Slava Ukraini” – o preço de um jardim cada vez mais isolado

(João Ferreira, in Facebook, 14/09/2026, Revisão da Estátua)


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Durante 4 anos repetiram-nos que era necessário isolar a Rússia. Sanções atrás de sanções, pacotes atrás de pacotes, discursos inflamados e uma política externa europeia cada vez mais subordinada a uma única ideia: cortar relações económicas, energéticas e políticas com Moscovo até colocar a Rússia de joelhos.

Passados estes 4 anos, talvez esteja na altura de fazer uma pergunta incómoda: quem está, afinal, a ficar isolado?

A política seguida pela União Europeia está a produzir precisamente o efeito contrário daquele que nos foi vendido. A Rússia não desapareceu do mapa, não deixou de vender energia incluindo à própria UE, não ficou sem parceiros comerciais e não foi expulsa da economia mundial. Reorientou-se. Aproximou-se ainda mais da China, da Índia e de outros países asiáticos, aprofundou relações com o chamado Sul Global e encontrou mercados alternativos.

E nós “União Europeia” ?

Nós ficámos orgulhosamente sentados no nosso “jardim”, a pagar a conta.

Uma Europa separada da Rússia: a grande vitória americana

Para compreender como aqui chegámos, é preciso recuar a 2014.

A minha interpretação do Euromaidan é conhecida e não coincide com a narrativa dominante nas televisões europeias, a que eu apelido de Igreja Universal do Reino dos Mirdia. Não considero que aquilo que aconteceu na Ucrânia possa ser analisado apenas como uma espontânea revolta popular democrática como dita as homilias dos sacerdotes da Igreja Universal do Reino dos Mirdia. Vejo-o inserido numa longa estratégia de influência norte-americana no espaço pós-soviético, com intervenção política, financiamento de estruturas e interesses geoestratégicos evidentes e, não sou eu que o diz, foi Victoria Nuland secretária de estado dos EUA que o admitiu e confessou no programa 60 minutos da CNN norte americana na qual até libertou uma gargalhada dizendo que valeu apena terem investido nesse golpe mais de 5 mil milhões de dolars.

Washington tinha um objectivo estratégico que me parece cristalino: impedir que Europa e Rússia se tornassem economicamente interdependentes ao ponto de constituírem um bloco continental autónomo.

Uma Europa industrial, tecnológica e financeiramente poderosa, associada às gigantescas reservas energéticas e minerais russas, seria uma potência económica dificilmente controlável pelos Estados Unidos e era este o ponto onde estávamos em 2014.

Hoje, essa possibilidade praticamente desapareceu.

A Europa afastou-se da Rússia, destruiu grande parte da relação energética que durante décadas alimentou a sua indústria e substituiu-a, em larga medida, por energia mais cara e por uma dependência acrescida de fornecedores alternativos, principalmente a Alemanha que à conta disso partiu do ponto zero após fim da segunda guerra mundial até ter atingindo a quarta posição global de país economicamente mais desenvolvido, hoje já não o é e está em processo de decadência económica.

Se este era o objetivo estratégico norte-americano, então é difícil não concluir: os Estados Unidos ganharam.Os países da UE e a Rússia perderam essa relação, mas economicamente o único que não se adaptou foi a UE.

Primeiro a energia russa. Agora também a iraniana Entretanto, continuamos a estreitar o corredor por onde pode entrar energia na Europa. A energia russa “não presta”. A iraniana também não pode prestar.

Outros fornecedores tornam-se inconvenientes conforme muda a geopolítica internacional.

E, curiosamente, aquilo que nunca parece deixar de prestar é a energia proveniente dos nossos aliados estratégicos — mesmo quando custa mais.

O consumidor europeu não paga apenas gasolina ou gasóleo. Paga geopolítica. Paga sanções. Paga conflitos. Paga rotas comerciais mais longas. Paga prémios de risco. Paga a substituição de fornecedores. E paga, sobretudo, a extraordinária incapacidade europeia de distinguir os interesses estratégicos dos Estados Unidos dos interesses económicos da própria Europa.

Quando instalações petrolíferas russas são atacadas pela Ucrânia, num conflito em que os países ocidentais acólitos dos EUA fornecem armamento, inteligência, financiamento e apoio político a Kiev, seria infantil imaginar que os mercados energéticos não incorporariam o risco de uma escalada sobre a capacidade produtiva e exportadora russa.

Depois ficamos surpreendidos quando o petróleo sobe. E quando o petróleo sobe, a bomba de combustível dá-nos uma excelente aula de geopolítica.

Não é preciso um doutoramento em Relações Internacionais. Basta olhar para o preço por litro. “Slava Ukraini” — e a fatura chega ao posto de abastecimento

A imagem que acompanha este artigo é, naturalmente, uma provocação satírica. Mas os combustíveis no maior país do mundo não subiram.

Mas talvez sintetize melhor a situação do que muitos debates (homilias) televisivos.

Slava Ukraini! Gasóleo: mais caro. Gasolina: mais cara. Energia: mais cara. Produção industrial europeia: pressionada. Competitividade: pressionada. Famílias: pressionadas.

E continuamos satisfeitos porque nos garantem que estamos do “lado certo da História”. ,A questão que coloco é muito simples: quanto custa, por litro, estar do lado certo da História?

Porque alguém acaba sempre por pagar a política externa. E esse alguém raramente é o político que anuncia a sanção numa conferência de imprensa. É o cidadão que abastece o automóvel. É o pescador que abastece o barco. É o transportador. É o agricultor. É a empresa que paga eletricidade.

E, finalmente, é novamente o cidadão quando todos esses custos aparecem incorporados no preço dos produtos que compra.

O “jardim” e a “selva”

Josep Borrell deixou-nos talvez uma das metáforas mais reveladoras da visão que uma parte das elites europeias tem do mundo: “A Europa é um jardim. A maior parte do resto do mundo é uma selva.”

Pergunto: será?

Porque começo a olhar para a chamada “selva” e encontro países que negoceiam simultaneamente com Washington, Moscovo e Pequim. Compram petróleo russo quando lhes interessa. Compram tecnologia americana quando lhes interessa. Negociam com a China quando lhes interessa. Defendem, bem ou mal, aquilo que entendem ser o seu interesse nacional.

A Índia não parece particularmente preocupada em pedir autorização moral a Bruxelas antes de comprar energia.

A China seguramente também não.

Grande parte do mundo recusou transformar as relações internacionais numa escolha infantil entre duas camisolas.

Enquanto isso, nós, europeus, parecemos ter desenvolvido uma extraordinária capacidade para prejudicar os nossos próprios interesses económicos em nome de uma superioridade moral que o resto do planeta está cada vez menos disposto a reconhecer.

Talvez a “selva” tenha percebido uma coisa que o “jardim” esqueceu: os países não têm amigos eternos; têm interesses.

Os vassalos pagam a conta O problema não está em a Europa ser aliada dos Estados Unidos. Uma aliança transatlântica pode perfeitamente fazer sentido. O problema começa quando aliança passa a significar subordinação.Quando Washington tem um interesse e Bruxelas automaticamente o transforma num interesse europeu, deixámos de ter política externa própria. Passámos a executar a política externa de outro.

E um continente com cerca de 450 milhões de habitantes, uma das maiores economias do planeta, capacidade científica, tecnológica, industrial e militar considerável que em pouco mais de 4 anos a sua economia deixou de ser 30% do PIB mundial e caiu para 16%, deveria ter maturidade suficiente para conversar simultaneamente com Washington, Moscovo, Pequim, Nova Deli, Teerão e quem mais fosse necessário.

Não precisamos de amar a Rússia. Não precisamos de amar o Irão. Nem sequer precisamos de gostar dos respectivos regimes. Precisamos de defender a Europa, leia-se países da UE.

E defender a Europa significa perceber que geografia não se altera através de sanções: a Rússia continuará a ser nossa vizinha quando Putin desaparecer, quando Zelensky desaparecer, quando Trump desaparecer e quando todos os actuais dirigentes europeus forem apenas uma nota de rodapé nos livros de História.

Talvez tenhamos isolado o país errado Queríamos isolar a Rússia. Mas Rússia, China, Índia, Irão e muitas outras economias continuam a negociar entre si e com uma enorme parte do planeta e em crescimento e prosperidade.

O famoso “isolamento da Rússia” deve ser uma modalidade de isolamento bastante sofisticada: Moscovo continua sentada na ONU, onde, para incómodo dos pregadores do seu desaparecimento internacional, é membro permanente do Conselho de Segurança e tem direito de veto; continua nos BRICS, G20, Organização de Cooperação de Xangai, CEI, União Económica Eurasiática, OTSC, APEC, OSCE, OMC, FMI, Banco Mundial, AIIB, BIS e OPEP+, além de continuar representada na UNESCO, FAO, OMS, OIT, UIT, OMPI, OMM, UNIDO, UNCTAD, ICAO, Organização Marítima Internacional e AIEA, entre muitas outras estruturas internacionais.

Um isolamento extraordinário, portanto: tem assento, vota, veta, negoceia, compra, vende, cria novas alianças e reforça relações económicas com uma enorme parte do planeta. Talvez fosse conveniente explicar isto aos nossos comentadores televisivos, porque, aparentemente, o “mundo” termina onde acabam a União Europeia, os Estados Unidos e os respectivos aliados. O resto — China, Índia, grande parte da Ásia, África, Médio Oriente e América Latina — deve ser apenas aquela famosa “selva” de Borrell.

 E, enquanto nós celebramos orgulhosamente o isolamento russo dentro do nosso pequeno jardim, seria prudente verificar se não fechámos simplesmente o portão por dentro e, convencidos de que deixámos a Rússia lá fora, ainda não percebemos que somos nós que estamos a ficar do lado de dentro cada vez mais sozinhos.

Talvez seja altura de olhar para o mapa-múndi sem as lentes de Bruxelas e perguntar: – E se, enquanto tentávamos isolar a Rússia do mundo, estivéssemos lentamente a isolar-nos de uma parte crescente do mundo?

É uma pergunta legítima.

E existe outra ainda mais desconfortável.

Se a energia russa não presta, se a iraniana também não presta e se amanhã aparecer mais um país cuja energia deixa subitamente de cumprir os nossos elevados padrões de pureza geopolítica, sobra-nos o quê?

Provavelmente energia mais cara. Mas politicamente correta.

Podemos então abastecer o automóvel, olhar orgulhosamente para os números luminosos da bomba e repetir:

“Slava Ukraini.” Dois euros e tal por litro.

Mas não faz mal. Afinal, dizem-nos que ainda vivemos no jardim. Só convém não perguntar quem é o jardineiro — e quem está a pagar a água.

11 pensamentos sobre “Slava Ukraini” – o preço de um jardim cada vez mais isolado

  1. Tive de olhar duas vezes para a imagem (ou mais) para perceber onde se situava a “punchline” (ou linha de impacto, em bom português).
    Mas não tive de ler o texto duas vezes para ter uma noção da autoria e da intenção, lá vem escrito:

    “A imagem que acompanha este artigo é, naturalmente, uma provocação satírica.”

    Mas por qualquer razão lê-se na diagonal, ou finge-se que se lê, e depois ainda se inventam pretextos ou interpretações abusivas das intenções e dos conteúdos.

  2. Ninguém estava de certeza a espera que a imagem fosse real na sua totalidade. Tínhamos de ser muito “parvos” para pensar que uma petrolífera teria a pouca vergonha de incluir tal coisa num totem.
    Por muitas razoes que tenham para dar gloria ao nazismo ucraniano e estadounidense pois que a conta disto tudo teem tido lucros astronómicos enquanto todos nós vamos fazendo cada vez mais contas a vida.
    Em especial quem trabalha atrás do sol posto e tem de fazer um monte de quilómetros de carro para ir trabalhar.
    Porque a verdade e que os preços pouco diferentes são dos que ali estão e a tendência não é para melhorar pois que esta gente não acorda.
    Raios partam a Ucrânia. Um raio parta Trump pelo meio.

  3. Independentemente do artigo, fiz a pesquisa na IA sobre a imagem. O resultado foi este:
    AI Overview
    Esta imagem é manipulada.Embora o painel da bomba de combustível da BP seja real e esteja localizado em Portugal (como indicam os nomes das localidades de Albufeira e Ferreiras na placa ao fundo), a mensagem de cariz político na parte inferior foi inserida digitalmente.Os principais sinais de adulteração incluem:Mensagem falsa: A secção azul com o texto “Slava Ukraini!” e o retângulo amarelo com a frase “O combustível russo não presta” foram colocados por cima do espaço originalmente reservado para publicidade ou produtos da marca (como a gama de combustíveis Ultimate).Ausência de painéis dinâmicos: A BP e outras gasolineiras não utilizam painéis promocionais manuscritos ou com mensagens políticas deste género nas suas estruturas oficiais de preços.Preços alterados: Os valores dos combustíveis exibidos no totem (superando os 2.40€/L) também foram editados para valores artificialmente inflacionados face aos preços reais praticados no período.
    A ser assim, uma imagem manipulada, A Estátua de Sal deveria ter mais cuidado com estas situações e também com linguagens “trauliteiras” – não especialmente neste, mas sobretudo em alguns outros – a cujos autores faltará porventura educação ou a noção de que com palavreado incorrecto ou adjectivação excessiva – estará a denegrir o seu próprio artigo.
    Era só,
    Obrigado

    • Não entendo o seu trabalho já que em lado akgum o texto diz que a imagem é verdadeira e não criada por IA para ilustrar o artigo. Aliás, não se pretendeu “enganar” ninguém pois toda a gente sabe qyais os preços dos combustíveis HOJE e não são aqueles que estãp na imagem, mas que talvez venham a sê-lo num futuro não muito distante. Devia era opinar sobre as causas dos elevados preços dos combustíveis na Europa, que é o tema central do aerigo, e não andar a questionar realidades que nem sequer foram afirmadas como verosímeis.

    • ó jme, do fundo do coração – obrigado. eu pensei mesmo que a imagem era real… até a partilhei 15 vezes nas redes sociais… deves ser conhecido como o milhazes das internetes.
      mas depois de ser alertado pela tua simpática mensagem fui investigar mais profundamente e descobri que as placas com os nomes das localidades também foram inseridos digitalmente na imagem, porque, se fosse no centro ou no norte do país, ia haver gente que iria culpar as senhoras que fazem a cruzinha no quadrado que o padre manda.

  4. O artigo é bom na identificação das consequências econômicas do posicionamento da UE em relação à guerra na Ucrânia.
    Das deixa a porta aberta em relação à possibilidade de estarmos “do lado certo da história” . Ora, não é o caso. Estamos simplesmente a alinhar de forma impoderada com a preocupação secular dos USA, de que a Rússia é demasiado grande e é preciso enfraquecê-la.
    Como a preocupação não é desinteressada, na via para o enfraquecimento da Rússia, está o enriquecimento dos Estados Unidos; o que passa pelo empobrecimento dos europeus, entre outros.
    Empobrecimento que não é partilhado pelos dirigentes nem pela tecnoestrutura da UE, cujo escrutínio é vestigial.

  5. E temos povos embriagados por comentadeiros que dizem asneira atrás de asneira sobre a perigosa Rússia.
    Esta canalha não acorda, continua a sonhar com a derrota da Rússia que fará tudo isto valer a pena.
    Depois são tretas como que a Rússia continua a admirar Stalin.
    Claro que continua.
    Porque tenha o homem sido o que tenha sido a sua perseverança foi decisiva para que a Rússia derrotasse o nazismo e para que a sua população não fosse toda exterminada.
    E hoje esta cambada quer em relação a Rússia exactamente o mesmo que queria Hitler.
    Por isso não admira a admiração pelo homem que derrotou Hitler.
    Mas esta gente aproveita tudo o que sustente as suas convicções estupidas.
    Não tenhamos ilusões pois tivesse eu notas de 50 euros como vezes ouvi canalha vil dizer que os russos deviam ser “banidos da Terra”.
    Leia se exterminados.
    Por isso não se preocupam com a carteira e se tivessem de voltar a comer meia sardinha para comprar gasolina fariam o sacrifício com a alegria de quem combate os demônios russos.
    Ninguém acorda por isso estamos nisto.
    E já agora parem de dizer que a Rússia teve qualquer interesse em ter uma besta tresloucada no trono dos Estados Unidos. Tenham vergonha no focinho.
    Raios partam a pategada. Raios partam a Ucrânia.

  6. Pá… mas olha aí os Tekever a voar nos céus da Rússia, super high tech… o Mark Rubio a dizer o quanto somos prestáveis ao Grande Irmão, apesar de indolentes com os Nuestros Hermanos… a Nova Business School of Economics no top do ranking internacional de faculdades de gestão, só atrás de uma em St. Gallen… as agências de rating internacional a subir a notação de Portugall para A+… os discursos do Montenegro no Pontal e do Hugo Soares em hora de “ponta”… Portugal no Conselho de Segurança da ONU graças a Paulo IsRangel… é um mar, um Atlântico que se abre ao mundo e mais àquem… e os investimentos em barcos, blindados, helicópteros, aviões e majorações do Nuno Marmelo… Portugallo e tan bello!

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