Relatividade, macaquinhos e o racismo

(Luís Rocha, in Facebook, 19/02/2026, Revisão da Estátua)


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Em 1925, Albert Einstein foi à América do Sul falar de ciência e saiu do Brasil com a sensação de ter participado numa opereta. Entre recepções oficiais, continências militares e discursos tão extensos que pareciam desafiar a própria noção de tempo, o físico registou nos seus apontamentos, hoje estudados e divulgados pelo projecto The Digital Einstein Papers, o desconforto de quem se sente transformado em peça exótica de exposição. Um “elefante branco”, valioso mas inútil, conduzido de sala em sala para abrilhantar fotografias.

Nalgumas notas, há ainda referências a um ambiente de “teatro”, a uma certa macaquice cerimonial, expressão da época que hoje faria arder as redes sociais antes mesmo de alguém consultar o contexto. Einstein queria equações, deram-lhe coreografias. Queria debate, ofereceram-lhe palmas.

Um século depois, mudaram os figurinos, mas o palco mantém-se.

A recente polémica entre Gianluca Prestiani e Vinícius Júnior, envolvendo alegadas ofensas racistas durante um jogo, foi elevada à categoria de crise civilizacional em menos tempo do que dura um contra-ataque. Não me meto nem nunca me vou meter a dar palpites sobre uma actividade desportiva corrupta, obscena e profundamente politizada. Muito menos sobre declarações que não escutei e que tanto podem ter sido proferidas como não. São dois jogadores profissionais, treinados desde a adolescência para simular faltas com convicção dramática. Fingem cargas, exageram contactos e ensaiam quedas com a precisão de actores do método. Também podem fingir que ouviram o que não foi dito, ou que não disseram o que foi dito.

O que me interessa não é o VAR moral aplicado ao relvado. É o circo montado à volta.

Em poucas horas, a discussão deixou de ser sobre factos e passou a ser sobre posicionamentos. Cada tribuna improvisada exigia condenações sumárias ou absolvições inflamadas. O estádio transformou-se em tribunal popular, o comentador em juiz, o tweet em sentença. O espectáculo é perfeito, indignação coreografada, comunicados oficiais, análises frame a frame como se a verdade estivesse escondida num pixel tremido.

Einstein reconheceria o ambiente de macacada. Não pela física, mas pela encenação.

Tal como ele foi exibido como troféu científico num desfile político, também aqui se exibem jogadores como símbolos morais. Um é elevado a vítima paradigmática, outro a vilão instantâneo e ambos se tornam peças de um teatro que precisa de protagonistas para vender bilhetes. O racismo, tema gravíssimo e estrutural, é embrulhado num dérbi e servido com publicidade à volta.

Entretanto, as verdadeiras vítimas continuam fora de campo.

Não são milionários com contratos publicitários. São as pessoas que apanham o autocarro às cinco da manhã para irem trabalhar e levam com grunhos bêbados vindos da noite a comentar-lhes a cor da pele. São os candidatos cujo currículo desce discretamente na pilha porque a fotografia é “difícil de integrar na cultura da empresa”. Não há conferência de imprensa para eles. Não há hashtags globais. Não há minutos de silêncio antes do pontapé de saída.

O risco deste folclore é muito simples. A banalização do essencial. Quando cada incidente num relvado é tratado como a batalha final contra o racismo, o quotidiano invisível passa a ruído de fundo. É mais fácil discutir dois atletas sob holofotes do que desmontar preconceitos silenciosos nas escolas, nos transportes, nos escritórios.

Talvez a relatividade explique isto. O tempo mediático dilata-se quando envolve celebridades, e contrai-se quando envolve trabalhadores anónimos. A gravidade moral aumenta na proporção directa do número de câmaras apontadas.

Einstein sentiu-se um elefante branco num teatro de macaquinhos. Prestiani e Vinícius tornaram-se actores num teatro de indignações coreografadas. E nós, espectadores dedicados, continuamos a confundir palco com realidade.

Não se trata de minimizar acusações de racismo. Trata-se de recusar a sua instrumentalização. Se houve ofensa, que seja apurada com seriedade e consequência. Se não houve, que se evite a fogueira sumária. O que não serve é transformar cada lance num festival moral enquanto ignoramos o racismo estrutural que não cabe em resumos desportivos.

No final do dia, sobra sempre o mesmo elefante branco no meio da sala. Enorme, evidente, impossível de ignorar. Mas preferimos olhar para o relvado, discutir a repetição em câmara lenta e aplaudir o próximo acto.

Porque o teatro, esse, é o que alimenta a bilheteira.

Beijinhos e até à próxima…

(Para que fique registado, acabou de se sentir um sismo enquanto escrevia este texto.)


Referências consultadas:

https://www.dw.com/…/correria-louca-os-100…/a-71986947

https://einsteinpapers.press.princeton.edu

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp3q1d7d9j0o

6 pensamentos sobre “Relatividade, macaquinhos e o racismo

  1. Realmente escravo, não tens mesmo juízo nenhum.
    Gostes ou não chamar a alguém “macaco” e racismo e tal como o e a canalhice de chamar antissemita a todos os que denunciam os crimes de Israel.

  2. Já agora, se o jogador acusado de racismo não fosse do Benfica será que teríamos um artigo a normalizar que um jogador chame a outro “macaco” em nome dos que aguentam os grunhos que as cinco da manhã a caminho do trabalho os mandam para a terra deles e lhes chamam o mesmo?
    Isso e como dizer que não se deve dar direitos as mulheres enquanto homens estão a ser escravizados noutros locais do mundo ou que um pai tem o direito a fazer os filhos passar fome porque fome passam as crianças em África e muitas morrem dela.
    Se o sujeito chamou mesmo “macaco” ao outro deve apanhar uma multa valente.
    No ano de 2014 uma deputada do partido da Le Pen foi condenada, e bem, a nove meses de cadeia e 30 mil euros de multa por ter dito que a então ministra da justiça, uma negra parecida com uma baleia, devia evitar subir as árvores.
    Claro que estava a chamar macaca a senhora, não sei se a ma lingua recorreu ou comeu mesmo cadeia, mas a justiça não normalizou a coisa por a ofendida ser ministra e um político dever estar habituado a insultos e o diabo a quatro.
    A esse preço a senhora teria sido absolvida em nome das empregadas de limpeza negras que poderão ouvir o mesmo no autocarro.
    Mas não foi isso que pensou quem julgou a grunha. E bem.
    As vezes a paixão clubística faz nos perder umas boas oportunidades de ficar calado.

  3. Até me admira o arriado não vir aqui meter a colher, ele que tanto conhece os meandros da discriminação racial e da provocação, além de ser um indefectível do special one e da escola de formação de Rui Costa, mais conhecido por Rui dos Túneis, André Ventura, Luís Filipe Vieira, Anísio Cabral, entre outros. Por falar nessa escola de virtuosos e impunes, ontem foram centena e meia de adeptos casuais (casos é com eles) de saco, por andarem em manobras de distracção e em confusionismos nas imediações do Campo Grande, esperemos que ao menos lhes forneçam acompanhamento jurídico como costumam fazer aos que são detidos e julgados pela causa.
    É muito giro passar uma esponja sobre estas nódoas e fazer de conta que não é nada de importante ou sequer grave. Mas elas vão acontecendo e demonstrando que a cultura e o sentimento de impunidade são algumas das razões para que tantas vezes aconteçam situações destas. E é tanta que desta vez nem Governo nem Presidente da República ousam tocar no assunto, muito menos invocam “terrorismo” ou falam de vergonha e vexame nacionais.
    Les uns et les autres…. e claro que o arriado assobia para o lado… afinal que moral tem ele pata condenar racismo? E não vieram já os papagaios de rádio e tv dar razão aos argumentos do Quarto Pastorinho, de que “já não se pode chamar preto a um preto”, que até já veio defender quem defende “os nossos”, ou seja, os seus? Os lampiões racistas, entenda-se… ou é tabu falar neles, e é melhor fazer de conta que não existem? Não queremos melindrar ninguém…

  4. Convém ver os aspectos positivos: enquanto a malta se distrai com o argueiro no olho do vizinho, não dá pelo tronco de eucalipto que lhe enfiam no cu!

    Post scriptum — Pardon my French, of course!

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