real. Os esforços para combater a máquina de propaganda imperial, e despertar as pessoas da sua doutrinação são reais. Os esforços para dar origem a um verdadeiro zeitgeist revolucionário são reais. Mas as próprias eleições são um ritual performativo, realizado para ajudar as pessoas a sentirem-se bem consigo mesmas, como um sacramento religioso ministrado por um padre.

Um monstro genocida retirou-se e empossou outro monstro genocida. Esse é o resumo da história da desistência de Biden. Estes são, pois, os comentários e a atenção que ela merece.

Fonte aqui.


EUA: Duplo golpe de estado no Partido Democrático – recordações dos tempos da URSS

(Zé-António Pimenta da França, in Facebook, 24/07/2024)


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Os mais velhos dentre nós lembrar-se-ão dos momentos de sucessão na falecida URSS: o Politburo do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) nomeava o candidato selecionado para ascender a secretário-geral do PCUS, o dirigente supremo da URSS. Horas depois, o Comité Central do PCUS emitia um comunicado em que anunciava que o candidato nomeado tinha sido eleito “por unanimidade”. E logo todas as esferas superiores, intermédias e organizações de base do PCUS demonstravam júbilo pela sábia eleição e nomeação do escolhido. O Politburo nunca falhava, sabia sempre interpretar os anseios dos militantes do PCUS.

O mesmo se passou nesta sucessão verificada no Partido Democrático dos EUA. Biden renuncia à presidência, logo a seguir é nomeada Kamala Harris como a escolhida para se candidatar à presidência dos EUA. E nas horas seguintes é o desfile de notáveis do Partido Democrático a manifestar-se em demonstração de unanimidade no apoio total à escolhida.

Não há, no Partido Democrático dos EUA, nenhum Politburo que possa escolher à porta fechada o candidato e o nomeie. Não está previsto nos estatutos nem na orgânica do partido.

O que está previsto é que isso seja feito em congresso partidário. Há uma série de candidaturas que se vão apresentando e, depois de uma campanha eleitoral interna e de vários debates da campanha, os militantes escolhem o candidato em congresso.

No caso presente argumenta-se que não havia tempo para isso, embora haja muitos que defendam que havia. O que se passou é que um grupo de pessoas (sabe-se lá quem), sem qualquer cabimento na estrutura oficial do partido, substituiu-se ao congresso e ter-se-á reunido para nomear Kamala Harris. Ao menos, na URSS, toda a gente sabia quem eram os membros do Politburo, a sua constituição era pública, era oficial. No Partido Democrático não. Serão os financiadores (quem paga, manda!) a gente com mais poder dentro da estrutura partidária? Não se sabe. Sabe-se que os Clintons, os Obamas e a Nancy Pelosi (determinantes na queda de Biden) não queriam esta candidata. Mas os poderes ocultos escolheram. Reuniram-se e escolheram, nomearam e pronto, já está.

E aparece toda a gente a apoiar, uns atrás dos outros, as manifestações de júbilo são gerais, todos concordam que é a candidata certa. Até já há sondagens a mostrar que ela já vai à frente do Trump…

Não podemos negar que o processo de escolha e nomeação acaba por ser bem-parecido com o da falecida URSS.

Dois dias, dois golpes no Partido Democrático: no primeiro, reuniram-se e decidiram deitar abaixo Biden (ver o meu texto de ontem sobre a queda do Biden, aqui). Fizeram-no de forma simples e expedita: congelaram-lhe o dinheiro para a campanha eleitoral. Foi como se apertassem o pescoço ao Biden até não mais poder. O homem, que queria a toda a força continuar na corrida, não teve outro remédio senão renunciar.

Um dia depois escolheram a sucessora à porta fechada. Foi anunciada e logo choveram os milhões em apoio à mulher providencial, já não falta dinheiro à candidatura.

Num partido cheio de fações muito diversas, que não se podem ver umas às outras, não deixa de ser estranho que a unidade tenha surgido num ápice para combater a ameaça trumpista. Nem uma voz a contestar. Os que pediam um congresso aberto, onde os militantes escolheriam entre os candidatos que lá se apresentassem, calaram-se todos. milagre!…

Que se lixe o congresso aberto. É assim a democracia americana: o dinheiro é que manda, põe e dispõe, escolhe e rejeita. Qual democracia de base, qual quê? Quem tem dinheiro manda. Os outros obedecem e nem piam…

Dois dias, dois golpes que de democráticos nada têm … Tudo congeminado no segredo, bem longe dos holofotes. Poderes ocultos, são eles que mandam. Neste caso puderam mais que gente tão poderosa como os casais Clinton, Obama e Nancy Pelosi que derrubaram o presidente em exercício.

O dinheiro fala muito alto e o poder funciona da mesma forma em todo o lado…

Um tempo de vergonha e tristeza: Quando a violência chega à política, todos nós perdemos

(John & Nisha Whitehead, in off-guardian.org, 22/07/2024, Trad. Estátua de Sal)


“Sempre que a vida de um americano é desnecessariamente tirada por outro americano – quer tal ocorra em nome da lei ou em desafio à lei, por um homem ou por um bando, a sangue frio ou por paixão, num ataque de violência ou em resposta à violência – sempre que rasgamos o tecido da vida que outro homem teceu, dolorosa e desajeitadamente para si e para os seus filhos, toda a Nação se degrada.”

Robert F. Kennedy sobre o assassinato de Martin Luther King Jr (1968).


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Há um subtexto na tentativa de assassinato do antigo Presidente Trump que não deve ser ignorado, e é simplesmente este: A América está a ser empurrada para a beira de um colapso nervoso nacional.

Mais de 50 anos após o assassinato de John F. Kennedy, Martin Luther King Jr. e Robert F. Kennedy, a América tornou-se uma bomba-relógio de violência política em palavras e actos.

Ampliada por uma câmara de eco de tweets desagradáveis e brutalidade sancionada pelo governo, a nossa cultura politicamente polarizadora de insensibilidade, crueldade, maldade, ignorância, incivilidade, ódio, intolerância, indecência e injustiça só serviu para aumentar a tensão.

Consumida pela agressividade, pela política partidária, pela agressividade, pelo ódio tóxico, pela mesquinhez e pelo materialismo, a cultura da mesquinhez passou a caraterizar muitos aspetos das políticas governamentais e sociais do país. “A mesquinhez é hoje um estado de espírito”, escreve o professor Nicolaus Mills no seu livro The Triumph of Meanness, “o produto de uma cultura de rancor e crueldade que teve um enorme impacto sobre nós”.

Esta crueldade casual é possibilitada por uma polarização crescente no seio da população que enfatiza o que nos divide – raça, religião, estatuto económico, sexualidade, ascendência, política, etc. – em vez daquilo que nos une: somos todos americanos e, num sentido mais amplo e global, somos todos humanos.

É aquilo a que a escritora Anna Quindlen se refere como “a política da exclusão, que pode ser considerada como o culto da alteridade… Divide o país tão seguramente como a linha Mason-Dixon o fez em tempos. E dá origem a uma política e a uma política social mesquinhas e punitivas”.

Mas isto é mais do que mesquinhez.

Estamos a implodir em várias frentes, tudo ao mesmo tempo.

É o que acontece quando se permite que o ego, a ganância e o poder tenham precedência sobre a liberdade, a igualdade e a justiça.

Esta é a mentalidade psicopática adotada pelos arquitetos do Estado Profundo, e aplica-se igualmente quer se trate de democratas ou republicanos.

Cuidado, porque este tipo de psicopatologia pode espalhar-se como um vírus entre a população.

Como concluiu um estudo académico sobre a patocracia, “[a] tirania não floresce porque os perpetradores são indefesos e ignorantes das suas acções. Ela floresce porque eles se identificam ativamente com aqueles que promovem actos viciosos como sendo virtuosos”.

As pessoas não se limitam a alinhar e a fazer continência. É através da sua identificação pessoal com um determinado líder, partido ou ordem social que se tornam agentes do bem ou do mal. Para isso, “nós, o povo” tornámo-nos “nós, o estado policial”.

Ao não tomarmos ativamente uma posição a favor do bem, tornamo-nos agentes do mal. Não é a pessoa no comando que é a única culpada pela carnificina. É a população que desvia o olhar da injustiça, que dá poder ao regime totalitário, que acolhe os alicerces da tirania.

Esta constatação atingiu-me em cheio há alguns anos. Tinha entrado numa livraria e fiquei impressionado com todos os livros sobre Hitler, para onde quer que me virasse. No entanto, se não tivesse havido Hitler, teria havido um regime nazi. Teria havido câmaras de gás, campos de concentração e um Holocausto.

Hitler não foi o arquiteto do Holocausto. Foi apenas a figura de proa. O mesmo se aplica ao estado policial americano: se não tivesse havido Trump, Obama ou Bush, teria havido um estado policial. Teria havido tiroteios com a polícia, prisões privadas, guerras intermináveis e patocracia governamental.

Porquê? Porque “nós, o povo” abrimos o caminho para que esta tirania prevaleça.

Ao transformar Hitler num super-vilão que, sozinho, aterrorizou o mundo – não muito diferente da forma como Trump é muitas vezes retratado – os historiadores deram aos cúmplices de Hitler (o governo alemão, os cidadãos que optaram pela segurança e pela ordem em detrimento da liberdade, as instituições religiosas que não se manifestaram contra o mal, os indivíduos que seguiram ordens mesmo quando isso significava uma sentença de morte para os seus concidadãos) um salvo-conduto.

É assim que a tirania se ergue e a liberdade cai.

Nenhum de nós, que permanecemos silenciosos e impassíveis perante o mal, o racismo, o materialismo extremo, a mesquinhez, a intolerância, a crueldade, a injustiça e a ignorância, tem um salvo-conduto.

Aqueles de nós que seguem figuras de proa sem questionar, que fecham os olhos à injustiça e voltam as costas à necessidade, que marcham a par e passo com tiranos e fanáticos, que permitem que a política se sobreponha aos princípios, que cedem à mesquinhez e à ganância e que não se indignam com os muitos erros que estão a ser perpetrados no nosso meio, são esses indivíduos que têm de assumir a culpa quando as trevas vencem.

As trevas não podem expulsar as trevas; só a luz o pode fazer. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor o pode fazer”, sermão de Martin Luther King Jr.

As trevas estão a vencer.

Não é apenas no cenário mundial que devemos preocupar-nos com a vitória das trevas.

As trevas estão a vencer nas nossas comunidades. Estão a vencer nos nossos lares, nos nossos bairros, nas nossas igrejas e sinagogas, e nos nossos órgãos governamentais. Estão a vencer nos corações dos homens e mulheres de todo o mundo que estão a abraçar o ódio em vez do amor. Estão a vencer em cada nova geração que está a ser criada para se preocupar apenas consigo própria, sem qualquer sentido do dever moral ou cívico de defender a liberdade.

John F. Kennedy, morto por uma bala assassina cinco anos antes de Luther King ser executado de forma semelhante, falou de uma tocha que tinha sido “passada a uma nova geração de americanos – nascidos neste século, temperados pela guerra, disciplinados por uma paz dura e amarga, orgulhosos da nossa herança ancestral – e não dispostos a testemunhar ou permitir a lenta destruição dos direitos humanos com que esta nação sempre esteve comprometida e com os quais estamos comprometidos hoje em casa e em todo o mundo”.

Mais uma vez, uma tocha está a ser passada a uma nova geração, mas esta tocha está a incendiar o mundo, a queimar as fundações estabelecidas pelos nossos antepassados e a acender todos os sentimentos mais feios dos nossos corações.

Este fogo não está a libertar; está a destruir.

Estamos a ensinar aos nossos filhos todas as coisas erradas: estamos a ensiná-los a odiar, a adorar falsos ídolos (materialismo, celebridade, tecnologia, política), a valorizar as buscas vãs e os ideais superficiais em detrimento da bondade, da benevolência e da profundidade.

Estamos do lado errado da revolução.

Se quisermos estar do lado certo da revolução mundial”, aconselhou King, ”nós, como nação, temos de passar por uma revolução radical de valores. Temos de começar rapidamente a mudança de uma sociedade orientada para as coisas para uma sociedade orientada para as pessoas.

A liberdade exige responsabilidade.

A liberdade exige que deixemos de pensar como democratas ou republicanos e comecemos a pensar como seres humanos ou, no mínimo, como americanos.

JFK foi morto em 1963 por se atrever a desafiar o Estado Profundo.

King foi morto em 1968 por se atrever a desafiar o complexo militar industrial.

Robert F. Kennedy fez estas observações a uma nação polarizada no rescaldo do assassinato de King:

“Neste dia difícil, neste momento difícil para os Estados Unidos, talvez seja bom perguntar que tipo de nação somos e em que direção queremos avançar. Podemos estar cheios de amargura, de ódio e de desejo de vingança. Podemos caminhar nessa direção como país, numa grande polarização… Cheios de ódio uns pelos outros. Ou podemos fazer um esforço (…) para entender e compreender, e substituir essa violência, essa mancha de derramamento de sangue que se espalhou pela nossa terra, por um esforço de compreensão com compaixão e amor (…) O que precisamos nos Estados Unidos não é de divisão; o que precisamos nos Estados Unidos não é de ódio; o que precisamos nos Estados Unidos não é de violência ou ilegalidade; mas de amor e sabedoria, e compaixão uns pelos outros, e um sentimento de justiça para com aqueles que ainda sofrem no nosso país, sejam eles brancos ou negros.”

Dois meses mais tarde, RFK também foi morto por uma bala de um assassino.

Mais de cinquenta anos depois, continuamos a ser aterrorizados por balas de assassinos, mas o que esses loucos estão realmente a tentar matar é o sonho de um mundo em que todos os americanos “teriam garantidos os direitos inalienáveis da vida, da liberdade e da busca da felicidade”.

Há muito tempo que não nos atrevemos a sonhar esse sonho.

Mas imaginem…

Imaginem como seria este país se os americanos pusessem de lado as suas diferenças e se atrevessem a erguer-se – unidos – pela liberdade.

Imaginem o que seria este país se os americanos pusessem de lado as suas diferenças e se atrevessem a falar – a uma só voz – contra a injustiça.

Imaginem o que seria este país se os americanos pusessem de lado as suas diferenças e se atrevessem a fazer frente – com toda a força do nosso número coletivo – à corrupção e ao despotismo do governo.

Como deixo claro no meu livro Battlefield America: The War on the American People e no seu equivalente fictício The Erik Blair Diaries, a tirania não teria qualquer hipótese.


Um dos autores, John W. Whitehead, é advogado constitucionalista e fundador e presidente do The Rutherford Institute. Nisha Whitehead é a diretora executiva do Instituto Rutherford. Informações sobre o Instituto Rutherford estão disponíveis aqui.

Fonte aqui