(Tiago Franco, in Facebook, 19/04/2026, Revisão da Estátua)

Não sei qual é a vossa banda sonora para a bicicleta. A minha são as discussões sobre o pacote laboral. Coisas que me irritam transmitem mais energia para as pernas, assim parece.
Não vou entrar, novamente, na parte técnica da discussão até porque, ao fim de quase 60 reuniões, imagino que a versão final do diploma ainda vá levar mais umas marteladas.
Importa, neste momento, destacar três coisas. A primeira é que eu espero que seja claro, para quem trabalha, que a discussão em torno destas alterações se resume a perceber o tamanho das perdas. Não há qualquer ganho possível para os trabalhadores e os sindicatos limitam-se a fazer controlo de danos.
A segunda, também relevante do atual estado de coisas, é que o governo já avisou que com acordo ou sem ele (neste caso da UGT uma vez que a CGTP já foi excluída), o diploma irá para o parlamento onde, obviamente, será aprovado pela maioria de direita. Por acaso tenho alguma curiosidade para perceber como se vai posicionar o Chega, que já percebeu que maior parte dos seus apoiantes não são propriamente empresários. O racismo como programa ideológico funciona até a precariedade nos bater à porta. E há uma quantidade assinalável de rapaziada do Chega que vai ter que deixar os paquistaneses em segundo plano, quando perceberem o buraco em que este pacote laboral os meteu.
A terceira, e talvez a mais importante, é a forma como o governo, os imbecis da IL e a direita em geral, nos vendem as transformações da lei laboral como modernidade, progresso e ponto de partida para maiores salários.
É mentira. Eu repito, é mentira. Facilitar despedimentos, precarizar contratos, criar formas para esticar trabalho temporário não é, de forma alguma, “incentivar o mercado”. É, quanto muito, deixar os trabalhadores em situação de stress permanente e sujeitos a todos os abusos do empregador, por medo de perderem o posto. Já para não falar do atraso permanente que isso implica na vida de cada um. Já tentaram pedir um empréstimo para uma casa com um contrato temporário?
Quando nos dizem que essa é a forma de aumentar a produtividade e pagar melhores salários eu digo, sem pestanejar, é mentira. Mas daquelas cabeludas mesmo. A produtividade está lá, os lucros são gerados. A riqueza é que não é distribuída.
A única coisa que a confederação de patrões pretende com este pacote laboral é aumentar o seu lucro, explorando, ainda mais, os milhões de pobres que neste país trabalham de forma precária e por salários de merda.
Islândia, Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Itália, Luxemburgo, Japão, Singapura, Irlanda, Nova Zelândia, Canadá, Reino Unido, Bélgica e Áustria são alguns dos países do chamado “primeiro mundo”, com taxas de sindicalização muito superiores a Portugal. Acham que são os contratos coletivos de trabalho, as discussões na concertação, a carga fiscal ou as políticas de solidariedade social que impediram o sucesso económico destes países?
Não acham estranho que vos vendam, no panfleto, o sonho da vida escandinava mas vos tentem convencer que, para lá chegar, é preciso seguir o caminho do Laos? (Que por acaso está mesmo ao nosso lado na tabela dos sindicalizados)
Precariedade, baixos salários, facilidade no despedimento. Todos os ingredientes para se criar uma sociedade de escravos, sem vida, e ainda mais pobres. As regras para defesa dos trabalhadores existem porque, como se percebe, a relação é por si só desequilibrada para o lado do empregador. Mas mesmo nesse natural desequilíbrio, nem o mais otimista dos patrões pensou, um dia, que ia ter o CEO da Spinumviva a legislar sobre o futuro dos trabalhadores. É o jackpot de uma vida e uma das questões que levarei para a cova sem resposta. Como é que um trabalhador, ainda por cima pobre, vota e defende partidos de direita?
Antes de me despedir, que isto já vai longo, deixo uma nota para a rapaziada que, apreciando ser explorada, ensaia por aqui a cantiga do “vai trabalhar”. Antes de escrever este texto, e de beber o café da manhã, trabalhei 20 anos com contratos temporários. Sou capaz de ter uma noção de como se faz a coisa.
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Não e preciso ser uma casa.
Nos meus primeiros tempos de vida profissional comprei uma aparelhagem e um leitor de DVD a prestações.
A coisa custava para aí o equivalente a 500 euros mas pouco mais que isso ganhava eu.
Para tratar da papelada tive de dar um recibo de vencimento. Ora, como nem contrato tinha mas um reles recibo de quitação foi isso que dei.
Três meses depois reparei que nenhum dinheiro me tinha saído da conta.
Era suposto o dinheiro ir saindo da conta por via da entidade que avalizava o crédito.
Como acredito na honestidade lá me dirigi a loja a perguntar o que se passava.
E o que se passava era simples. No estabelecimento o que não faltava era gente a comprar a crédito e por isso ainda não tínham visto que daquele crédito ainda não tinha saído nada.
Contactada a entidade foi dito que o crédito tinha sido recusado porque o recibo não tinha sido considerado prova de que eu tinha um emprego estável que me permitisse pagar as prestações.
Xingando mentalmente a mãe do patrão de puta selvagem de Babilonia para baixo lá fiz um ajuste directo com o lojista. Paguei até ao último cêntimo.
E tratou se de um simples electrodoméstico, claro que nem pensava numa casa.
Aquele patrão aproveitava se de uma situação familiar muito complicada e precária.
Já não está nos mares deste mundo mas nunca esquecerei essa humilhação.
Que acontecia porque toda a gente sabe que uma decisão em Tribunal de Trabalho demora anos, que temos tempo para morrer de fome antes da decisão sair. E por isso aguentamos situações terríveis.
O que sera se a própria lei permitir a gente desta fazer o que quiser da vida de quem trabalha com toda a impunidade?
Acabei a ter de emigrar por nao aguentar um ritmo de trabalho insano. O que será quando a lei lhes permitir fazer o que bem entenderem?
Os cheganos falam numa grande substituição.
Se permitirem aos patrões fazer o que bem entenderem podem ter a certeza que ela acontecerá.
Porque só quem vem de países com condições de vida e trabalho terríveis aguentará viver e trabalhar aqui.
Os portugueses vão procurar os tais países onde muita gente e sindicalizada. Como já vai acontecendo.
Por isso acordem ou Portugal vai tornar se um país de velhos enfiados em lares onde so trabalham imigrantes.