Um crime coletivo

(Manuel Loff, in Público, 18/02/2026)

Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos Ocupados

Revelador da trumpização avançada do ambiente político internacional é que o governo francês se tenha juntado a Netanyahu e aos EUA na exigência de demissão de Albanese.


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“Em vez de deter Israel, a maior parte do mundo armou-o, forneceu-lhe desculpas e abrigo político, apoio económico e financeiro (…) Nós, que não controlamos capital financeiro, algoritmos e armas, vemos agora que, como humanidade, temos um inimigo comum, e que as liberdades, o respeito pelas liberdades fundamentais, são a última via e ferramenta pacífica que temos para recuperar a nossa liberdade“.

Isto foi o que Francesca Albanese disse numa conferência da Al Jazeera no passado dia 7 falando dos dois anos e meio de “genocídio em grande escala” em “que agora se transformou a ocupação ilegal prolongada do território palestiniano por Israel”, como escreveu no último dos seus relatórios como relatora da ONU para os territórios ocupados da Palestina (O genocídio de Gaza: um crime coletivo).

Não disse nada que não tivesse dito no cumprimento das suas funções. Desde que, em 2023, o Comité dos Direitos Humanos da ONU a nomeou, Albanese tem feito um trabalho notável, não apenas na denúncia da limpeza étnica, do memoricídio e do genocídio de que Israel é culpado como potência ocupante, mas de fundamentação rigorosa, jurídica e cientificamente inatacável, de como a ocupação é um “projeto de mais de um século de colonialismo de aniquilamento” como se pode ler no seu impressionante relatório de 2024, Genocídio como apagamento colonial.

Face à coragem desta mulher, Israel move-lhe uma guerra sem quartel. Washington impôs-lhe as mesmas sanções que já tinha imposto a juízes e procuradores do Tribunal Penal Internacional por emitirem um mandado de captura contra Netanyahu. Que a juntem ao longo rol de personagens internacionais a que os israelitas chamam “antissemitas” – a abominável manipulação do conceito está a ter consequências irreversíveis no seu uso moral e político —, em que se incluem o Papa Francisco, António Guterres e a ONU, mais todas as ONGs humanitárias que operam na Palestina, não surpreende ninguém.

Revelador da trumpização avançada do ambiente político internacional é que o governo francês se tenha juntado a Netanyahu e aos EUA na exigência de demissão de Albanese, considerando “ultrajantes” as suas declarações por acharem “que visam, não o Governo israelita mas Israel enquanto povo e nação”, replicando palavra por palavra o argumento de Netanyahu.

À França juntou-se ao grupo habitual na conivência com Israel: Alemanha e Áustria (onde governam, note-se, coligações da direita com social-democratas) e os governos italiano e checo, de ultradireita. Todos eles divulgaram nas redes oficiais um vídeo truncado da intervenção de Albanese. Como escreve a Amnistia Internacional, “tivessem ao menos sido tão veementes e contundentes a confrontar um Estado que comete genocídio, ocupação ilegal e apartheid quanto foram ao atacar uma especialista da ONU. A sua cobardia e recusa em responsabilizar Israel contrastam fortemente com o compromisso inabalável da relatora em dizer a verdade ao poder.

O trumpismo e o regresso às formas mais desaforadas do velho imperialismo estadunidense, que, depois da Venezuela, tem hoje na asfixia literal da vida em Cuba a sua última manifestação, têm procurado apagar definitivamente o Direito Internacional. E ajudam a que o desprezo da ONU como base de um mínimo de equidade no sistema internacional passe a ser a atitude de quase todos os Estados europeus.

O discurso do “respeito pelo Direito Internacional”, tão típico da retórica europeia, Portugal incluído, revela-se pura aparência. A Europa não aprende nada. Nem com a Gronelândia, nem com a ingerência direta dos EUA nos processos eleitorais – Marco Rubio acaba de apelar ao voto em Orbán na disputa eleitoral contra um ex-membro do governo deste. Imitando Trump e Netanyahu, a Europa cumpre obedientemente o modelo contra o qual, em Davos, o primeiro-ministro canadiano advertia: o da “simulação de soberania ao mesmo tempo que se aceita a subordinação”.

“O genocídio contínuo dos palestinianos deve ser entendido como um crime possibilitado internacionalmente”, escreve Albanese. Um crime coletivo. Não admira que quem o pratica a queira calar.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

6 pensamentos sobre “Um crime coletivo

  1. O bêbado Churchill era um racista vicioso, atacante dos direitos dos trabalhadores, carniceiro da Irlanda e causador da Grande Fome de Bengala.
    Redimiu se com a postura de herói na II Guerra Mundial não porque não partilhasse muitas das ideias de Hitler mas porque queria que fosse a Inglaterra a mandar.
    Ainda assim portou se como um tarado pois só um demente podia sonhar com a execução de Hitler na cadeira eléctrica.
    O homem até queria, caso o chanceler lhe tivesse caído nas unhas, assinar um protocolo com os Estados Unidos para conseguir um daqueles instrumentos de tortura/execução.
    Claro que o bandalho não era um democrata, já estava senil e queria a força continuar no poder, tal como tu que podes enfiar a ditadura da qual tens saudades onde te faltam três reis de pele.
    Fascismo nunca mais.

  2. Pedro Frazão, vice-presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Israel, que quer estreitar as relações de amizade entre Portugal e o estado genocida.
    Não e só em Portugal que a extrema direita ama Israel.
    A extrema direita hoje sabe o que lhe convém. Os assassinos teem não só dinheiro mas também nenhuma dificuldade em matar.
    Porque as vidas gentias não valem uma casca de alho.
    Dissesse o teu CU dos sionistas o que diz dos ciganos e nem a alma se lhe aproveitava.
    Por isso a extrema direita hoje e toda sionista e poe no lugar dos judeus os muçulmanos e, nos sítios onde há comunidades importantes, os ciganos.
    Sem um bode expiatório e que eles não podem ficar.
    E claro que para ti e normal que “em protesto” contra um suposto antissemitismo consubstanciado por a União Soviética estar a ver que tinha feito asneira e começar a condenar os crimes daquele monstro que o mundo criou terroristas sionistas terem posto uma bomba nos terrenos de uma embaixada sendo que se não matou ninguém foi por a sorte danada que as vezes se tem.
    Porque ate foram os sionistas que inauguraram o terrorismo a bomba.
    Hotel Rei David diz te alguma coisa?
    A verdade e que o apoio que o Ocidente da a Israel vem de uma mistura de corrupção, desejo de controlar recursos e medo.
    E assim se continua a apoiar um bando de assassinos bíblicos.
    E a extrema direita lidera o apoio pois que sabe bem o partido que pode tirar da influência que esse bando de fanáticos messiânicos tem no Ocidente.
    Por isso não lhe basta ser racista contra ciganos e muçulmanos, a ponto de há uns anos um deputado da extrema direita ter achado que devia demitir se por se ter convertido ao islamismo, ainda tem de ser muito amiguinha do estado genocida de Israel.
    Vao mas e ver se o mar da Kraken.

  3. Nota positiva, o Manuel escreve como aprendeu, positiva, porque sendo comunista, não embarcou nesta mania do “internacionalismo” linguístico do psd-ps.

    Albanese, sim, mas.

    Eh pá! Democracia, Manuel.

    Portugal estabeleceu relações com este estado ilegal à luz do direito internacional, em 12 Maio de 1977.

    Espanha só reconheceu este mesmo estado ilegal, quando entrou para a UE, em 17 Janeiro de 1986.

    “O primeiro primeiro-ministro democraticamente eleito, Adolfo Suarez, foi o primeiro chefe de governo ocidental a reunir-se com o presidente palestino Yasser Arafat em 1979.”
    e:
    “O primeiro-ministro Pedro Sánchez, junto aos chefes de estado da Irlanda e da Noruega, reconheceram a Palestina como um estado separado na terça-feira, 28 de maio – dentro das fronteiras de 1967, de acordo com uma declaração oficial do governo em Madrid.”
    fonte das citações aqui:
    https://www.agenciadanoticia.com.br/sao-paulo/noticia/132862/qual-o-historico-das-relacoes-diplomaticas-espanha-israel

    A qualidade das democracias varia Manel, podias ter chamado os bois pelos nomes, em vez de Europa e nomes de países. Os políticos que legalizaram a ilegalidade, têm nomes, alguns de sapos apetitosos.

    ‘last but not least’

    “A liderança comunista da URSS contava com relações amistosas com a liderança de Israel, chefiada por líderes socialistas. A URSS reconheceu Israel imediatamente após a proclamação e estabeleceu relações diplomáticas com ele. Em fevereiro de 1953, em protesto contra a campanha antissemita na URSS e nos “países de democracia popular”, membros do “nacionalista” Tsrifinsky underground “” detonaram uma bomba no território da embaixada soviética. Apesar da ausência de vítimas e da posterior condenação dos organizadores da ação, a URSS cortou relações diplomáticas com Israel. Eles foram restaurados já em julho do mesmo ano após a morte de I.V. Stalin e o término do “Caso dos Médicos”.

    “Em 10 de junho de 1967, as relações diplomáticas foram rompidas por iniciativa da URSS em conexão com o início da Guerra dos Seis Dias . Por mais de 20 anos, os interesses da URSS em Israel foram representados pela Embaixada da Finlândia , e de Israel na URSS pela Embaixada da Holanda . Em julho de 1987, um grupo de trabalhadores consulares soviéticos composto por três pessoas começou a operar em Tel Aviv . Em dezembro de 1990, foi decidido estabelecer consulados gerais em Moscou e Tel Aviv [3] . As relações diplomáticas entre Israel e a URSS foram restabelecidas em 18 de outubro de 1991”
    fonte das citações aqui:
    https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%98%D0%B7%D1%80%D0%B0%D0%B8%D0%BB%D1%8C%D1%81%D0%BA%D0%BE-%D1%80%D0%BE%D1%81%D1%81%D0%B8%D0%B9%D1%81%D0%BA%D0%B8%D0%B5_%D0%BE%D1%82%D0%BD%D0%BE%D1%88%D0%B5%D0%BD%D0%B8%D1%8F

    O Manuel espanta-se com a posição da França, deveria acompanhar um pouco mais, digo eu, o papel e o peso do CRIF em França. É sabido que os EUA são governados por elementos do “povo eleito”, mas há mais EUA.
    https://www.crif.org/
    Má consciência do colaboracionismo?

    Talvez o Manel consiga explicar isto:
    https://pt.mondediplo.com/2024/02/os-judeus-americanos-israel-e-a-politica-dos-estados-unidos.html

  4. O Governo francês já reconheceu que a frase “Israel e o inimigo comum da humanidade” foi uma falsificação feita por uma organização que se dedica a apoiar os crimes israelitas e a denunciar como antissemita e a tentar destruir as carreiras de quem denuncia esses crimes.
    Mas o canalha nomeado pelo presidente e que ninguém elegeu continua a dizer que o Governo francês vai continuar a exigir a destituição.
    Na mesma linha se pronunciam os Governos de Áustria, Alemanha, Reino Unido, Itália e Chequia.
    As vezes pergunto se Israel há ndi andará a ameaçar despejar o seu arsenal nuclear em cima da Europa.
    Porque já me parece que nem a psicopatia e a sede de petróleo chega para explicar uma tal cumplicidade com um genocídio digno de ha quatro mil anos atrás.
    Tem mesmo de haver qualquer coisa mais.
    Matar o mensageiro sempre foi a estratégia seguida por quem não gosta da notícia.
    Mas resta saber qual é a real razão de se querer tanto abafar as notícias e matar o mensageiro.
    Acho que e mesmo o saberem que essa gente de crueldade de há quatro mil anos atrás tem armas nucleares.
    E que não se importa de matar gentios mesmo que isso também lhes custe vidas.
    Porque nada mais pode explicar uma tal cumplicidade com uma crueldade bíblica.

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