Os trabalhistas britânicos descobriram a pólvora? 

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 26/06/2026)

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Andy Burnham, o homem que se prepara para suceder a Keir Starmer na chefia do Partido Trabalhista – e, provavelmente, no cargo de primeiro-ministro britânico -, apresentou-se como portador de uma novidade: acabar com a economia do trickle down, reindustrializar o Norte de Inglaterra, usar a contratação pública para apoiar empresas britânicas, reforçar o ensino técnico-profissional e ouvir as preocupações populares sobre imigração. Ouvi tudo isto num discurso proferido por ele a 19 de junho passado. 

Burnham diz que está contra a economia do trickle down. A expressão designa a teoria segundo a qual, se o Estado favorecer ricos, empresas e investidores, a riqueza acabará por “pingar” para o resto da sociedade. É a doutrina moral do neoliberalismo, seguida fielmente desde o fim da Guerra Fria pela direita e pelos governos socialistas e sociais-democratas da Europa – incluindo o PS e o PSD portugueses. 

Burnham, agora que os trabalhistas estão a cair em desgraça, veio constatar um facto: muito pouco pingou da riqueza dos “de cima” para os “de baixo”. Basta ver as estatísticas dos últimos 40 anos. 

Burnham também fala em reindustrialização. Desde o fim da Guerra Fria o discurso dominante apresentou a deslocação de indústrias para a Ásia como resultado natural da eficiência económica. O resultado está à vista: antigas zonas mineiras, siderúrgicas, têxteis e manufactureiras perderam empregos qualificados, sindicatos, orgulho produtivo e continuidade social. 

A Grã-Bretanha, que inventou a Revolução Industrial, tornou-se uma economia dependente da finança, dos serviços e do consumo alimentado por crédito. A pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise energética e a tensão com a China mostraram o custo dessa ilusão: quem não produz depende; quem depende perde soberania. 

Para resolver isto, Burnham quer o reforço do papel do Estado na economia. Ele fala da contratação pública como instrumento de política industrial. Isto parece elementar, mas está perto da heresia económica para os “técnicos” das OCDE e dos FMI desta vida. Não tarda, estão a chamar comunista ao homem! 

Finalmente, há a imigração. É o ponto mais difícil e talvez o mais revelador. A esquerda social-democrata habituou-se a tratar a imigração em dois registos: moralismo liberal ou silêncio defensivo. Quando as classes populares manifestavam preocupação com salários, habitação, serviços públicos ou mudanças rápidas nos bairros, em vez de receberem políticas de integração eram frequentemente acusadas de atraso, preconceito ou xenofobia. A direita radical ocupou esse espaço, transformando problemas sociais reais numa guerra contra estrangeiros de raiz xenófoba. 

Burnham tenta outra via. Não diz que os imigrantes são a causa da crise. Diz que a imigração é gerida com baixos salários pagos a essas pessoas e cria uma injustiça sentida pelas comunidades locais. Pelo menos há aqui o reconhecimento da exploração capitalista estar na raiz do problema. 

A pergunta, portanto, não é se os trabalhistas descobriram a pólvora. A pergunta é por que razão demoraram tanto tempo a procurá-la e a admitir o que, em grande medida, a restante esquerda – radical, comunista, ou o que quiserem chamar-lhe – tantas vezes identificou. 

Durante décadas, a social-democracia aceitou gerir a economia de uma forma que destruía a sua própria base social. Agora, assustada com a extrema-direita, tenta reencontrar a linguagem da classe, do território e da produção… 

Soa, infelizmente e mais uma vez, a falso. 

5 pensamentos sobre “Os trabalhistas britânicos descobriram a pólvora? 

  1. Ó Iluminado da Silva, atão proibias os jornais e televisões todas da sacanagem e quem é que decidia o que podíamos ou não ver e ler? O Departamento Sagrado da Suprema Iluminação, chefiado por ti? E proibias também Google, HBO, Netflix e quejandos porque tens medo que o pessoal não tenha discernimento suficiente para distinguir merda de mousse de chocolate? Ou proibias também a mousse de chocolate? Ó Iluminadinho, foi exactamente com esse espírito que a Ursula von der Lies nos cortou o acesso à RT! Qual a diferença entre ti e ela?

    • Já te chamaste Carlos Marques, agora és Oliveira Vidal, por que não mudas de novo? Messias 2.0 é uma hipótese, Iluminadinho da Silva é outra, mas há muito por onde escolher.

  2. “Soa, infelizmente e mais uma vez, a falso.”
    – Pedeo Tadeu sobre o “esquerdismo reencontrado” do Labour.

    Obviamente. Se o bicho não fosse um capataz do NeoLiberalismo, a mesmíssima escumalha que chamou “comunista”, “extremista”, e “anti-semita” ao VERDADEIRO Esquerdista Jeremy Corby, não estaria agora a salivar pelo Andy Burnham, que é na prática para o Starmer, o mesmo que Sunak foi para Boris: o palhaço seguinte, sem eleições.

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    “A pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise energética e a tensão com a China mostraram o custo dessa ilusão: quem não produz depende; quem depende perde soberania.”
    – Pedro Tadeu

    Pela N-ésima vez, a guerra na Ucrânia não é um problema externo que nos afecta, é o resultado natural da monstruosidade dos regimes ocidentais. Foram os EUA que fizeram o golpe com ajuda de nazis para poderem iniciar a guerra em 2014 que tinham planeado desde os anos 90. E foram os Ingleses que deram à ditadura nazi de Kiev as garantias (dinheiro e armas e ISR i.e. Intelligence do Mi6 e CIA, Surveillance dos satélites dos EUA/NATO, e Reconnaissance dos MQ9 Reaper dos EUA/NATO) para em 2022 recurarem o justíssimo e generoso plano de paz proposto pela Rússia do competente, patriota, diplomata, e decente, e altamente popular, Vladimir Putin, o Presidente legítimo e eleito em total liberdade e democracia exemplar, que promete com honestidade e faz o que prometeu ao longo do mandato, tudo isto ao contrário do que acontece na palhaçada ocidental.

    Quanto à soberania ser uma questão directamente ligada à indústria, é totalmente lógico: sem indústria, não é possível soberania.
    No entanto é essencial dizer que a realidade também prova que o inverso (i.e. a com indústria, há de certeza soberania) não é uma garantia.
    Senão vejamos o Japão, a Alemanha, e cada vez mais o próprio Reino Unido. Três países altamente industrializadas, com produtos de valor acrescido (e cujo fabrico requer muito saber-fazer da engenharia) vendidos em todo o Mundo.
    E no entanto, o Japão está ainda totalmente ocupado/colonizado pelos EUA, a Alemanha idem aspas, e o Reino Unido cada vez se parece mais um vassalo e cada vez menos o chamado ‘junior partner’ do criminoso império Anglo-Americano.

    Concluindo, indústria é essencial, mas só resulta em soberania se se tomarem também medidas protecionistas em relação aos campos político e mediático/informativo, de forma a proteger a nação dos ataques (corrupção, infiltração,. manipulação) que os EUA PERMANENTEMENTE fazem ou tentam fazer em TODO O LADO.
    E convém que os so-called democratas esquerdistas na Europa ganhem noção disto, pois a Censura é um instrumento fundamental desse protecionismo. Ou seja, aquilo que o nosso regime faz INJUSTIFICADAMENTE aos canais de informação Russos, era o que devia fazer a TODOS os canais dos EUA, Reino Unido, israel genocida, União Europeia, e Ucrânia nazi.
    E quanto falo de todos os canais, é mesmo todos os canais: TV, jornais, redes sociais, embaixadas, NGO (organizações imperiais de infiltração mascaradas de organizações não-governamentais), óbvios rios de dinheiro corporativo (aquele “prémio” ou “promoção” ou “investimento” feito pelas Microsoft, Google, Coca-Cola, etc), e até mesmo na designação mais alargada de cultura, i.e. Hollywoods e Netflixs e Primes e HBOs e Disneys e companhia).

    Mas isto é uma conversa para a qual a REAL Esquerda Europeia, real mas ingénua e/ou covarde, inclusive na ala “modernaça” do PCP, da qual o Pedro Tadeu faz parte, não está preparada para ter.

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