Não há como não fazer nada

(Raquel Varela, in Facebook, 25/01/2025, Revisão da Estátua)

Imagem obtida no mural do VK de António Lopes

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Terá passado despercebido que o líder do partido fascista Chega ameaçou o Presidente da Assembleia da República (AR), ameaçando de porrada o deputado ladrão de malas, vendedor da Vinted? (“Não me posso responsabilizar pelo que faça a minha bancada”, cito a frase exata). O Presidente da AR, morto de coragem, suspendeu os trabalhos.

Ora, a pergunta singela é esta: o que tem a ver um Trump rodeado de bilionários, que controlam todos os nossos dados com vigilância e IA, e um deles – Musk – a fazer a saudação nazi, com a ameaça de pugilato na AR em Portugal?

Perdoem-me a lição de história pelas nove horas da manhã de sábado e o tom professoral – não deve haver um debate nem um ponto de vista sobre aquele gesto. Não é matéria de opinião, é de facto. Aquilo é a saudação nazi. A função dos jornais não é perguntar se foi. É afirmar que foi. E não é preciso professores de história para o afirmar. É só preciso ousar pensar e ser rigoroso. A realidade ainda existe, para além de nós e das nossas opiniões.

Perguntava eu, o que tem Trump – auto coroado Napoleão, que deu um passaporte ao mundo de caça ao imigrante – a ver com este cenário de um partido no Parlamento português que ameaça o Presidente da AR e um deputado, em direto na TV, e tudo fica, enfim, normal. Qual a diferença entre um Parlamento e um ginásio de artes marciais?

Bom, deixo-vos dois conselhos: vão ver o Ainda Estou Aqui – que filme maravilhoso, lindo, sublime -, e também o Pequenas Coisas como Esta. São dois retratos atuais do estado do mundo. Em ambos ressoa-nos ao ouvido esta frase batida, dita por uma das personagens à mãe: Não há como não fazer nada.

Tenho escrito aqui – o debate de ideias no fascismo histórico é secundário. Pode dizer-se qualquer coisa porque o obscurantismo científico domina (será ou não o gesto de Musk a saudação nazi?). Os fascistas andam à porrada, não lutam com ideias. Lutam com violência e ameaça. São a passagem da pequena burguesia radical jacobina das revoluções burguesas no século XIX à pequena burguesia reacionária fascista do século XX e XXI. Inflados pelo medo de perder as suas empresas na concorrência capitalista, enterrados em impostos, com medo dos grandes capitalistas e, do outro lado, das greves e da revolução social, tornam-se eles próprios armas, milícias. São os pequenos empresários, e toda uma composição social de lúmpen proletariado, todos desesperados. Estão aqui para ameaçar, amedrontar, gritar, mandar calar.

O segundo conselho é uma reflexão, essa sim, penso que precisamos de a fazer com calma (procuro fazê-la em aulas públicas e livros, aqui é sempre superficial e, na televisão, o tempo é escasso). Mas aí vai.

 Talvez nós não estejamos perante um novo fascismo, porque o fascismo tem o seu tempo como transição histórica, mas sim perante algo pior. Ter os campos de concentração como bitola do mal total é uma muleta que nos pode enganar.

O que se passou na Palestina este ano, com o assumir que valem todas as mortes de crianças e médicos, se se matarem membros do Hamas pelo caminho (Hitler escondeu do mundo os campos de morte); o grau de militarização constante da sociedade (todos os dias os governantes, portugueses também, pedem mais investimento “na indústria de defesa”, ou seja, dinheiro para a guerra e para a morte); o poder nuclear, a IA na guerra e a concentração de poder e saber/vigilância em meia dúzia de empresas que controlam todos os dados, fluxos e até grande parte dos sentimentos; tudo isso junto pode – digo como possibilidade histórica –  colocar-nos perante um monstro ainda pior do que o nazismo.

E por isso os tempos que aí vêm exigem de todos nós, de cada um de nós, organização, empenho, pensar e agir, porque não há como não fazer nada.

Não lhes pergunto onde estavam no 25 de novembro

(Raquel Varela, in Facebook, 25/11/2024)

Pacheco Pereira, Irene Pimentel, José Manuel Fernandes, Helena Matos

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É divertido ver hoje escrito por Pacheco Pereira, Irene Pimentel, José Manuel Fernandes, Helena Matos – e tantos outros, sem nunca citarem – a minha tese de doutoramento sobre o papel do PCP na Revolução.

Quando a defendi o júri foi, uma parte dele, duríssimo, como eu nunca tinha visto um júri. E a reação destes dois historiadores e dois jornalistas foi de um enorme incómodo, para ser delicada. O tempo é sábio. Foi publicada em 2011. Não precisam de me citar, vivo muito bem com o livro, o que lá está já ninguém apaga.

 Na inquisição das disputas políticas em geral ataca-se pessoas, ignora-se a sua existência ou finge-se que as ideias são novas. Um país com escassos quadros e todos dependentes do aparelho de Estado é assim. Os quatro apoiaram o 25 de novembro. Não porque, como alguns, foram perseguidos pelo PCP, mas, como o tempo o demonstrou, queriam estar ao lado do aparelho de estado.

Não, o PCP nunca quis fazer uma revolução em Portugal. Queria Angola e a reforma agrária. O 25 de Novembro foi o cerco à democracia popular com a desculpa – do PS – que era para evitar uma ditadura soviética.

O que acabou em 25 de novembro foram 19 meses de democracia participativa como nunca se viveu antes na história de Portugal. A contra revolução não nos “salvou” de uma ditadura soviética, impôs sim um regime de democracia formal nas eleições, e ditadura, cada vez mais severa, nos locais de trabalho, retirando a voz a quem nas fábricas, escolas, hospitais e serviços geriu ( com uma eficácia sem paralelo) este país por 19 meses mostrando que era possível viver de outra forma.

Não lhes pergunto onde estavam no 25 de novembro claro, já sabemos, mas onde estão hoje face à NATO e a Israel. Porque é isso que se debate na AR a propósito do 25 de Novembro. Onde estão, hoje, face ao rearmamento da Europa e ao genocídio em Gaza?

Imaginem que um terrorista se esconde na escola dos vossos filhos

(Raquel Varela, in Facebook, 21/11/2024)


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Imaginem que um terrorista se esconde na escola dos vossos filhos, e o Governo decide bombardear toda a escola e matar todas as crianças para matar o terrorista.

 Nem sequer vou debater quem é o alegado terrorista, o que é a violência colonial e a resistência, o que é o Hamas ou não é, assuma-se que aquele homem escondido na escola será o pior ser humano do mundo, alguém pode alguma vez aceitar que um governo faça explodir 18 mil crianças e deixe dezenas de milhar amputadas, sem pernas, sem braços, destruídas mentalmente para sempre para matar quem quer que seja do Hamas?

Como se pode matar médicos e enfermeiros porque estava aí escondido um membro do Hamas, ou mesmo mísseis? Sim, imaginemos que amanhã os piores criminosos do mundo se barricam no Hospital Santa Maria, que faz o Governo? Bombardeia o hospital? Quem não percebe isto e não toma posição, é cúmplice.

Não há nenhuma comparação entre o que se passa na Ucrânia e em Gaza. A Ucrânia é uma guerra trágica, Gaza é um campo de morte, sem fuga possível.

Há um novo ar do tempo. Os nazis esconderam os campos de concentração e extermínio, e negaram a sua existência; os bombardeamentos de civis eram vistos como intoleráveis. E também negados na II Guerra, até se tornar claro que eram uma opção. Mesmo na guerra do golfo inventaram “dano colateral”.

Israel e os governos cúmplices matam em direto, todos os dias, não negam, não lhe chamam dano colateral, vemos mesmo os líderes políticos e militares salivarem como loucos com a matança.

 Sim, é o mais importante combate das nossas vidas. Defender a Palestina. Porque do outro lado está a defesa, para todo o mundo, de que não há qualquer lei na guerra e de que vale tudo. Até o extermínio, caído do céu, em direto.