Espécime

(Rui Pereira, in Facebook, 22/01/2026)


Numa sociedade em regressão civilizacional, a questão fundamental consiste em administrar a barbárie e a resistência passível de se lhe opor.


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É mais que semântica. Dizer que o voto a 8 de fevereiro é um combate entre “democracia” e “fascismo”, ou que a natureza dessa escolha a torna substantivamente irrelevante, não depende só do que cada um de nós entenda por cada um daqueles conceitos. Sabemos que, aconteça o que acontecer, o primeiro termo nunca deixará de ser pronunciado, da mesma maneira que nunca se pronunciará o segundo.

Na minha interpretação, Ventura é, antes de tudo, o fantoche animado e eficaz de um programa, sem dúvida antidemocrático, independentemente do que se possa caracterizar por essa expressão. Seguro, por seu lado, é uma figura emblemática da “água chilra” em que, o que vulgarmente se chama entre nós “democracia” tem vindo, nas décadas contra revolucionárias, a assumir formas crescentemente oligárquicas -em que a pequena elite dirigente política, económica e mediática que ocupa o poder o usa para se servir sem quaisquer considerações por aqueles a quem deveria servir. Esse deslizamento tem vindo a ganhar, nos últimos anos, um carácter sobretudo oligocrático, isto é, irresponsavelmente demagógico, antissocial e, por consequência, predominantemente violento.

“Arkos” e “kratos” são duas partículas gregas que significam, a primeira, um poder legitimado pela sua origem e antiguidade, mais próximo de uma autoridade de alguma forma legitimada (“auctoritas”, da sua expressão latina); enquanto a segunda nos remete para um poder em exercício tão violento quanto necessite, mais próximo da expressão latina (“potestas”) e cuja legitimação se encontra principal ou unicamente na força persuasiva da sua violência.

A sua forma (mais liberal ou menos) não ilude em nenhum dos casos a natureza comum a ambos: trata-se de oligarquias (oligoi, poucos + arkos, poder), o domínio de poucos sobre muitos. Na modernidade, a governação de comunidades a larga escala, cuja forma mais recente é o Estado-Nação, tem oscilado sempre entre uma e a outra, sem exceção para regime ou forma política alguma.

As transformações de grau entre uma e outra dependem menos das figuras circunstanciais que as protagonizam do que das necessidades que a dominação enfrenta para continuar a sê-lo.

É por isso que podemos hoje encontrar com facilidade a linha de ligação que une (menos subterraneamente do que já uniu) o chamado “neoliberalismo” com o chamado “neofascismo”. Algo que, quando alguma coisa lhes complica a vida verdadeiramente, vem de imediato à boca dos “liberais” que apenas encontram para disfarçar, a divertida razão de não saberem o que lhes passou pela cabeça (ver aqui).

O que lhes passou pela cabeça foi este arco de continuidade. A mesma piadola que leva Ventura a reclamar pela sua “liberdade de expressão” quando bolsa um ódio genuíno ou forjado sob a forma de propaganda suja, ou a declarar que é com ele que o governo de Montenegro se tem entendido para fazer passar no Parlamento legislação oligocrática e já não, “apenas”, oligárquica. Uma necessidade que se mantém, como bem sabem o Partido “Social-Democrata” e o seu Primeiro-ministro, que fingem ainda não ter reparado na diferença entre Ventura e Seguro, como, com frequência, o centrão não distingue entre PS com D e PS sem D.

Mas essas distinções existem. Elas existem na medida em que a questão para a esquerda, para os trabalhadores e para as populações não consiste numa questão de teoria política, nem numa opção semântica entre democracia e fascismo. A diferença reside nas condições políticas, culturais e sociais, para resistir à ofensiva, aos ritmos e impulsos do deslizamento da oligarquia para a oligocracia, muito mais abruptos e generalizadamente violentos com qualquer Ventura do que com qualquer Seguro.

Daí que o problema não se ponha no “menos mal” de votar em Seguro, para derrubar ou não Ventura 0numa eleição que pouco lhe importa (o homem quer poder executivo e não meramente institucional).

Numa sociedade em regressão civilizacional, a questão fundamental consiste em administrar a barbárie e a resistência passível de se lhe opor. Isto é, nas condições em que as lutas anticapitalistas podem ou não travar-se, de momento, com menos sangue ou com mais. E se puder ser com menos, parece indiscutivelmente melhor do que com mais, sobretudo para aqueles que terão de o derramar.

Daí que a coisa se resuma a fazer o que há a fazer por mais relutantemente que se faça.

9 pensamentos sobre “Espécime

  1. Uma das coisas que tem passado ao lado no discurso do coiso é que só são portugueses ops que o apoiem ou votem nele. Ouçam bem os discurso , especialmente as intervenções avulso.

  2. Claro, o bom povo não gosta que lhe digam em quem vai votar. Foi mesmo por isso que foram a correr votar no homem da Spinunviva e no Quarto Pastorinho quando Marcello II derrubou um Governo de maioria absoluta e reforçaram a votação em ambos quando o Marcello voltou a usar a bomba atómica.
    O CU senta se na cadeira do mais alto magistrado da nação e vai explorando todo e qualquer caso de polícia envolvendo migrantes, ciganos ou negros. Tem um palco privilegiado para manipular as tais “percepções” de insegurança.
    Como aliás tu fizeste ontem dando mais um dos teus links para um caso que todos sabemos que aconteceu.
    E quem irá sair reforçado e o seu partido de grunhos, corruptos, pedófilos e ladrões de malas.
    Ele até podia não ter mesmo poder nenhum. Um bandalho que diz que precisávamos de três Salazares e diz que um polícia homicida devia ser condecorado o único cargo que merece e o do presidente do clube de setas de para lá do sol posto.

  3. “nenhum dos dois candidatos que passaram à segunda volta oferece qualquer esperança de contribuição para a resolução dos problemas de natureza civilizacional com que nos confrontamos. ”
    escreveu a comentadora Adília M. G.

    Qual dos artigos da CRP dá poder ao PR para os resolver?

    Esta é uma eleição para eleger o Presidente da República Portuguesa. Não é uma eleição para tratar de valetas e caixotes do lixo da freguesia, nem para eleger uma Assembleia da República, da qual há-de sair um Governo.

    E não como muitos pensam, que estão a votar para aquele mariola que aparece nos cartazes em tamanho de gigantone e que há-de ser quem, se vai sentar na cadeira que foi do Doutor Oliveira Salazar (bufem ou soprem consoante a posição geográfica que ocupem ao lerem o nome), quando no boletim de voto só aparece aquela sigla e símbolo, que aparecem nos cartazes em tamanho de letra de contratos de seguros e crédito bancário.

    Tenho que concluir que gostam de ser enganados, que não questionam o faz-de-conta, que gostam até dele, ao jeito de “quanto mais me bates …”

    As questões que se deveriam por a estes dois candidatos e não sei se foram postas, não tenho estômago para jornalistas e peixeiradas televisivas, visto um, estão todos vistos e para sempre. São questões do tipo:
    – dissolve a AR se …
    – envia para o TC se …
    – se o Governo … o que faz?
    – tira ‘selfies’
    – dá beijinhos
    – pensa bater o record do seu antecessor em viagens?
    – e em medalhas?
    – …
    O homem, seja ele quem for, vai ocupar um cargo quase sem poderes. O único que tem verdadeiramente, é a dissolução da AR, mas aqui tem a espada de Damocles sobre ele. Tem que ter cuidado, muito cuidado, porque o POVO não gosta que lhe digam como se deve comportar, em quem é que, deve votar, … Dissolvida a AR sai da nova eleição um Bosta reforçado. E então “O que fazer?”

  4. Ora bem!

    1º dizer ao disco-riscado, que o Trump está a destruir a NATO e a UE. Não são coisas boas?
    No te entiendo, dirá o Manolo.

    2º Para a malta de esquerda:
    https://www.paginaum.pt/2026/01/21/porque-votas-tu-no-chega

    3º para o pessoal de direita
    Um porque é que não se vota na esquerda.

    Este livro:
    ” El libro negro de la nueva izquierda : ideología de género o subversión cultural ”
    em castelhano e à venda em qualquer grande fornecedor de livros como se fossem pacotes de qualquer coisa. Mas também por aqui na internet em sítios do tipo: achive ponto qualquer coisa (três letras).

    Um pequeno cheiro do livro, que desde já não se recomenda à esquerda-caviar e champagne.

    CITO (estou a citar e é uma tradução automática):
    “Após a queda formal da União Soviética em 1992, muitos sectores do mundo livre repousaram naquele triunfalismo que deu a sensação de que a utopia colectivista estava perdida para sempre.

    Mas alguns anos depois, abraçando novas bandeiras e reinventando o seu discurso, o que hoje é chamado de neo-comunismo (ou progressismo cultural) não só passou a dominar a agenda política, mas em grande medida a mentalidade ocidental.

    Os velhos princípios socialistas da luta de classes, do materialismo dialéctico, da revolução proletária ou violência de guerrilha, foram agora substituídos por uma rara ingestão intelectual de promoção do “indigenismo ecológico”, do “humanismo de direito” selectivo, da “garantia legal” e, acima de tudo, pelo que é chamado de “ideologia de género”, uma espécie de porno-marxismo pan-sexual, promotor do feminismo radical, do homossexualismo ideológico, da pedofilia como “alternativa”, do aborto como “livre disposição do corpo” e de todos os tipos de hábitos auto-destrutivos como forma de rebelião contra a “tradição hetero-capitalista”

    Toda esta salada vanguardista está escondida sob slogans aparentemente nobres, como “igualitarismo”, “inclusão”, “diversidade” ou “direitos das minorias”: verdadeiras máscaras da ideologia de género, cujo conteúdo constitui a prioridade militante desta esquerda desarmada que decidiu canalizar o seu ódio através de grupos marginais ou conflituosos que captura e doutrina para si, para os transmitir de forma funcional à sua causa e, desta forma, dominar a academia, hegemonizar.a literatura, monopolizar as artes, manipular os modos de expressão, modificar hábitos e influenciar os meios de comunicação social.

    A nova esquerda não procura mais sequestrar empresários, mas sim o bom senso; Ela não pretende assumir o controle de uma fábrica, mas sim de uma cátedra, e não busca mais confiscar contas bancárias, mas sim o modo de pensar: “todo o resto virá em acréscimo”, prevêem seus cultistas.”

    4º Quando ao artigo. Um intelectual de café, daqueles à antiga, que leu umas coisas e que andou numa faculdade de papel e caneta. O problema já venda da noite dos tempos, e vai continuar, porque uma coisa é ‘baba de cegonha’ outra o Deve Haver das contas. Falando nisso parece que a dívida pública da UE, já vai em 80 e tal porcento do PIB.

    Trump ouve os insultos aqui do disco-riscado, não faças nada que eles (UE) auto-destroem-se, a NATO é tua, farás o que entenderes.

  5. Julgo que há consenso no que respeita à perceção de que nenhum dos dois candidatos que passaram à segunda volta oferece qualquer esperança de contribuição para a resolução dos problemas de natureza civilizacional com que nos confrontamos. Num, o pendor fascizante parece bastante óbvio; no outro, a democraticidade que alardeia é uma fachada para esconder o vazio das democracias liberais que não têm nada a ver com ‘governo do povo, pelo povo e para o povo,’ mas antes com o governo de pretensos representantes do povo, cujo papel é defender os interesses das elites económicas que proverbialmente o exploram. Se e quando não o fazem, há bastante evidencia factual que mostra que os ditos representantes têm os dias contados: não aquecem o lugar!

    Isto posto, embora aja quem defenda o ‘quanto pior melhor’, pois assim caem as máscaras e pelo menos sabemos em que canoa nos encontramos e talvez acordemos para não nos afogarmos, há um pormenor interessante que não devemos descurar. Este pormenor tem a ver com a brevidade da vida humana: cada um/uma de nós tem uma vida tão curta, tem tao pouca capacidade para fazer a diferença, que procura evitar o mais possível o sofrimento no imediato. Penso que é neste contexto e nesta situação concreta que se situa a preferência por um candidato com um verniz de civilização e de humanidade versus um outro que nem sequer se preocupa em esconder a profunda desumanidade que o habita.

    • Claro, é isto mesmo. Mas “…fachada para esconder o vazio das democracias liberais que não têm nada a ver com ‘governo do povo, pelo povo e para o povo,’ mas antes com o governo de pretensos representantes do povo, cujo papel é defender os interesses das elites económicas que proverbialmente o exploram…” o povo tem as costas largas demais e cabe lá tudo, a bem dizer o elon musk faz parte do povo, além disso quem é explorado é quem produz e não me consta que o povo da quinta da marinha, p.ex. produza muito e que seja por isso explorado, se é que estamos a falar de mais valia e coisas do mesmo tipo. Voltemos a falar de classes, porra.

  6. O que há a fazer e sair de casa e ir votar contra mais um fantoche de Trump.
    Mais do que um duelo entre forças democráticas e anto democráticas, isto pode também ser uma oportunidade de provar que campanhas gigantescas e caras, um candidato levado em ombros pela comunicação social dominada por uma oligarquia interessada em fazer isto regredir ao tempo da outra senhora não bastam para enfiar pela goela de um povo abaixo um escarrador de ódio com estilo de taberneiro.
    Por isso dia 8 vamos votar nem que as sondagens digam que o candidato extremista de direita só vai ter cinco por cento dos votos.
    Porque as sondagens falham e porque as sondagens não votam. Quem tem de sair de casa somos nós.
    Vamos a isso. Contra a regressão, contra o extremismo de direita, contra o ódio. Por muito que a alternativa não entusiasme.

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