O prazer da indignação

(António Guerreiro, in Público, 11/10/2019)

António Guerreiro

Da campanha eleitoral, retive sobretudo a predominância de um tom cujo triunfo não é de agora, mas está cada vez mais exacerbado: o tom indignado dos partidos da oposição (evidentemente, o PS estava na condição confortável de não ter nenhum objecto de indignação). A indignação é um modo de expressão cujo conteúdo é essencialmente extra-linguístico (e, portanto, extra-político), uma vez que reside sobretudo na prosódia.

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No seu máximo teor, a indignação resulta num grito, numa interjeição. Mas enquanto instrumento retórico e “estilo” discursivo consiste em envolver as palavras numa boa dose de afecção que, para produzir o efeito pretendido, deve parecer-se o mais possível com a manifestação espontânea de uma consciência ultrajada pelo escândalo. Assim, a contingência da gestão política tornou-se um percurso sinalizado por escândalos que são como estações ou apeadeiros em que uns descem e outro sobem. E assim vamos andando de escândalo em escândalo, alimentados pelo indignação, que não precisa de combustível porque se alimenta a si própria através de uma razão tautológica e até já criou uma classe de profissionais que se servem dela e, ao mesmo tempo, estão ao seu serviço.

Em 2010, um diplomata francês, então com 93 anos (morreu três anos depois), chamado Stéphane Hessel, publicou uma espécie de manifesto que incitava os jovens a sair da apatia, a agir impelidos pela indignação. Chamava-se Indignez-vous!, esse apelo de carácter político  teve uma repercussão enorme, pelo menos enquanto produto editorial. Mas aí, embora sem grandes elaborações nem subtilezas, tratava-se de apelar a uma indignação afirmativa, activa, capaz de constituir uma arma de resistência. Diferente é a indignação negativa e reactiva que domina hoje o espaço público e lhe confere, em permanência, um insuportável volume de som estridente, para além de presidir ao domínio da cacofonia e da tagarelice.

Neste universo caricatural, em que a comunicação e o uso público da razão – esse ideal iluminista – se tornam impossíveis, há sempre escândalos a emergir para todos os gostos: políticos, económicos, religiosos e até estéticos. É um desfile de horrores, perante os quais se ergue a raiva virtuosa de boas almas escandalizadas que estão sempre no lugar certo – a indignação confere um sentimento de superioridade – e têm sempre razão. As televisões, os jornais e as redes sociais oferecem um palco onde se desenrolam as representações dos indignados em sessões contínuas. O triunfo da indignação é o triunfo de uma improdutividade fundamental. 

Nem toda a gente se indigna com a mesma coisa, mas há sempre qualquer coisa a provocar uma indignação selectiva. A multidão propensa à indignação pode ser arrumada em grupos que vão emergindo alternadamente: agora são uns a indignar-se, amanhã serão outros, e assim sucessivamente. Quando a indignação atravessa vários territórios que são habitualmente estanques, assistimos então a uma “onda de indignação” para a qual acorrem de todos os lados os surfistas.

Como podemos explicar este reino da indignação? A primeira e principal explicação é muito simples: tudo isto nos dá muito prazer e é preciso ser muito puritano e resistente para não ceder ao prazer que ela nos dá. É um “gozo” para o qual só há um vocabulário disponível, de ordem sexual. Podemos achar que um indivíduo indignado comporta uma boa dose de mentira, mas essa mentira desencadeia os nossos reflexos mais primários, difíceis de interromper. No lado oposto da indignação está a ironia e a sátira. Devemos reparar que elas foram completamente banidas do discurso político. Não há hoje um político que se arrisque nos caminhos da ironia. Não apenas porque tem medo de ser mal compreendido (um perigo real, nas actuais circunstâncias comunicacionais), mas porque o efeito da ironia é a conquista de uma distância. Ora, toda a política actual é uma política dos afectos ou das afecções. Por isso, a indignação está ao seu serviço, enquanto que a ironia introduziria um factor que a levaria numa direcção diferente, incompatível com o tom – a entoação musical – da época em que vivemos.


Livro de recitações

“Euromilhões, a criar excêntricos de um dia para o outros”
​Spot publicitário da Santa Casa da Misericórdia

De uma casa santa e misericordiosa vêm há séculos benfeitorias sociais e caridosas de grande envergadura. Parte dos rendimentos vem do jogo autorizado, legal e legítimo, muito embora as lojas onde se vendem raspadinhas, lotaria, apostas desportivas e tutti quanti se tenham tornado semelhantes a salas de chuto autorizadas. A elas acorre uma multidão de gente addicted. É um segredo bem guardado: a par da sua obra misericordiosa, a Santa Casa também exerce uma acção nefasta. O melhor é ignorá-la, mas perante este spot publicitário que nos enche os ouvidos todas as semanas não podemos deixar de pensar num outra verdade que é também um segredo bem guardado: uma enormíssima percentagem dos “excêntricos” da lotaria e do euromilhões acabam por viver uma tragédia. São inumeráveis os casos em que a riqueza súbita vai depois produzir a miséria. Por isso é que este anúncio parece um gozo perverso da situação, pouco compatível com a obra misericordiosa da casa.


Notícias da guerra civil

(António Guerreiro, in Público, 27/09/2019)

António Guerreiro

 A falência da agência de viagens Thomas Cook é um acontecimento da ordem dos desastres económicos colossais, como aquele que se deu com o colapso do Lehman Brothers, em Setembro de 2008. E utilizo aqui a palavra “colossal”, acenando ao uso que dela faz Kant na sua analítica do sublime, para sugerir que no plano da economia aquilo que atinge uma grandeza suprema é visto como o resultado da racionalidade e do cálculo pragmático, mas quando desaba – o que acontece geralmente sem aviso prévio, para não criar pânico e para que se dê uma anestesia pelo choque – oferece-se a um espectáculo que tem uma dimensão sublime, se pensarmos que o conceito de sublime, nas suas elaborações modernas, do século XVIII, está ligado a uma ideia de “terror”.

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Thomas Cook, que nasceu e viveu em Inglaterra entre 1808 e 1892, começou por ser jardineiro e carpinteiro. Mas sonhou bem alto e tornou-se naquilo a que hoje se chamaria um “empreendedor” e criador de uma startup que transformava em negócio os sonhos de progresso e socialização do conhecimento e do lazer. Em Julho de 1841, organizou uma viagem colectiva, para os membros de uma instituição, entre Loughborough e Leicester. Foi uma experiência inaugural (a palavra “turismo” surgiu mais ou menos pela mesma altura) que deu origem à agência de viagens que, nas suas várias metamorfoses, teve uma vida longa de 178 anos. Nasceu com a condição de pioneira absoluta, cresceu como um emblema universal e morreu quando as circunstâncias da indústria turística, aparentemente, pareciam assegurar-lhe uma posteridade sem fim à vista. Quando já estava bem implantada, no final do século XIX, a agência baptizada com o nome do seu fundador teve que lidar com uma singular contestação que importa hoje ser lembrada para dar uma perspectiva histórica a fenómenos actuais da mesma natureza, mas com novas motivações: a viagem turística que Thomas Cook promoveu, para uma burguesia endinheirada, foi objecto de um enorme desprezo aristocrático, era vista como o triunfo da vulgaridade.

O colapso que se deu agora teve como efeito imediato deixar umas centenas de milhares de pessoas (há notícias que falam de 600 mil, mas há outras que avançam números não tão elevados) “bloqueadas” nos sítios do mundo onde estavam a passar férias. A passagem do estado de turista ao estado de vítima de uma espécie de guerra civil planetária foi automática. Os turistas ficaram imediatamente sujeitos à condição de reféns e refugiados, obrigando a operações de repatriamento que puseram em acção uma logística marcial. Os lugares onde os turistas ficaram sitiados não sofreram nenhumas transformações, não foram atingidos por nenhuma catástrofe, mas passaram de um momento para o outro a ser lugares infernais: de tão fácil na ida, tão caros na volta. O que nos obriga a pensar: o que pagamos por uma viagem a qualquer parte do mundo não tem que ver com nada que seja da ordem de uma realidade, por exemplo o tempo de trabalho de terceiros e os gastos materiais necessários, mas com valores especulativos e de ordem simbólica. E, mais uma vez, ganha evidência esta verificação: o poder, hoje, é logístico. Basta que, nesse domínio, algo falhe ou seja voluntariamente bloqueado para que se instaure o caos, senão mesmo a situação de guerra.

 E, de repente, tudo o que era sólido dissolve-se no ar. E muito rápida é a passagem de turista a pária que só pode contar com os deveres do país de origem de proteger os seus cidadãos, onde quer que eles estejam em perigo, se não puder pagar por uma noite no hotel o que lhe custou a totalidade da viagem, e pelo regresso a casa a soma que daria para fazer férias no ano seguinte.

A economia dos bens simbólicos (como é, no seu modo de existência actual, a economia do turismo) funciona desta maneira: para que umas coisas sejam muito baratas, é preciso que outra sejam muito caras; e para que seja muito fácil ir é preciso que, em certas circunstâncias, seja muito difícil voltar. O que dantes fazíamos com toda a tranquilidade, quando viajávamos, começa a exigir gestos temerários. Um aeroporto é hoje o lugar de todos os perigos: ele fornece a imagem abreviada e condensada de uma guerra civil planetária em curso.


Livro de Recitações

“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019

Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão baixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.


A Terra é redonda

(António Guerreiro, in Público, 20/09/2019)

Parece que a nossa época é aquela em que tomámos consciência de que estamos confrontados com o perigo absoluto do fim da humanidade: este catastrofismo é o tom dominante, diariamente, nos media ocidentais que nos servem de referência.

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Uma vez instalado este imaginário catastrofista, foram evacuadas a grande velocidade as reminiscências dos tempos modernos, que nos falavam de emancipação, progresso, liberdade, esperança. Agora, mal falamos em “esperança” vem-nos logo à memória a proposta desse “grande animal hanseático”, como alguém chamou ao filósofo alemão Peter Sloterdijk, que propôs em tempos que deviam ser postos na prisão todos aqueles que falam em esperança porque contribuem para a catástrofe. Recordemos que Sloterdijk é o filósofo que, com a sua teoria das esferas e do “espaço interior do mundo” nos veio mostrar que a Terra é redonda.

Podemos objectar que já o sabíamos há séculos. Pois sabíamos, mas só começámos a ver e a sentir verdadeiramente essa rotundidade quando os efeitos de tudo o que fazemos, em termos ecológicos, em qualquer parte do mundo, chegam até nós como um boomerang. Antes de a Terra ser única e redonda, como é hoje, os países ricos podiam sentir-se seguros ao depositar o seu lixo industrial nos países longínquos. Hoje, até o fundo dos mares está em circulação na superfície da nossa Terra redonda.

Curioso, e até divertido, é ver como nos vão sendo ministrados todo os dias ecopaliativos:. Dizem-nos: viaja o menos possível de avião, vai para a escola ou para o emprego de bicicleta, bebe só água da torneira, reutiliza os sacos plásticos, não deixes a torneira aberta enquanto lavas os dentes, toma atenção a todos os teus gestos quotidianos, torna-te um herói da salvação do planeta (como se o planeta estivesse interessado nos nossos esforços e não continuasse a existir depois de nós, tal como já existia antes de nós). Tudo isto não passa de formas de exorcismo e de recalcamento do medo, ao mesmo tempo que cria a ilusão de que estamos a responder à urgência.

Se olharmos com atenção e utilizarmos o bom senso (nem é preciso muita ciência) facilmente concluímos que muito pouco se faz porque era preciso virar os nossos modos de vida de pernas para o ar para se fazer alguma coisa eficaz (se ainda há tempo para isso porque obviamente não se pára de um dia para o outro um processo que começou há séculos). Não é que devamos continuar a agir como sempre agimos, mas todas estas ideias de boa vontade que surgem todos os dias como injunções acabam por esconder a questão política essencial.

Na verdade, passámos em pouco tempo de uma política com pouquíssima ecologia a uma ecologia de boa vontade à qual falta política. E essa falta torna vãs todas as boas intenções. O que vemos é que continua a ser difícil declinar essas duas palavras — ecologia e política — sob a forma de uma ecopolítica digna desse nome. Uma ecopolítica à altura dos desafios com que estamos confrontados terá de ser capaz de mostrar que as situações ecológicas, políticas, sociais, económicas, institucionais, tecnológicas e psíquicas estão em total conexão umas com as outras. Sem agir sobre todas estas dimensões, o “impasse planetário” mantém-se. Por isso é que são tão ingénuos os regulamentos avulsos e o pretenso “regresso à natureza” de tonalidade romântica.

Se já estamos a viver em pleno “perigo absoluto”, como afiançam até os cientistas colapsólogos e os catastrofistas esclarecidos, então só podemos concluir que não saímos ainda da imobilidade nem se vislumbra que iremos sair. A culpa é também das nossas representações das catástrofes: pensamos num acontecimento colossal (a Terra submetida a uma terrível operação que tanto pode ser vista como a aniquilação total como a sublime “obra de arte total”), que interrompe abruptamente o curso do mundo e da História. Ora, tal como o Messias que, para alguns autores da mística judaica, chega de maneira imperceptível, já aí está mas ainda ninguém deu por ele, também a catástrofe pode chegar imperceptivelmente: quando apreendemos os seus sinais já ela chegou com carácter de irreversibilidade.


Livro de Recitações

“No debate dos grandes, afinal quem ganhou a quem?”
Título do Expresso online, 17/09/2019

Nestas olimpíadas dos debates, ganhar nunca é o resultado de uma verificação que pode ser descrita, mas de um acto que se consuma através de frases proferidas por outrem: ganha sempre aquele que alguém diz que ganha. Se há vozes que, pela posição que ocupam, lhes é outorgada uma certa autoridade, então são elas que decidem se ganhou X ou Y, isto é, o que disserem consuma a vitória de um e a derrota do outro. Não se trata de árbitros, mas de jogadores num metajogo que se sobrepõe ao jogo de primeiro nível. Neste título do Expresso, toda a minha atenção vai para o “afinal”: perante todas as indecisões quanto ao resultado de um jogo que é por definição indecidível, há alguém que nos vem garantir, sob a forma de uma interrogação cuja resposta será dada a quem abrir o link, que há uma verdade de última instância, há “afinal” um vencedor de verdade. Afinal, quem ganha são sempre os metajogadores. E a final acontece sempre no dia seguinte.​