A Terra é redonda

(António Guerreiro, in Público, 20/09/2019)

Parece que a nossa época é aquela em que tomámos consciência de que estamos confrontados com o perigo absoluto do fim da humanidade: este catastrofismo é o tom dominante, diariamente, nos media ocidentais que nos servem de referência.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Uma vez instalado este imaginário catastrofista, foram evacuadas a grande velocidade as reminiscências dos tempos modernos, que nos falavam de emancipação, progresso, liberdade, esperança. Agora, mal falamos em “esperança” vem-nos logo à memória a proposta desse “grande animal hanseático”, como alguém chamou ao filósofo alemão Peter Sloterdijk, que propôs em tempos que deviam ser postos na prisão todos aqueles que falam em esperança porque contribuem para a catástrofe. Recordemos que Sloterdijk é o filósofo que, com a sua teoria das esferas e do “espaço interior do mundo” nos veio mostrar que a Terra é redonda.

Podemos objectar que já o sabíamos há séculos. Pois sabíamos, mas só começámos a ver e a sentir verdadeiramente essa rotundidade quando os efeitos de tudo o que fazemos, em termos ecológicos, em qualquer parte do mundo, chegam até nós como um boomerang. Antes de a Terra ser única e redonda, como é hoje, os países ricos podiam sentir-se seguros ao depositar o seu lixo industrial nos países longínquos. Hoje, até o fundo dos mares está em circulação na superfície da nossa Terra redonda.

Curioso, e até divertido, é ver como nos vão sendo ministrados todo os dias ecopaliativos:. Dizem-nos: viaja o menos possível de avião, vai para a escola ou para o emprego de bicicleta, bebe só água da torneira, reutiliza os sacos plásticos, não deixes a torneira aberta enquanto lavas os dentes, toma atenção a todos os teus gestos quotidianos, torna-te um herói da salvação do planeta (como se o planeta estivesse interessado nos nossos esforços e não continuasse a existir depois de nós, tal como já existia antes de nós). Tudo isto não passa de formas de exorcismo e de recalcamento do medo, ao mesmo tempo que cria a ilusão de que estamos a responder à urgência.

Se olharmos com atenção e utilizarmos o bom senso (nem é preciso muita ciência) facilmente concluímos que muito pouco se faz porque era preciso virar os nossos modos de vida de pernas para o ar para se fazer alguma coisa eficaz (se ainda há tempo para isso porque obviamente não se pára de um dia para o outro um processo que começou há séculos). Não é que devamos continuar a agir como sempre agimos, mas todas estas ideias de boa vontade que surgem todos os dias como injunções acabam por esconder a questão política essencial.

Na verdade, passámos em pouco tempo de uma política com pouquíssima ecologia a uma ecologia de boa vontade à qual falta política. E essa falta torna vãs todas as boas intenções. O que vemos é que continua a ser difícil declinar essas duas palavras — ecologia e política — sob a forma de uma ecopolítica digna desse nome. Uma ecopolítica à altura dos desafios com que estamos confrontados terá de ser capaz de mostrar que as situações ecológicas, políticas, sociais, económicas, institucionais, tecnológicas e psíquicas estão em total conexão umas com as outras. Sem agir sobre todas estas dimensões, o “impasse planetário” mantém-se. Por isso é que são tão ingénuos os regulamentos avulsos e o pretenso “regresso à natureza” de tonalidade romântica.

Se já estamos a viver em pleno “perigo absoluto”, como afiançam até os cientistas colapsólogos e os catastrofistas esclarecidos, então só podemos concluir que não saímos ainda da imobilidade nem se vislumbra que iremos sair. A culpa é também das nossas representações das catástrofes: pensamos num acontecimento colossal (a Terra submetida a uma terrível operação que tanto pode ser vista como a aniquilação total como a sublime “obra de arte total”), que interrompe abruptamente o curso do mundo e da História. Ora, tal como o Messias que, para alguns autores da mística judaica, chega de maneira imperceptível, já aí está mas ainda ninguém deu por ele, também a catástrofe pode chegar imperceptivelmente: quando apreendemos os seus sinais já ela chegou com carácter de irreversibilidade.


Livro de Recitações

“No debate dos grandes, afinal quem ganhou a quem?”
Título do Expresso online, 17/09/2019

Nestas olimpíadas dos debates, ganhar nunca é o resultado de uma verificação que pode ser descrita, mas de um acto que se consuma através de frases proferidas por outrem: ganha sempre aquele que alguém diz que ganha. Se há vozes que, pela posição que ocupam, lhes é outorgada uma certa autoridade, então são elas que decidem se ganhou X ou Y, isto é, o que disserem consuma a vitória de um e a derrota do outro. Não se trata de árbitros, mas de jogadores num metajogo que se sobrepõe ao jogo de primeiro nível. Neste título do Expresso, toda a minha atenção vai para o “afinal”: perante todas as indecisões quanto ao resultado de um jogo que é por definição indecidível, há alguém que nos vem garantir, sob a forma de uma interrogação cuja resposta será dada a quem abrir o link, que há uma verdade de última instância, há “afinal” um vencedor de verdade. Afinal, quem ganha são sempre os metajogadores. E a final acontece sempre no dia seguinte.​

A religião, a carne de vaca e o Reitor da Universidade de Coimbra

(Carlos Esperança, 18/09/2019)

Imagem de António Neto Brandão, in Facebook

Preservar o ambiente e tornar sustentável o Planeta é assunto demasiado sério, que não se compadece com ironias fáceis ou adiamentos em período de emergência, mas há um mínimo de bom senso aparentemente alheio ao Reitor da Universidade de Coimbra.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Todos sabemos que o modo de vida das sociedades atuais não é sustentável e que a sua perpetuação só abreviará o prazo de validade do Planeta para a vida humana. É urgente um novo paradigma que me leva a refletir sobre o aquecimento global e as tragédias que nos aguardam, mas há diferenças entre a ponderação exigida e o exibicionismo fácil.

Desconhecia a competência do Magnífico Reitor nas ementas das cantinas e a função de nutricionista-mor para proibir um alimento não proscrito pelas autoridades sanitárias.

A abolição inopinada da carne de vaca parece-me uma prepotência própria de um crente cujo proselitismo não aceita o contraditório. O atual reitor da UC, uma instituição laica, já surpreendeu na tomada de posse ‘antecedida de Missa Solene na Capela de S. Miguel, pelas 9 horas’, em 18 de fevereiro deste Ano da Graça.

Foi uma atitude pioneira de indignidade, de que pode não ter sido o responsável, mas a sua posse integrou uma missa para abrilhantar a cerimónia, missa cujo anúncio inédito mereceu a indignação de vários docentes. Foi a primeira vez que um reitor tomou posse com missa anunciada.

Se em 1 de março foi o primeiro reitor a manifestar publicamente a preocupação com a salvação da alma, em 17 de setembro, meio ano depois, é pioneiro a salvar o Planeta. Espero que não pense que o pão ázimo, que alimenta a alma, transubstanciado em corpo e sangue, após os sinais cabalísticos, seja a fonte de proteínas para substituir a carne de vaca.

Para já, parece-me abuso de funções, à semelhança da Missa Solene, impor aos outros o direito individual que lhe assiste.

Como na missinha, volto agora a repudiar a prepotência do Magnífico Reitor, por não lhe reconhecer autoridade para a decisão que tomou.

Costa merece uma maioria absoluta?

(David Dinis, in Expresso Diário, 19/09/2019)

(Caro Dinis. A questão não é saber se Costa merece ou não. A questão é saber se o país precisa. Olhando para o saldo dos últimos quatro anos, com base no resumo do que foi feito usando os números do próprio Costa, a conclusão é que não precisa.

Comentário da Estátua, 19/09/2019)


Se tiver maioria absoluta é porque a mereço”, disse António Costa à TSF, no já distante setembro de 2017. Estávamos tão longe das legislativas que Costa ainda podia mostrar o desejo. Será que merece?

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Hoje, à beira da campanha eleitoral, cheios de sondagens na mão, sabemos que é por essa dúvida que estamos presos: o PS chegará ou não à maioria absoluta? A minha proposta é que pesemos os dados para procurar a resposta à pergunta dele: António Costa merece uma maioria absoluta?

Esta não foi uma semana boa para o ainda chefe de Governo. No confronto televisivo com Rui Rio, visto por 2,7 milhões de pessoas, o único consenso entre comentadores é que não foi ele o vencedor. Em boa verdade, isso será uma desilusão. E outra de seguida: o debate das rádios foi seis contra seis e quem mais sobressaiu foram as líderes do Bloco e do CDS.

A pior notícia para o Governo socialista, porém, foi a acusação judicial que fez cair o secretário de Estado da Proteção Civil. Não tanto pela acusação, mesmo sendo grave (corrupção, participação económica em negócio). Não por ser o quarto elemento do Governo a sair após uma acusação judicial. Mas pela forma como António Costa geriu este processo, desvalorizando no último mês e meio a responsabilidade política que o mesmo secretário de Estado teve sobre o caso.

Era fácil de perceber – e basta um parágrafo para o explicar: quando a polémica das golas apareceu, Artur Neves foi rápido a responsabilizar a Proteção Civil pelo contrato. Poucos dias depois, soube-se que foi o seu adjunto, levado por ele de Arouca para o gabinete, quem “tratou” dos mesmos contratos, demasiado altos para os valores de mercado, atribuídas a uma empresa com ligações ao PS e acabada de formar 15 dias antes. Num caso destes, em que um governante é apanhado em falso, não basta responsabilizar um adjunto. Tem de ser o político a assumi-las por inteiro. Não o fazendo, Costa ficou na mão do destino – e fez até muita questão de defender o seu secretário de Estado de outras acusações, garantindo ter feito o trabalho de casa. Problema: o destino calhou-lhe em plena campanha. Precisamente quando muitos portugueses (até socialistas) tentam resolver o dilema interior com que comecei este texto.

Não é a primeira vez que António Costa leva ao limite um julgamento sobre a responsabilidade política do seu Governo – ou de algum membro dele.

* Foi gritante no caso dos incêndios, onde o próprio Costa distribuiu as culpas irmãmente (pela Altice, governos passados, deputados e jornalistas que não ligaram às suas propostas sobre a floresta), recusando até os insistentes pedidos da sua ministra para sair pelo próprio pé (até ser forçado a isso, pela tragédia de outubro e pela mão do Presidente).

* Foi difícil no caso de Tancos, onde Costa viu o ministro desvalorizar o furto, pôr em causa a sua existência, proteger toda a estrutura militar e manter todos em funções, resumindo tudo a uma investigação judicial – até a investigação bater à porta de Azeredo Lopes.

* Podemos prosseguir com as muitas notícias sobre o “familygate”, onde o Governo desvalorizou tudo por igual (quando havia casos mais iguais do que outros), até provocar três baixas: duas em gabinetes, uma no próprio Governo: o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, que tinha nomeado adjunto o seu primo. E ainda está para vir o caso dos negócios dos familiares de governantes, tendo Costa pedido um parecer à PGR – que diz abertamente poder não seguir, se não concordar com as conclusões.

* E ainda podíamos juntar outros momentos. Como o desastre em Borba, onde Costa atirou culpas para as autarquias e pedreiras (até mandar o Governo fiscalizá-las em detalhe). Ou o caso Infarmed, onde decidiu com Rui Moreira a transferência da sede do instituto sem olhar a meios nem a consequências, acabando por anunciar uma suspensão do processo depois de receber uma chuva de críticas – e sem alguma vez reconhecer ter cometido um erro. De resto, vale a pena lembrar a última notícia sobre esse caso: Costa disse que a transferência estava suspensa e que pediria à comissão Cravinho que a estudasse (aquela que analisou a regionalização), mas agora o insuspeito João Cravinho veio dizer que não estudou porque ninguém lhe pediu.

Há quase um ano, noutro sítio, escrevi que este seria o dilema maior de muitos eleitores nestas legislativas: se é melhor para o país António Costa governar precisando do apoio da esquerda (ou do PAN), ou ser capaz de tomar as decisões necessárias sem estar “na mão” de alguém ou ter que ceder a outro(s) partido(s)?

A decisão, como é óbvio, é de cada um dos portugueses – e dependerá de três fatores: a evolução da economia (vai haver mais ou menos dinheiro para governar?); a perceção que temos do que é preciso fazer (e em que direção). Ou, pondo a dúvida de outra maneira: na conjuntura que se segue, se será maior o risco de ingovernabilidade ou de uma ditadura da maioria?

Mas, sim, eu disse três fatores que ajudarão cada um a decidir se, sim ou não, António Costa merece uma maioria absoluta. E falta dizer a terceira, que é o estilo de liderança de quem está ao leme. Nesta legislatura, ele surpreendeu muitos pela positiva. E na próxima?

P.S. Convém anotar que, em quase todos os casos que acima relatei, o primeiro-ministro disse o que disse e fez o que fez governando em minoria e dependendo sempre do apoio explícito do BE e PCP. Em matéria ética, esses partidos optaram por não pôr em causa o primeiro-ministro ou o Governo em funções. Muitas vezes, optaram até pelo silêncio. Na verdade, desse ponto de vista, terá sido quase um teste para a maioria. Ou um empurrão para Costa a conseguir.