Comunicação amarela

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/04/2022)

Nos casos aqui referidos, a atribuição de culpas ocorre rapidamente após um sumaríssimo processo de apuramento dos factos, uma vez pretender-se obter um efeito político. Mesmo que se venha a comprovar o contrário, o resultado pretendido já foi atingido.


A expressão “jornalismo amarelo” surgiu nos finais do século XIX, nos Estados Unidos. Tratava-se de uma forma de jornalismo que privilegiava o sensacionalismo sobre os factos. Contribuiu decisivamente para mobilizar a opinião pública norte-americana a abraçar a causa da guerra hispano-americana, em Cuba e nas Filipinas, acontecimento que marcou o início da expansão americana overseas.

O catalisador específico dessa guerra foi o afundamento do Maine, um navio da marinha de guerra norte-americana, que se encontrava fundeado no porto de Havana. Os promotores da designada imprensa amarela, que atribuíram a culpa à Espanha, desencadearam uma feroz campanha mediática responsável por criar as emoções propícias à aceitação da guerra. Hoje, conhecem-se as causas do afundamento do Maine, que não têm nada a ver com a versão na altura aceite. O afundamento tornou-se num conveniente pretexto instrumental para desencadear a guerra.

A História está repleta de casos semelhantes. Foram vários no Teatro de Operações da antiga Jugoslávia: o bombardeamento do mercado de Sarajevo, em agosto de 1995; o massacre de 45 alegados aldeãos albaneses kosovares, na aldeia de Račak, em janeiro de 1999. Ambos contribuíram para moldar psicologicamente a opinião pública internacional para aceitar, no primeiro caso, o bombardeamento dos bósnios sérvios e, no segundo, da Jugoslávia.

Ainda hoje subsistem muitas dúvidas quanto aos autores dos massacres. No caso de Sarajevo, é tremendamente questionável atribuir aos sérvios a autoria dos disparos, dado o ângulo com que os projéteis atingiram o solo. Apesar da pressão do quartel-general, em Nova Iorque, para garantir que não se estavam a cometer erros de avaliação, a responsabilidade foi atribuída ainda sem certezas quanto aos autores da desgraça.

No caso de Račak, William Walker, chefe da Kosovo Verification Mission, da OSCE, decidiu logo no local onde foram encontrados os corpos que tinham sido os sérvios os autores das mortes, algo imediatamente por eles contestado, acusando as vítimas de serem membros do Exército de Libertação do Kosovo, e, portanto, combatentes e não civis inocentes. Na análise forense verificou-se que os corpos tinham pólvora nos dedos indicadores, o que indiciava serem combatentes.

Em todos estes casos, a atribuição de culpas ocorre rapidamente após um sumaríssimo processo de apuramento dos factos, uma vez pretender-se obter um efeito político. Mesmo que se venha a comprovar o contrário, o resultado pretendido já foi atingido. Por isso, nalguns casos, por perceberem que podiam obter vantagens políticas, as fações não se inibiam de alvejar as próprias populações. Para tal, contaram com o trabalho de empresas de relações públicas e spin doctors encartados. Fui simultaneamente testemunha e alvo de casos destes. Algo impensável para cidadãos que nunca participaram nestas ‘andanças’.

O massacre em Bucha, um subúrbio de Kiev, fustigado pelos combates entre russos e ucranianos, não está isento de dúvidas, que urge esclarecer com celeridade. Como nas situações anteriormente mencionadas, mesmo que se faça uma investigação, ela será sempre tardia porque o acusado já foi identificado, para lá de qualquer dúvida razoável.

Afinal temos aprendido muito pouco. Continuamos a sobrepor as emoções à razão, e a ver o mundo a preto e branco. As nossas mentes continuam a ser moldadas de modo a aceitarmos visões simplicistas de realidades complexas. Perceções maniqueístas dão-nos mais conforto por confirmarem os nossos preconceitos e as nossas “certezas”. Bons e imaculados de um lado, maus e intragáveis do outro. Os bons nunca cometeriam crimes de guerra ou contra a humanidade, apenas porque são bons. O fact checking encontra-se missing in action..


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Guerra não evitada, escalada evitável

(Major-general Carlos Branco, in Jornal Económico, 11/03/2022)

Tudo o que está agora a acontecer lembra as recentes palavras de John Matlock, o último embaixador dos EUA na URSS: estas lideranças parecem não estar à altura daquelas que resolveram a Crise dos Mísseis de Cuba.


A dimensão bélica do conflito russo-ucraniano persiste e a possibilidade de vir a extravasar o quadro regional aumenta cada dia que passa. Nesta marcha para o abismo, dir-se-ia que as lideranças políticas europeias parecem não estar a   perceber o que está realmente em causa. Em vez de lançarem água para o incêndio e de investirem no estabelecimento de pontes de diálogo parecem incrementar a confrontação como se fossem atores imunes às consequências daquela guerra (veja-se a iniciativa de enviar MIG-29 para o teatro de operações ucraniano).

A análise tornou-se a segunda vítima da guerra

É necessário analisar os acontecimentos de um modo objetivo. Como ensina a Teoria dos Jogos, e toda a doutrina disponível, existe uma responsabilidade partilhada e uma interdependência estratégica entre os atores envolvidos numa contenda de interesses. A linguagem engajada e desproporcionada que tem prevalecido na comunicação social a nível internacional não ajuda a compreender o que está em causa nem o desenrolar dos acontecimentos.

Nessa deriva, aliás, ela própria torna-se um obstáculo: induz uma atmosfera pública intolerante, cria visão de túnel, inibe o debate genuíno, e incita a um massivo efeito de rebanho que, por sua vez, exerce tóxicas pressões na decisão política. Sabemos onde isso levou da última vez que houve um sobressalto securitário nos países ocidentais após o 11 de Setembro.

Os riscos de escalada estão em crescendo, assim como a retórica das várias lideranças. Em vez de contribuírem para diminuir a tensão, temos testemunhado exatamente o contrário, desatentos à alteração da natureza dos riscos: a guerra na Ucrânia tem sério potencial para provocar uma confrontação generalizada à escala global, ultrapassando o patamar convencional.

Antes de prosseguir convém clarificar que o objetivo declarado da Rússia é obter garantias de que a Ucrânia não fará parte da NATO, nem albergará unidades e equipamento militar de potências estrangeiras no seu território. As preocupações, os alertas e os protestos russos continuam a não ser ouvidos, aumentando simultaneamente o nível de ameaça percebido por este ator.

Alguns aspetos da insensatez que nos levou a esta situação merecem ser salientados. Desde 2014 que a situação se tem vindo a deteriorar. A Ucrânia tornou-se uma ponta de lança das políticas norte-americanas anti-Rússia. A intervenção sistemática e continuada dos EUA nos assuntos internos da Ucrânia não passou despercebida à Rússia, em particular o fornecimento massivo, durante estes anos, de armamento a Kiev.

A Ucrânia tornou-se a partir de 2014 no ponto de dor (pain point) securitário para a Rússia. Ainda em 2014, a Rússia invade a Ucrânia e ocupa a Crimeia. E, tal como previsto num diálogo de Boris Ieltsin com Bill Clinton em 1995, a presente liderança russa considerou que tinha chegado a hora de ser ouvida com estrondo.

Putin parece ter considerado que poderia, através de uma manobra em que conjugaria a ação diplomática com uma demonstração de força, resolver o impasse de 20 anos causado pelo alargamento da NATO a Leste, a qual não parou com a sua política de porta aberta, e dos oito anos de ouvidos de mercador relativamente à implementação dos acordos de Minsk.

Durante estes anos, a situação militar agravou-se no Donbass, onde o dispositivo militar ucraniano era cada vez maior, em desrespeito frontal pelos acordos de Minsk, diariamente violados. O número de mortos civis durante os oito anos que nos separam do golpe de estado Euromaidan e as cedências de Zelenski às forças mais extremistas, ilustram a frustração cada vez maior de Moscovo.

Dominó de eventos

O ano de 2021 é crucial para se compreender a situação em que presentemente nos encontramos. Só nesse ano, os EUA forneceram cerca de 1,3 mil milhões de dólares de ajuda militar à Ucrânia. Em março de 2021, a Ucrânia publicou a sua estratégia militar, um documento orientado para a confrontação com a Rússia.

Durante os meses de junho, julho e setembro de 2021 tiveram lugar exercícios da NATO em território ucraniano, que envolveram cerca de 23 mil soldados. O espaço aéreo ucraniano foi aberto aos voos dos aviões de reconhecimento estratégico americano, assim como a drones que permitiam monitorizar o território da Rússia.

Nos últimos meses de 2021, com o pretexto de exercícios, a Rússia estacionou e exibiu um forte dispositivo militar no seu território e na Bielorrússia, nas proximidades da fronteira com a Ucrânia.

Já em plena crise, em novembro de 2021, os EUA e a Ucrânia reafirmaram a importância das suas relações de parceria estratégica e declararam a determinação em aprofundar essa parceria através da cooperação em vários domínios, nomeadamente no da defesa, com o objetivo de contrariar a agressão russa. A ocasião foi aproveitada para os EUA proclamarem o “direito da Ucrânia a decidir sobre o futuro da sua política externa livre de interferências externas, incluindo o respeito pelas aspirações da Ucrânia aderir à NATO.”

Em dezembro de 2021, relembre-se, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros tornou público dois projetos de acordos com os EUA e com a NATO, onde pontificavam as garantias de segurança que a Rússia pretendia ver salvaguardas. Entre outras, a não adesão da Ucrânia à NATO. Os pedidos de garantia foram rejeitados, pelos EUA e pela NATO, não havendo lugar a qualquer convergência ou princípio de entendimento.

Com o aumento da tensão, entram na liça diplomática o Presidente Macron e o Chanceler Sholtz na primeira quinzena de fevereiro de 2022. O máximo que se conseguiu obter desta “shuttle diplomacy” entre Moscovo e Kiev foi uma declaração do Presidente Zelenski em que se comprometia a apresentar no parlamento um projeto de decreto-lei sobre o assunto, que não chegou a apresentar e que nunca iria ser aprovado.

Nos oito anos precedentes, a Ucrânia tinha demonstrado uma manifesta falta de interesse em honrar os acordos de Minsk, e em acomodar uma fórmula que respeitasse os interesses da sua minoria russófona, entretanto perseguida e proibida de falar a sua língua.

O rastilho chega ao paiol

Há que reapreciar os catalisadores específicos da crise. No dia 19 de fevereiro de 2022, na Conferência de Segurança de Munique, o Presidente Zelenski manifestou a intenção de renunciar ao protocolo de Budapeste abdicando da sua neutralidade (na verdade já o tinha feito quando inscreveu na sua Constituição a ambição de aderir à NATO), abrindo a possibilidade de a Ucrânia se rearmar nuclearmente. Esta intervenção é aplaudida de pé pela audiência. Moscovo já tinha denunciado por diversas vezes a pretensão da Ucrânia em possuir armamento nuclear. Tem a tecnologia desenvolvida pela URSS e os meios de lançamento. Desconhece-se se terá recebido ajuda externa para tal.

Em represália pelo discurso de Zelenski em Munique, agravado pela ausência de respostas sobre as pretensões ucranianas de aderir à NATO, e aparentemente assumindo um ponto de não retorno, Putin anuncia no dia 21 de fevereiro, que vai reconhecer a independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk, argumentando que “tem todo o direito de tomar medidas de retaliação para assegurar a nossa segurança [da Rússia]. É exatamente isso que faremos.”

Ao contrário do que aconteceu após o confronto com a Geórgia, em que Moscovo reconheceu de imediato a independência das repúblicas da Abecásia e da Ossétia do Sul (agosto de 2008), no caso da Ucrânia a opção foi outra. Putin optou por abraçar uma solução autonómica para as repúblicas separatistas no quadro da Ucrânia.

E depois da última gota?

Com a situação ao rubro, a sinalização pública e aclamada do patamar nuclear por Zelenski e o abandono dos protocolos de Budapeste pode ser lida como um evento saliente. O que até aí era visto por alguns especialistas (nos quais me incluo) como estando para além dos limites do provável, isto é, uma invasão generalizada da Ucrânia, tornou-se um facto novo. Após este conspícuo momento (pouco enfatizado nos media “ocidentais”) percebeu-se claramente que a situação se tinha alterado, e que os esforços diplomáticos de última hora tinham falhado.

Se era possível vislumbrar algo na neblina, antes do início do conflito, era a certeza de que o Ocidente ajudaria a Ucrânia, mas que não iria assumir com sangue as ansiedades ucranianas. Os EUA instigaram a confrontação ucraniana com a Rússia, sabendo que não estariam disponíveis para combater a seu lado. O mesmo aconteceu com a UE, que andou estes anos todos a encorajar os ucranianos, sabendo que na hora da decisão não se iria apresentar ao lado de Kiev. Os atos heroicos no campo de batalha seriam deixados para os ucranianos.

Os apelos sistemáticos à intervenção militar do Ocidente na Ucrânia, cada vez mais pungentes, são a prova disso. Zelenski queixa-se diariamente da falta de apoio do Ocidente, da insuficiência do seu compromisso, continuando a insistir numa zona de exclusão aérea, ideia de que apesar de rechaçada pela NATO continua presente na agenda mediática. A Zelenski foi dado o papel de peão num transcendente xadrez geoestratégico de “Great Power Politics”, que lhe escapa, não passando de um mandatário de agendas que ultrapassam largamente os interesses securitários do Estado ucraniano, submetendo a sua população a um risco securitário extremo. Podia ter tomado os acontecimentos ocorridos na Geórgia no ano de 2008 como um dado adquirido e empreendido uma “Estratégia de Nash”, i.e., dada a estratégia dos outros, qual a sua melhor resposta?

O próprio Ocidente, que mostrou não estar disposto para se sacrificar operacionalmente pela Ucrânia por saber os custos que iria acarretar, parece insistir na aposta anterior. Com a tensão existente e os nervos à flor da pele, não se entende, numa lógica de atenuar tensões, a necessidade de se retomar, neste momento, o debate sobre a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO. A altura para o fazer não podia ser mais inoportuna. A fórmula adotada pela Finlândia e Suécia (membros da UE mas com neutralidade estratégica), a qual inclui a participação ativa destes dois países na Parceria para a Paz da NATO, tem funcionado ao longo de décadas.

A disponibilização de MIG-29 romenos e polacos anunciada pelo Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, de custo-benefício duvidoso, só serve para aumentar a tensão com Moscovo, que já anunciou considerar isso um ato de guerra. Recentemente um senador norte-americano, o republicano Lindley Graham, que é conhecido pelas suas posições intervencionistas agressivas, veio sugerir o assassínio de Putin.

Todos estes desenvolvimentos empurram a Rússia para um jogo de soma negativa. Neste cenário, Moscovo pode até jogar para perder, desde que o oponente do outro lado do tabuleiro perca também.

Kiev não é Kabul

Parece insólito acreditar que a Ucrânia sozinha poderá vencer militarmente a Rússia, independentemente do armamento que lhe for proporcionado. Essa ajuda tornará certamente mais oneroso o esforço de ocupação russa, mas devido à sua massa a Rússia muito provavelmente ganhará militarmente. Por mil e uma razões, a Rússia não se pode dar ao luxo de uma derrota no território da Ucrânia, como aconteceu com os americanos no Afeganistão. Não parece estar em causa a vitória russa sobre os ucranianos, mas o custo que essa vitória poderá comportar (com os concomitantes efeitos destrutivos no terreno).

Não sei o que será preciso mais acontecer para se perceber que a Rússia lutará até à exaustão das suas forças para impedir a entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO. Esse limite poderá não ter limite.

Tudo isto lembra as recentes palavras de John Matlock, o último embaixador dos EUA na URSS: estas lideranças parecem não estar à altura daquelas que resolveram a Crise dos Mísseis de Cuba. Em momentos diferentes George Keenan, Henry Kissinger, William Perry e John Mearsheimer, e no plano nacional, entre outros, Jaime Nogueira Pinto explicaram com um realismo mais eloquente do que o meu o que está verdadeiramente em causa. Mas é ainda tempo de relembrar aos decisores norte-americanos e ucranianos em que consiste o dilema de segurança e os seus efeitos.

Não restam hoje quaisquer dúvidas de que Washington sabia que se não fosse satisfeita a principal reivindicação russa – a não adesão da Ucrânia à NATO e o seu estatuto de neutralidade estratégica – algo de muito definitivo iria ocorrer. Optou por não fazer nada para o evitar.

Infelizmente, e de um modo sonâmbulo, sem se atentar ao risco que estamos a correr, continua a prevalecer a retórica da confrontação. O prolongamento da atual situação será insustentável. Esperamos ansiosamente que se arrepie caminho e prevaleça o desanuviamento da tensão.


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Por quem dobram os sinos em Kiev?

(Carlos Branco, in Resistir, 12/02/2022)

A compreensão dos acontecimentos presentemente em curso na Ucrânia exige um escrutínio dos factos, que vá para lá dos sound bites estridentes que confundem desinformação com informação, fazendo da verdade a primeira vítima da guerra, como uma vez alguém escreveu. De facto, estamos perante dois assuntos distintos, embora correlacionados: a proteção da população russa da Ucrânia, e a expansão da NATO para Leste, subsumindo-se o primeiro neste último.

A explicação não se encontra em abordagens maniqueístas dos bons contra os maus, mas sim na geoestratégia, que tem influenciado de modo decisivo a política externa das grandes potências.

Isso é bem visível no caso norte-americano. A política da contenção da União Soviética adotada por Washington, nos tempos da Guerra Fria, elaborada e desenvolvida por George Kennan, o arquiteto da estratégia americana para conter a União Soviética, fortemente inspirada nos trabalhos do geoestratega Nicholas Spykman, é um flagrante disso.

Mais recentemente, Zbigniew Brzezinski, conselheiro nacional de segurança do presidente Jimmy Carter, avançou no seu livro “The Grand Chessboard” (1997), com a teoria dos pivôs geopolíticos, considerando a Ucrânia um desses pivôs.

Segundo Brzezinski, a Ucrânia “é um pivô geopolítico porque sua existência como país independente ajuda a transformar a Rússia. Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império euroasiático… se Moscovo recuperar o controlo da Ucrânia, a Rússia recupera imediatamente a capacidade de se tornar num estado imperial poderoso, abrangendo a Europa e a Ásia.”

Este pensamento ajuda a compreender a tensão que se vive há, pelo menos, quinze anos naquele país. Falamos do confronto entre dois atores geoestratégicos de primeira grandeza: EUA e Rússia.

As mudanças de poder em Kiev

Foi este racional, que prevaleceu quando: (1) no culminar da “revolução laranja” (janeiro 2005), se instalou em Kiev um presidente pró-EUA (Viktor Yushchenko), “revolução” essa revertida pelo voto popular com a eleição de um presidente pró-Rússia (Viktor Yanokovitch), em 2010; (2) a Administração Bush impôs, em 2008, na Cimeira da NATO, em Bucareste, o convite à Ucrânia e à Geórgia para aderirem à Aliança; (3) Viktor Yanokovitch, um presidente democraticamente eleito, foi derrubado em 2014 através de um golpe de estado orquestrado por Washington, perpetrado por grupos paramilitares neonazis, colocando no poder grupos nacionalistas ucranianos anti-russos.

Não bastou ver em Kiev Victoria Nuland, secretária de Estado Adjunta para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, conjuntamente com Geoffrey Pyatt, embaixador americano na Ucrânia, a distribuírem comida aos “revoltosos”, numa clara ingerência nos assuntos internos da Ucrânia.

Também John McCain, senador e antigo candidato presidencial, esteve em Kiev a apoiar os revoltosos, fazendo-se fotografar ao lado de Oleh Tyahnybok, um dos cabecilhas do golpe, e líder do Svoboda, um partido de inspiração neonazi glorificador de Stefan Bandera e daqueles que combateram do lado de Hitler, que o Parlamento Europeu condenou formalmente por “racismo, antissemitismo e xenofobia”.

O facto de Tyahnybok ter sido impedido de entrar nos EUA, em junho de 2013, por causa do seu antissemitismo público, não impediu que acabasse reciclado uns meses mais tarde em combatente pela liberdade.

As credenciais democráticas do regime instaurado na Ucrânia, em 2014, deixam muito a desejar, ao ponto da insuspeita Freedom House classificar a Ucrânia como um país apenas “parcialmente livre”, a mesma classificação atribuída ao governo filipino chefiado por Rodrigo Duterte. A teoria dos inimigos dos meus inimigos serem meus amigos não tem dado bom resultado, como se verificou no Afeganistão com a Al Qaeda. Os resultados na Ucrânia não são promissores.

O comportamento revanchista do novo governo (uma das primeiras medidas foi abolir a língua russa) provocou uma reação da população russa ucraniana muito semelhante à da população sérvia da Krajina. A solução política para a questão russa na Ucrânia, segundo os acordos de Minsk, passava por lhe conceder autonomia, no quadro da Ucrânia. Solução com que Kiev se comprometeu, mas nunca implementou. Ao invés, optou pela solução militar e cercou as forças rebeldes colocando unidades militares ao longo da linha de separação.

A situação agudizou-se no final de 2021, com os preparativos das forças ucranianas para atacarem o Donbass, e resolver o conflito pela força. Entre outras medidas, as forças ucranianas deslocaram viaturas de limpeza de minas para a linha de contacto; cancelaram as férias dos militares; os comandantes receberam ordens para permanecerem nas suas posições de combate; etc.

Procurando iludir a vigilância dos observadores da Missão Especial de Monitorização (MEM) da OSCE, instalada ao longo da linha de separação, deslocaram armamento pesado não autorizado para o Donbass. Recorreram à guerra eletrónica para anular a operação dos drones da MEM, de modo a ocultar a instalação de armas proibidas pelos acordos de Minsk, nas proximidades da linha de confrontação.

O objetivo das forças russas dispostas ao longo da fronteira com a Ucrânia é impedir a chacina da população russa ucraniana, caso as forças ucranianas cruzem a linha de confrontação, o que a acontecer provocará uma reação militar russa imediata.

O alargamento da NATO

Sobre o alargamento da NATO confrontam-se duas posições divergentes.

Por um lado, a da Rússia que recorre aos princípios da OSCE argumentando que o reforço da segurança de uma nação não pode ser obtido à custa da segurança de outra nação, uma alusão direta à possível entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO, e ao seu alargamento a Leste, procurando impedir a instalação nesses países de unidades militares e armamento; por outro, a da NATO que defende uma política de porta aberta, argumentando que um Estado não pode impor a outro Estado opções de política externa, neste caso particular vetar a adesão de um país a uma organização regional.

A oposição da Rússia ao alargamento da NATO tem sido erradamente atribuída ao espírito maléfico de Putin. Contudo, trata-se de um problema securitário existencial, vital para a Rússia, que extravasa o poder de quem, num dado momento, se senta no Kremlin.

Convém recordar as posições sobre a matéria, dos liberais russos nos idos anos 90. Andrei Kozyrev, então ministro dos Negócios Estrangeiros, um dos dirigentes russos mais liberal e pró-ocidental que a Rússia alguma vez teve, alertou para o perigo do Ocidente continuar a atacar os interesses vitais da Rússia e ignorar os seus protestos. Um dia haveria uma reação perigosa.

Dirigentes e analistas políticos russos – incluindo reformistas liberais – têm vindo ao longo dos anos a avisar, que tornar a Ucrânia ou a Geórgia clientes securitários dos EUA ou membros da NATO seria cruzar uma linha vermelha, de que resultaria um perigo de guerra. Essas advertências foram ecoadas por George Kennan, Henry Kissinger e outros estadistas americanos.

Embora os Estados sejam todos iguais, as grandes potências são mais iguais do que os outros Estados. A Rússia não está interessada exatamente numa esfera de influência, mas na criação de uma zona de segurança ao seu redor. O que tem sido dito sobre a intenção russa de refazer o antigo império soviético não passa de desconhecimento. Os temores russos sobre a expansão da NATO até à sua fronteira deviam ser compreensíveis para qualquer americano que tenha ouvido falar da Doutrina Monroe.

As propostas russas

Com o objetivo de encontrar soluções para a crise, a Rússia apresentou dois projetos de tratados, um a Washington e outro à NATO. O primeiro, sobre um Pacto de Paz entre a Rússia e os EUA; e o segundo, sobre um pacto com a NATO.

Baseando-se no igual direito à segurança para todas as nações, e nos princípios da Carta das Nações Unidas, que proíbem a ameaça ou o uso da força, Moscovo propôs a Washington o abandono da expansão da NATO para Leste, nomeadamente a adesão de Estados que tivessem integrado a extinta União Soviética, e a retirada de tropas da Aliança dos países que pertenceram ao antigo bloco soviético. Os EUA e a Rússia não usariam aviões e navios equipados com armamento nuclear, em regiões de onde se pudessem atacar mutuamente; e informariam sobre os movimentos dos seus sistemas de lançamento de armas nucleares.

De igual modo, a Rússia e os EUA comprometer-se-iam a não utilizar mísseis de curto e médio alcance e armas nucleares, fora dos seus territórios nacionais, nem em áreas dos seus territórios nacionais, a partir dos quais essas armas pudessem atingir o território da outra parte. Isto aplica-se à instalação dos sistemas Aegis na Polónia e na Roménia, colocando Moscovo e São Petersburgo no seu alcance.

Relativamente à NATO, a Rússia propôs um tratado de segurança, no qual as partes não se considerassem adversárias ou inimigas e, como tal, se consultassem regularmente sobre questões de segurança e informassem mutuamente da realização de exercícios e manobras militares. O dispositivo de forças militares devia limitar-se ao que estava em vigor à data de 27 de maio de 1997. As partes comprometer-se-iam a não colocar mísseis de curto e médio alcance em zonas que lhes permitissem atingir o território da outra parte. E a NATO cessaria o seu programa de alargamento para Leste.

Tanto os EUA como a NATO mantiveram-se inflexíveis perante as propostas russas, continuando determinados em prosseguir a política de “porta aberta”, rejeitando a possibilidade de retirar da agenda a adesão da Ucrânia à Aliança. A possibilidade de regressar ao statu quo de 1997 foi considerada não negociável. Provavelmente, esquecendo o que tem sido a política externa de Washington nos últimos 200 anos, o secretário de Estado Antony Blinken afirmou que “um país [leia-se a Rússia] não tem o direito de ditar as políticas de outro país ou de lhe dizer com quem pode associar-se; um país não tem o direito de exercer uma esfera de influência. Essa noção deve ser relegada para o caixote do lixo da história.”

Mas que guerra?

Entre outras medidas, a Administração Biden decidiu colocar 8.500 soldados em alerta e reforçar o dispositivo da NATO no Báltico, um exercício desnecessário por não dissuadir qualquer ação militar na Ucrânia, e por a Rússia não tencionar atacar países da NATO. Por outro lado, tanto os EUA como a NATO deixaram claro que não tencionam envolver-se militarmente caso deflagre a guerra russo-ucraniana. A ajuda a Kiev “limita-se” ao envio de equipamento e conselheiros militares, forças de operações especiais e mercenários da Academi (antiga Blackwater). A isto somam-se conselheiros do Reino Unido, Canadá, Lituânia e Polónia.

Uma possível operação militar russa não visa ocupar a Ucrânia. Washington está ciente que uma ação militar de Moscovo na Ucrânia se limitará ao Donbass, e apenas se as forças ucranianas cruzarem a linha que as separa dos rebeldes. Entre outros motivos, porque não tem recursos para tal, nem faz politicamente sentido. A ideia de Moscovo colocar um governo fantoche em Kiev, ou a despropositada e desnecessária retirada de pessoal das embaixadas americanas e inglesas, não passa de uma operação de desinformação semelhante à que antecedeu a invasão do Iraque.

O comportamento da Administração Biden leva-nos a crer que o seu objetivo é criar um pretexto, não para retaliar militarmente mas para impor pesadas sanções económicas à Rússia, uma delas excluí-la do sistema Swift, e assim bani-la da economia global. Esta conduta insere-se numa linha de pensamento, que defende a possibilidade de os EUA travarem uma guerra convencional vitoriosa com a Rússia e a China, sem que esta escale para o patamar nuclear, assumindo que conseguem controlar todas as variáveis do problema.

Em vez de promover uma guerra por procuração para atingir a Rússia, os EUA deveriam procurar reforçar as relações bilaterais entre os dois países, recuperar das cinzas o Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa (CFE), energizar o Documento de Viena, regressar ao Tratado dos Céus Abertos e recuperar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio.


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