As intempéries da nossa incúria

(Carlos Esperança, in Facebook, 16/11/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Enquanto o País se desfaz com a intempérie que soterra pessoas e bens numa enxurrada que derruba pontes e alui estradas, esquecem-se os fogos que tragaram gente e florestas, e criaram substâncias tóxicas que vão, nas escorrências, envenenar os lençóis freáticos.

Nos incêndios, no elevador da Glória e agora nas chuvas, há sempre gente que morre, já há três vítimas mortais causadas pelo mau tempo, património ambiental que se perde, flora e fauna irrecuperável e terrenos aráveis minguam. A poluição aumenta, o combate à emergência climática é desprezado, em Portugal e no resto da Europa, e as catástrofes são cada vez mais intensas, frequentes e duradouras.

Enquanto se opta pelo gás de xisto, o mais maléfico para o ambiente e o mais caro, para que os EUA continuem a vender armas à EU e a impor-nos tarifas mais gravosas do que ao Reino Unido, descuram-se prioridades e compromete-se o futuro.

O Governo português, que não pagou ainda indemnizações a que se comprometeu nos incêndios, já promete outras para as inundações cujos prejuízos estão ainda por avaliar.

O País está abúlico, aturdido com as desgraças, espantado com os atropelos da Justiça. Um PM demitiu-se, vítima da trama urdida em Belém pelo PR e PGR, o presidente de um Governo Regional está arguido e integra o Conselho de Estado, um juiz perseguido vê negado acesso ao processo mandado destruir à sorrelfa e um Procurador procura agora esconder várias páginas. Ninguém é punido, nem julgado. E ninguém se indigna!

O caos atinge a Saúde enquanto os hospitais privados florescem; substituem-se gestores por amigos; distribuem-se os excedentes e cativações do anterior Governo por dezanove careiras da função pública e criam-se novas desigualdades; atribuem-se suplementos de pensões em vésperas de eleições; atacam-se direitos dos trabalhadores e desmantela-se o Estado social. E a apatia do país continua, perante o povo anestesiado pela propaganda e assustado com burkas e imigrantes.

André Ventura insulta os PALOP, ameaça a democracia, perturba a convivência pacífica e apela subliminarmente à reversão da independência dos Países do “nosso Ultramar infelizmente perdido”, desejoso de ordenar aos soldados, “para Angola rapidamente e em força”, sem um sobressalto cívico perante a sua demência ruidosa e provocatória.

Talvez tudo isto explique que um compromisso assumido pelo ministro das Finanças, o aval de 2.500 milhões de euros a um empréstimo assente em ativos russos congelados, a favor da Ucrânia, fosse assumido “genericamente” por Miranda Sarmento, em Conselho de ministros das Finanças da UE, sem que pareça preocupar os portugueses.

E se, por acaso da sorte, a guerra na Ucrânia não nos favorecer ou os Tribunais vierem a recusar o criativo confisco de bens russos, os portugueses, agora ignorados, dispor-se-ão a pagar o ónus da decisão tomada à sua revelia?

Sou só eu, que não estarei cá para pagar a conta, que me assusto?

As eleições do Benfica e a manifestação de trabalhadores em Lisboa

(Carlos Esperança, in Facebook, 09/11/2025)

Na imagem o desfile dos manifestantes captado por um jornal diário.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Ontem, com a Pátria suspensa nas eleições presidenciais (do Benfica), a ameaçar uma longa noite para contagem dos votos em Portugal e no Mundo, desliguei cedo a TV.

Compreendi que a SIC-N, RTP-3; CNN; CMTV e NOW, justamente preocupadas com o que estava em jogo, nem em rodapé distraíssem os telespetadores dos mapas interativos e dos sábios que explicavam aos portugueses a evolução dos resultados eleitorais.

Parece que nas duas voltas, a de ontem substituiu a anterior no Guiness, em número de votantes, um orgulho para Portugal e uma glória para o mundo, com a saborosa vitória de Portugal sobre a Espanha em número de eleitores que foram às urnas.

Sem querer fazer comparações vou referir-me a um assunto, secundário é certo, sem negar o mérito do regresso às boas tradições, a devoção a Fátima, o entusiasmo com o Futebol e o êxtase com o Fado ou pôr em causa Deus, Pátria e Família, a trilogia que regressa. Os leitores hão de perdoar-me a referência à manifestação com milhares de trabalhadores, promovida pela CGTP, a contestar em Lisboa alterações às leis laborais, que o Governo está a elaborar.

Não se duvida das boas intenções nem da argumentação convincente de que os trabalhadores não querem vínculos efetivos e se opõem a contratos experimentais que passem a definitivos ou a despedimentos que exijam justa causa.

Será, finalmente, a vitória do conceito de um grande ideólogo, Passos Coelho, que em 11-05-2012 o teorizou: «Despedir-se ou ser despedido não pode ser um estigma, tem de representar uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma escolha livre, uma mobilidade da própria sociedade» (sic).

Deixo ainda as sábias palavras de um ex-deputado, autarca e governador Civil do PSD, que espalhou pelo Facebook, em 20 de outubro p.p.: «As pessoas que pagam impostos e que precisam dos serviços, escolas, hospitais, centros de saúde, tribunais … são novamente prejudicadas e desprezadas pelos grevistas. Os 3 maiores partidos poderiam e deveriam dar as mãos para responder com firmeza a esta rapinagem dos sindicatos».

Perdoem-me, pois, a referência à manifestação que apanhei por acaso num intervalo das eleições presidenciais referidas.

Acordei hoje com a notícia sobre a vitória avassaladora do incumbente. Rui Costa continua, segundo ouvi, presidente de 8 milhões de portugueses.

Salazar e a sua obra. Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (89.º aniversário) e muito mais

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/10/2025)

Cartoon do saudoso João Abel Manta

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Urge lembrar o Massacre de Batepá (do português coloquial “Bate-Pá!”) atrocidade das tropas coloniais em S. Tomé e Príncipe, a 3 de fevereiro de 1953, em que foram fuzilados talvez mais de mil homens, mulheres e crianças, por motivos laborais e mera crueldade; o de Pidjiguiti, cerca de 50 mortos e 100 feridos, que deu início à luta de libertação da Guiné–Bissau, também por motivos laborais; o de Wiriyamu, na guerra colonial, a 16 de dezembro de 1972, com pelo menos 385 mortos da população civil.

Recordar o que foram as mortes em plena rua das cargas da GNR e da polícia de choque da PSP, é uma obrigação cívica, ainda que os requintes de crueldade e sadismo fossem atingidos pela PIDE nos interrogatórios e nas masmorras, e nos assassínios arbitrários.

Mas hoje é dia de recordar o Tarrafal, esse campo da morte e da tortura onde a brandura dos costumes, alegada pelo ditador vitalício, era a imagem do regime beato e amoral. Para recordar as vítimas do Tarrafal, deixo abaixo um texto já antes publicado.


Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (89.º aniversário)

Há 89 anos, outubro era mês e 29 o dia em que, ao Campo de Concentração do Tarrafal, chegaram 152 presos políticos, onde era mais doce a morte do que o Inferno da vida que os torturadores lhes reservavam.

Foram 11 dias de viagem, de Lisboa ao Tarrafal, que a primeira leva de vítimas levou a chegar, grevistas do 18 de janeiro de 1934, na Marinha Grande, e marinheiros dos que participaram na Revolta dos Marinheiros de 8 de setembro desse ano.

O Tarrafal foi demasiado grande no campo da infâmia e do sofrimento para caber num museu. Salazar teve aí, no degredo da ilha de Santiago, Cabo Verde, o seu Auschwitz, à sua dimensão paroquial, ao seu jeito de tartufo e de fascista.

Ali morreram 37 presos políticos desterrados, na «frigideira» ou privados de assistência médica, água, alimentos, e elementares direitos humanos, alvos de sevícias, exumados e trasladados depois do 25 de Abril.

Edmundo Pedro, o último sobrevivente, chegou ali, com 17 anos, na companhia do pai. Como foi possível, tanto sofrimento no silêncio imposto pela ditadura?

E como é possível o esquecimento da democracia? Dói muito, dói pelo sofrimento dos que lutaram contra o fascismo e pelo esquecimento a que os votam os que receberam a democracia numa manhã de Abril com cravos a florirem nos canos das espingardas do MFA.