Os andrajosos e a segurança da Europa

(Por José Goulão, in SCF, 29/08/2025, Revisão da Estátua)


O facto de os invasores virem depauperados nada tinha de tranquilizador em matéria de segurança europeia.


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Ventura mandou celebrar um Te Deum, Montenegro virou-se para o Tribunal Constitucional e desafiou, batendo com um punho na palma da outra mão, “bem feita, bem feita, para não estarem com esquisitices”. Rangel enviou um mail para Netanyahu garantindo que sabemos muito bem honrar os seus exemplos, Costa remeteu um emoji com aplausos e até Van der Leyen telefonou ao chefe do governo insuflando-lhe coragem para continuar a combater uma descabelada Constituição da República.

Para sossego de todos nós, alegremo-nos por isso, a peste dos agonizantes arribados em jangada desconjuntada às rentáveis areias dos Algarves vai voltar para donde veio e de onde nunca deveria ter saído. A nossa raça privilegiada não aceita mais ser conspurcada e não tem culpa de que os náufragos famintos, fiados nos mitos da nossa hospitalidade tradicional e do reconhecido humanismo dos nossos egrégios avós, tenham nascido na hora e no lugar errados e, ainda por cima, com uma cor de pele demasiado tisnada.

Se fossem como nós, com a vantagem suplementar de terem cabelos aloirados e olhos azuis e tivessem chegado em automóveis topo de gama de terras da Galícia e da Volínia agregadas à Ucrânia, então tudo bem, haveria sempre lugar para mais um, para muitos mais.

Mas atreverem-se a vir do Norte de África em redescobertos tempos de purificação da raça é uma rematada inconsciência, uma desafiadora provocação.

As autoridades e os juízes de serviço olharam para as leis com os olhos assépticos e tecnocráticos que lhes competiam e fizeram o que tinham a fazer: mandá-los embora.

As entidades de socorro armaram umas tendas e, para isso, até tiveram a boa vontade de cancelar uns quantos eventos desportivos; deram sopinha e umas sandes reforçadas aos intrusos, reservaram umas camas de hospital aos mais débeis até que conseguissem pôr-se de pé e agora ala que se faz tarde. Cumprimos a nossa missão evangélica e, a partir daí, que vão morrer para outro lado porque isso é assunto que já nos diz respeito.

É verdade que essas três dezenas de potenciais terroristas e criminosos eram oriundos de um país muito nosso amigo e que representa a “nossa civilização” no Norte de África, sob o comando firme e democrático do rei Mohammed VI. Marrocos é como se fosse um nosso irmão na União Europeia, é pena que se tenha desenvolvido num continente de incivilizados e bárbaros, mas tivemos o cuidado de fazer acordos especiais com ele para que se sinta quase como um de nós.

Tem as suas bolsas de pobreza, é certo. Há muitos marroquinos como os portugueses, sem outro remédio que não seja o de procurarem sobreviver, com a dignidade possível, noutros países. É muito provável que naquela terra até haja barracas, mas isso é porque os seus responsáveis ainda não receberam formação em Loures e outros criativos municípios portugueses sobre os métodos para acabar com elas.

Marrocos, aliás, tem ainda a seu favor o facto se ser uma espécie de Israel aqui bem mais perto, merecendo assim as correspondentes atenções dos governos da União Europeia por tratarem o povo do Sahara Ocidental tal como o nosso aliado Netanyahu cuida dos palestinianos. Neste caso, porém, há ainda mais vantagens para o nosso lado: como paladino da democracia que é, o rei Abdallah VI pode gerir como quer as riquezas do Sahara Ocidental que não lhe pertencem, sobretudo os generosos recursos de pesca. E fá-lo até de maneira altruísta, permitindo aos irmãos da UE, entre eles nós, como seus dilectos vizinhos, partilhar à vontade dos grandes banquetes de rapina em águas territoriais do Sahara Ocidental, sob os olhos tornados democraticamente impotentes dos seus legítimos proprietários.

O rei Mohammed VI é um amigão, mas amigos, amigos, negócios à parte e não pode distrair-se com os indigentes que vivem contrariados no seu país e querem incomodar a segurança de outros com manobras clandestinas e a salto.

Os cuidados securitários

Sim, não se trata de exagero. Aquelas três dezenas de farrapos humanos que se arriscaram, atraídos pela miragem de uma vida melhor, nas águas do Atlântico e sob o abrasador sol estival, são uma ameaça à segurança da Europa. Assim o dizem os nossos governantes e não há que duvidar deles. Em verdade vos digo que este turismo da fome é muitas vezes pior que o turismo de pé descalço.

Como se não bastassem as ânsias expansionistas dos bárbaros russos, ainda temos de enfrentar a terrível ameaça dos esfomeados do Norte de África, invejosos do brilho das nossas vidas e, quiçá, industriados para sujar a pureza do nosso sangue lusitano.

O governo e os seus aliados do “não é não” querem acabar com essas ameaças e pôr fim à permissividade do convívio com os povos inferiores, mais uma mania das que ainda restam da catástrofe de 25 de Abril de 1974. Como muito bem diz o nosso bom amigo Netanyahu, a propósito do “muro de separação” que cuida da pureza sionista, “nós cá e eles lá”. É assim que deve ser, é assim que irá ser pelas mãos de Montenegro, Ventura e adjacências mais ou menos “liberais”. Racismo? Xenofobia? Segregacionismo? Isso são rótulos anacrónicos, incompatíveis com os novos tempos que estão no horizonte, tempos de redenção instaurados, assim se deseja, sob o estalar de periscópios e bengalins de almirantes e generais, há demasiado tempo afastados da condução da grei.

Bem basta a mistura que já vai por cá e que tanto tempo custará a corrigir. Devolver estas três dezenas de esfomeados ameaçadores à procedência é um exemplo dissuasor que ficará como advertência para outros eventuais atrevidos, e um sinal indelével de que agora a música é outra. Vinha uma criança de um ano entre os potenciais criminosos? Não interessa. O primeiro-ministro e também o presidente de Israel, Netanyahu e Herzog, nossos gurus, já tiveram o cuidado de prevenir, a propósito de Gaza, que essa gente, os bárbaros, já nascem terroristas. Nada de maciezas, corações moles ou contemplações. Naquele caso, a sua liquidação é indispensável para combater o Hamas. Aqui, há que cortar o mal pela raiz para que não tenhamos de sofrer reincidências.

Além disso, fizeram muito bem as nossas diligentes autoridades em investigar a pente fino caixão de madeira ou “o barco” – houve quem lhe chamasse isso – em que chegaram os invasores. Nunca se sabe quais são as manhas e artimanhas dos traficantes de droga, capazes até de se disfarçar de esfomeados para fazerem negócio. Ao largo da praia ao lado, entretanto, poderá ter ancorado um luxuoso iate transportando mais umas dezenas de quilos de coca, mas quem iria desconfiar de tão aperaltada encadernação?

Por cá, de vez em quando citam-se estudos de autoridades policiais e de investigadores nas áreas sociais e sociológicas segundo os quais a percentagem de imigrantes envolvidos na criminalidade é ínfima. Além disso, as comunidades de imigrantes integradas no tecido português contribuem com o seu trabalho e assinalável generosidade para a sobrevivência do sistema de Segurança Social. Comunidades essas que, em tantos casos, estão disponíveis para realizar trabalhos reles para os quais as elites portuguesas já não se se sentem vocacionadas. Há quem diga até que, no caso de haver uma expulsão em massa de imigrantes, a economia do país e a qualidade de vida dos portugueses cairiam a pique.

Isso não passa, garantem as nossas autoridades, de manipulações mal intencionadas por parte de quem se recusa a aceitar a mudança e, em última análise, é cúmplice de todo um processo de adulteração da pureza rácica original dos portugueses, destruindo grande parte da genuinidade lusitana que o salazarismo tão bem cultivara.

Está bem de ver que a expulsão dos refugiados (imigrantes seriam se cá ficassem) que chegaram de Marrocos não é mais do que a aplicação dos conselhos do clarividente Josep Borrel, quando era “ministro” dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, e que recomendava a defesa e a segurança deste nosso “jardim de civilização” cercado de bárbaros por todos os lados. O facto de os invasores virem depauperados nada tinha de tranquilizador em matéria de segurança europeia, porque não tardariam a ficar em pleno modo de ameaça a partir do momento em que lhes fossem concedidas cama, mesa e roupa lavada, como sempre tem acontecido até agora. Nada de ilusões.

Em suma, são muito bem expulsos, nem que seja para morrer, circunstância que, além disso, iria aliviar a pressão demográfica sobre este nossos superpovoado planeta, a necessitar da aplicação dos visionários programas de eugenia pelos quais, como bons seguidores do génio Kissinger, alguns frequentadores do Fórum de Davos são responsáveis.

Outros se seguirão, se deixarmos Ventura e Montenegro continuar com as mãos na massa dos assuntos governamentais. Tudo farão para garantir, à sua maneira, a segurança da Europa segundo o modelo de Van der Leyen, Macron, Kallas, Merz, Costa, Meloni, Tusk, Orban e outros sociopatas, sob a tutela do sempre fiável e lúcido Donald Trump, alumiados pelo farol da democracia que é a NATO.

Trinta e poucos esfomeados vindos de Marrocos tiveram a ousadia de desafiar as regras desta ordem estabelecida e vão receber um tratamento exemplar. A grande Europa unida e pura ultrapassou, com galhardia, mais esta cobarde provação.

Fonte aqui.

5 pensamentos sobre “Os andrajosos e a segurança da Europa

  1. Portugal já nem sequer é governado por pessoas que falem português, e sim por “grandes líderes” estrangeiros. Marcelo II está chéché, Montesnegros só quer é Spinumvivas e rodadas livres na Solverde, além de gostar de comprar casas e casarões, numa versão real do monopólio. Todos estes indigentes, que nunca produziram nada que se visse de construtivo, a não ser cambalachos, esquemas de enriquecimento pessoal e corrupção a rodos, são orientados pelos anglófonos, francófonos, germanófonos, etc, de fora para dentro, seja através de Bruxelas-UE, seja pela NATO. São verbos de encher (e de se encher e aos seus aliados).
    Só no Brasil e talvez em Angola são os falantes de português que dominam a sua política interna e externa. E depois ainda temos o CU (Candidato único), que quer ser especial, mas é igual ou pior, pois passaria a receber as instruções directamente de Washington, como pau mandado e beija-cus do hiPOpoTamUS cor-de-laranja que é. Estamos entregues aos bichos…

  2. Para os donos disto tudo não podia estar melhor. As bolsas arrancaram no verde a boleia da “defesa”, leia se dos gastos em armamento e portanto segundo o nosso mainstream merdia estamos no bom caminho.
    Que interessa que haja cada vez menos verde nos campos do Sul da Europa.
    Entretanto no Caribe o Trampas cerca a Venezuela e não e de todo impossível nova intervenção humanitária desta vez para livrar o mundo de um terrível traficante de droga, nada mais nada menos que o presidente do país.
    Também ninguém tem nada a dizer sobre o facto de um Governo lançar uma recompensa a moda do Faroeste sobre a cabeça de outro chefe de estado.
    A Lituânia instalou dentes de dragão na fronteira com a Rússia e talvez não seja mau de todo pois que isso também torna mais difícil uma incursão de alguns heróicos soldados europeus montados em tanques a partir da Lituânia.
    E esperar que também a Finlândia o faça. A Finlândia decidiu finalmente retirar a suastica de algumas bandeiras da força aérea onde ela ainda lá estava para evitar mas interpretacoes. Não vá a gente pensar que também por lá o nazismo não morreu e e uma das grandes causas da hostilidade do país em relação a Rússia.
    Na Argentina um presidente que se sentou lá prometendo acabar com a corrupção e corrido a pedrada por estar metido justamente numa miríade de esquemas de corrupção nos seus curtos pouco mais de dois anos de mandato.
    Uma amostra do que nos poderá ainda acontecer se entregarmos o ouro ao bandido, leia se o Chega e os liberais até dizer Chega.
    Sobre tudo isto também anda por aí um discurso do XI sobre os fascismos de ontem e de hoje.
    E valha a esta gente toda que manda naquilo a que se chama o Ocidente alargado um burro aos coices e uma bigorna pelos cornos abaixo.

  3. Uma lição de História por um americano (Jeffrey Sachs) que conhece, fala, falou, concordou, discordou ou aconselhou praticamente todos os principais intervenientes nas decisões políticas que nos conduziram à desgraçada situação em que estamos na Ucrânia, Europa, EUA e resto do mundo. Presidentes e ministros americanos, europeus, russos, etc., todos (os americanos) ou quase todos (do resto do mundo) ele conhece e com eles falou e fala ainda sobre tudo o que nos afecta hoje em dia em política internacional. Datas, intervenientes, factos, promessas, garantias, mentiras e violações das ditas promessas e garantias, está aqui tudo, inclusivamente com clips, mapas e diagramas que ilustram e provam o que diz. Não é a exposição de uma opinião, é um encadeamento, pedagogicamente bem conseguido, de factos objectivos e irrefutáveis. Mais do que uma lição de História, é talvez um autêntico curso de História, em 29 minutos, que valem cada segundo. Claro que é sempre possível optar por meter a cabeça na areia ou ir trabalhar para o bronze, mas quem o fizer fica a perder.

    E claro que também é possível saltar logo aqui para esta nossa praça o “puro” residente, o caramelo que tem a mania de que é o presidente da junta, a lembrar o currículo pouco recomendável de Jeffrey Sachs na colaboração com algumas sacanices do império e seus lacaios nas malfeitorias feitas a alguns países e povos. Mas se o homem me vem dizer que era branco o cavalo branco de Napoleão, tendo ele ainda por cima privado com o dito cavalo e seu ilustre cavaleiro, em verdade vos digo que os meus modestos e rarefeitos neurónios não me autorizam a contrariá-lo.

    https://youtu.be/RiK6DijNLGE?si=FTMZuG6lpAXR5uM8

  4. Sim. E oficial. Portugal só e solidário com o nazismo ucraniano, com repúdio pelos “contínuos ataques russos”. Montenegro dixit.
    Faz lembrar um bocadinho a famigerada declaração de conformidade do tempo da outra senhora so que dessa vez era o repúdio activo do comunismo e de todas as doutrinas subversivas.
    Não deixamos entrar três dezenas de pobres diabos que até poderiam dar produtivo trabalho quando tivessem comido qualquer coisinha de jeito mas não nos importamos de despejar rios de dinheiro em quem não nos acrescenta nada.
    Porque longe vao os tempos em que os ucranianos precisavam de vir para cá trabalhar.
    Alias nessa altura não eram melhor recebidos que estes foram agora e pelo menos um encontrou a morte sob tortura no Aeroporto que leva o nome de um homem assassinado por uma ditadura.
    Mas agora as suas elites precisam de retemperar energias enquanto a sua plebe luta contra os outros bárbaros, os pretos da neve.
    Mas a verdade e que hoje a Ucrânia não nos acrescenta nada, antes subtrai.
    Em nome da quimera de derrotar e destruir a Rússia, país para onde transferimos o ódio que Salazar tinha a União Soviética.
    Já no caso de Marrocos e muito bom irmos lá pilhar o peixe deles e das terras que ocupam com a conivência do corrupto governo local que deixa o povo a míngua mas lá receber as vítimas dessa corrupção que nos dá muito jeito e que nada feito.
    Que quanto a ocupação do território saraui não e Marrocos o único culpado. Foi Espanha que abandonou o território passando o para Marrocos tal como nos tempos medievais se cediam territórios entre estados estando se nas tintas para quem lá vivia.
    Isto e tudo uma cambada.
    Vão ver se o mar da Kraken.

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