Nos 50 anos da CRP (8): Pela imparcialidade partidária da justiça constitucional

(Por Vital Moreira, in Blog Causa Nostra, 20/03/2026)

Vital Moreira

1. Não sem surpresa, o conhecido militante e ex-dirigente do PSD, Paulo Mota Pinto, que também foi juiz constitucional, veio apoiar, em declarações ao Observador (certamente não por acaso…), a proposta da direção do seu partido, de entregar ao Chega uma das três vagas de juiz do Tribunal Constitucional que decorre do fim do mandato de um juiz a seu tempo indicado pelo PS, enquanto preserva para si o preenchimento das duas outras vagas, que resultam do fim de mandato de juízes por si indicados.

Sucede, porém, que — como mostrei anteriormente (AQUI) — essa proposta viola manifestamente o acordo fundador do TC entre o PS e o PSD sobre a repartição dos lugares entre ambos, com poder de veto recíproco sobre os candidatos indicados por cada um deles, o qual, além de confiar a ambos, em pé de igualdade, a responsabilidade pela garantia da Lei Fundamental — como principais forças políticas que a fizeram e reformaram —, visou, acima de tudo, impedir o controlo político do TC e da justiça constitucional pelo partido governante em cada momento, no pressuposto de que nenhum dos dois partidos viria a alcançar uma maioria de 2/3 sozinho ou no conjunto do seu campo político.

2. Ora, além de fazer entrar no órgão que é o guardião da Constituição um partido assumidamente hostil à Lei Fundamental e ao regime democrático nela fundado — o que, já de si, merece rejeição, por contraditório com a própria missão do TC  —, a referida proposta do PSD afronta deliberadamente a principal razão de ser do acordo, pois, ao acabar com a paridade política entre a esquerda e a direita constitucional no TC, dá, à partida, o controlo político do Tribunal e da justiça constitucional ao partido de Governo em funções, em conjunto com outros partidos da sua área política, que naturalmente tem privilegiado na sua governação.

Mais ainda do que a entrada do Chega no TC — que o PSD podia obter mediante a transferência de uma das suas duas vagas em aberto, em vez de lhe oferecer a vaga do PS —, o que torna inaceitável a solução proposta é o descarado abandono do equilíbrio político e da imparcialidade partidária desde sempre observados na composição daquele, entregando o Tribunal à maioria partidária atualmente governante (mesmo que venha a deixar de sê-lo), que ficará com 6 dos 10 juízes designados pela AR, com os deletérios efeitos inerentes ao controlo governamental da justiça constitucional.

3. A concretizar-se a aprovação da referida proposta, mercê da conjuntural maioria de 2/3 da direita parlamentar (que provavelmente vai desaparecer nas próximas eleições), o TC vai passar a infringir flagrantemente, durante pelo menos os próximos nove anos, o princípio da imparcialidade partidária que justificou a solução constitucional quanto à sua composição em 1982, na 1ª revisão constitucional (acordada entre o PSD e o PS), afastando outras soluções que a não asseguravam (nomeadamente a designação de juízes por outros órgãos políticos). 

Este profundo golpe do PSD na garantia da Constituição, que é filho do mais grosseiro oportunismo político — com a agravante de ser malevolamente perpetrado justamente no 50º aniversário da CRP —, não pode deixar de ser condenado por todos os que prezam o respeito pela CRP de 1976, como expressão política que é da Revolução do 25 de Abril de 1974 e como fundamento do regime democrático então nascido, sem precedente na nossa história política e constitucional.

4.  O ataque à imparcialidade da justiça constitucional pode ser ainda mais grave do que parece, pois, levando à letra a afirmação de que «o PS não tem um lugar cativo no TC», ela significa que a direita parlamentar pode estar a pensar em apropriar-se também das próximas vagas de juízes indicados pelo PS. Ora, depois deste, basta o confisco de  mais um juiz da quota socialista para que a coligação de direita possa também escolher livremente os três juízes cooptados, quando vagarem, transformando o TC num comissariado pseudojudicial do Governo e da maioria que o apoia. 

Se é esse o projeto inconfesso cuja execução agora se inicia, é bom alertar o PR para começar a pensar em convocar novas eleições para pôr fim a esta conspiração contra a independência da justiça constitucional e contra a integridade e efetividade da ordem constitucional da CRP de 1976.

Adenda

Um leitor pergunta: «como é que se chegou aqui?». A resposta simples é que ninguém poderia imaginar, em 1982, que alguma vez houvesse maioria de 2/3 de um dos lados da AR e que um dos partidos no acordo fundacional do TC o traísse à primeira, achando-se no Governo com tal improvável apoio. Penso que todas as constituições “compromissórias”, como a CRP, dependem da boa-fé política e da responsabilidade institucional dos protagonistas do “pacto constitucional” fundacional. Infelizmente, o PSD de Montenegro está oportunisticamente apostado em desvincular-se unilateralmente desse pacto da Assembleia Constituinte de 1976 e da revisão constitucional de 1982.

Adenda 2

Invocando um texto publicado no Observador, um leitor defende que «a composição do TC deveria corresponder à correlação de forças políticas na AR». Mas a tese da folha sectária que refere é rotundamente falsa. A lógica da solução constitucional foi justamente a contrária, ou seja, a de que a composição do TC não deve corresponder à maioria parlamentar de cada momento e que qualquer Governo, fosse do PS ou do PSD, não deveria ter uma maioria no Tribunal Constitucional. E essa lógica nunca foi posta em causa, apesar da enorme variação da configuração parlamentar ao longo do tempo, incluindo grandes diferenças de representação entre o PS e o PSD (por exemplo, em 1985 e em 2005) e a existência de representação parlamentar significativa de outros partidos, como o PCP em 1983, o PRD em 1985 e o Bloco em 2015. O que vai suceder agora, pela primeira vez, é que o Governo em funções vai dispor de uma maioria de juízes no TC, violando flagrantemente a lógica que até agora prevaleceu e pondo em causa a imparcialidade da justiça constitucional.

Adenda 3

Um leitor considera «o cúmulo da hipocrisia política ver Montenegro a dizer que quer continuar a  negociar medidas do Governo à esquerda e à direita e depois roubar uma vaga de juiz de TC ao PS para a entregar ao Chega». Assim é! O acordo com o Chega sobre o TC sela a aliança privilegiada que já era evidente do PSD com esse partido, não deixando margem para qualquer equívoco sobre uma pretensa equidistância. Sob clara pressão de Passos Coelho, Montenegro optou por oficializar publicamente a aliança de direita e ostracizar o PS (o qual tem de tirar as devidas ilações).  

Adenda 4

Uma leitora pergunta se «todos os deputados do PSD venderam a alma ao diabo e vão votar o acordo com o Chega, à custa do PS». Boa pergunta! O voto é secreto, pelo que não pode haver disciplina de voto; e já houve casos de rejeição de candidatos propostos à eleição. Se o acordo com o Chega passar, temos de concluir que o PSD mudou definitivamente de natureza política, passando a assumir-se como direita pura e dura. 

Fonte aqui


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7 pensamentos sobre “Nos 50 anos da CRP (8): Pela imparcialidade partidária da justiça constitucional

  1. Não deve haver “comunistas” de pacotilha, gramofones como os nossos comentadores de sofá, senão não haveria esta postura em Chipre.
    https://vz.ru/world/2026/3/23/1404328.html

    “O destino de importantes bases militares britânicas no Mediterrâneo está em questão. Por que Chipre, que tolerou a presença dessas bases em seu território por décadas, agora as considera uma “relíquia do colonialismo”? E como Londres tenta conciliar seu desejo de manter presença nessa ilha de importância estratégica?”

    Se os houvesse, se fossem da mesma estirpe que os nossos, estariam a pedir que os ingleses não abandonassem a ilha.
    Emprego.
    Prostituição.
    Dinheiro fácil.
    Motivo para gritar umas palavras-de-ordem caducas naquelas duas manifs anuais, antes da ‘ silly season’ (época da parvalheira, mas parvos são eles o ano todo) e depois na ‘rentrée’.

    Quem não os conhecer que os compre.

  2. Ah ah ah ah …

    O sócrates é “nosso”, é o nosso filho-da-p+++, da “esquerda”-mafiosa e gramofone.
    O Coelho, o Montenegro e o VENTURA do CHEGA, esses sim, pode-se e deve-se malhar, mas malhar mesmo com força, agora Sapos 1.0 e Sapos 2.0, sócrates, nem pensar.

    Não vamos comparar o que não é comparável.

    O orfão-comunista não vai comentar, a pagela que recebeu para rezar aqui o responso, não tem lá a palavra sócrates, por isso ele não pode latir, nem salivar com raiva, pedir forcas, fuzilamentos, …

  3. “Processo Costa Freire volta à estaca zero”: título de jornal.
    Quando o processo Melancia foi arquivo havia três recursos do dr. Galvão Teles no TC. Quando o dr. José Maria Martins, advogado Bibi quiz utilizar o TC que era abusado pelos defensores dos grandalhões foi chamado à ordem pela OA por litigação abusiva. O Sócrates já vai em 40 recursos. Etc, etc, etc.
    Só não vê quem não quer.
    Agora só falta dois sabichões: um a chamar-me comunista e o outro a chamar-me de fascista.

  4. Vai ver se o mar da choco, escravo que se diz alforriado.
    O que vocês querem não e democracia. E um regresso ao fascismo, uma perda de direitos para todos, sem passar pela casa da partida e sem receber dois mil escudos.
    Quanto aos teus links quem quiser que os abra e leia.
    E por muito que o fascismo avance nunca conseguirao voltar ao tempo em que Portugal era um país tão democrático em que até os mortos votavam e entre os vivos só votavam os chefes de família.
    E mais tarde ou mais cedo até os pategos se vao fartar de levar no focinho.
    O teu CU foi a segunda mas perdeu em toda a linha porque as sondagens não votam.
    E em todo o lado onde a extrema direita chegou ao poder acabou por sair. Por eleições que os puseram onde deviam estar.
    O mesmo acontecerá aqui porque ninguém tem vocação para saco de pancada e já não estamos na Idade Média em que se acreditava que quanto mais se sofresse nesta vida melhor vida se teria no Céu.
    Isto se o teu CU alguma vez lá chegar.
    Com este desprezo que toda a direita mostra pelas nossas vidas e capaz de ser complicado.
    E da te por feliz de já estares reformado e o abastecimento do andante de que precisas para ir trabalhar nao estar a ser um pesadelo.
    Tudo porque uma dupla de extremistas de direita decidiu que era boa ideia impingir um fantoche extremista de direita, um monarca absoluto, a um país de mais de 90 milhões de habitantes, do tamanho de meia Europa e que se preparou como pode para uma agressão em larga escala como a que está a sofrer.
    Mas podes ir a pé ver se o mar da choco. Afinal de contas, faz bem ao coração.

  5. Por exemplo, se eu disser o que penso acerca do papagaio brasileiro que atende pelo nome de Lula, desencadeio um maremoto pior que o de 1 de Novembro de 1755.
    Mas é no brasil do lula que isto se passa, e não só, por cá o PSD (que é a tal cara-metade do avô Cantigas, preocupado com a sua CRP, a coisa é dele, pensavam que era vossa?) para lá caminha.
    Vai haver zurrada?
    Vai, mas porque é quem é,e não, por uma questão de princípio.

    https://www.tomshardware.com/software/operating-systems/grapheneos-refuses-to-comply-with-age-verification-laws

    “… A declaração veio após a entrada em vigor da Lei de Garantia de Idade Digital (Lei 15.211) do Brasil, em 17 de março, que impõe multas de até R$ 50 milhões (aproximadamente US$ 9,5 milhões) por violação aos fornecedores de sistemas operacionais que não implementarem a verificação de idade.
    A Lei de Garantia de Idade Digital da Califórnia (AB-1043), assinada pelo governador Newsom em outubro de 2025, entra em vigor em 1º de janeiro de 2027 e exige que todos os fornecedores de sistemas operacionais coletem a idade ou data de nascimento do usuário durante a configuração da conta e transmitam esses dados para lojas de aplicativos e desenvolvedores por meio de uma API em tempo real.
    O projeto de lei SB26-051 do Colorado foi aprovado pelo Senado estadual em 3 de março com requisitos semelhantes. …”

    O Inferno, pelas informações que tenho, está a abarrotar de gente “bem-intencionada”.

  6. E alguma vez o PSD foi outra coisa?
    O PSD votou contra a criação do Serviço Nacional de Saude, o PSD apoiou um antigo comandante de campo de concentração nas eleições presidenciais de 1980, o Cavaquismo foi uma verdadeira ditadura de um homem só, o PSD prometeu ir além da troika e isso são só alguns exemplos.
    Por onde e que o Vital andou estes anos todos que só agora e que viu.
    O PSD sempre foi extrema direita e finalmente conseguiu um filho que enganou uma carrada de pategos.
    Agora pode finalmente deixar cair de vez a mascara.
    Quanto ao PS, do que e que estão a espera para correr com aquele infiltrado do Carneiro que se abstém ante as maiores barbaridades?

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