Dia Mundial da Paz – onde anda ela?

(João Gomes, in Facebook, 01/01/2026)


Hoje, 1 de janeiro de 2026, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Uma data instituída pela Igreja Católica em 1967 e adotada por muitos como momento de reflexão sobre a harmonia entre povos. No entanto, ao olharmos para o mundo real, a pergunta impõe-se com ironia cruel: onde anda ela, essa paz tão proclamada?

A geopolítica atual expõe, sem pudor, como os interesses económicos e estratégicos alimentam conflitos permanentes. A guerra na Ucrânia continua a sua marcha lenta, com avanços russos mas custo de vidas, sustentada por equilíbrios de poder em que se envolve o ocidente. No Médio Oriente, apesar de cessar-fogo frágeis, as cicatrizes de Gaza permanecem abertas, com reconstruções que se transformam em oportunidades de negócio para empresas de armamento e construção, enquanto milhões vivem em precariedade. O Sudão mergulha numa guerra civil ignorada, onde recursos minerais e influências regionais (Emirados Árabes, Egito) prolongam o sofrimento. Em Myanmar, na Síria pós-Assad, no Sahel, gangs na América Latina – a violência fragmentada multiplica-se.

Estas lutas não são meros acidentes históricos. São, em grande parte, produto de um “estado realista” da natureza humana e das relações internacionais: a visão de que o mundo é uma arena de competição permanente, onde a segurança de uns exige a insegurança de outros. Recursos escassos – petróleo, terras raras, rotas comerciais, água – tornam-se pretextos para dominação. A indústria armamentista lucra com a instabilidade, vendendo armas a todos os lados. Potências emergentes desafiam o status quo não por justiça, mas por quota de poder. E os interesses económicos – contratos de reconstrução, acesso a mercados, controlo de cadeias de abastecimento – disfarçam-se de “estabilidade estratégica”.

Neste realismo cínico, a paz torna-se incómoda. Exige renúncia ao lucro imediato, ao controlo absoluto, à narrativa de inimigo eterno. Exige reconhecer o outro como irmão, não como ameaça. Mas o ser humano, na sua condição caída, inclina-se para o conflito como forma de afirmação. A história repete-se: impérios caem por excesso de ambição, povos sofrem por decisões tomadas em salas distantes.

Contudo devemos recordar que a paz não é ausência de conflito, mas presença ativa de bondade que desarma. Há sentinelas da paz: ativistas que arriscam a vida, diplomatas que tecem acordos frágeis, comunidades que reconstroem em meio às ruínas. A verdadeira questão não é se a paz existe – ela existe onde há perdão, diálogo, partilha. A questão é se estamos dispostos a desarmar os nossos próprios corações para a acolher.

Neste Dia Mundial da Paz, que a contradição nos desperte: enquanto o mundo se arma mais, escolhamos nós o caminho desarmante. Porque, no fim, a paz não se impõe pela força – vence pela persistência humilde de quem acredita que outro mundo é possível.

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7 pensamentos sobre “Dia Mundial da Paz – onde anda ela?

  1. Esperem lá. Mas então não foram os actuais líderes europeus, pelo menos os das maiores potências que andaram a apregoar (hoje já não o fazem) que há que “manter a paz pela força” ????
    E os russos pensaram: ai é isso que vocês querem? Então tomem lá!
    Eles só lhes estão a dar o que eles andaram a pedir. Não percebo porque é que afinal não estão a gostar do seu próprio veneno. Vamos lá nós perceber a politiquice dos políticos. E depois ainda querem que acreditemos neles. Não percebem que a credibilidade é uma espécie em vias de extinção ou até já completamente extinta, até nos zoos.

  2. Ontem a Paz andava na boca do Marcelo II. Talvez por ser o primeiro dia de Janeiro, Dia Mundial da Paz, e ele ser muito Católico e beato.
    Pena no resto do ano andar alinhado no discurso do belicismo, do militarismo e do armamentismo. Do ódio ao russo e do desprezo pelo palestiniano, que “desta vez foram eles que começaram”, desculpando ou justificando assim o genocídio do seu povo.
    É um presidente muito pacifista e humanista, mas que faz discursos assegurando a ameaça russa e a necessidade de investimentos pornográficos em armas americanas e drones britânicos. Que quer mais brinquedos para os militares, mas nunca se lembra das necessidades de mais hospitais para os civis, que nunca refere a cavalgante inflação que mais penaliza e prejudica os que menos poder de compra têm. É um real tratado de dualidade e hipocrisia, de malabarismo e ginástica discursiva.
    Paz, paz, paz no Natal e no Ano Novo. No resto do ano, estamos em guerra com a Rússia e na Ucrânia “estarem a defenderem os nossos valores e a demo-cracia”. E somos todos Israel. Cúmplices de um genocídio, do “trabalho sujo”, como diz Merz.

    • A paz também deve andar com a Prémio Nobel Coringa Malvado, que apoia a invasão do seu país pelos EUA e as acções de pirataria e terrorismo de Estado de Trump no mar das Caraíbas e na Venezuela. Também já andou com Obama, que bombardeou cerca de 7 países, alguns em modo de “chuva torrencial”. E dizem que andará com Trump, acabando ele de “limpar” Gaza, coisa que Biden não conseguiu, apesar das várias tentativas de Blinken de “pacificar” a coisa. Quando a “paz” não vem a bem, vem a mal. Só não se lembraram do Nobel para o papa Francisco, ou para os funcionários da ONU assassinados por Israel, ou os jornalistas, ou as crianças martirizadas e mutiladas. São prioridades “institucionais” e “princípios e valores comuns partilhados”.
      Quando os facínoras piores que “lobos vestem a pele de cordeiros”.

    • E claro que não dirão de Marcelo II que pretende ser a Miss Universo, como dizia o Ricardo Araújo Pereira e muitos outros de António Filipe, ou do secretário-geral do PCP aquando das legislativas, quando estes falavam em paz enquanto todos os outros candidatos enchiam a boca com “a guerra dure o que durar, custe o que custar”. Afinal, nem todos se deixam iludir, e as barragens pseudo-informativas nas entrevistas do José Rodrigues dos Prantos na RTP que parecem discos riscados mostram que só alguns podem falar em paz (e na guerra) sem serem vilipendiados. Uma coisa são pacifistas legítimos, a outra são pategos e pascácios, mesmo que “oficialmente” gostem de confundi-los e trocá-los.

  3. A Europa sabe que a Rússia não e nem nunca foi uma ameaça. E como sabe que nao cumprira os sonhos de pilhagem de Napoleão e Hitler via Ucrânia, como todas as galinhas pensavam que eram favas contadas quando isto acelerou já lá vão quatro anos tenta agora que o conflito pare antes que a Ucrânia fique sem qualquer hipótese de voltar a ser usada.
    Mais uma vez tentam enganar a Rússia e parar o conflito agora para daqui a uns anos voltar a tentar depois de toda a gente se ter reagrupado e rearmado.
    Mas o sonho de pilhagem esse vai morreu nem nunca morrera.
    Isto e tudo uma cambada.

  4. Claro que não o acompanho na bondade, nem estou disposto a dar a outra face, mas percebo. Percebo, quando o Ambrosiano fez o que fez, não foi por maldade, foi pela partilha de um quinhão. Como pode ainda confirmar Soros, “se não fossemos nós, seriam outros”.

    E de passagem um link:
    https://noticiabrasil.net.br/20260101/europa-deixa-de-tratar-russia-como-ameaca-e-reestima-abordagem-as-relacoes-com-moscou-diz-midia-46625345.html

  5. Cessar fogo em Gaza? Com mais de 400 mortos em dois meses, com Israel a bloquear alimentos e medicamentos e a promessa do bandalho de cabelo cor de laranja de que verão o Inferno?
    Não há cessar fogo nenhum apenas maior lentidão num genocídio que não acabou.
    Morte ao sionismo.

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