O discurso da infâmia

(Nuno Morna, in Facebook, 19/05/2025), Revisão da Estátua)


[Num domingo à noite, febril, deitado de lado, com o coração aos gritos e a televisão ligada no volume errado].


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Ontem à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espetáculo monológico onde o palhaço também era domador, diretor, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele.

André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigada de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.

Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.

O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos.

Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.

O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão, e chama a isso arrumação.

Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfeção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.

E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas votaram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens.

 Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.

E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar”. Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade.

Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.

Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “Toma, faz tu melhor”. E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.

O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exato momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.

Este discurso, o de 18 de maio, de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar.

 E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.

E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.


Post scriptum: Estarei sempre do outro lado da barricada. Com todos os que são, efetivamente, pessoas de bem, não os que se dizem, mas os que o demonstram, com os que amam a liberdade sem adjetivos e a democracia sem asteriscos. No combate a todos os radicalismos, venham eles mascarados de justiça ou de ordem, de povo ou de nação.

No combate aos que aparecem para dividir, para semear o ódio, para apagar a pluralidade, para transformar o medo em política. No combate, sempre, à intolerância, a intolerância dos gritos e a dos silêncios cúmplices. Quero viver com a noção de que “Combati o bom combate“, (2 Timóteo 4:7). Da minha parte, não esperem outra coisa. Nem agora, nem nunca.

11 pensamentos sobre “O discurso da infâmia

  1. E o assassinato de dois sionistas em Washington gerou um vendaval maior de condenações do que todas as atrocidades cometidas pelos israelitas.
    Para esta canalha duas vidas israelitas valem muito mais que 60 mil vidas palestinianas. Alias, para esta canalha, as vidas palestinianas não valem e nada.
    Não lhes serviu de nada pois o porco do Netanyahu já veio condenar a Europa atribuindo o atentado ao antissemitismo europeu.
    O porco não lhe chega o sangue palestiniano, quer sem dúvida a polícia a matar manifestantes pro Palestina a tiro, porque em termos de repressão na Europa e só isso que falta.
    E culpar a Europa por um atentado cometido nos Estados Unidos por um norte americano só prova a mente podre e sórdida do monstro.
    Quanto ao desgraçado que matou os sionistas palpita me que sofrera a condenação a morte e execução mais rápida da história dos atestados Unidos exceptuando talvez os tempos do Oeste bravio e da Lei de Linch.
    Quem viver verá.
    Não pode contudo o porco mandar bombardear a Califórnia, terra natal do homicida.
    Vao ver se o mar da megalodonte, que um simples tubarão branco morre envenenado e o pobre bicho não merece tal fim por causa de trastes destes.

  2. Acho que se tem deixado passar a Comunicação Social pelos pingos da chuva. Ela, quem manda nela, tudo fez e faz, de forma descaradíssima, para promover AV. As queixas dele são de rir, já Mário Soares dizia que, mal ou bem, o que interessa é que falem. E se falam, qualquer espirro merece cobertura e, mesmo quando criticam nas tvês, louvam sempre entre parêntesis a sua “inteligência”, ” carisma”, etc… E ainda tem os seus canais nas redes sociais, do partido e influencers “independentes” que martelam o seu público com “notícias”. Nesta campanha, a CS protegeu Montenegro e atacou PNS fortemente, tem grande responsabilidade neste resultado, porque é que o PS não o diz claramente? De que tem medo? É tudo uma questão de enquadramento e ficou decidido enquadrar Montenegro como “homem de Estado” e PNS como “radical, impulsivo, etc”. Era muito difícil PNS sobreviver ao ataque cerrado da CS, digo eu que nunca votei PS. Quanto a AV já é um dado adquirido a ternura que a imprensa lhe dedica. A esquerda e as suas propostas, como sempre, foram secundarizadas, quando não ridicularizadas, excepto o Livre, com o objectivo claríssimo, e conseguido, de diluir e enfraquecer a esquerda. A missão de RT é essa, como alguém já disse, a do BE de outros tempos. E está a conseguir. Para já. É bom lembrar que não há tanto tempo assim, houve uma “geringonça” e uma maioria absoluta do PS. O PSD agora nem isso teve, teve menos votos que Passos Coelho em 2015. Espero que o PS não cometa harakiri de tanto querer “portar-se bem”. Nunca vi partido que tanto se penitenciasse, era o Sócrates, agora isto. De que tem medo o PS? É que não vejo o PSD a fazer isso quando perde. É que nem sequer responsabiliza quem tem responsabilidade, para além da CS, o PR que parece querer terminar o seu mandato cumprindo o sonho do seu padrinho. Haja paciência.

  3. O que me preocupa é o PSD não acreditar que ele vai ser o próximo a abater. Pensem nos exemplos de fascismo da história. Os mais lixados acabam sempre por ser os mais próximos do partido mais à direita. Os outros já estão (infelizmente) lixados. O PCP já tem consciência disso os outros partidos ainda não!

  4. Noutras latitudes o infame Tiranossauro que financia bandalhos como este em todo o lado recebeu o Presidente da África do Sul confrontando o com a aldrabices do genocídio branco que corre entre os fascistas de todo o mundo desde que Nelson Mandela era presidente.
    E o homem não pode dar lhe no focinho a competente barbatana de baleia preta no focinho por motivos óbvios. Mas que a merecia, a merecia.
    Tal como Ventura merecia umas lambadas a padrasto naquelas trombas.
    Bandalhos!

  5. A começar pelos próprios poderes públicos que nunca confrontaram Ventura com as suas aldrabices como a dos migrantes a receber 750 euros ou as casas só para ciganos.
    Se calhar porque alguns elementos desses mesmos poderes andam a mamar na teta do fascismo e da impunidade para discriminar.
    Dois militares da GNR de Tavira foram presos por andar a extorquir imigrantes. De vez em quando vai um dentro por coisinhas destas
    Já começamos a perceber porque e que tantos coitadinhos, excelentes pessoas, membros de forças de segurança,votam Chega?
    Nou

  6. Albert Einstein, um homem cujo nível de inteligência eu não consigo descrever, mas com um elevado nível de sabedoria disse um dia: “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.”

  7. Ninguém confronta Ventura com as suas mentiras.
    Como e que um energuneno destes pública um video onde diz que um migrante se gabou de receber 750 euros e passear muito a conta disso em vez de trabalhar e não há ninguém da Segurança Social a desmentir a aldrabice.
    Não que todos os grunhos que votam Chega acreditassem nisso porque para os seus cérebros lavados o quarto Pastorinho e que tem razão e mentirosos são todos os que dizem que ele e um mentiroso.
    Mas podia ser que algum acordasse.
    Talvez não muitos porque a verdade e que, por muito que nos custe o bom povo português e mesmo como o articulista disse.
    Uma gente triste, uma gente muitas vezes desumana.
    Do desastre da Ponte de entre os Rios ficou uma anedota cruel. Quase vomitei a primeira vez que a ouvi. Era demasiado jovem para perceber bem ate onde ia a crueldade e a indiferença pelo outro desta gente.
    “Sabem como é que morreram os marinheiros do Kursk? A espera do autocarro”.
    Tudo bem que tivemos um presidente igualmente pouco humano a dizer a bojarda de que “temos um submarino russo no Douro”. Mas um povo decente teria confrontado o seu presidente com esta barbaridade de achar muito chato que certamente o nosso governo fosse sofrer a mesma pressão que o governo russo tinha sofrido no sentido de que pelo menos os corpos fossem recuperados.
    Um povo decente poderia até ter alguma russofobia que os levasse a desprezar os jovens russos mortos mas nunca, mesmo nunca, poderia transformar a morte de 59 pessoas, famílias inteiras, numa piada cruel. Nunca, mas nunca, desprezar o destino horrendo da sua própria gente.
    Mas foi assim que aconteceu.
    E foi assim que aconteceu no domingo.
    O Chega terá sempre muito mais votos que as sondagens porque muitos grunhos teem vergonha de dizer que votam Chega.
    Mas há medida que sentem que sao cada vez mais essa vergonha vai desaparecer e dar lugar a violência.
    Na segunda feira, um lojista da minha terra viu se confrontado com um grunho que dizia “já não tenho vergonha de dizer que votei no Chega”.
    No sábado vi me a contas com um energuneno que gritou “vota Chega” e que me ameaçou de morte quando o confrontei. Nem por isso me calei.
    E porque e que muita gente tem vergonha? Porque sabem que não votam por bem, para fazer algum bem a alguém. Ou a si próprios.
    E sempre para destruir o outro. Expulsar o migrante muçulmano ou negro, fazer a vida negra aos ciganos, cortar a vida a todos os que recebem subsídios “maus”.
    Que interessa que a sua vida piore se a dos outros for banida da terra?
    Porque os muitos milhões dados a banca, os subsídios a agricultura dados a quem nunca plantou ou tomate, não fazem mossa nenhuma a estes grunhos. Esses são empreendedores ou lá o que isso signifique nos tempos que correm.
    O porco Ventura fez um total de 10 videos visando a comunidade cigana, cada um mais aldrabão e incitador do ódio que outro e só passadas as eleições e que temos o Ministério Público a dizer alguma coisa.
    O que se explica também porque, vá se lá saber porque, o ódio aos ciganos ultrapassa tudo o que e razoável. E permeia as instâncias judiciais.
    Sei de pelo menos dois sujeitos que atropelaram mortalmente ciganos, ambos mais culpados que Judas, que foram em paz sem cumprir nem multas, nem dias sem carta, nem porra nenhuma.
    Ambos os mortos eram homens que ainda não tinham chegado a meia idade.
    Mas foram em paz. Outros que atropelaram gente da cor certa, sem culpa nenhuma pois que pode um desgraçado fazer se uma especialista em conseguir indemnizações que já tinha sido batida duas vezes no mesmo sítio se joga para cima do carro num entardecer e dessa vez corre mal porque o raio do carro e maior que os outros dois, uma baleia de quase duas toneladas e dessa vez a coisa corre o pior possível, só falta dizerem lhe que na realidade a sua mãe era uma vaca pois que e filho do Putin e não sabe.
    E leva com tempo sem carta, multas e só o ter um colega decente, que se da ao trabalho de fazer um desvio de alguns quilómetros para lhe dar boleia o faz ainda ter emprego.
    E por essas e por outras que um grunho destes ainda não teve o seu partido ilegalizado como deveria a primeira vez que propôs arrebanhar ciganos em campos de concentração por não cumprirem as restrições do COVID.
    E por estas e por outras que deixaram um grunho destes descer. De um deputado para 10, 50 e agora 60.
    Estão a espera de que? Que um povo triste acorde? Esperem sentados até ao dia em que muitos se verão entre a mala e o caixão.
    Porque não há gente boa entre os votantes do Chega.
    O votante no Chega e alguém raivoso, frustrado com a vida, tão frustrado que só a destruição da vida de outros o satisfaz.
    Por mim também estarei sempre do lado da barricada, contra essas boas pessoas por muitas que sejam.
    Coitadinhos, estão a ser diabolizados. Pois, quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele. E todos os que no domingo votaram Chega vestiram na e sentem se muito bem dentro dela.
    Nunca lhes darei desculpas, nunca os perdoarei. Pela sua desumanidade, a sua raiva, a sua cultura de morte, o seu desprezo pelo outro. Por me terem posto a conta com a ameaça do fascismo.
    E, repetindo Victor Hugo “se apenas um se levantar, esse serei eu”.

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