Golpe em curso no Brasil: nota da embaixada dos EUA revela algo além das taxas de Trump

(Por Eduardo Vasco, in Diálogos do Sul, 11/07/2025)


O imperialismo quer uma mudança de regime no Brasil e vai executá-la até as eleições de 2026; prova disso é a inédita postura da embaixada dos EUA, mais significativa e alarmante que as próprias tarifas anunciadas por Trump.


O Brasil entrou definitivamente no radar dos Estados Unidos. Em um único dia, três ações acenderam o sinal vermelho para o governo brasileiro. Primeiro, novas declarações de Donald Trump em apoio a Jair Bolsonaro e contra as instituições brasileiras; em seguida, manifestação no mesmo sentido da embaixada dos EUA em Brasília; finalmente, o anúncio de tarifas de 50% para todos os produtos brasileiros, com os mesmos argumentos políticos contrários ao atual governo brasileiro.

Embora esquecida, sobretudo diante do anúncio tarifário, a ação que mais me preocupa é a emissão de uma nota oficial da embaixada. Esta é a primeira vez em toda a história das relações bilaterais que a embaixada dos EUA critica aberta e duramente o governo e as autoridades brasileiras e defende um opositor. O comunicado repete as falas de Trump, dizendo que o ex-presidente Bolsonaro e seus familiares “têm sido fortes parceiros dos Estados Unidos” e que eles e seus apoiadores sofrem uma perseguição “vergonhosa”.

Não há nenhuma necessidade de uma embaixada se pronunciar apenas porque a Casa Branca se manifestou sobre a política local. O gesto da embaixada dos EUA é uma interferência maior na política brasileira do que os comentários proferidos por Trump. Mais do que isso: se uma embaixada emite uma nota como essa, tendo a certeza de gerar uma crise diplomática com acusações de interferência nos assuntos internos, é porque o governo americano já está trabalhando nos bastidores para interferir concretamente na política interna do Brasil. Ou melhor, já está interferindo de forma concreta.

De fato, no final de 2024 os esforços desestabilizadores contra o governo de Lula foram redobrados e 2025 começou com uma breve guerra especulativa para forçar a administração a adotar um ajuste fiscal em benefício dos grandes bancos e do conjunto do capital financeiro internacional. A pressão não surtiu o efeito esperado. Os setores imperialistas e a burguesia brasileira – sócia minoritária da dominação estrangeira sobre o país – perceberam que a única saída seria derrubar o atual governo. O processo golpista foi iniciado.

Os partidos da direita com os quais o PT se aliou, como sempre, desde o começo do governo já o estavam sabotando internamente, mas nos últimos meses passaram a debandar gradualmente. No Congresso, esses partidos estão em guerra contra Lula. A imprensa ecoa diuturnamente as exigências dos grandes capitalistas: o corte de programas sociais, o congelamento do salário mínimo, as privatizações e o afastamento dos “autocratas” (Putin e Xi Jinping) de quem Lula está se aproximando. O governo, por seu lado, está perdido, limitado pela política de colaboração de classes que o faz seguir parcialmente a cartilha estabelecida pelo Consenso de Washington, especialmente através do Ministério da Fazenda e do presidente do Banco Central.

A desestabilização causada pelas instituições da burguesia (bancos, latifúndio, multinacionais, Congresso, imprensa, institutos de pesquisa, etc), somada às alianças com seus inimigos e à manutenção das estruturas fiscais e econômicas erguidas a partir da década de 1980, transformaram o governo em uma vítima vulnerável à mudança de regime pretendida pelo imperialismo americano. O governo Lula é extremamente débil.

União de interesses

“O Brasil não tem sido bom para nós”, declarou Trump. O conjunto do capital internacional pensa da mesma forma, assim como os seus sócios minoritários dentro do Brasil. Nesse sentido, há um ponto essencial de convergência entre o trumpismo e os setores tradicionais do imperialismo: a necessidade da derrubada do governo Lula. E o alvo central disso tudo é justamente o presidente Lula, embora muitos digam que seja a Corte Suprema e o ministro Alexandre de Moraes – estes, na verdade, com sua atuação absolutamente arbitrária, estão trabalhando contra os interesses do Brasil e do próprio governo Lula. O presidente e seu partido pagarão caro pelas ações de Moraes e do STF, ainda que não sejam responsáveis por elas.

Rubens Ricupero, ministro da Fazenda e embaixador em Washington em parte do período de ascensão neoliberal e submissão completa aos EUA, acredita que as declarações de Trump são um “presente eleitoral” para Lula, porque reforçam o discurso nacionalista do líder brasileiro. Mas ele não percebe que a interferência dos Estados Unidos na política brasileira vai muito além da retórica de Trump nas redes sociais. Lula só poderia aproveitar essa oportunidade – aberta não agora, mas desde que Trump foi eleito presidente dos EUA – se ele agisse na prática, e não só no discurso, contra o avanço imperialista sobre o Brasil e a favor de uma verdadeira independência do país.

A atual política econômica de Lula não é uma proteção da soberania do Brasil. Suas alianças políticas, tampouco. As classes dominantes brasileiras, que fizeram o governo de refém desde a farsa do 8 de janeiro, não se interessam por um confronto com os Estados Unidos. Seu instinto de classe fala mais alto. A burguesia nacional brasileira é muito pouco nacional.

Os produtos industriais vendidos pelo Brasil aos Estados Unidos, como peças de tratores e de automóveis, são fabricados pelas empresas americanas no Brasil, e daqui vendidos para lá. A produção “nacional” de aço é controlada por uma empresa indiana (Arcelor Mittal) e outra ítalo-argentina (Rocca) e a maior parte é exportada. As siderúrgicas “brasileiras” possuem fábricas em outros países e podem facilmente exportar de lá para os EUA para contornar as tarifas, realizando uma migração em massa da produção para garantir os seus lucros. Isso afetaria os empregos e a indústria no Brasil? Claro que sim, mas quem se importa, já que há outros países com uma mão de obra mais barata e onde as tarifas não funcionariam!

Donald Trump disse que as empresas “brasileiras” podem evitar as tarifas ao transferirem a sua produção para os Estados Unidos, onde seu governo já está aplicando uma série de incentivos. Para permanecerem no Brasil, as companhias “brasileiras” podem muito bem exigir mais incentivos fiscais do governo brasileiro. E, como já estão fazendo durante toda essa campanha de desestabilização, exigir garantias com reformas neoliberais, desregulamentações, redução do salário dos trabalhadores e menos direitos trabalhistas. Afinal, como gosta de pregar a burguesia “nacional”, o custo de se produzir e operar no Brasil é muito alto…

Essas mensagens já haviam sido transmitidas na primeira rodada de tarifas de Trump contra o Brasil. Os órgãos da burguesia sugeriram que o governo brasileiro agradasse Trump para que ele reduzisse as tarifas. Como? Eliminando “tarifas elevadas, burocracias regulatórias, exigências de conteúdo local, subsídios”, indicou o jornal O Estado de S. Paulo. “Além de facilitar acesso ao mercado dos EUA, a medida beneficiaria o consumidor brasileiro com importados mais baratos”, concordou o jornal O Globo. Que bela manifestação de burguesia “nacional” que tem o Brasil! Esses jornais são os mesmos que defenderam abertamente o golpe militar promovido pelos Estados Unidos em 1964.

As convergências com o trumpismo são muito maiores do que as suas divergências, apesar da aparência “antifascista”. As tarifas de Trump irão gerar desemprego no Brasil – o que os ditos empregadores exigem há muito tempo, para reduzir os salários. Elas vão desacelerar a economia, que é criticada por estar aquecida, devido ao aumento do consumo. O capital financeiro internacional, através de seus funcionários no Banco Central, trabalha incessantemente para reduzir a inflação com uma das maiores taxas de juros do mundo. Logo após o novo anúncio tarifário de Trump, a bolsa de valores caiu e o dólar subiu, o que levará ao aumento da inflação e do preço dos combustíveis e alimentos, se a tendência persistir. A especulação financeira, que domina a economia brasileira, agradece.

A Câmara de Comércio dos Estados Unidos no Brasil pediu que haja uma “solução negociada” entre os dois países, a mesma posição dos empresários brasileiros. Isso significa que o Brasil terá de ceder para que os EUA reduzam as tarifas. Mas ceder em quê, se o Brasil não adotou nenhuma medida contra os EUA? Ceder exatamente no que atende aos interesses de maior abertura do mercado interno, com as reformas neoliberais apregoadas há tempos dentro do país.

Pelo andar da carruagem, está sendo selada a aliança entre o trumpismo, protetor do bolsonarismo, e os agentes dos setores tradicionais do imperialismo no Brasil, os partidos do “centrão”, a imprensa tradicional e as instituições estatais. Os bolsonaristas ganham um maior poder de barganha, a partir do apoio do governo mais poderoso do mundo, em suas negociações com o “centrão”. Este, por sua vez, ainda tem a vantagem da inelegibilidade de Bolsonaro e do apoio dos setores mais importantes do empresariado norte-americano (BlackRock, Bank of America, Citigroup deram tapinhas nas costas de Tarcísio de Freitas na Brazil Week, em Nova Iorque). Como concluiu o The Economist recentemente: “[se Bolsonaro nomear um sucessor] e a direita se unir em torno desse candidato antes das eleições de 2026, a presidência estará nas mãos deles.”

É absolutamente previsível que, para tentar anular o movimento de aliança entre o bolsonarismo e o “centrão”, Lula e seu partido buscarão um acordo com este último, apelando para o pretenso nacionalismo das oligarquias locais. No entanto, a campanha de desestabilização conhecida por todos tem como motor justamente o “centrão”.

Já era perceptível que uma campanha golpista semelhante à que acometeu o governo de Dilma Rousseff estava em andamento. Daquela vez, o “centrão” derrubou a então presidenta petista e Michel Temer praticamente privatizou a Petrobras, realizou as reformas trabalhista e previdenciária (parcialmente), favoreceu as terceirizações e estabeleceu o Teto de Gastos, entre outras medidas neoliberais das mais severas em quase 20 anos. Mas o “centrão” já estava alinhado com o bolsonarismo, e, de fato, foi aquela campanha que fez a extrema-direita crescer – até chegar ao governo graças à prisão de Lula pelo mesmo Poder Judiciário que hoje é seu suposto aliado. Bolsonaro deu continuidade ao choque neoliberal de Temer, privatizando a Eletrobras e outras empresas, entregando o Banco Central e consolidando a reforma da previdência.

Portanto, Lula não poderá se apoiar no “centrão” para se defender desse golpe de Estado em andamento. Em quem ele irá se apoiar, senão no próprio povo? Mas as medidas de Lula, de seu ministro da Fazenda e de seu governo de “frente ampla” com os inimigos nada fazem para atrair o apoio ativo do povo brasileiro. A única coisa que resta a Lula e ao PT é o rompimento definitivo com aqueles setores, a implementação de medidas emergenciais que revoguem as principais reformas neoliberais e a concessão de direitos trabalhistas e sociais para as grandes massas do povo, golpeando seus inimigos e fortalecendo a própria organização popular, a única capaz de ir a seu resgate.

O imperialismo quer uma mudança de regime no Brasil e vai executá-la até as eleições de 2026. Os interesses distintos dentro do imperialismo internacional estão se unindo a partir dessa necessidade. Após um primeiro semestre de política externa ambígua, Donald Trump parece ter se dobrado ante as pressões dos falcões dentro e fora da Casa Branca ao atacar o Irã e dar uma guinada intervencionista na guerra contra a Rússia na Ucrânia. A situação do regime imperialista é muito delicada e a corrida armamentista indica a preparação de uma guerra em escala mundial para os grandes capitalistas se salvarem do declínio completo. Os Estados Unidos precisam garantir sua retaguarda no Hemisfério Ocidental, não podem permitir nenhum foco de instabilidade a partir do crescimento da China na América Latina – e o Brasil é a grande nação latino-americana, parceira da China. Daí a assunção de regimes abertamente pró-americanos na Argentina, no Equador, no Paraguai e em El Salvador. Daí a trama para derrubar os governos incômodos, como o do Brasil.

Fonte aqui

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

8 pensamentos sobre “Golpe em curso no Brasil: nota da embaixada dos EUA revela algo além das taxas de Trump

  1. Ergue-se o Trump qual torre desmedida,
    de ego inflado e verbo triunfal.
    Faz da mentira o seu bordão real
    e da bravata um modo de ser vida.

    Declara guerra em paz mal resolvida,
    vende-se rei, profeta universal.
    Mas Deus — com gosto raro e teatral —
    pôs-lhe na testa a piada mais sabida:

    um tufo loiro, falso e sem firmeza,
    que o vento arranca em dança desgovernada,
    qual ave morta em busca de beleza.

    E assim se esvai, na brisa derrotada,
    a glória vã da sua realeza:
    um rei vencido por… uma rajada.🥸

  2. A interferência dos Estados Unidos na política interna brasileira justifica medidas de natureza diplomática
    independentes da “guerra das tarifas”. Entre declarar o embaixador ” persona non grata” e reduzir significativamente o pessoal diplomático acreditado. Na segunda hipótese com a vantagem de desarticular a máquina conspirativa que estará a animar um qualquer golpe de estado interno.
    Quanto às tarifas, a situação é desfavorável para os Estados Unidos, que tem balanças comercial e de pagamentos que lhe são favoráveis, podendo sofrer perdas maiores do que o Brasil num conflito comercial.

  3. com a guerra comercial que está a aplicar no pacifico e a destruição económica que está a provocar na zona euro, os eua precisam urgentemente de garantir o “quintal” sul americano. o brasil tem que se pôr a pau porque isto não vai ser brincadeira

  4. O Brasil tem que assumir a própria maioridade.
    Salta à vista o caso de Cuba, também um país da América Latina, que não se deixou,nunca, intimidar por vizinhos boçais e brutos ! Com um cerco asfixiante há quase 70 anos, Cuba segue, livre e independente.
    Choradeiras mercenárias de direita não colhem !
    Que o Amazonas , Paraná e Paraguai continuem caudalosos, fortes e livres da marabunta gananciosa !!!

  5. Os EYA não tem amigos tem interesses e se algum governo os critica mais tarde ou m ais cedo a CIA trata de resolver o assunto, quem tem andado a observar como, os EUA tem intervindo nos governos que não são do seu agrado, duvido que o Lula governe atá ás eleições.

  6. A situação no Brasil é muito, muito complexa.
    Se é verdade e decisivo que Lula tenha coragem para lançar novas políticas de apoio aos trabalhadores e à maioria da população, não é menos verdade que, após as últimas eleições presidenciais, de deputados e as mais recentes autárquicas, o estreitamento da aliança que suporta o governo corresponderia a estender uma passadeira vermelha aos bolsonaristas de vários matizes para tomarem o poder, sem recorrer ao clássico golpe de Estado.
    E as presidenciais de 2026 estão à porta, sem se ver um sucessor para Lula, pelo menos dentro do retalhado PT.
    É hora de questionar como os BRICS vão reagir à interferência de Trump e do imperialismo.
    E não se tornará necessária e urgente uma Cimeira dos líderes dos BRICS com o Brasil como ponto único da agenda ?
    Alguma coisa tem de ser feita e com muita rapidez e firmeza combinada com astúcia.
    A saída do Brasil dos BRICS será terrível para todo o projecto.
    Tem que se fazer TUDO para o impedir.
    O Brasil não é a Síria, nem a Argentina !

    • E a maioria do povo brasileiro desconhecem e até estão pedindo para que os eua intervenham aqui!!! Lamentável.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.