“Tenho vergonha da covardia e da falta de coragem do nosso governo”

(Arundhati Roy, in Resistir, 12/03/2026)


– A guerra dos EUA e Israel contra o Irão e o papel da Índia

“Quaisquer regimes que precisem de ser mudados, incluindo os dos EUA, de Israel e o nosso, precisam de ser mudados pelo povo, não por algum poder imperial inchado, mentiroso, trapaceiro, ganancioso, que rouba recursos e lança bombas, e seus aliados, que estão a tentar intimidar o mundo inteiro para que se submeta”.


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“Tenho algo a dizer porque sou filha da minha mãe e porque preciso endireitar os ombros e dizer isto. É uma pequena declaração sobre a guerra que está prestes a consumir o mundo.

“Sei que estamos aqui hoje para falar sobre [o livro] Mother Mary Comes To Me. Mas como podemos terminar o dia sem falar acerca daquelas belas cidades — Teerão, Isfahan e Beirute — que estão em chamas? Em consonância com o espírito de franqueza e indelicadeza da minha mãe Maria, gostaria de usar esta plataforma para dizer algo sobre o ataque não provocado e ilegal dos Estados Unidos e dos israelenses ao Irão. É, naturalmente, uma continuação do genocídio dos EUA e dos israelenses em Gaza. São os mesmos velhos genocidas a usar o mesmo velho manual. Assassinando mulheres e crianças. Bombardeando hospitais. Bombardeando cidades. E depois fazendo-se de vítimas.

“Mas o Irão não é Gaza. O teatro desta nova guerra pode expandir-se e consumir o mundo inteiro. Estamos à beira de uma calamidade nuclear e de um colapso económico. O mesmo país que bombardeou Hiroshima e Nagasaki pode estar a preparar-se para bombardear uma das civilizações mais antigas do mundo. Haverá outras ocasiões para falar sobre isto em detalhe, por isso, aqui, deixem-me simplesmente dizer que estou do lado do Irão. Inequivocamente. Quaisquer regimes que precisem de ser mudados, incluindo os EUA, Israel e o nosso, precisam de ser mudados pelo povo, não por algum poder imperial inchado, mentiroso, trapaceiro, ganancioso, que rouba recursos e lança bombas, e seus aliados que estão a tentar intimidar o mundo inteiro para que se submeta.

“O Irão está a enfrentá-los, enquanto a Índia se acovarda. Tenho vergonha de como o nosso governo tem sido covarde e sem coragem. Há muito tempo, éramos um país pobre com pessoas muito pobres. Mas tínhamos orgulho. Tínhamos dignidade. Hoje somos um país rico com pessoas muito pobres e desempregadas que são alimentadas com uma dieta de ódio, veneno e falsidades em vez de comida de verdade. Perdemos o orgulho. Perdemos a dignidade. Perdemos a coragem. Exceto nos nossos filmes.

“Que tipo de pessoas somos nós, cujo governo eleito não consegue enfrentar e condenar os EUA quando estes raptam e assassinam chefes de Estado de outros países? Gostaríamos que isso nos fosse feito? O nosso primeiro-ministro ter viajado para Israel e abraçado Benyamin Netanyahu poucos dias antes de este atacar o Irão — o que significa isso? O nosso governo assinar um acordo comercial subserviente com os EUA que literalmente vende os nossos agricultores e a nossa indústria têxtil, poucos dias antes de o Supremo Tribunal dos EUA declarar ilegais as tarifas de Trump — o que significa isso? Agora termos “permissão” para comprar petróleo da Rússia — o que significa isso? Para que mais precisamos de permissão? Para ir à casa de banho? Para tirar um dia de folga do trabalho? Para visitar as nossas mães?

“Todos os dias, políticos norte-americanos, incluindo Donald Trump, zombam e humilham-nos publicamente. E o nosso primeiro-ministro ri com a sua famosa risada vazia. E continua a abraçar. No auge do genocídio em Gaza, o governo da Índia enviou milhares de trabalhadores indianos pobres para Israel a fim de substituir os trabalhadores palestinos expulsos. Hoje, enquanto os israelenses se refugiam em bunkers, há relatos de que esses trabalhadores indianos não têm permissão para entrar nesses abrigos. O que diabos tudo isso significa? Quem nos colocou nesta posição absolutamente humilhante, vergonhosa e repugnante no mundo?

“Alguns de vocês devem se lembrar de como costumávamos brincar sobre aquele termo comunista chinês floreado e exagerado, “cão de guarda do imperialismo”. Mas, neste momento, diria que nos descreve bem. Exceto, claro, nos nossos filmes distorcidos e tóxicos, nos quais os nossos heróis de celulóide se pavoneiam, vencendo guerras fantasmas atrás de guerras, burros e super-musculados. Alimentando a nossa insaciável sede de sangue com a sua violência gratuita e os seus cérebros de merda”.

Fonte aqui.

3 pensamentos sobre ““Tenho vergonha da covardia e da falta de coragem do nosso governo”

  1. Vergonha pelo seguidismo infame do governo do país aos desmandos de um par de assassinos. Um sentimento que conheço bem.
    A primeira vez que senti uma vergonha avassaladora foi na infame Cimeira das Lages.
    O Durão Barroso todo compenetrado no seu papel de empregado de mesa ante um trio de assassinos.
    Com americanos e ingleses no papel principal e o fascista Aznar a por se em bicos de pé.
    E não foi só a atitude do Governo a dar me vergonha.
    Por essa altura trabalhava num sítio hediondo, uma das minhas primeiras experiências laborais que me estava também a mostrar até onde pode chegar a psicopatia e o desprezo pela vida humana de gente racista e intoxicada pela propaganda.
    Seguiam as notícias sobre a devastação causada pela guerra como quem segue um relato de futebol exultando com os avanços estadunidenses sobre um país indefeso como adeptos que festejam os golos da sua equipa.
    As vidas acabadas no meio daquilo tudo simplesmente não lhes faziam mossa nenhuma.
    Chegava ao fim dos dias com uma sensação de nojo entranhado e um cansaço de chumbo.
    Uma criatura particularmente asquerosa, quando uma colega se mostrou finalmente chocada ante as imagens das torturas em Abu Ghraib teve a pouca vergonha de responder que em Portugal morria mais gente em acidentes de viação que no Iraque mas só se falava no Iraque. E ninguém o mandou a merda.
    Também houve um autor francês que disse que havia gente que sofria mais que os palestinianos, o problema é que se falava demasiado deles. Talvez para não se falar tanto e que Israel tem se farto de tomar jornalistas como alvo. Faz sentido em certos bons espíritos.
    Mas tive o prazer de ouvir esse monstro marinho, quando a gasolina começou a subir estupidamente, dizer que “os americanos são um povo mafioso”.
    As vidas acabadas nada os prendeu, mas quando a guerra lhes começou a chegar ao bolso a cantiga já foi outra.
    Pois eu sempre achei isso mesmo antes de o meu primeiro carro, um muito velhinho comprado em quinta mão, ter sido um efeito colateral da nefasta guerra. O coitado não aguentou a necessária mudança para uma gasolina mais barata.
    O que me prendia eram as vidas acabadas como a do miúdo que perdeu a família toda e os quatro membros.
    Caso que foi usado por alguns jornaleiros para nos mostrar como não valia a pena preocupar o nos com as vidas daquela gente estranha e insensível.
    Dizia uma comentadeira asquerosa que ao acordar da operação o miúdo parecia mais preocupado com a perda dos membros do que com a notícia de que perdera a familia toda.
    Isto a Ferra Aveia não inaugurou nada. Só com merda no focinho.
    O que e que queriam um miúdo que acorda cheio de dores e percebe em pânico que não tem membros fizesse?
    Também agora há quem ache que o Irão não se rende por indiferença ante as vidas do povo.
    Não passa pela cabeça de ninguém que um povo pode preferir sacrifícios inauditos para não sofrer o destino que lhes querem dar.
    O filho de um demônio que durante longos 26 anos dominou o país co uma violência inaudita com o diabo a deleitar se com filmes de torturas e mulheres velhas viúvas a serem violadas com canos de espingarda por insistirem em usar chador.
    Mas a esta gente, mais uma vez, só os preocupa a possibilidade de o petróleo subir, a gasolina que já está nas nuvens, a possibilidade de nova escalada inflacionaria.
    Já os iranianos são uma gente esquisita, fanática, que maltrata as mulheres.
    E aqui sao tao bem tratadas que todos os anos morrem dezenas as maos de energumenos e nenhuma sobrevivente se benzeu no corno de viver o resto da vida sem trabalhar a conta de contar a sua história.
    Ate a filha da criatura, que tinha uns nove anos na altura dos factos explorou o filao escrevendo um livro. Não deve ter dado para fazer a vida sem trabalhar pois que o rasto já estava frio mas assim o pudessem fazer tantas outras vítimas de dadores de esperma violentos.
    E também acham que se a repressão do Governo os mata também esta dupla homicida os pode matar para os libertar do regime.
    Que o novo regime que lá ponham faça o mesmo ou pior não interessa nada.
    Vergonha, como a conheço. Felizmente que não e possível e a cara cair literalmente ou a minha já há muito estava no chão.
    Resta agradecer a autora explicar tão bem o que há muito tempo me vai na alma e vai de certeza na alma de muita gente.
    Que em ambientes tóxicos como o de um dos meus primeiros empregos e xingado de apoiante de terroristas e aiatollas se abrir a boca para dizer que tudo isto e uma grande canalhice e um crime hediondo.
    Por isso a nossa esquerda enguia tem de dizer sempre que condena esta barbaridade que também sempre condenou o regime iraniano.
    Deixem se de merdas. A razão está do lado de quem sofre um ataque covarde e cruel para que se ponha lá um regime que será de certeza pior mesmo que as mulheres andem mais destapadas para os putanheiros lhes poderem tirar melhor as medidas.
    A esperança de vida no tempo do xa era de 58 anos, hoje e de 78.
    Quase todos os jovens seguem cursos superiores e 57 por cento dos estudantes universitários sao mulheres.
    Claro que os bombardeamentos a hospitais e unidades de ensino, alvos privilegiados por esta dupla homicida, tal como em Gaza podem mudar isso.
    E não e uma ditadura absoluta que vai privilegiar a reconstrução de hospitais, escolas e universidades se o regime mudar.
    Os regimes fascistas temem um povo instruído. Sabem que só o obscurantismo fará um povo aceita los.
    Por isso sim, nesta barbaridade não estou por cima do muro, estou do lado do governo do Irão ate porque sei a culpa do Ocidente pela facto de eles terem hoje um governo confessional e não laico.
    Porque e estar do lado do atacado, do agredido, de quem não estava a matar minorias étnicas nem tinha taras de suptemacismo. De quem só queria a paz para o seu povo e por isso negociou com assassinos e por isso muitos encontraram a morte.
    Ao contrario do Governo da Ucrânia que tanta gente apoia sem vergonha nenhuma. Que fez a guerra e procurou a guerra.
    Quanto a quem acha tudo isto normal vao ver se o mar da um cardume de tubarões brancos famintos.

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