(Tiago Franco, in Facebook, 10/06/2026, Revisão da Estátua)

Eu ainda sou do tempo em que o 10 de junho era o dia, ainda que de forma tímida, da raça. Lembram-se quando o Cavaco, sempre aflito para esconder aquele lado mais facho, deixou escapar o dia da raça num discurso oficial e o país se chocou? Eram bons tempos.
Quase vinte anos depois já ninguém precisa de ficar no armário. O discurso de ódio, racismo, divisão e xenofobia não só deixou de ser um problema como ainda dá votos. Que maravilhoso país que, em 2026, sonha com os tempos áureos da pureza, disciplina, rigor e controlo de 1950…
Para além da raça lusitana, seja lá isso o que for, que aquela parte do país mais desinteressante tenta elevar, hoje comemoram-se, de facto, duas coisas importantes: as comunidades portuguesas e esta língua, difícil de aprender como o raio e tantas vezes mal tratada.
Não é novidade para ninguém que o governo de Montenegro e, em particular o ministério de Paulo Rangel, não estão propriamente aflitos com a cultura ou o ensino do português além fronteiras. Há inúmeras prioridades que ocupam o quotidiano governativo antes, sequer, de se lembrarem da existência do Instituto Camões ou dos seus docentes que, de forma precária, tentam ensinar o nosso idioma.
E bem, diga-se. Com tanta papelada para mudar na Spinumviva, declarações do Marco Rubio sobre a espinha do Rangel e a catrefada interminável de Power Points com “Portugal está melhor” para produzir, quem é que consegue pensar na língua portuguesa, na identidade do país ou em profissionais, como a Vera Faias Fonseca, que tenta, no Estocolmo Instituto Camões, expandir o nosso pequeno país através da divulgação da língua?
O Rangel, cujo ministério tutela esses docentes, dono de um vocabulário robusto e o Luís, mais rural (Marcelo dixit) e com menos recursos linguísticos, estão preocupados em garantir que boa parte do erário público é entregue aos privados. Tentam garantir que as políticas racistas do Chega vão fazendo o seu caminho na Assembleia da República e que a especulação imobiliária e o ataque ao mundo do trabalho, desejados por PSD e IL, não fiquem pelo caminho. O resto, meus amigos, incluindo a nossa língua, fica para quem vier a seguir. Quando os governantes são tacanhos, a cultura é apenas uma despesa.
A carta que se segue é um apelo dos profissionais do ensino português no estrangeiro que, neste espaço, tento divulgar.
É este o 10 de junho que me interessa.
Carta aberta em defesa do ensino do português no estrangeiro
Os profissionais da rede do Ensino Português no Estrangeiro (EPE) —Coordenadores, Adjuntos, Docentes e Leitores — vêm manifestar publicamente a sua profunda preocupação perante a proposta de revisão do Regime Jurídico do Ensino Português no Estrangeiro (RJEPE).
O EPE constitui um dos mais importantes instrumentos da política externa cultural portuguesa. Numa língua pluricêntrica e global como o português, o ensino da língua é um elemento essencial da diplomacia cultural de Portugal, contribuindo para o fortalecimento das comunidades portuguesas, da CPLP e da projeção internacional do país.
Ao longo de décadas, esta rede foi construída graças ao trabalho, dedicação e elevada qualificação dos seus profissionais. Foram eles que consolidaram projetos educativos, criaram e fortaleceram parcerias com escolas e universidades, estabeleceram redes de cooperação internacional e garantiram a presença da língua portuguesa em contextos cada vez mais exigentes e competitivos.
É precisamente por reconhecer a importância estratégica desta missão que encaramos com enorme apreensão a nova proposta de revisão do regime jurídico do EPE. Longe de reforçar a estabilidade, a atratividade e a valorização da rede, esta proposta de alteração ao regime jurídico e enquadramento remuneratório aprofunda a precariedade existente. Mantém os profissionais num regime sem vínculo estável, limita a continuidade das funções desempenhadas e coloca em causa a permanência de centenas de trabalhadores atualmente ao serviço do Estado português no estrangeiro.
Na prática, a proposta determina o fim da continuidade profissional de todos os atuais Coordenadores, Adjuntos, Docentes e Leitores, independentemente da experiência acumulada, da avaliação do seu desempenho, das necessidades das instituições onde exercem funções ou do interesse estratégico dos projetos que desenvolvem. Para muitos profissionais, após anos ou décadas de serviço, o horizonte deixa de ser a continuidade do trabalho realizado e passa a ser o desemprego ou a sujeição a novos processos concursais para funções que já desempenham com mérito reconhecido.
Trata-se de uma medida com efeitos práticos equivalentes aos de um despedimento coletivo de profissionais altamente qualificados que têm sido responsáveis pela construção e consolidação da rede EPE. A proposta ignora o conhecimento especializado adquirido ao longo de anos, compromete a continuidade pedagógica e institucional dos projetos em curso e fragiliza relações de confiança construídas com comunidades portuguesas, escolas, universidades e entidades parceiras em todo o mundo.
Paralelamente, a possibilidade de recrutamento através de mecanismos simplificados e com menores exigências de qualificação profissional levanta sérias dúvidas quanto à preservação da qualidade pedagógica e científica do Ensino Português no Estrangeiro. Mantêm-se igualmente por resolver problemas estruturais relacionados com a valorização profissional dos recursos humanos da rede: remunerações desatualizadas, subsídios de residência e apoios à instalação, inexistentes e/ou desajustados às responsabilidades exercidas e ao custo de vida dos países de colocação. Muitos profissionais acumulam funções docentes, científicas, culturais, administrativas e de representação institucional sem o correspondente reconhecimento material. Esta acumulação de funções implica ainda um aumento significativo da carga horária semanal, também este não compensado. Importa ainda assinalar a inexistência de redução da componente letiva em função da idade para os profissionais do EPE, ao contrário do que sucede em Portugal, gerando mais uma situação de inequívoca desigualdade.
De referir que esta proposta afeta não só os profissionais da rede EPE, mas também as suas famílias. Ao longo dos anos, muitos docentes, leitores, adjuntos e coordenadores construíram os seus projetos de vida no estrangeiro com base na expectativa de continuidade das suas funções, integrando os seus agregados familiares nas comunidades de acolhimento e tomando decisões pessoais e profissionais para permanecerem unidos. A instabilidade agora criada coloca em causa não apenas percursos profissionais, mas também a segurança e o futuro de famílias inteiras que confiaram no compromisso do Estado português.
Prometeu-se uma reforma orientada para a estabilidade, a valorização e a,atratividade. No entanto, o que emerge desta proposta é uma rede mais precária, mais instável e menos capaz de atrair e reter profissionais qualificados. Apelamos ao Presidente da República, à Assembleia da República, ao Governo, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, ao Camões I.P. e a todas as forças políticas para que promovam um processo de diálogo efetivo com os profissionais da rede e procedam à revisão desta proposta, garantindo a estabilidade profissional, a valorização das condições de trabalho, a continuidade dos projetos educativos e a sustentabilidade do Ensino Português no Estrangeiro.
Defender a rede do Ensino Português no Estrangeiro (EPE) é defender a língua portuguesa, as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e a presença internacional de Portugal. Não é possível fortalecer a projeção internacional da língua portuguesa enfraquecendo aqueles que diariamente a representam além-fronteiras.
Assinam:
A REDE EPE — Coordenadores, Adjuntos, Docentes e Leitores
10 de junho de 2026
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Excelente! Mas muito triste!
O problema do ensino de português além fronteiras não tem a ver só com a falta de apoio ao ensino do português lá fora.
Tem a ver com o sentimento de inferioridade dos emigrantes em relação a sociedade de acolhimento.
Um sentimento de inferioridade que faz com que em casa falem muitas vezes aos filhos na língua do país de acolhimento e não na sua.
Isso e mais visível nos que emigram para França pois que a língua francesa e mais fácil de aprender, mas também na Alemanha havia gente que tratava de falar o menos possível com os filhos, e quando falava era no pouco alemão que sabia, pois que achavam que aprender uma língua na escola e outra em casa iria prejudicar a sacrossanta integração na sociedade de acolhimento.
O português quando vai para fora trata de se aculturar, salvo algumas exceções que normalmente se resumem a ensinar as crianças o Vira do Minho ou outra qualquer dança folclórica do sítio de onde vieram.
Por isso e tão avesso aos imigrantes que insistem em ensinar aos filhos a sua língua e não se convertem ao vinho e a carne de porco.
Os portugueses rapidamente trocavam o vinho e as bifanas pelas grandes canecas de cerveja alema e as salsichas.
Os indianos corridos de Moçambique não tinham nenhuma escola de idiomas indianos por cá.
Mas todos a ensinavam aos filhos.
E isso não prejudicava integração nenhuma.
A maior parte deles estavam entre os melhores alunos das suas turmas. De muito poucos se poderia dizer “burro como um tamanco”.
Mas não eram poucos os tugas que achavam que aprender duas línguas era muito areia para a camioneta dos filhos. Talvez isso também tivesse a ver com o sentimento de inferioridade tuga.
Em França não era raro gente que se recusava terminantemente a mandar os filhos para a “escola portuguesa” mesmo quando havia o tal ensino de português.
Houvesse vontade e não era sequer preciso ensino de português lá fora.
Um caso que conheci. Um casal. Ele português, ela polaca.
Ela tratou de ensinar polaco ao moço sem precisar de escola nenhuma. Porque dizia que não eram os avós polacos que tinham depois de velhos de aprender alemão para se entenderem com o neto.
Ele esteve se nas tintas para isso e o moço não sabia português que chegasse para mandar alguém a m*rda.
Por sorte do avô português também ele vivia na Alemanha e sabia alemão.
Mas conheci muitos casos de avós portugueses que não conseguiam comunicar com os próprios netos quando esses vinham a Portugal de férias em Agosto com os pais a arrotar postas de pescada e a falar metade português metade mau francês.
Este governo tem muitos pecados, demasiados, nunca devia ter sentado o cu no poleiro mas não tem culpa do complexo de inferioridade e aculturação de muitas famílias. Que os impede muitas vezes até de falar com os filhos a língua do seu país.