História do urso Zahar…

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 20/08/2025, Revisão da Estátua)


Em conversa com amigos de Donetsk, a principal cidade do Donbass onde eu mais tempo passei como jornalista, perguntei-lhes como estavam a ver os encontros sobre o conflito que estiveram a ocorrer nos Estados Unidos. Recordaram-me que, para eles, a guerra dura já há 11 anos e que, tal como olharam com baixas expectativas para os Acordos de Minsk – que a Ucrânia nunca cumpriu -, fazem a mesma coisa agora.

Ouvem o zumbido diário dos drones ucranianas sobre as suas cabeças e ainda há poucos dias morreu uma idosa na cidade depois de um ataque de Kiev. Porque é que não há jornalistas ocidentais a reportar o que acontece no Donbass, controlado maioritariamente pelas forças russas? O desequilíbrio na cobertura jornalística permanece. Não há cidade alguma controlada pelas forças ucranianas, longe da linha da frente, que viva aquilo que esta gente vive e é, sobretudo, nessas cidades que os jornalistas ocidentais se concentram.

Até ao momento, não comentei as conversações em curso sobre a guerra na Ucrânia e parece-me cada vez mais claro que os aliados europeus de Zelensky só aceitarão um acordo se tal lhes for imposto por Washington. Como tenho sublinhado várias vezes, parece-me óbvio que nem Kiev nem os seus aliados querem parar a guerra. A Rússia tampouco tem pressa, uma vez que está em vantagem no teatro das operações.

Dizia Emmanuel Macron que Vladimir Putin é um predador e que está às portas da Europa. Há que recordar uma e outra vez – independentemente da nossa simpatia ou antipatia pelo presidente russo -, que Moscovo é uma capital europeia e que a Rússia é também parte da cultura do nosso continente. Dostoievski, Gorki, Gogol, Kadinski, Chagall, Tchaikovski, Prokofiev, Catarina, Nicolai II, Lénine, Stalin. Todos eles fazem parte da nossa história diversa e comum. A demonização e brutalização da Rússia pelo Ocidente político é parte da propaganda de guerra.

Muitos comentadores televisivos continuam a alinhar na propaganda e a chocar com os factos. Recordo que a guerra não começou em 2022. Começou em 2014. Ao golpe de Estado patrocinado pelo Ocidente – que derrubou o legítimo presidente da Ucrânia para lá meter um aliado dos Estados Unidos e da União Europeia -, seguiu-se uma revolta com o apoio de Moscovo que teve como protagonistas as regiões russófonas que tinham votado maioritariamente em Viktor Yanukovych.

Foi esse novo regime pró-ocidental que proibiu partidos, associações, jornais, que ilegalizou o uso da língua russa, entre outras, nas instituições e nas televisões, que impediu a celebração da data que derrotou o nazi-fascismo, que promoveu paradas neonazis e que cometeu massacres em Odessa e em Mariupol com poucos dias de diferença.

O Ocidente empurrou a Ucrânia para a guerra civil e dividiu as populações e, posteriormente, aconselhou Kiev a assinar os Acordos de Minsk para evitar que os separatistas ganhassem mais territórios. Angela Merkel e François Hollande assumiram em 2022 que só tinham apoiado esses Acordos de paz para dar tempo à Ucrânia para se armar e treinar as suas tropas. Nunca quiseram realmente o fim da guerra. Será desta vez?

Argumentam que a constituição ucraniana não permite a cedência de territórios. Mas por acaso não foram precisamente estes protagonistas que rasgaram a anterior constituição, proibiram partidos e derrubaram um presidente? Quem fez tudo isso não terá certamente dificuldade em imaginar formas de reformar a constituição atual.

Termino com uma história bonita. No jardim zoológico que visitei em 2022 em plena guerra, acaba de nascer um urso. Chamaram-lhe Zahar. Como Zaharchenko, o presidente separatista do Donbass, que se sentou à mesa com os ucranianos para negociar a paz. Foi assassinado pelos ucranianos com um atentado terrorista em 2018.


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5 pensamentos sobre “História do urso Zahar…

  1. Para muitos escravos que se dizem alforriados na Rússia e em todo o lado so devia ser aceite num qualquer cargo, desde varredor de ruas, quem assinasse a famigerada declaração de conformidade salazarenta “declaro me integrado na ordem social vigente, com repúdio activo do comunismo e de todas as doutrinas subversivas”.
    Países de fanáticos religiosos como a Polónia já dao para esse peditório. A Rússia terá mais que fazer, estando entretida há três anos e meio a combater nazis.
    Vá ver se o mar da tubarão branco cheio de larica.

  2. Oooops!
    O Kommersant enganou-se nos nomes.
    https://www.kommersant.ru/doc/7975090?from=main

    “Eles não contratam qualquer um como vice-ministro
    Outro neto de Gennady Zyuganov entrou na política

    O neto do presidente do Comité Central do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, Mikhail, foi nomeado vice-ministro do Desenvolvimento Económico da Região de Rostov. Neste cargo, o representante da famosa família comunista supervisionará questões relacionadas à implementação de projetos nacionais, bem como fortalecerá os laços com as mais altas autoridades. Conforme informado ao Kommersant no governo regional, o Sr. Zyuganov Jr., de 31 anos, preencheu uma vaga recém-criada, e a escolha de sua candidatura se deveu a “competências gerenciais”.
    … ”
    Isto tem todo o ar de novela à la Montenegro, ou à Bosta.

  3. Também tenho muitas dúvidas de que o fim da guerra possa estar próximo.
    Poucos meses depois da guerra a sério começar, porque na realidade ela começou em 2014, um tal Paul Craig Roberts, defendeu que a Rússia estava a segur uma estratégia errada.
    Devia apostar em ataques convencionais devastadores ou esta gente ia achar que a Rússia era fraca, multiplicar os ataques e isto podia acabar na Terceira Guerra Mundial.
    Um analista russo foi aos arames e perguntou se ele gostava de genocídio porque os russos não gostavam de tal coisa.
    Ora tendo o homem sido conselheiro de um assassino com provas dadas de seu nome Ronald Reagan, o cão de Pavlov que há em todos nós saltou.
    Achei que o homem estava a incitar ao crime e era simplesmente cruel.
    Mas três anos volvidos e tendo em conta a crueldade ucraniana, a morte, muitas vezes por ataques terroristas ou em masmorras de jornalistas e outros criticos, o atacar de todos os civis possíveis, os massacres do Crocus City Hall e da incursão a Kursk, acho que o homem tinha razão.
    Esta gente na Europa pensa que mais tarde ou mais cedo vencerá e não quer parar. Os sobreviventes do Azov, Kraken e Sector Direito também não.
    Zelensky esta demasiado alheado da realidade via consumo de cocaina para querer a paz e também sabe que se negociar qualquer coisa será um alvo para os nazis de todo o mundo e os seus dias estão contados.
    E parem de dizer que isto e uma guerra entre a Ucrânia e a Russia porque isso e uma aldrabice quase tão grande como dizer que há uma guerra em Gaza.
    Isto e uma guerra entre a Rússia e todo o Ocidente.
    Tendo como teatro o território da Ucrânia e tendo esta a fornecer boa parte da mão de obra mas tendo todo o tipo de armas ocidentais e mercenários idos de todo o lado.
    O que pode a Ucrânia significar para um australiano ou neo Zelândes?
    Claro que também do lado russo há combatentes estrangeiros quanto mais não seja porque não sou o único a quem a ideia de um Ocidente a mandar e desmandar sozinho no mundo causa simplesmente terror.
    Esta gente e o mal absoluto, já se multiplicou em expedições de pilhagem que destruíram nações e mataram o povo fazendo da morte dos seus dirigentes um espectáculo macabro e nem a sua própria gente respeita.
    Por isso muita gente teme as consequências de uma vitória sua nesta guerra.
    Por isso a Rússia ou carrega no acelerador ou não saímos disto.

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