A barbárie que nos governa… e triunfa (1)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 02/03/2026, revisão da Estátua)


Abedin Taherkenareh / EPA

A «bomba nuclear» iraniana e o «jugo dos ayatollahs» são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se.


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Depois da rábula da Gronelândia, do rapto e sequestro presidencial na Venezuela, como antecâmara da mudança de regime, da criminosa e desumana asfixia a que está submetido o povo de Cuba, chegou a vez do Irão. Já se previa, porque a aniquilação do regime independente iraniano é uma velha obsessão do sionismo internacional governante, de que o imperialismo norte-americano é o mais importante e fiável instrumento.

Esqueçam tudo quanto o nosso governo, a União Europeia, os Macrons, Merz, Starmers, Costas, Von der Leyens e outros energúmenos e energúmenas do género disseram sobre Donald Trump. Que era um louco, um demente, um aparentado de fascista, um inimigo da Europa, quiçá da NATO, um aliado de Putin e outros desvarios do mesmo tipo.

Esqueçam o mandado do Tribunal Penal Internacional emitido contra o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, as sucessivas declarações de reconhecimento do Estado Palestiniano feitas por governos da União Europeia, incluindo o português, as condenações, ainda que suaves, feitas ao regime sionista pelo genocídio do povo palestiniano.

Vivemos os dias em que todos os dirigentes ocidentais, desde os aparentemente menos trumpistas a todos os outros, acorreram, sem restrições, a beijar os pés de Donald Trump e as mãos sangrentas de Netanyahu, gratos pelo ataque bárbaro e assassino contra o Irão. Se os governos ocidentais já não passavam de caniches do império, agora resta-lhes seguir os rastos e ficar com as migalhas, cada vez mais racionadas.

Se são as horas dos beija-pés e beija-mãos a criminosos de guerra encartados, também são estes os tempos em que deixou de haver limites para a hipocrisia dos nossos dirigentes, arvorados em guias da «nossa civilização» superior e humanitária. 

Dizer que a selvajaria em curso contra o Irão se desenvolve para livrar o povo iraniano da tirania dos ayatollahs, como se ouve e repete desde Netanyahu ao joguete Montenegro, é o argumento em que só os débeis mentais poderão acreditar; sobretudo quando se sabe que o objectivo desta operação de terror é deitar a mão ao petróleo de um dos segundos produtores mundiais desta riqueza e devolver o governo do Irão ao jugo dos xás e correspondente polícia política, formada, industriada e coordenada pelo Mossad sionista É isso que está verdadeiramente em causa. Trump, Netanyahu, a União Europeia e até outros países e instituições menos «ocidentais» não querem saber para nada do povo iraniano, como aliás desprezam, por princípio, todos os povos do mundo.

Registe-se que, mais nuance menos nuance, os dirigentes não eleitos da União Europeia e a quase totalidade dos governos dos 27 (a Espanha de Sánchez é, de novo, a honrosa excepção) além de saudarem as acções ilegais norte-americanas e sionistas (à luz do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e das próprias leis dos Estados Unidos), não hesitam em condenar o Irão por responder militarmente à agressão.

Isto é, os governos mundiais – sejam eles quais forem – têm o dever de se ajoelhar e aceitar a punição quando as forças imperiais os atacarem apenas porque lhes apetece ou lhes convém.

É altura de nos interrogarmos por que razão a União Europeia se está a armar até aos dentes, arrasando o que resta das economias nacionais e ameaçando hipotecar o futuro das suas gerações mais jovens, invocando a simples suposição de que poderá ser vítima de uma agressão militar russa. Se os países que receiam ser atacados por Moscovo fizerem como Bruxelas e os seus governos amestrados exigem ao regime iraniano, podiam, pelo menos, poupar na militarização a todo o custo.

A última fronteira

Enquanto o enxame de comentadores que zumbe nas TV’s, nossas e dos outros – extasiando-se sadicamente com as supostas imagens do assassinado ayatollah Khamenei, um idoso com 86 anos, dirigente espiritual do Irão e da comunidade mundial xiita – se deleita com as maravilhas militares do imperial-sionismo e as limitações terceiro-mundistas de Teerão, avancemos um pouco mais, para as consequências que estão no horizonte se os agressores deitarem mão à velha Pérsia.

No início deste século, o general norte-americano Wesley Clark, que foi o comandante da NATO na Europa, escreveu que os neoconservadores, o suporte ideológico do imperialismo desde a queda da União Soviética, tinham como objectivo mudanças de regime ou, se necessário, a destruição de sete países que ensombravam o poder sionista e imperial sobre todo o Médio Oriente.

Esses países eram o Iraque, o Iémen, a Líbia, a Síria, a Somália, o Líbano e o Irão. O Egipto e a Jordânia já tinham sido conduzidos ao redil graças aos «processos de paz» montados sob «mediação» dos Estados Unidos e de Israel, pelo que não era necessário incluí-los na lista.

Não é preciso que o leitor faça grandes esforços de memória para recordar o que aconteceu e continua a acontecer a cada um desses países.

O general Wesley Clark não era um profeta nem um bruxo. Enquanto muitos dirigentes norte-americanos, sionistas, de países ocidentais e os seus mentores e apêndices, seja na banca, nos gangs económicos, nos media e no entretenimento, se refastelavam nas orgias de Epstein, revelando os seus elevados valores morais, cada um dos citados países foi abatido ao activo, contribuindo para o sossego dos salteadores sionistas – que assim puderam dedicar-se à sistemática chacina do povo palestiniano.

A Somália foi arrasada, e dessa operação veio a nascer uma aberração, a Somalilândia, agora transformada em braço militar de Israel no Corno de África. O Iémen estrebucha enquanto pode, depois de gravemente ferido durante a guerra programada que lhe foi movida pela Arábia Saudita, a rogo de Washington e Telavive. Em tempos recentes, os sectores patrióticos iemenitas ainda conseguiram incomodar Israel e perturbar o tráfego marítimo na região, mas a fragilização ou a eventual mudança de regime em Teerão irão pôr em causa essa resistência.

O Iraque está reduzido a uma pulverização de poderes tribais, religiosos e étnicos em todo o território, enquanto um arremedo de poder finge que governa – ainda assim sob tutela norte-americana – nos bunkers para lá da linha verde em Bagdade. O petróleo, porém, está nas mãos das multinacionais norte-americanas.

A Líbia foi arrasada. A guerra norte-americana e ocidental «contra o terrorismo» entregou o país a bandos de terroristas ditos islâmicos depois do assassínio repugnante de Muammar Khaddafi e o roubo das reservas de ouro do país. «Chegámos, vimos e ele morreu», declarou a secretária de Estado da Administração Obama, Hillary Clinton, mulher íntegra e com grande bagagem moral, ao desembarcar no território, a proclamar a tutela imperial e a garantir que o petróleo (as maiores reservas de África) passava a custar uns trocos às multinacionais do costume.

A Síria, que os Estados Unidos, Israel e a União Europeia entregaram a um chefe da al-Qaida, está a ser desmantelada para que, depois de correrem rios de sangue, fique transformada num quebra-cabeças de entidades étnicas, religiosas e tribais que nada obstem aos interesses dos Estados Unidos e de Israel. Antes disso, como já acontece, o petróleo escorre em direcção à entidade sionista e às vampirescas transnacionais. O próprio Trump assegurou que as suas tropas permaneceriam no país para tomar conta do petróleo.

O pobre Líbano, dizimado por sucessivas agressões de Israel ao longo de 50 anos, e pelas guerras internas apadrinhadas por Telavive e Washington, tem os dias contados caso o Irão independente não resista. Gravemente ferido pela desfecho da guerra imposta à Síria, o único movimento libanês armado, independente e com capacidade de resistência, o Hezbollah, dificilmente sobreviverá sem o apoio de Teerão.

O Irão, nascido do derrube do Xá Reza Pahlavi, em 1979, é a última barreira a ultrapassar pelo sionismo e o imperialismo, de acordo com os planos revelados há 25 anos pelo general Clark. Teerão garantia o apoio à resistência libanesa e iemenita, desenvolveu grande parte dos esforços para que a Síria não fosse desmantelada, ainda sustenta vários grupos que combatem pela independência no interior do Iraque. E, na verdade, o xiismo iraniano, num gesto que se sobrepõe a velhas questões religiosas, é o apoio que resta ao povo palestiniano, maioritariamente muçulmano sunita.

O Irão independente é a resistência que sobra para evitar que o sionismo e o imperialismo assumam o poder absoluto em todo o Médio Oriente e travar os avanços para a construção do Grande Israel, o sonho colonial e expansionista nascido no fim do século XIX. As petroditaduras selváticas do Golfo, da Arábia Saudita ao Qatar, são simples capachos dos Estados Unidos e Israel e, além disso, mais uma vez contra os interesses dos seus povos, que desprezam, anseiam por uma mudança de regime em Teerão.

A «bomba nuclear» iraniana e o «jugo dos ayatollahs» são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se. Seguindo uma política em que o regime sionista é mestre, Trump fingiu negociar com o Irão o tempo necessário para montar a operação terrorista em curso e tentar que Teerão se mantivesse na dúvida sobre ser ou não atacado. 

Donald Trump não foi e não é, como se chegou a tentar fazer crer, um erro de casting do complexo militar-industrial-tecnológico norte-americano, transformado numa cáfila de ladrões e assassinos. Trump corresponde às necessidades de sobrevivência do neoliberalismo como estado actual e supremo do imperialismo – a fase em que o fascismo se apresenta cada vez mais como horizonte imprescindível perante o descalabro e o desprestígio da «democracia liberal».

A convergência temporal e ideológica do aparecimento de Trump nos Estados Unidos e da consolidação do totalitarismo sionista em Israel confirma a aposta no fascismo desencadeada pelo desespero do neoliberalismo, uma espécie de regresso às origens, ao terror do Chile de Pinochet, agora com uma ameaçadora amplitude transnacional. Já notaram, em termos domésticos, como Passos Coelho voltou a falar grosso, sobrepondo-se até ao ventríloquo Ventura?

O mundo está no fio da navalha. O terror norte-americano e sionista contra o Irão é muito mais do que uma fuga para a frente, atinge proporções que o podem conduzir a um grande salto em frente. Até ao momento, não existe qualquer movimentação no mundo que manifeste coragem para tentar travá-lo. O imperialismo-sionismo moveu-se e deu xeque no xadrez geoestratégico. No outro lado do tabuleiro são poucas as acções para evitar o xeque-mate. E as palavras de condenação leva-as o vento.

(1) Primeiro de dois artigos de José Goulão sobre a situação actual no Médio Oriente

16 pensamentos sobre “A barbárie que nos governa… e triunfa (1)

  1. Sabes quais eram os números na mortalidade infantil em Portugal no tempo de que tens tanta saudade?
    Vai mas e estudar.
    Se alguma coisa tem piorado nos últimos tempos e por um certo retorno aos tempos de que tens saudades no que toca a prestação de cuidados de saúde.
    Muitas políticas de direita como tens obrigacao de saber.
    Já agora vai ver se o mar da megalodonte porque ninguém precisa de um bandalho a tentar repetir aqui, como o teu CU, que se há gente mal em Gaza também não Moita se passa mal.
    Só com m*rda no focinho comparar o que quer que se passe em Portugal com a barbaridade que se está a fazer e se quer fazer ao Irão.
    Mas talvez tu também não te importasses se tivéssemos uma monarquia absoluta. Se o teu CU fosse o rei melhor ainda.
    Quanto a Portugal para os portugueses talvez queiras tu ir trabalhar para as estufas ou ser entregador da Globo ou da Uber Eats.
    Realmente vocês fascistas não param.

  2. Se ainda vos sobrar uma réstia de indignação, se ainda não a gastaram toda com dores de partos alheios, façam favor.
    https://www.paginaum.pt/2026/03/02/novo-agravamento-na-mortalidade-fetal-neonatal-e-infantil-revelam-dados-do-ine

    Não é só nas berças que poucos conhecem ou visitaram de fugida, é às portas da capital deste reino velho e sem emenda também. Pelos vistos 50 anos a escorregar, não são ainda suficientes.
    😎

  3. Jeffrey Sachs, visivelmente farto e irritado, exprime o grande mal-estar que já se nota no eleitorado americano. Os sinais estão por toda a internet e só ainda estamos no terceiro dia da “épica” operação:

  4. Isto vai acabar mal. Parece-me que os EUA não têm capacidade militar para lidar com o Irão. Não têm mesmo. Quando os EUA lidaram com o Iraque de Sadam, ainda assim muito enfraquecido comparativamente, foram precisos meses de preparação, centenas de milhares de soldados no terreno e a neutralidade ou cumplicidade de todas as potências — de todas.

    Não é o caso. Meia dúzia de mísseis, que já são muito escassos, não vão rtesolver o assunto. O assassinato de um líder moderado, repito, moderado, não vai levar a um regime change, pelo contrário. A única coisa que sinaliza a todo o mundo é que não se pdoe confiar nos EUA e nos seus vassalos, leia-se a UE.

    Não há pois racional digno de nota nesta intervenção, ou se o há é o mesmo que houve em 2022 quando se deu ordem aos ucranianos para recusarem o acordo de Istambul: dá-se um pontapé na porta da Rússia, sanções de choque e pavor, arma-se os ukras até aos dentes et voilá, regime change, instalamos os nossos fantoches e sacamos os recursos até ficarmos saciados.

    Não vai acontecer. O regime iraniano vai endurecer e resistir. Nos bastidores, China e Rússia vão apoiar a resistência. Muitoi outros e não substimemos o aspecto cultural/religiosos, simpatizarão com o martírio do povo iraniano A economia Europeia, já sobre enorme pressão, vai pagar uma fatura enorme. Sobram duas hipóteses: uma derrota humilhante dos EUA ou, na frustração de tal cenário, o fim, no toque de um botão, o fim de tudo. Tempos perigosos estes em que vivemos.

  5. E a postura da União Europeia mete nojo aos cães. Mas há quem a justifique dizendo que condenar esta barbaridade e apoiar o regime iraniano.
    Vao ver se o mar da Kraken.
    Não seus animais, e apoiar a sua população civil, as crianças mortas em escolas, os doentes mortos em hospitais atacados pela barbárie americana-sionista.
    E apoiar a legalidade e o direito internacional.
    Apoiar a humanidade e a decência.
    Quem e a vítima não vem ao caso.
    Achariam normal que se tivesse bombardeado Portugal com esta selvageria para nos livrar do Salazar?
    A esse preço não faltavam motivos até porque estávamos a cometer um sem número de crimes de guerra em três territórios africanos.
    Tenham mas e vergonha no focinho.

  6. E alguém querera viver sob o jugo americano?
    A ter de simular uma crença cristã que provavelmente não tem para não “ter problemas”?
    A poder ser preso por coisas como dizer uma asneira no quintal da casa ou esquecer se de pagar uma multa de trânsito?
    A não ter mesmo nenhum serviço de saúde e se for demasiado pobre para ter um seguro pode ser que tenha acesso ao tal sistema para pobres, lá chamado Medicare em que e um assistente social sem nenhuma formação medica e muitas vezes sem formação humana que decide se vale a pena mandar nos ao médico?
    A poder ser corrido da função pública por não querer voltar a ser cobaia na próxima pandemia que arranjem?
    A vida num mundo dominado por esta gente sera brutal e breve, tão simples como isso.
    Mas metem nojo as justificações que se dão para mais esta barbaridade mesmo por gente que se diz de esquerda.

  7. Temo que se os EUA e Israel vencerem que País irá ser bombardeado Cuba?? E quando não houver nos Países Árabes nenhum para ser bombardeado? E em que situação vai ficar a Europa quando ela já está a bater no fundo? E pior e se com esta guerra descambar para uma III Guerra Mundial quiçá e se usarem a guerra nuclear que mfica para contar a História? Penso que os povos sejam eles das Américas, Ocidente Ásia ou África devimo-nos unir e exigir aos nossos governantes que parem de provocar guerras de as incentivar, as guerras só trazem destruição aos Países, morte, dor e sofrimento.

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