A tónica desta campanha é de aprofundamento da crise da democracia liberal

(Raquel Varela, in Facebook, 15/05/2025, Revisão da Estátua)


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1) Paroquial e nacionalista: toda a campanha discute propostas para o país sem discutir a economia do país, ou seja, a União Europeia, e as regras de investimento desta, os Bancos Centrais e a dívida pública.

2) A fulanização ganha acrescidos contornos. Toda a campanha está centrada nas figuras/porta-vozes.

3) A educação política é substituída pela despolitização, através de frases curtas, de efeito rápido, e lógica binária.

4) Não há polarização política: a direita afirma o seu programa total, a esquerda não consegue mobilizar, incapaz de afirmar e defender uma alternativa ao neoliberalismo que não passe por um keynesianismo inexistente.

5) O único keynesianismo está a ser proposto pela direita, o PS e o Livre – a militarização da Europa. Forte investimento público na economia de guerra, impossível – felizmente! – de concretizar sem abrir portas à revolução. Quem faz a guerra deve ser o primeiro a pegar em armas. Nem um jovem europeu no teatro de guerra.

6) A democracia – o governo do povo, pelo menos, no mínimo, ouvir o povo, e mobilizá-lo para participar – é substituída pelo apelo ao voto. O fazer a democracia, em conjunto, é substituído pela profissionalização da política dos deputados, incapazes – todos eles, sem exceção – de denunciar o esvaziamento do papel do parlamente na democracia liberal e a burocratizarão das lideranças políticas. Não, não é nos parlamentos que a vida das pessoas se decide – o poder executivo de facto é cada vez menos  sujeito a escrutínio.

7) O Livre assumiu-se como parte dos Verdes alemães, militarista e liberal (“diminuir um pouco o luxo na habitação“) mas assistencial e progressista nos valores; o PS foi uns metros mais para a direita, com a “defesa da nossa cultura” (tal como o líder trabalhista na Grã-Bretanha esta semana “ilha de estranhos“), o PSD abraçou a repressão da greve e cheguizou-se na imigração; a IL consolidou-se como partido de extrema-direita, demagógico (tirar o país do socialismo), já propõe empreendedorismo na educação das escolas, e a revisão da Constituição; e o Chega defendeu publicamente as organizações neonazis que atacaram cidadãos indefesos no 25 de Abril.

8 ) O BE e o PCP afirmaram um programa keynesiano – hoje ainda mais ilusório do que no passado, já que nunca se concretizou a não ser no senso comum que desconhece a história da Europa – e fizeram-no sem nunca questionarem a propriedade das grandes empresas e Bancos (o mais longe que foram é na taxação ou “contributos da Banca“). Ou, quando defenderam a nacionalização da REN não questionam a nova gestão pública. De que nos servem as empresas estatais se não geridas por gestores profissionais de forma empresarial? O povo escuta a palavra privado e tem medo, escuta Estado e tem medo, e tem razão. Faltou uma proposta clara sobre como vamos gerir esta sociedade.

9) A explosão caricata dos pequenos partidos de extrema-direita.

10) Vão votar os idosos, os sectores mais conservadores e temerosos da sociedade, o povo de esquerda e os jovens abstém-se mais do que os de direita, alguma esquerda urbana irá votar, como sempre, e quase 20% da população activa – migrantes – nem sequer tem direito a voto.

Finalmente, Gaza. Gaza é tudo. É o começo e o fim de qualquer política hoje. Não esteve na campanha.

A propósito de tudo isto – não para Portugal especificamente – vale a pena ler o último artigo de Perry Anderson – “Neoliberalismo, este zumbi” – ver aqui. No fundo, o neoliberalismo é um cadáver morto, mas sem oposição.

4 pensamentos sobre “A tónica desta campanha é de aprofundamento da crise da democracia liberal

  1. E gente que está tão cheia de peninha dos ucranianos vai votar em pelo menos dois partidos, Chega e Iniciativa Liberal, que defendem a cara podre o genocídio em Gaza alegando que essa e a única maneira de destruir o terrível Hamas.
    E se teem esse total desprezo pela vida humana o que será de nós com uma geringonça do mal onde entrem esse dois?
    O que está a acontecer na Argentina, com milhares de funcionários públicos e privados despedidos sem apelo nem agravo, inflação galopante, reformados e trabalhadores desesperados a serem dispersos a balas de borracha pela polícia, gente tão desesperada por emigrar que países europeus como a Itália já alteraram a lei de modo a que não possam entrar todos os que são descendentes de italianos da uma medida do Inferno que nos espera a todos.
    Por culpa dos pategos que votam em qualquer um que lhes promete menos impostos e por esses malandros dos subdidios de desemprego e rendimento mínimo a trabalhar.
    Porque com os subsídios de quem recebe apoios a agricultura mediante a mera apresentação de contratos de arrendamento de prédios rústicos ou de empresas várias que na realidade nunca produziram nada nenhum desses pategos se preocupa e esses dois também não.
    A fazer fe nas sondagens na segunda feira esperam nos quatro anos de Inferno a fazer os anos da troika parecer uma brincadeira de crianças. E nem vale a pena cantar o “don’t cry for me Argentina”.

  2. Uma hidra de 3 cabeças (o Luís que só quer trabalhar, o André chegano e o Rui libelinha), que afinal são 4 (Nuno melodramático) e podiam ser 5 (Gonçalo da Câmara Pereira), não tivesse a última sido comida de cebolada por outras duas.
    Tal criatura será a nova coqueluche do laboratório de políticas do Dr. Marcelo, qual Frankenstein dos pobres, produzida com esmero, afinco e muitos turnos, moldada com mãos de oleiro no giro da sua roda viva, ele que tem a política nos genes, sendo animal político, e não só, um professor palrador.
    Um Cerberus mutante, mais cabeça menos cabeça, cada pescoço sua coleira, prontinha a levar a trela do Almirante Marmelo quando for passeá-lo pelos jardins de Belém, ou aos pastéis, ver o rio, ou levantar dinheiro.
    Também não quero acordar nesta realidade de pesadelo, onde pululam pategos que votam em qualquer treta, recheada de aventesmas de pipeta, unidas por vivissecção ideológica, encantamentos de magia negra e rituais maçónico-faraónicos… está-se mesmo ver o Inferno que nos estão a guardar…

  3. Ganhe quem ganhar continuaremos a sustentar os bandos nazis de Herr Zelensky.
    Ganhe quem ganhar quem manda nisto são os poderes não eleitos de Bruxelas.
    Ainda assim seria melhor que o nosso futuro não passasse por uns geringonça do mal incluindo Montenegro atrelado aos fascistas do Chega e da Iniciativa Liberal.
    Estes últimos trastes, que segundo as sondagens vao subir muito nas próximas eleições, defendem a descida do salário mínimo por cá e o genocídio em Gaza. São uns mimos.
    Vão ver se o mar da Kraken, megalodonte, tubarão branco faminto, Cila e Caribdis.

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