A mobilização total

(António Guerreiro, in Público, 27/06/2025)

António Guerreiro

Estamos a viver uma situação em que o que é maioritariamente considerado racional e inevitável é encorajar a guerra e evitar falar em paz.


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No final do século passado, estávamos nós, no mundo ocidental, a gozar prospectivamente as delícias de uma paz perpétua — temendo apenas que esta história tão lisa que até tinha passado a declinar-se com o prefixo “pós” fosse o anúncio de tempos enfadonhos —, parecia-nos que o entusiasmo que a Primeira Guerra motivou em tanta gente só podia ser explicado por um fenómeno de sugestão e de psicose colectiva.

Tal entusiasmo foi sentido e racionalizado de maneira doutrinária por escritores e intelectuais daquela época. Penso, por exemplo, em Thomas Mann, que escreveu em Agosto de 1914 um ensaio para uma revista alemã (Neue Rundschau), intitulado “Pensamentos de Guerra” (“Gedanken im Kriege”), onde defendia ferozmente o militarismo alemão, ao serviço do qual achava que devia colocar a sua arte.

As suas Considerações de um Impolítico, escritas durante a guerra, levavam ainda mais longe o seu empenho: enquanto escritor, sentiu-se no dever de se posicionar perante o que considerava serem as exigências do século XX e de uma nova estética, aos quais a guerra devia responder. Foi em nome dessas exigências que defendeu o conceito alemão de Kultur em oposição ao de Zivilisation. Com ele, outras figuras importantes — tais como Hofmannsthal, Rilke, Hermann Hesse, Frank Wedekind — se tinham inflamado perante a ideia de uma guerra susceptível de quebrar a monotonia da época e de trazer uma nova vitalidade a uma sociedade sentida como decadente.

Explicar o carácter — às vezes passional — da adesão à guerra, sobretudo se nela estavam implicados tão ilustres “espíritos”, parecia-nos uma tarefa difícil, se não estivéssemos a par da vasta constelação de pensamento que dava alguma razão e verosimilhança a tal mobilização.

Actualmente estamos a viver uma situação em que o que é maioritariamente considerado racional e inevitável é encorajar a guerra e evitar falar em paz. Todo o pacifismo é visto como um ideal ingénuo, próprio de gente ociosa e diletante que não percebe nada do mundo nem de política geoestratégica.

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Estamos a viver um tempo de mobilização total. Não por estarmos embriagados pelo desejo de aventura e a morrer de tédio, não porque a religião esteja morta e a vida familiar seja um aborrecimento, não por a arte e a ciência se terem tornado assuntos para iniciados — motivos, todos eles, pertencentes a uma lista mais longa que Robert Musil, com muita ironia e até algum sarcasmo, elaborou como explicação plausível para a explosão final que conduziu à guerra. Dessa lista, faz parte um motivo que se mantém actual: a política reduzida a uma venda a retalho de ideias gastas.

A mobilização total a que me referi exige uma explicação. Trata-se de uma noção, um quase-conceito desenvolvido pelo escritor Ernst Jünger num livro de 1930 com esse título. Jünger evoca aí a guerra técnica em oposição à guerra cultual, heróica, aristocrática, do passado. O culto da guerra que ele celebra nem precisa de supor um inimigo real. A sua “guerra”, aquela que implica a mobilização total, é uma guerra eterna, a-histórica, intemporal. A guerra da mobilização total é “a experiência maior e mais eficaz do nosso tempo”, ela traz consigo o “espírito do progresso” dotado de um valor aurático, “uma força de tipo cultual”. Trata-se de uma fé que constitui o pressuposto da técnica.

A guerra que já está em curso e cuja proliferação mundial está a ser preparada pela nova versão da mobilização total não é, como em Jünger, uma fantasmagoria heróica, nem cumpre as exigências de transpor para o seu domínio a estética da arte pela arte, como ela era entendida pelos apologistas da guerra nas primeiras décadas do século XX, do “Manifesto Futurista”, de Marinetti à “revolução conservadora” de Jünger e de muitos outros seus contemporâneos. Em vez da estetização e da apoteose aurática da guerra (ou melhor, pseudo-aurática), temos agora uma guerra que fascina pelos seus meios técnicos e que, tendo abandonado qualquer apelo a um horizonte estético, é uma elaboração suprema da técnica, suscitando um novo tipo de entusiasmo. As fantasias técnicas da guerra são um espectáculo. Quando nos é explicado o funcionamento das novas armas e o seu poder, sejam elas de defesa ou de ataque, sentimo-nos transportados para um mundo tão esotérico como o da inteligência artificial. O estupor é o estado permanente em que nos encontramos sempre que tentamos perceber o mecanismo interno dos meios criados por esta civilização em que, pela primeira vez, não precisamos de perceber as ferramentas que usamos.


3 pensamentos sobre “A mobilização total

  1. Hoje em dia há dois tipos de literacia particularmente exaltados, ou, apregoados como sendo os mais utilitários, os mais necessários e os mais relevantes para o homem do século XXI, seja ele um neoconservador, um neoliberal, um “futurista” ou um “tradicionalista identitário”, ou até mesmo um ultra-nacionalista, que são:

    – a literacia financeira
    – a literacia do armamento

    Dizem que sem uma delas, ou na ausência de ambas, não se vai a lado algum, não seremos ninguém, ou pelo menos não teremos as ferramentas e o conhecimento técnico para prosperar, ou mesmo sobreviver, no novo paradigma do mundo pós-moderno dominado por corporações e agências supra-nacionais. Tudo o resto tem um valor menor nesta tecnocracia hierarquizada e oligárquica. A cultura, a poesia, as artes, a ciência do meio, a relação e a experiência com o mundo natural, o humanismo, a sociedade são secundários perante estas duas formas supremas de superação e apuramento evolutivo, o mundo dos algoritmos, da economia de casino, da especulação, dos juros usurários, e da balística e dos drones como instrumentos de repressão, tortura e morte, dos tanques, mísseis e bazucas, aeronaves e submarinos, embarcações de guerra e até mesmo dos satélites espiões e dos programas espaciais. É isso que hoje a comunicação social vende, o produto principal da cultura de massas.

    • Dinheiro e Armas de Guerra, os dois expoentes máximos dos poderes fácticos deste mundo, acima dos restantes, exaltados por todas as cúpulas políticas do “Ocidente alargado”, e ainda mais exacerbadas com o regresso do HiPOpoTamUS cor-de-laranja, que o branco estava a ficar senil e já perdia agilidade. Os Netanyahus deste mundo prosperam, atropelando as leis nacionais e internacionais com cobertura do “excepcionalismo” instituído. Os parceiros e aliados (súbditos) vergam-se aos ditames e alinham nas diatribes do “farol das democracias”, justificando-o com os “valores comuns”. O primado da lei nunca o foi, e sim o primado do mais forte impôr a sua lei, a do mais rico, a do que menos escrúpulos tem, do mais manipulador, interesseiro e violento.
      Daí toda a promoção feita nos últimos anos, de tal modo totalitária, até nos tempos de antena televisivos, repetida à exaustão sem nenhuma ponderação ou impedimento. Os Rogeiros, os Milhazes, os Isidros estão lá para isso, realçar o poderio bélico e militar do “país mais poderoso do mundo”, as Soller e as Gouveias para bajular, justificar ou promover toda e qualquer acção política norte-americana ou israelita, ou da filial da NATO, a UE. Tudo o que fuja a isto, todos os que não alinhem nesta seita de lambe-botas avençados ou fanáticos do “Atlantismo” intervencionista (que repetem amiúde que a NATO é uma aliança defensiva sem se rirem), é para desacreditar, mesmo que para isso tenham de recorrer a ataques “ad hominem”.

  2. Isso traduz-se num “totalitarismo de guerra”, que é impigido, numa primeira fase, pelo sensacionalismo e os propagandistas avençados na comunicação social de massas e plataformas cibernéticas, e outros alinhados e co-religionários da guerra “custe o que custar, dure o que durar”, orientados por ideólogos das ideias importadas e pré-definidas acima de qualquer escrutínio democrático, para depois posteriormente ser imposto de forma “forçada” e “oficial” e se tornar sistémico.
    Aí torna-se o móbil para tudo o resto, ou seja, assumir a forma “totalitária”, que pode implicar perseguição política e ideológica, opressão e ataque aos direitos consagrados constitucionalmente e na Carta Universal dos Direitos Humanos, de quem não vai nesse tipo de “identitarismo” ultra-nacionalista (e sectário na sua essência e nas várias formas), no “militarismo” corporativo e institucional vigente, apoiado não só por altas patentes das Forças Armadas e da Maçonaria (nem tentam escondê-lo), assim como pelas cúpulas globalistas das maiores corporações, as oligarquias das várias indústrias (armamento, munições, tecnologia, logística, matérias-primas, transformação, etc) que parece galvanizar e “unir” as hostes do ultra-nacionalismo e da extrema-direita, e seduzir as do centro e da direita “moderados”, que procura um mimetismo asséptico dos comportamentos e propostas políticas dos populistas de direita, inspiradas e pensadas para captivar o ideário e os slogans que orientam os seus eleitores menos “eruditos”, sem assumir o maniqueísmo que lhes subjaz, assim como do “novo ciclo governativo”, que se prende com a 2.ª metade temporal da Agenda VinteTrinta que está a ser impulsionada e implementada a todo o vapor.

    Aliás o paradoxo talvez seja mesmo serem os auto-proclamados “moderados” os mais acérrimos defensores da “guerra total”, que na sua variação para “totalitarismo de guerra” cai melhor a um figurino composto por (ex-)militares, ultra-nacionalistas, populistas de direita, extremistas de direita, maçonaria e restantes confrarias, no sentido em que corresponde à sua cosmovisão de Portugal no Atlântico, na Europa e no Mundo, (com as relações com os PALOP e o Brasil com o seu potencial de voltarem a andar para trás, a regredir como eles farão regredir a “Metrópole” ao século passado).

    Quanto aos “identitarismos” serem a causa do declínio da esquerda, por usar como bandeiras essas políticas, as políticas “identitárias” nacionalistas, xenófobas, racistas, homofóbicas são a causa da ascensão da extrema-direita e da “viragem à direita” (foi mais guinar) do “país político”? A pergunta pode ser feita de várias formas, mas parece-me que há mais questões políticas para lá dessas a avaliar e debater, mais abrangentes e menos “exclusivas” ou “divisivas”.

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