Catorze certezas da vitória terrorista em Damasco

(José Goulão, in AbrilAbril, 09/12/2024)

A nova situação criada em Damasco proporciona condições para que seja dado mais um passo importante na estratégia sionista, dos Estados Unidos, da NATO e da União Europeia, para desmembramento dos grandes Estados seculares do Médio Oriente.

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Uma primeira advertência ao leitor. Esta é uma leitura ainda a quente do que está a passar-se na Síria, e as leituras a quente são um risco, principalmente quando se fazem a partir do exterior e sob uma enxurrada de dislates mediáticos que factualmente dizem o mesmo, lugares comuns, e depois espremem a imaginação num combate imbecil travado nos  campos do atrevimento, da mentira e, sobretudo, da ignorância.

Por tudo isto, os leitores que me perdoem algumas imprecisões em relação ao futuro próximo, porque entre as certezas possíveis há muitos elementos factuais em falta.

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Para o inferno com a geopolítica

(Dmitry Orlov, in SakerLatam, 09/12/2024)

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Todos foram apanhados de surpresa pelo rápido colapso do governo na Síria. O colapso político costuma ser assim: enquanto as estátuas estiverem nas praças, as bandeiras estiverem hasteadas nos prédios públicos e os retratos estiverem nas paredes internas, todos presumem que o regime que elas simbolizam está mais estável do que nunca. As pesquisas de opinião pública demonstram o apoio inabalável do público ao regime, mas isso é enganoso: à medida que o fim de um regime se aproxima, ele se esforça mais para suprimir as partes mais expressivas da oposição a fim de manter as aparências.

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Síria – Um xadrez ainda sem vencedor

(João-MC Gomes, In VK, 09-12-2024, revisão da Estátua)


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Há opiniões que afirmam que Turquia, Israel e EUA deram um golpe de mestre e infligiram uma derrota estratégica à Síria, à Rússia e ao Irão no Oriente Médio, basicamente transformando a Síria em “uma Líbia”.

Das análises que são permitidas fazer, face aos cenários descritos em várias fontes, ainda julgo ser cedo para tirar essa conclusão. Como diz o velho ditado “muita água ainda correrá debaixo da ponte” até que se possa concluir que se se tratou de uma frente “Turquia, Israel e EUA” ou de uma frente “Turquia, Rússia, Irão”, com beneficios momentâneos para Israel e relativos “ganhos” provisórios dos EUA durante algum tempo.

A análise que faço baseia-se no facto de que havia dois países a precisar de resolver a “questão Assad” – que tinha cada vez menos apoios populares no seu país e a diminuição das suas condições militares no presente. Esses países eram a Turquia e a Rússia, a primeira com um já longo período de lutas fronteiriças com os curdos refugiados na Síria e, a Rússia, com um momento importante qme que precisa jogar toda a sua força militar para resolver – em definitivo – a sua vitória sobre a NATO e sobre a Ucrânia, não se desgastando numa luta estratégia e militar que se enquadra numa região com outras lutas por resolver.

Aliás, os sucessivos recuos e desmobilização dos militares sírios pró-Assad mostraram a inexistência de um controle firme na sua força militar e a Rússia, pelo seu lado, não podia investir a sua força militar na Síria sem diminuir o seu “projeto Ucrânia” onde continua a criar condições para fazer a ocupação e avançar em todas as áreas que lhe interessam, mantendo inteligentemente a área de Kursk em “lume-brando” para que as forças da NATO/Ucrânia presentes não possam retirar e ajudar na frente leste.

É clara a intenção da Rússia estar numa posição de grande força quando, no dia 20 de janeiro de 2025, Trump tomar posse e quiser negociar um Acordo que terá que servir todos os interesses russos: Crimeia, Kherson, Zaporidje, Donbass e Lugansk serão parte da Federação Russa no futuro, a NATO não aceitará a Ucrânia nem empregará qualquer força naquele território e o regime de Kiev cai e será desnazificado. A troca da Rússia foi, portanto, um abandono tático da Síria, permitindo que a Turquia – uma força NATO – assuma o controlo da região que lhe interessa, reduzindo a oposição curda e afastando-a das suas fronteiras. Essa situação, aliás, fará com que a Turquia, força integrante da NATO, combata os proxys curdos que são apoiados pelos EUA, a maior força NATO, na área do petróleo, mais a sudoeste da Síria. Teremos assim, pela primeira vez na sua história, duas forças da NATO digladiando-se pelos mesmos interesses.

Mas Israel recebe, assim, a dose mais conflituosa deste problema, pois terá que lidar, junto á sua fronteira da Síria, com as forças da Al Qaeda que tomaram a cidade de Damasco, onde tentam controlar a cidade na ideia de que – quem controla Damasco – controla a Síria. No entanto, como a tendência é a formação de várias regiões na Síria sob o controle e poder de diferentes forças, Damasco irá perder a sua importância estratégica e cada região verá criada a sua cidade-base para a formação dos governos regionais que controlarão as diferentes regiões sirias no decurso da guerra civil que já se iniciou. A Rússia, até ver, terá conseguido negociar a sua permanência na área do Mediterrâneo, restando saber se a Turquia não violará os acordos feitos secretamente com Putin. A saber: a Turquia – interessada na estratégia BRICS face á rejeição da entrada na UE e que vê nessa organização algum poder económico e estratégico para o futuro, ajudará com as suas forças militares a manutenção de uma área estratégica de acesso ao Mediterrâneo onde a Rússia e as forças leais a al-Assad farão a sua região e montarão o seu sistema de defesa fronteiriço que terá, a sul, o Libano como “tampão”.

Quanto ao Irão, o maior prejudicado nesta “nova configuração” da Síria, terá que se contentar com a área da fronteira com o Iraque – a sul – onde apoiará os seus proxys e com a Rússia – mais tarde – para fazer chegar (via Líbano) as ajudas ao Hezbolah e Hamas.

Imagino que é esta configuração estratégica e geo-politica que mais se aproxima daquilo que terá sido o pensamento do eixo Rússia-Turquia-Irão e em que os EUA, a sudeste e Israel a ocidente sul, aproveitam para manter as suas posições e interesses. Na prática – e apenas o futuro dirá se assim é, os proxys da Al-Qaeda ficam rodeados de forças adversas, embora na região de Damasco onde existe o maior número de população e que, naturalmente e de acordo com as suas escolhas, iniciará um longo caminho de fuga para as regiões onde se estabelecerem as forças que apoiam.

Veremos, assim, a Síria, nos próximos meses, num longo processo migratório para o interior e exterior, e lutas constantes entre os diferentes grupos.

O ano de 2025 será um ano longo de lutas e dependerá de um eventual acordo de “fim de conflito” na Ucrânia a possibilidade da Rússia inverter a sua politica para a Síria apresentando uma “nova resistência” que usará a área do mediterrâneo para sustentar as novas forças que terão como missão a luta contra a Al-Qaeda e a libertação futura de Damasco, com o estabelecimento eventual de um governo democrático, sem Al-Assad e com as antigas forças apoiantes do seu regime, mas num novo formato de conciliação com os restantes grupos não Al-Qaeda, não sendo de desprezar a ideia de algum refugio aos curdos que a Turquia quer afastar das suas fronteiras.

Mas esta ideia “futurologista” conta apenas com o raciocínio lógico que é dado pela leitura da presente situação. Lembremos que estamos numa região em grande conflito há dezenas de anos e que a presença de Israel pode transformar, rapidamente, em alterações de tipo estratégico entre os vários grupos e a própria Turquia e Rússia. Mas recordemos que nenhum dos atuais dirigentes presentes nesta equação é eterno e que as políticas de Trump podem trazer algumas novidades, eventualmente de contrariedade deste cenário.