O DOGE (Department of Government Efficiency – chefiado por Elon Musk) ‘arrombou’ as portas da sede do FBI para obter os nomes de aproximadamente 5.000 agentes que trabalharam nos casos de 6 de janeiro de 2021 (a invasão do Capitólio em Washington). Isso aconteceu porque a agência se recusou a revelar detalhes sobre os nomes .de seus agentes envolvidos no processo, depois de intimada a fazê-lo pelo Departamento da Justiça.
Então, já sabemos quem vai investigar os investigadores. Falta agora saber quem vai investigar os investigadores dos investigadores. Chegará esse dia?
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Alguns milhares de funcionários da USAID que trabalhavam noutros países vão agora regressar aos EUA. Muitos deles têm experiência em dar golpes de Estado. Será que vão usar seus conhecimentos para organizar uma revolução colorida em casa? Seria divertido!
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Zelensky está habituado a dispor daquilo que não é seu: fê-lo com o dinheiro destinado à Ucrânia (o que foi dado e o que foi emprestado) e mais recentemente propôs entregar as terras raras do país aos EUA. Trump diz que está interessado mas talvez não saiba que a maior parte desses minérios raros estão em territórios que já estão na posse dos russos. É natural que Zelensky lhe diga: pronto, estão dados, agora vocês americanos têm de ir lá buscá-los. De qualquer forma, Trump vai querer um presidente legitimado por eleições para efectuar essa doação, não vá alguém dizer mais tarde que o comediante não estava mandatado para fazer tal negócio. Portanto, a oferta de Zelensky pode desta vez voltar-se contra ele próprio.
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Não é que eu seja fã de Elon Musk mas acho estranho que os Democratas agora digam que ele não foi eleito para suas funções no DOGE. Na verdade ele tinha sido indicado para tal papel fiscalizador mesmo antes das eleições, ou seja, fazia parte do ‘pacote’ de promessas de Trump. Já George Soros ou o seu herdeiro Alex nunca foram mencionados pelos candidatos democratas, o que não os impediu de agirem abertamente ao lado das administrações democratas.
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É apenas quarta-feira mas dificilmente alguém fará uma declaração mais estúpida do que a de Mark Rutte esta semana, mesmo numa era em que a estupidez é abundante. Ele disse que a a frente na Ucrânia não se estava a mover na direcção certa. Também poderia dizer que os soldados ucranianos estavam a avançar…em direcção a Kiev.
Riquezas, recursos e mercados internacionais interessam tanto ao tradicional complexo militar-industrial quanto às big techs, e Trump parece conseguir unificar diferentes e contraditórios setores capitalistas.
O novo governo Trump começa a se desenhar. Até o momento, fica claro que ele está dividido em duas alas principais. Uma, a de trumpistas raiz, de fascistas sinceros, representantes de um movimento plebeu de milhões de cidadãos da classe média e trabalhadores desorganizados cansados do “sistema”. Outra, de grandes magnatas movidos por puro pragmatismo.
Mas essas alas do novo governo não são homogêneas. A primeira conta também com personagens como RFK Jr. e Tulsi Gabbard, ex-democratas com posicionamentos esquerdistas. São eles, justamente, os mais combatidos pelos meios de comunicação e porta-vozes do establishment.
A ala dos grandes magnatas nitidamente já demonstrou ser a mais privilegiada do governo. A maioria dos postos de primeiro escalão é ocupada por representantes tradicionais do regime americano, em particular pelos conhecidos “falcões”, como Marco Rubio e Elise Stefanik. São os funcionários do complexo militar-industrial que domina o Estado desde que ele se tornou imperialista.
Porém, o complexo militar-industrial não tem mais a mesma hegemonia de outrora. Elon Musk e Peter Thiel chegaram para competir com ele. As novas empresas de tecnologia do Vale do Silício querem também uma fatia da indústria bélica dos Estados Unidos. E elas têm se apresentado como sendo muito mais leais a Trump do que o velho complexo militar-industrial, que vê com preocupação as movimentações do novo presidente para trocar peças-chave do comando das forças armadas e das agências de inteligência por homens de confiança – possivelmente do próprio MAGA. Seu maior medo é que Trump politize esses órgãos de segurança, abrindo as suas portas para as massas plebeias do trumpismo.
As Big Techs na indústria bélica
De fato, o complexo militar-industrial tentou impedir a vitória de Trump. Mas como não conseguiu, está tendo de se adequar aos novos tempos, enquanto busca acordos para preservar e, quem sabe, fortalecer o seu poder. Mark Zuckerberg, que sempre proporcionou os serviços de suas companhias para as agências de inteligência civil e militar, poderia ter se aproximado de Trump para recuperar o que perdeu de seu concorrente Musk, mas também para fazer uma ponte entre o complexo militar-industrial e o presidente. Ele deu um giro de 180º nos últimos meses, passando de um apoio notório aos democratas para uma bajulação exagerada de Trump.
Não é que Trump esteja realizando uma grande transformação do regime. Joe Biden já havia introduzido as Big Techs à indústria bélica. Também vinha adotando políticas claramente protecionistas e industriais. Mesmo na área dos direitos humanos – a grande carta demagógica dos democratas – o governo Biden já estava preparando o terreno para o trumpismo se assentar, implementando uma política migratória mais dura.
Entretanto, este primeiro momento do novo governo Trump parece conseguir unificar diferentes e contraditórios setores capitalistas. Além da Meta de Zuckerberg, Apple e Amazon também passaram para o lado do republicano, após financiarem a campanha democrata. Goldman Sachs, Bank of America, GM, Ford e AT&T também bancaram sua cerimônia de posse. Muitos bancos, os criadores e mantenedores do ambientalismo, agora estão migrando para as políticas climáticas de Trump. Ele foi muito aplaudido em Davos.
As diferentes camadas da ala empresarial e financeira têm muito mais em comum do que os trumpistas da ala plebeia imaginam. E elas estão se unindo precisamente para evitar que a turba de Steve Bannon tenha qualquer controle sobre as áreas estratégicas do regime. É claro que Trump sabe que o salário mínimo não aumenta há 15 anos e que precisa apresentar algo de positivo aos 40% de sindicalistas e à classe média empobrecida que votaram nele. A caça aos imigrantes mostra isso, bem como os cortes nas políticas identitárias. Mas não há a menor sombra de dúvida de que vai governar para os capitalistas.
Devido à contradição de interesses entre os distintos setores e alas que compõem a sua base de apoio, Trump também adota medidas que contradizem a vontade de cada uma delas. O grande capital não se interessa por uma deportação em massa, pois precisa de um excedente de mão de obra para baixar os custos e elevar seus lucros. Ele e o chamado “Deep State” também não gostaram do congelamento no financiamento às instituições internacionais pretensamente humanitárias, pois são um instrumento de infiltração e desestabilização de governos estrangeiros. Já à base plebeia do trumpismo, não interessa a promessa de cortes de até 30% nos gastos governamentais, pois isso afetará serviços essenciais à população, que já são extremamente precários.
Por outro lado, as ameaças contra meio mundo – inclusive militares e anexionistas – indicam um caminho extremamente perigoso. E o perigo reside na possibilidade de que esse apoio crescente que Trump vem recebendo, tanto da classe dominante dos EUA quanto da internacional, propicie a ele um poder comparável ou ainda maior do que o de George Bush Jr. para submeter nações pela força. Não pode haver dúvida de que as riquezas, recursos e mercados internacionais interessam tanto ao tradicional complexo militar-industrial quanto aos novos monopólios da tecnologia. Trump, que foi o presidente mais pacífico dos EUA em seu primeiro mandato, pode agora ser o mais guerreiro.
Questionado ontem se havia algo que o primeiro-ministro Justin Trudeau do Canadá pudesse oferecer para evitar as tarifas, Trump disse, na Sala Oval: “Gostaria de ver o Canadá tornar-se o nosso 51º estado”.
Essa resposta, meus amigos, resume onde estamos.
O Canadá e o México evitaram as tarifas durante os próximos 30 dias, mas não fizeram nada diferente do que estavam a fazer antes de Trump os ameaçar.
O plano para a fronteira do Canadá já estava em andamento, incluindo a implantação de tecnologia e pessoal adicional na fronteira. O México já havia intensificado a fiscalização da fronteira antes das ameaças de Trump.
No entanto, Trump está já a declarar vitória sobre o Canadá e sobre o México e, quando perguntado se vai aumentar as tarifas sobre os seus vizinhos no mês que vem, ele diz: “Veremos”.
Sempre que Trump diz “Veremos”, o que ele está realmente a dizer é “Vou esperar para ver quanta subserviência recebo“. Porque, como eu já notei, tal resposta é performativa. É sobre mostrar força — não apenas exibi-la para o Canadá e para o México, mas também para o resto do mundo — e, em troca, obter demonstrações de submissão.
A técnica de bullying mais antiga é ameaçar pequenos entes, que não têm nem de longe o poder que você tem — digamos, Canadá, México, Colômbia e Gronelândia (Gronelândia!) — e então, quando eles parecem ceder, anuncie que seu bullying funcionou. E então passe para alvos maiores.
Trump agora está a dizer que vai impor tarifas à União Europeia. O que é que a Europa precisa de fazer para as evitar? Trump não disse. Se lhe perguntassem ele diria: “Veremos”.
Enquanto isso, o sistema de comércio mundial está silenciosamente a reorientar-se. Empresas no Canadá, México e Europa estão a encarar-se como maiores parceiros potenciais para o comércio e o investimento direto — que se danem os Estados Unidos.
A China está a enviar convites a todas elas. Os Estados Unidos são uma economia enorme, mas a da China é maior. O seu mercado é enorme. E pode produzir maravilhas. Porquê beijar o traseiro de Trump? Porquê arriscar ainda mais com sua intimidação?
Este é o momento da China.
O comércio é uma pequena parte do bullying de Trump, é claro. Ele quer sinais de submissão — manifestações de respeito — de todos, incluindo dos centros de poder dentro dos Estados Unidos.
A submissão total destruirá a democracia americana, que foi projetada para impedir que um monarca assumisse o poder. Mas a submissão total não colocará a América de novo no caminho da primitiva vocação da sua democracia.
Ontem, um grupo politicamente diverso de académicos divulgou um boletim sobre o bem-estar americano. Enquanto Trump lança ameaças e insultos ao Canadá, México e Europa, o relatório apresenta uma comparação séria entre os Estados Unidos e outros países ricos.
Ele aponta que os Estados Unidos têm a menor expectativa de vida de qualquer país rico. (Isso não acontecia durante a maior parte do século XX.)
Os Estados Unidos também têm a maior taxa de homicídios entre todos os países ricos — não porque pessoas sem documentos estejam a saquear e a pilhar o país (a taxa de crimes violentos cometidos por pessoas que vivem ilegalmente nos Estados Unidos é menor do que a taxa de crimes violentos cometidos por pessoas que lá vivem legalmente) — mas por causa das taxas, notavelmente altas, de pobreza e falta de casa, bem como o acesso, extraordinariamente fácil, a armas.
Os Estados Unidos têm a maior taxa de overdoses fatais por drogas do mundo — não porque as drogas estejam a chegar do outro lado da fronteira, mas porque temos uma das maiores taxas de depressão e desesperança entre os jovens, especialmente entre os jovens que não vão ter acesso ao ensino superior.
E têm uma das menores taxas de confiança no governo federal. Porquê? O meu palpite é porque a maioria dos americanos vê a política americana como a forma de encher de muito dinheiro os bolsos das grandes corporações e dos super-ricos (como o Musk-rato, que investiu mais de um quarto de bilião para eleger Trump, e os outros 13 bilionários que agora trabalham para Trump).
Os americanos não odeiam o governo. Eles só querem um governo que trabalhe para eles — fornecendo Segurança Social e Medicare, e ajuda quando eles precisam (digamos, auxílio emergencial da FEMA) — não um que socorra grandes bancos e distribua “assistência social” às corporações. (Mãos ao alto se você acha que o Musk-rato vai acabar com a “assistência social” às corporações).
No geral, quando os americanos são questionados sobre o quão satisfeitos estão com as suas vidas, a sua classificação é mais baixa do que há três décadas. A nossa economia é muito maior do que era naquela altura, mas estamos mais miseráveis. É de se espantar?
Em vez de lidar com esses problemas reais, Trump está a dizer ao Canadá e ao México para fazerem o que já estão a fazer. E também quer que o Canadá se torne o 51º estado dos EUA.