(António Guerreiro, in Público, 01/08/2025)

Uma cidade feita de hotéis e arrendamentos a curto prazo (no centro histórico de Lisboa, metade das casas está por conta do Airbnb) transforma-se num deserto cultural.
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Em pouco mais de um mês, Lisboa foi contemplada com dois artigos no jornal britânico The Guardian por motivos de que não se pode orgulhar.
O primeiro, publicado em 25 de Junho, assinado por Agustín Cocola-Gant (um investigador do IGOT, Instituto de Geografia da Universidade de Lisboa) inseria-se numa série de reportagens que o jornal está a publicar sobre a crise da habitação na Europa. O artigo consiste na descrição dos factores bem conhecidos que transformaram radicalmente a cidade na última década, de tal modo que ela passou de uma das mais acessíveis capitais europeias a uma das mais inacessíveis, sobretudo (mas não exclusivamente) por causa do preço da habitação.
Quanto ao segundo artigo, publicado no dia 27 de Julho, trata-se de um relato na primeira pessoa, de uma “nómada digital” inglesa, que veio de Londres para Lisboa em 2019. Agora, perante a acentuada gentrificação, notando o crescimento de tensões que eclodem no racismo e na xenofobia, sentindo um certo mal-estar na sua condição de estrangeira que beneficia de regalias que não são concedidas aos portugueses, olhando à sua volta e vendo que a cidade, em todos os aspectos da vida urbana, ficou conformada à lógica do turismo e dos residentes temporários estrangeiros, esta inglesa, chamada Alex Holder, faz a si própria esta pergunta: “Chegou a hora de os nómadas digitais como eu saírem de Lisboa?” Quem conhece alguns, sabe que esta questão começa a ser recorrente.

Evidentemente, nenhum destes diagnósticos e descrições traz dados novos ao que todos conhecemos. Mas dito por estrangeiros e publicado num jornal britânico tem mais peso, na medida em que nos faz perceber que a incomodidade cresce mesmo entre aqueles que julgamos serem os felizes beneficiários da transformação da cidade. A queda do prestígio alastra e está a tornar-se pública para além das fronteiras. Ninguém gosta de viver numa cidade Potemkin.

Esta situação, que as administrações políticas de Lisboa acolheram e promoveram com grande entusiasmo, atingiu a máxima intensidade quando outras cidades já estavam a tentar restringir as causas que provocam a catástrofe urbana do nosso tempo. Não faltam as reflexões sobre os devastadores efeitos urbanísticos, sociais e económicos sofridos por cidades como Lisboa. Mas já é mais raro encontrarmos análises do empobrecimento cultural que daí advém. Uma cidade feita de hotéis e de apartamentos com licenças de arrendamento a curto prazo (no centro histórico de Lisboa, metade das casas está por conta do Airbnb, escreve Agustín Cocola-Gant no seu artigo), uma cidade que expulsou os seus habitantes, transforma-se num deserto cultural.
É verdade que não podemos pensar, desde há mais de meio século, numa cidade com os seus espaços criativos onde germinam a arte, a literatura, a ciência. Os ateliers dos artistas, tão importantes para as vanguardas, não têm, há muito tempo, espaço na cidade. Quanto às tecnologias digitais, o espaço é indiferente porque elas são ubíquas.
A primeira “cidade criativa”, onde se deu um vínculo essencial entre o artista e a cidade, foi Florença, no Renascimento. Na cidade moderna, na grande metrópole, a relação entre o artista (num sentido lato, que compreende também o poeta e o escritor) e a cidade não tem nada de harmonioso, pode mesmo ser uma relação esquizofrénica. Mas é, ainda assim, um lugar cheio de estímulos criativos. Sem Paris do Segundo Império, a capital moderna por excelência, não teria havido um Baudelaire.
A cidade como uma incubadora cultural é uma imagem poderosa que teve o seu tempo, que pode ter ainda, algures, algumas manifestações. Mas não em Lisboa, que é um exemplo dramático de cidade culturalmente estéril. Como pode sobreviver uma “cidade criativa” se às suas portas se estende um território habitado por uma população privada de casa e de segurança, se o seu centro foi colonizado pela cultura do entretenimento para a ocupação dos tempos livres dos novos “criativos” e dos seus residentes de passagem? A imagem emblemática desta nova funcionalidade urbana da cidade Potemkin a que Lisboa se conformou é a do Cinema Ideal, em plena Rua do Loreto, tão cheia de evocações, a 30 metros do Largo Camões, que desafia discretamente (discreto à porta, mas menos discreto na sala onde passam os filmes) o fluxo torrencial de turistas. Aquela sala de cinema sobrevive como um vestígio, um resto (a par de outros restos) para o qual já não há contexto. À sua volta, até as livrarias são um testemunho do crescimento do deserto.

E quanto a literacia financeira visando ensinar as crianças a viver na miseria, na precariedade laboral e até a partilhar uma casa com mais duas famílias quando for grande e tiver meninos podem mete la num sítio que todos sabemos.
E ir mesmo ver se o mar da Kraken, bicho que teria especial predileção por piratas.
Claro, vamos lá resolver a coisa expulsando turistas e imigrantes.
Era assim ao tempo do Salazar. Turistas praticamente não havia pois que os poucos que ca vinham iam era a banhos para o Algarve e quanto a imigrantes, a não ser os galegos, a quem a Espanha Franquista só dava fome, prisão e fuzilamentos, nem o Diabo para cá queria vir pois sabia que só o esperaria era discriminação e tanta fome como na sua terra.
Lisboa era uma cidade em ruínas, onde pontuavam tabernas esconsas onde operários cansados e mulheres da vida bebiam para esquecer as agruras da vida.
Algumas zonas da Baixa eram um oásis onde as senhoras iam ao Grandela e descansar na Pastelaria Suiça.
Nos bairros periféricos de Xabregas amontoavam se famílias em casas exíguas, autênticas cavernas sem água canalizada ainda no final dos anos 70.
Rendas de casa? Amontoavam se três e quatro numa casa e gente havia que vivos uma vida inteira em pensoes de uma pobreza confrangedoura sem nunca ter dinheiro para alugar uma casa a que chamar lar.
Lisboa nunca foi melhor que isto por nunca ter tido ao leme da cidade ou do país gente solidária, decente e não corrupta.
E até já tivemos nos tempos da troika um comentadeiro, Camilo Lourenço de seu nome, que lembrou que noutros tempos era perfeitamente normal três famílias partilharem partes de uma so casa e viviam muito felizes pelo que porque não voltar ao mesmo.
Em fixar tectos as rendas de acordo com o valor patrimonial da casa, numa percentagem decente, claro que ninguém fala pois que isso e uma blasfémia a merecer o Inferno e coisa de comunista.
Vão ver se o mar da Kraken.
Quanto aos ciganos digitais, são os ’tá ki, tá li’.
Tal como o Capital, não têm Pátria, por isso recomendo que se mudem para aqui (dizem que é de Gaza que se trata, não sei, talvez seja):
https://politikus.info/events/170452-ruiny-sektora-gaza.html
Essa do ’tá ki, tá li’ parece-me ser a táctica do CU (candidato único) desde que assentou arraiais…
Quanto à menção a Salazar, já diria ser um lapso do subconsciente, tal o apego ao sentimento bucólico e melancólico próprio do ethos e do pathos de um digno capelão…
ah ah ah ah o novo Pessoa.
É só heterónimos, só que homofónicos.
Para mim imigrante é imigrante, sejam eles da cor do agora bem pago chuchalista, sejam eles da cor leitosa dos nortenhos da Europa.
Turista é praga. Ambos deveriam ser erradicados. Esperanças que isso aconteça? Nenhumas. Todo o arco partidário é adepto das não clivagens. Veremos com o tempo, como a castanha rebenta. Quanto à virtudes do sub-urbano, do campo, das cabritas, da couve e dos “tomates”, Salazar não desdenharia de subscrever .
Na imensa riqueza da diversidade dos pontos de vista e da habilidade no uso dos termos que os caracteriza nao fica muitas vezes clara a ideia que guia as vozes que conseguimos ouvir pois a lingua nas suas peculiaridades permite tudo, daarteapropagandadosentimentoaonegociodacienciaaomaisgrosseiroexagero!!!
Muitos de nos conheceram a Lisboa colonial, dos anos 70, que se movia em turbilhão de nacionais e estrangeiros por uma Baixa muito caiada e repleta de quase tudo o que se podia gastar na epoca. Segura, alegre e jovial, xenopata e esperancosa, num tempo em que a casa própria, pela mao dos bancos, ainda não tinha atingido o auge do pos revolucao.
Seguiu-se-lhe o que se conheceu ate ao principio do seculo vinte. Uma Baixa vazia e abandonada ao grafiti, entregue as ratazanas e aos sem abrigo, com um odor a estrebaria em cada esquina. Vendida ao desbarato a quem a quis comprar ate ao Fontes Pereira de Melo…
Não sei como esta Lisboa hoje pois há mais de uma década que não me perco por ai mas ouco a muitas vozes dizer que esta muito bem. Que ainda e 20% mais barata que a maioria das cidades da America do Norte! Que vende bem demais internacionalmente! Se a grande maioria dos portugueses e proprietária de HPP, facto que compelia a inveja patrimonial os alemaes, a ideia de não terem acesso a habitação e no mínimo estranha?!
Convem não perder a nocao do que esta em curso, o sentido das revoadas dos patos bravos, agentes e capitais, produzindo altos e baixos a jeito de conveniência… Se aos pobres de Portugal fossem disponibilizados os shelters do Canada não seria necessário ir a Londres, a Paris ou a Nova York ir buscar artistas para falarem da cidade?!… Quantos aos políticos, bla-bla-bla, já eram mocos de recados a 50 anos…
Eu nasci e cresci em Lisboa, mas não descansei enquanto não consegui sair para sítio bem melhor, sítio esse que hoje já está a ser colonizado da mesma forma que a capital do império.
Conheci há anos o medíocre Moedas e já antes de ser o aprendiz de feiticeiro em que se tornou, naquela altura já ele evidenciava todos os traços e tiques de adesão ao capitalismo selvagem com que transformou a cidade na desgraça que é hoje e onde nada tem a ver com nada nem com ninguém. Também eu evito vir à cidade, especialmente ao centro e zonas circundantes. Assim que trato ao que vinha, fujo de imediato do odioso profano caótico inferno urbano onde todos os sentidos são proibidos, onde os operários substituem os passeios que nem estavam mal e os funcionários abatem as poucas árvores que teimam em sobreviver… onde as largas avenidas foram absurdamente estreitadas e as obras se eternizam e as soluções se multiplicam para prejudicar os utentes e os sem abrigo fazem fila para um mísero prato de comida.
Para os portugueses resta pouco. O meu interesse por Lisboa é tanto ou tão pouco que evito ir ao centro e à zona histórica sempre que venho à capital, preferindo altwrnativamente a periferia suburbana para qualquer deslocação. Está tanta coisa mal feita para os lisboetas e os portugueses, só a pensar nos turistas do avião e do cruzeiro, que nem dá vontade de alinhar com as “vanguardas do imobiliário” reinantes – é a lógica fria e desumana do calculismo e do lucro, e a capital foi vendida ao estrangeiro para proveito de alguns carolas e a troco de umas Moedas. Perdeu o encanto de viver e habitar, é um vespeiro de jetset, nómadas e gónadas, e não mais um viveiro da identidade e da cultura nacional.
Quanto à educação sexual, essa coisa menor e mal parida, prima afastada e devassa da Religião e Moral, quem quer saber dela quando em breve teremos nos programas lectivos a magnífica e potencialmente salvífica literacia financeira, que entre outras coisas, como tornar o cidadão português capaz de comprar casa em Lisboa, e sem muito esforço, vai permitir:
– antecipar qualquer depressão económica, seja grande ou só atinja os satélites dos EUA
– contornar colossais aumentos de impostos
– discernir quando um Presidente da República elogia a solidez de um banco “mau” dizendo que é sólido e seguro para os portugueses lhe entregarem o seu dinheiro
– contrariar a inflação galopante e a perda real do poder de compra com a “magia dos números e dos métodos de gestão Lagardianos”
– constituir famílias numerosas que reponham a juventude e o crescimento da população autóctone, graças ao amealhar de migalhas de pão e à poupança de água, luz e electricidade a uma hora diária e outra nocturna de utilização
– constituição de micro-empresas de gestão de resíduos domésticos e urbanos, assim como criação de baratas e ratazanas para exportação para os mercados alimentares asiáticos
E por aí fora… claro está que em alternativa à educação sexual, podermos sempre ter uma hora de propaganda do CUarto Pastorinho (candidato único) a incitar-nos à expulsão dos mouros, indostânicos e ciganos para reconquistarmos a independência do estrangeiro e a reeducar-nos para a nova ordem MAGA/anglo-saxo-sionista do “mundo livre”.
É continuar a votar nestes iluminados e esperar pelos resultados, não vale a pena andarmos tão preocupados que eles só querem o bem das portuguesas e dos portugueses. Os bens, se possível
Afinal, e como diria o mote de uma Unidade Curricular de Literacia Financeira: “Nada é mais capitalizável que a própria capital” ou, resumindo, “Capital Capitalizável”.
E é isto o esplendor do desenvolvimento humano “sustentável”. Até os unicórnios encontraram um novo nicho ecológico onde reproduzir e prosperar…
Outros conteúdos lectivos sugeridos de Literacia Financeira:
– Introdução das Tarifas Trumpistas
– Cortes e Austeridade para preguiçosos
– Alta Finança e Baixas Reformas
– Evasão fiscal e Offshores
– Modelação Mendiana de Comissões
– Orçamentação Vieirista e sacos azuis
– Financiamento Salgado
– Bancas, Máfias, Casinos
– Governance Spinumviva
🙂