O BLÁ, BLÁ, BLÁ DO B.H.L.

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 01/05/2015)

Clara Ferreira Alves

                               Clara Ferreira Alves

A democracia é uma lenta transição e não um ato imediato e não podemos esperar que uma primavera faça num ano o que fizemos em séculos.

Novecentas pessoas afogadas numa semana é uma tragédia que deixou a Europa “horrorizada”. Noventa mil pessoas mortas na guerra é um facto da vida. Há anos que a Europa sabe dos afogamentos, naufrágios e desastres do Estreito de Gibraltar. Nas praias da costa de Cádis jazem os despojos da “tragédia”. Roupas, sacos de plástico, sapatos. E cadáveres inchados. A Europa não quis pensar neste problema e estabeleceu um “cordão sanitário” que separa as vidas boas das vidas más. Nos campos de internamento dos enclaves de Ceuta e Melilla, os africanos esperam Godot. Nas zonas de Casiago, Castillejos e nos montes de Tetuão e Tânger (em Marrocos), mais de trinta mil subsarianos esperam para entrar em Ceuta e Melilla. A Europa assacou o problema a Espanha, e Espanha, obedecendo, transformou uma particular ação de repatriamento numa devolução dos migrantes ao Sara sem cuidar de saber se sobreviveriam. As organizações de direitos humanos protestaram, mas não há muito que estas organizações possam fazer nos desertos da Argélia.

Apesar da corrente imparável, a União Europeia nunca decidiu ter uma discussão séria sobre um assunto delicado. De facto, a Europa não poderia acolher todos os migrantes e refugiados. A chegada das primaveras árabes, essas revoltas condenadas ao insucesso e tão elogiadas por jornalistas românticos, determinou uma instabilidade absoluta do Médio Oriente e uma hipocrisia reinante sobre a natureza autocrática dos regimes. Nesta região, o que se passa num país contamina os países fronteiriços. Os países árabes desconhecem a democracia liberal e a sua tradição tribal e religiosa faz com que as monarquias ou regimes absolutos e autoritários consigam o que um esquisso de democracia não consegue, paz social e crescimento económico sustentados na tirania e na corrupção. Junte-se ao caldo a pobreza e iliteracia das populações. A democracia é uma lenta transição e não um ato imediato e não podemos esperar que uma primavera faça num ano o que fizemos em séculos. As desestruturadas oposições são corrompidas ou destruídas, como se vê pela condenação de Morsi no Egito. Ou pela flagelação do bloguer saudita. Estes regimes têm para o ocidente vantagens: a venda maciça de armas e equipamento bélico, a venda de bens de luxo, a venda de know-how e tecnologia, a venda de conhecimento. Oxford e o Louvre estão no Qatar. E a compra de gás e petróleo, mais o investimento árabe em metrópoles como Londres e Paris ou paraísos artificiais como Marbella. O Ocidente pode continuar a vender a ideia democrática mas sabe, e agora sabe mais, que lhe convém manter os regimes absolutos e os xeques e generais da Arábia Saudita, do Egito, do Qatar, dos Emirados, do Bahrein, da Argélia, etc. E o regime iraniano. Os republicanos americanos, na gritaria contra o Irão dos ayatollahs, deviam calcular que um Irão instável e vagamente parecido com o Iraque geraria uma guerra nuclear. Mais vale o diabo que conhecemos. Os exemplos da Líbia, do Iémen, do Iraque e da Síria demonstram a evidência de não promover mudanças de regime manu militari. Mudanças que inundariam a Europa não só de subsarianos como de árabes expulsos das suas terras pela violência e a guerra. E que trariam o caos económico, demográfico e financeiro, porque os preços do petróleo estão indexados à estabilidade de países produtores. A emergência do Estado Islâmico dos atoleiros do Iraque e da Síria, com o patrocínio do estado de guerra entre sunitas e xiitas e respetivos benfeitores, é uma evolução inesperada. Mudanças súbitas de regime são a instituição do apocalipse. O bombardeamento da Líbia e a remoção de Khadafi quando deixara de ser um inimigo e se convertera num aliado foi uma manobra impensada. Claro que Khadafi era um tirano mas o general Sisi não é? E os outros monarcas e presidentes vitalícios? E os xeques sauditas não são? A Arábia Saudita bombardeia o Iémen e a comunidade internacional não emite um som. A Líbia conduziu ao desastre total. Assad viu o vídeo do assassínio de Khadafi e endureceu, determinando o fim das conversações na Síria. O Mali foi inundado de mercenários e militantes islâmicos. O Níger e o Chade também. Os bombardeamentos na Líbia reforçaram a hostilidade da Rússia que foi deixada de lado na decisão. E, para cúmulo, suspeitamos que os bombardeamentos foram uma operação de limpeza para esconder financiamentos ilegais a Sarkozy e Cameron. Obama embarcou nesta conspiração a que o filósofo Bernard-Henri Lévy, um narcisista parisiense no seu pior, deu o verniz revolucionário e a caução intelectual. Quando lhe perguntaram agora por que razão o fez, respondeu que queria demonstrar que um judeu como ele também pode ajudar os árabes. E por, cito: “blá, blá, blá”. Bombardeou-se a Líbia pelo blá, blá, blá do B.H.L.

A MÁQUINA DE CORTAR FIAMBRE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 25/04/2015)

Clara Ferreira Alves

                Clara Ferreira Alves

Na vulgata bíblica, o nosso coelho seria um bem-aventurado, bem-aventurados os pobres de espírito porque deles será o reino dos céus.

Temos de considerar os pronunciamentos do primeiro-ministro como indissociáveis do dr. Passos Coelho. O que quer dizer que quando diz uma palurdice com jovialidade ou desdém, o primeiro-ministro fala. E Passos Coelho diz não uma mas várias palurdices. Anote-se a imaginativa comparação de Portugal com Singapura e a aposta na “competitividade” da economia portuguesa (a sétima mais lenta do mundo). É a comparação do sétimo cágado do mundo com o galgo asiático. Calcula-se que o nosso primeiro nunca tenha posto um pé em Singapura e muito menos passado os olhos pelas obras completas de Lee Kwan Yew. Um fez do prostíbulo e entreposto colonial de Singapura um país moderno, próspero e que trata bem os seus nacionais, outro esqueceu-se de pagar a Segurança Social e em vez de escrever e fazer obra entretém-se a denunciar os pecados alheios e a desculpar-se dos próprios. Na vulgata bíblica, o nosso Coelho seria um bem-aventurado, bem-aventurados os pobres de espírito porque deles será o reino dos céus. Um simples. Mas teria de ser um simples de coração e quanto a isto não estou certa. Vem à tona na pior altura um rancor ou uma malícia que diminuem qualquer primeiro-ministro. José Mariano Gago, um ex-ministro e um colega da política e de Governo morreu. Morreu discretamente, como viveu. Os homens com obra não precisam de portadores de recados nem de agências de comunicação. O ex-ministro da Ciência morreu e o que se espera de um chefe de Governo é que, educadamente, lamente a perda, cumprimente a família e faça o elogio institucional. Não se trata aqui de mortuis nihil nisi bonum e sim de um ato de justiça. E não se ajustam contas nem se fazem insinuações com mortos. Li nos jornais que no pronunciamento público sobre a perda, o primeiro-ministro introduziu um “apesar de”. Deu um contributo inestimável “apesar de” ter feito parte de governos socialistas. É como entrar num funeral e dar os pêsames à família dizendo: foi um grande homem apesar de ser vosso parente. Porque José Mariano Gago foi não apenas um ministro visionário, competente e dedicado que mudou a educação e qualificação científica em Portugal, fê-lo com o Partido Socialista e com os socialistas. Tinha sido um resistente, um chefe estudantil da oposição que não tinha medo do regime e que conseguia ser ao mesmo tempo um aluno brilhante, destemido e convicto. José Mariano Gago trabalhou com António Guterres e com José Sócrates como primeiros-ministros e nunca renegou essa companhia. O problema de Passos Coelho, e do corpo expedicionário que o acompanha na intimidade do boudoir político e aos quais, como dizem as notícias, ele “ouve”, e que “consulta”, é o da falta de juízo e conselho. Deviam obrigá-lo a medir as palavras porque há um limite para a palurdice. Ou o primeiro-ministro pensa o que diz, e acha que se Mariano Gago não fosse socialista aumentava o seu capital humano, político e científico, ou então o primeiro-ministro estava a fazer humor à custa de um adversário político prematuramente morto por doença. O diabo que escolha.

Há uns bons anos, se a memória não me falha e a memória do então vivo Vasco Graça Moura também não, o romancista Fernando Namora tinha num dos romances a frase: “o ruído ensurdecedor da máquina de cortar fiambre”. Namora teve o seu período de esplendor e foi sepultado sem ter ressuscitado mas no tempo em que isto se passava estava muito vivo e era muito lido e vendido. O Vasco e eu tínhamos uma pequena coleção de pérolas literárias, uma coleção de péssimas imagens da literatura portuguesa, e esta era uma delas. Uma descoberta do Vasco, juntamente com esta de outro estro: “O pôr do sol no Tejo parecia a hemoptise de um príncipe russo”. Ou mais ou menos isto… Eu gosto particularmente do ruído ensurdecedor da máquina de cortar fiambre, que me parece um arranjo minucioso de insignificâncias. Suponho que o autor comparava o ruído ensurdecedor da máquina de cortar fiambre a uma orgia sonora destinada a contrastar ou reforçar o resto da frase. Nunca li o livro nem li a frase mas confio na memória seletiva do Vasco Graça Moura. Se não fosse de Namora seria igualmente válida a proposição. Utilize-se o ruído ensurdecedor da máquina de cortar fiambre quando há necessidade de um termo que defina a frase destituída de sentido, nula, prodigiosamente vazia. O “cant.” Muito do jargão político oficial é isto. E muito do discurso político do PSD de Passos é isto, o ruído ensurdecedor da máquina de cortar fiambre. Se quisermos associar à imagem a ideia de austeridade, cortar o fiambre, a frase é perfeita. E o autor um génio porque o que não resultou na literatura resultou, por metáfora e metonímia, na vida.

BRING BACK OUR GIRLS

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 18/04/2015)

Clara Ferreira Alves

                       Clara Ferreira Alves

Somos capazes de tudo a que nos propomos ser capazes, exceto de resgatar 219 raparigas raptadas por um grupo terrorista islâmico em África.

Somos capazes de enviar robôs para planetas distantes, de espiar as estrelas, de acelerar partículas para descobrir a origem do Universo. Somos capazes de inventar armas que matam à distância com acuidade e de inventar um relógio de pulso que é um computador. Somos capazes de viajar na internet e de escrever códigos que nos obedeçam e nos controlem. Somos capazes de curar doenças e de praticar medicina com máquinas que analisam os recantos do corpo. Somos capazes de viajar a alta velocidade e de transportar mercadorias e pessoas para lugares remotos. Somos capazes de construir torres de centenas de metros que competem em altura. Somos capazes de matar sem ver o que matamos. Somos capazes de tratar sem ver o que tratamos. Somos capazes de navegar no cérebro humano e desenhar mapas da razão e da emoção. Somos capazes de estabelecer a geografia dos mares e dos continentes. Somos capazes de extrair matérias-primas de lugares onde ninguém penetrou durante séculos. Somos capazes de pensar e criar mundos abstratos. Somos capazes de multiplicar dinheiro e riqueza. Somos capazes de cálculos matemáticos complexos. Desvendamos o infinitamente grande, o cosmos, e o infinitamente pequeno, as nanopartículas.

Somos capazes de tudo a que nos propomos ser capazes, exceto de resgatar 219 raparigas raptadas por um grupo terrorista islâmico em África.

Há um ano, o Boko Haram entrou numa escola no nordeste da Nigéria e levou consigo 276 raparigas chibok, alunas da escola. O sequestro deixou um rasto de cadáveres. Algumas raparigas fugiram, entretanto. As raptadas foram mostradas num vídeo, e o grupo prometeu convertê-las ao Islão e providenciar educação islâmica. Boko Haram significa Educação Ocidental é Proibida na língua hausa.

Um ano depois, o mundo volta aos gestos simbólicos, à campanha do Facebook, aos cartazes empunhados por personagens famosas, às vigílias à luz da vela e às manifestações de indignação. Malala, a Prémio Nobel da Paz, escreveu e leu uma carta a rogar que libertem as “irmãs”.

O Presidente Goodluck Jonathan acaba de perder as eleições e de ser substituído por outro, um militar com reputação dura, mas o novo Presidente diz que não sabemos se as raparigas podem ser resgatadas. É uma manifestação de fraqueza e impotência que remata um problema que ninguém parece interessado em resolver. A Nigéria, um país rico em petróleo, tentou uma atabalhoada ofensiva militar e encetar negociações com o grupo islâmico. Prometeu libertar prisioneiros do Boko Haram. Rodeou-se de conselheiros e peritos da China, da França, de Israel, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Numa única operação da ofensiva militar, o exército nigeriano fez 600 mortos e muitos danos colaterais. Os soldados não respeitam os direitos humanos e caracterizam-se pela indisciplina e corrupção. Os chefes militares dizem que necessitam de mais armas e de mais treino, e os países ocidentais estão proibidos de vender armas militares à Nigéria. Há quem pense que a Nigéria aproveitaria para destruir os inimigos políticos.

O Boko Haram nasceu em 2002 e prometeu estabelecer um Estado Islâmico na Nigéria em 2009. Durante anos esteve fora dos radares e ninguém se importou com os massacres, porque a Nigéria não fica no Médio Oriente. Em 2013, os Estados Unidos incluíram o Boko Haram na lista de grupos terroristas. Não deixa de ser irónico que tenha demorado tanto tempo e que esta semana o Presidente Obama tenha pedido ao Congresso para deixar de considerar Cuba um Estado terrorista. Os pobres e inofensivos cubanos constituem uma terrível ameaça para a integridade territorial e a segurança americanas e deve ser por essa razão que os republicanos se opõem.

O que se conclui é que, quando os americanos não investem pessoas e recursos numa situação e enviam as suas armas e tropas especiais, o resto do mundo fica sentado. A operação deveria talvez ser confiada a mercenários chefiados por Sylvester Stallone, os únicos resgates que mobilizam a atenção global. Aliás, o Boko Haram foi repelido de territórios que ocupava no norte da Nigéria graças à ajuda de antigos mercenários sul-africanos desempregados de guerra, velhos gladiadores que sabem combater. Por causa deste empurrão, os nigerianos dizem que não sabem onde estão agora as raparigas. Num mundo vigiado por satélites, ninguém sabe como as encontrar. A operação de resgate seria complexa e colocaria a vida das reféns em perigo, sem dúvida, mas não seria mais complexa do que outras operações especiais. Trata-se de um problema que ninguém está interessado em resolver. A Amnistia Internacional alerta para as mais de 2000 raparigas raptadas que o Boko Haram usa como cozinheiras, criadas, escravas sexuais e soldados. Talvez uma mulher na Casa Branca ajude a tornar os problemas insolúveis com mulheres no meio em missões cumpridas por fim.