Portugal, um país de grandes feitos

(Carlos Esperança, in Facebook, 26/10/2025)

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Conhecido o desfecho das eleições no Benfica e vencida a ansiedade sobre o nome do presidente, o orgulho no record mundial de votantes fez esquecer o drama da falta de boletins e o gozo do fracasso das sondagens.

Podemos agora aguardar noticiários diversificados e passar a outros assuntos. A segunda volta ficou decidida com a enorme diferença que separa os dois candidatos mais votados na longa noite a que foi acrescentada uma hora.

Até passou despercebido o regresso de Marcelo, cuja ausência de Belém fora ignorada e o mau tempo impediu a visita à ilha do Corvo. É sina dos presidentes da direita, quando o país se cansa deles, empreender uma visita às mais pequenas parcelas lusas.

E ambos se esqueceram do Principado da Pontinha, junto ao Funchal onde, nos seus 178 metros quadrados, mal cabem os luzidios séquitos que os acompanham, sem contar com os numerosos jornalistas que Marcelo não dispensa. No fundo, é um Principado exíguo para tão excelso Príncipe.

São episódios notáveis que a História registará: a Marcelo, o mau tempo a recusar-lhe a deslocação ao Corvo, e a Cavaco, a agitação marítima normal a obrigar o Comandante Supremo a regressar dos Ilhéus das Formigas ao colo de um grumete.

É agora altura de apreciar o mérito do Governo que se apoderou da Pátria, que Marcelo transferiu ao Luís, e das suas vitórias retumbantes com tão parco reconhecimento para tamanho mérito. Só falta o reforço de Marques Mendes como notário em Belém, para a Revolução que promete.

O Governo começou a revolução com a mudança do logótipo da República e a ministra da Saúde continuou-a para resolver os problemas do SNS. Depois de gastar no INEM 4 presidentes, tomou uma decisão corajosa, alterou-lhe o nome para ANEM. O Governo começou com a revolução estética e prossegue agora com a revolução semântica.

Com a privatização das empresas que restam ao Estado, a Saúde a caminho de privados e das Misericórdias, a Segurança Social a adaptar-se ao mercado de capitais, torna-se urgente privatizar os Tribunais para julgar Galamba e arquivar rapidamente o problema da Spinumviva.

Salazar e Ventura

(Carlos Esperança, in Facebook, 25/10/2025)


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Há em Ventura os 3 Salazares de que – segundo diz –, Portugal precisa, o que é, o que sonha ser e o que não pensa, com uma feliz coincidência, nenhum procriou.

O verdadeiro não comentava futebol, tinha horror às câmaras de televisão e não exibia a sua fé em público; o genérico é comentador, não sai do ar e leva o rosário no bolso para mostrar durante os refluxos esofágicos.

Salazar vivia em S. Bento, era avesso a multidões e parco em palavras; Ventura vive no Parque das Nações, fala pelos cotovelos, adora ser escutado e dá mais entrevistas num só mês do que o seu ídolo em toda a vida.

O ditador estabeleceu a censura, a bufaria, as perseguições, a prisão, a tortura, o degredo e o assassinato para os adversários; o 4.º Pastorinho ainda não.

O verdadeiro lançou Portugal na guerra colonial e fez morrer jovens durante uma dúzia de anos numa causa perdida, injusta e criminosa, e ficou impune. Hoje as tropas não se arriscam sequer a reconquistar Olivença e quem as mandar morrer não fica impune.

Salazar falava pouco para não se contradizer; este contradiz-se para falar ainda mais.

O sinistro estadista não se confessava, porque alegava que os segredos de Estado não se podiam revelar, não se ajoelhava perante o clero e era este que se ajoelhava perante ele.

Salazar prescindiu do diretor espiritual do seminário e não o substituiu. E, porque eram outros os tempos ou porque era mais casto, não foi publicamente suspeito de pedofilia.

Salazar morreu na cama convencido de que era ainda o primeiro-ministro, e o André só sabe como morreu Mussolini, o católico que prestou maiores serviços à Igreja católica e de quem o Deus do André se esqueceu.

Salazar era sóbrio, não era palhaço, mas também era um homem a quem os portugueses insultavam a mãe. Em privado, naturalmente. Com Ventura ainda é às escâncaras.

Foto: Ventura com o seu confessor do seminário e diretor espiritual na vida adulta.

Balsemão, o Expresso e eu

(Carlos Esperança, in Facebook, 24/10/2025)


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Descansem leitores, não falarei das minhas relações com o ora defunto, em vida, claro, do cumprimento afetuoso, das refeições, do gosto em ouvir-me e de outros momentos que engrandecem o ego de tantos e, no meu caso, jamais aconteceram.

Só uma vez nos cruzámos, ele a entrar na SIC e eu a aguardar a ida a um programa, por presidir à Associação Ateísta Portuguesa. Devo-lhe dois ou três jantares, número igual de dormidas, e o pagamento de alguns táxis e bilhetes de comboio das deslocações entre Coimbra e Lisboa, nos dois sentidos. E, confesso, só agora pensei que teria sido ele.

Nunca esperei que no universo empresarial do grupo Balsemão, com Expresso, SIC ou qualquer outra publicação, nascesse um órgão anticapitalista. Apenas exigi informação decente, sabendo até que a decência tem limites, quando a ordem capitalista e interesses que a põem em causa estão em jogo. Paguei sempre o Expresso e este deu-me o mínimo que lhe exigi. Estamos quites nesta caminhada conjunta desde janeiro de 1973 até hoje.

O Expresso de hoje é dos mais desinteressantes de seus mais de 52 anos, ainda assim, a valer a pena, não pela informação, mas pelo que nele escreveram os que tiveram ou têm importância política. Esperava o panegírico do falecido, seria, aliás, ingratidão e motivo de incredulidade se assim não fosse.

Encontrei o depoimento dos que esperava. Mais uma vez, o Expresso não me desiludiu.

Não calculam o prazer que me deu Cavaco a falar de si próprio a pretexto de Balsemão e, em uma só frase, resumir a importância que se atribui e a dissimulação de que é capaz o neoliberal autoproclamado ideólogo da “social-democracia moderna”. Referindo-se ao Congresso do PPD na Figueira da Foz: “(…)  Balsemão liderou, com João Salgueiro, a lista de oposição à minha eleição para presidente do Partido”.

Quem descobre, entre a dissimulação e a hipocrisia, que João Salgueiro era o candidato e ele a criação inesperada do golpe de Marcelo, com proponentes falsos, garantidos por A. João Jardim, os da Madeira, para levarem o salazarista a líder do PPD? Derrotaram quem Marcelo designaria “um dos seus [de Portugal] mais brilhantes economistas da segunda metade do século XX”. Na morte, pois claro.

O resto da desgraça é conhecido. Deixo aqui, mais uma vez, o nome dos que apostaram em fazer regressar ao poder, por via democrática, a velha política, surgidos no início de 1984, organizados, sob o pseudónimo de “Nova Esperança”: Marcelo R. Sousa, José Miguel Júdice, Santana Lopes, Durão Barroso e António Pinto Leite. E triunfaram!

Já me alonguei e fico por aqui com a imensa mágoa de ver Ramalho Eanes a referir-se à ditadura por «Regime anterior». E votei eu neste militar de Abril contra o PSD e o CDS!

Não vou agora falar mais de Marcelo, do homem que escreve e fala bem e trai melhor.

Termino com a foto do ecrã do meu televisor (na imagem acima) quando Francisco Pedro Balsemão, filho do falecido, se referia aos Hipócritas e Tartufos que traíram o pai, alguns ali à espera da hóstia, «na altura em que foi injustiçado pela classe política» (sic).