Epístola de São Luís aos Parolos (Ou como elegemos quem nos merece)

(João Sardo, in Facebook, 05/05/2025, Revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Hão de convir, meus queridos, que há no português um talento raro e subestimado: a capacidade de confundir esperteza com inteligência e logro com governação. E nisso, somos artistas consumados. Portugal sempre teve uma predileção inexplicável por confiar o molho da governança ao cozinheiro que já queimou a sopa, o arroz e a reputação. Veja-se agora o caso de Sua Excelência, o Dr. Montenegro, cuja vida pública é uma espécie de novela onde as páginas colam, não pela trama mas pela viscosidade ética.

Que outra nação, a não ser a nossa, conseguiria olhar para a figura escorregadia de Luís Montenegro e exclamar: “Sim senhor! É este o homem que nos há de reger!

Não interessa que o Dr. Luís traga o currículo empastado de obscuridades, negócios entrecruzados, incompatibilidades sussurradas em corredor de tribunal, informações que só pingam quando a ampulheta tombou e uma coerência ética digna de rodapé de contrato. Quando confrontado, estufa o peito, enverniza o olhar e solta o bordão: “Não fiz nada de ilegal.

Ah, pois não. Também D. Sebastião não fez nada de ilegal – limitou-se a desaparecer.

Veja-se, por exemplo, o epítome da elegância institucional: o convite a Tony Carreira para cantar no 25 de Abril no palácio de São Bento. É o equivalente político a servir arroz de salsichas num jantar de gala e ficar ofendido porque alguém sugeriu risoto. Que requinte de grotesco, que altivez pindérica! Eu, que não me escandalizo com facilidade desde que vi um bispo dançar o vira em Braga, ainda assim cravei as unhas na cadeira.

Chamemos as coisas pelo nome: somos uns parolos.

Mas nós, lusos de gema e de gema rachada, achámos sublime. Achámos “popular”. Achámos que era “trazer o povo para dentro da casa da democracia”. Não percebemos que estávamos a enfeitar a ignorância com folhinhas de salsa.

Transformar a evocação da revolução num serão de desgostos amorosos é, convenhamos, uma obra-prima da nossa parolice. Já me estou a ver acusado de arrogância por dizer isto – mas não me demovo: há coisas que têm que ser ditas de copo erguido.

Meus amores, não se apoquentem com a ironia da minha pena, que corta mais do que acaricia e em nada atenua a substância do que aqui sirvo – frio, como convém a quem já perdeu a paciência com esta comédia. Já estou, aliás, confortavelmente preparado para o que aí vem: o habitual coro das almas sensíveis, que se rebolam na indignação e saltam prontas a disparar as velhas acusações de “arrogância” e “prepotência”. Mas, cá entre nós, o que seria da política portuguesa sem o assédio cerimonioso dos ofendidos profissionais? Como ousa alguém, nestas terras, falar claro e com nervo, sem que logo lhe atirem o anátema de terrorista de opinião? E qual é, pergunto eu com candura, o crime de quem se atreve a ver a realidade com os olhos desembaciados e não hipnotizados pela pantomina das marionetes?

Porque, se olhos tiverem e não forem dos que se calam entre tremoços, verão que o convite ao Tony Carreira não foi um deslize nem um pormenor. Foi uma declaração de princípios, uma radiografia da parolice instalada, o equivalente político a uma matiné de viúvas da Serra da Aboboreira (com o devido respeito mas sem complacência), onde se trocam palmadas nas costas enquanto o país se afunda na irrelevância. É esse o retrato fiel da governação que nos acena, de beiça luzidia e passo ensaiado, entre o microfone de São Bento e a desgarrada de sarau. E ainda se admiram quando alguém não bate palmas.

E agora, depois de tudo isto, pasme-se: o homem está balanceado para ganhar. Balanceado, meus amores! Como um queijo amanteigado esquecido ao sol mas que, ainda assim, alguém vende à beira da estrada dizendo “…sabe é aqui da terra”.

Portugal está a eleger um Primeiro-ministro com o mesmo critério de quem escolhe o vinho para a boda: não importa que dê azia, desde que encha o copo e não falte na fotografia a cascata de camarão.

Portanto, meus queridos, quando fordes votar, lembrai-vos disto: o boletim é arma mas também é espelho. Porque um país que troca Zeca Afonso por Tony Carreira e ética por tecnicidade legal, não precisa de governo. Precisa de um pau de marmeleiro e de vergonha na cara.

E assim vos exorto, irmãos: não olheis com desdém para a parolice, pois ela é o cimento da nova polis; não critiqueis a matiné, porque nela dançaremos todos, sebosos e de gravata na cabeça.

Ámen e uma salva de palmas.

12 pensamentos sobre “Epístola de São Luís aos Parolos (Ou como elegemos quem nos merece)

  1. Humor arrasador. Julgava que só era possível sob a pena de Joaquim Camacho. Mas fiquei a saber que João Sardo é da mesma estirpe. Bem hajam! Precisamos muito dessa forma de crítica.

    • Sem falsa modéstia, caro amigo, o bisturi do João Sardo é bem mais afiado do que o meu, deu-me um gozo do caraças! Mas é claro que o paralelismo me envaidece! Um abraço.

  2. Sim, e também parece que o bom povo português só se preocupa com a possibilidade de corrupção se for gente da esquerda real ou nominal, sendo esta última representada pelo PS, a ser acusada dela.
    Para o bom povo quem for de esquerda tem de ser impoluto, ja vigarice de direita goza do perdao.
    Realmente e complicado de entender o que vai nesta cabecinhas. Mas e com as consequências disso que vamos levar já a partir da próxima segunda feira.
    Quanto ao almirante, e mais que certo que vamos levar com ele como o próximo presidente da República.
    Já podemos ouvir os nhanhanhanhanha a Leste, governados por Putin, e a Oeste, governados por Trump.
    Depois de andarmos a passar atestados em psiquiatria a torto e a direito tanto a um como a outro talvez so tenhamos o que merecemos quando levarmos com o ganda maluco que acha que impediu uma invasão russa.
    Cada vez e maior a grande patranha e o grande sarilho em que estamos metidos.

  3. Isso diz o primeiro-ministro de “giro” ao “vivo”, e também a comunicação social, os repórteres que repetem a propaganda, os comentadores que vêm dos Observadores, dos Expressos, dos DN e até dos Diabos da vida.

    Também haverá chicos-espertos em todos os estratos sociais, galifões de taberna, de brunch, uns de camisa velha, outros de colarinho branco… a própria maçonaria que já tanto demonstrou o apoio ao Almirante Marmelo (que já confirmou que se vai chegar à frente para as presidenciais, ficando o anúncio oficial para o fim do mês) fará ecoar essa mensagem nas suas câmaras de ressonância, as secretas e as públicas.
    Mas continuam a não me convencer com essa lenga-lenga. Por que não se repete essa mensagem no caso do Sócrates? Então para que serviu o parágrafo da Procuradora Geral da República relativamente a suspeitas difusas sobre António Costa? E como andará essa investigação?

    Se a Dona Ursula, que foi agora chumbada pelo Tribunal que deu como provada a má conduta ao ocultar as mensagens que trocou com os responsáveis da Pfizer, dando a entender que alguma coisa tinha a esconder, vier em campanha a Portugal, ajudar o Luís que só quer que o deixem trabalhar, aproveitará também para elogia António Costa, e aferir das suas qualidades, ética, da sua seriedade?

    Enfim, isto é que vai aqui uma açorda…

  4. Parece que terá comido de mais e teve um refluxo. Coisas da vida.
    Entretanto o bom povo português prepara se para voltar a eleger o homem da Spinunviva.
    Dizia hoje um comentadeiro que a polemicas em torno dos candidatos, leia se denúncias de corrupção descarada e declarações que revelam psicopatia e total desprezo pelas nossas vidas, em nada mudam as intenções de voto.
    E a velha máxima tuga, “se eu estivesse lá fazia igual”. Depois não se queixem.

  5. Este ano o Tony Carreira, para o ano o Toy, não vale a pena entrar em parafuso. Calma… Deixem o Luís trabalhar…
    Entretanto, alguém já sabe novidades do candidato Ventura? Se fez os exames todos, qual atleta de decatlo, também deve ter mijado para o copo… ou será que escapou ao controlo anti-doping?

  6. «A única liberdade está na cabeça e chama-se vontade. Se não a usamos, não somos livres”.
    Acaba de morrer quem um dia assim falou, «PEPE MUJICA», um dos GRANDES de CARÁCTER, de PRINCÍPIOS, mas que na mente dos homens que se pretendem LIVRES e GENEROSOS sempre permanecerá!
    HONRA A «PEPE MUJICA»!

    https://cnnportugal.iol.pt/pepe-mujica/uruguai/morreu-pepe-mujica-o-presidente-mais-humilde-do-mundo/20250513/668e5165d34ebf9bbb3fa7b6

  7. Genial. Retrato caricaturado do portuga que tudo sabe e não se deixa enganar. Continuamos a ser marionetas felizes como as vacas dos Açores.

  8. Realmente há coisas na mentalidade portuguesa que não entendo.
    Parecem sofrer de uma mal explicada mistura de amnésia, masoquismo puro e duro e admiração por gente que se dá bem sendo desonesta.
    A primeira eleição de Montenegro foi para mim mais surpreendente que o milhão de votos obtido por um partifo abertamente racista e xenofobo.
    Bastava ouvir o que por todo o lado sempre se disse sobre ciganos e estrangeiros para não ficar surpreendido por aí além.
    Mas Montenegro parecia me alguém que não merecia ser eleito para nenhum cargo a não ser o de presidente de um clube de setas e não me parecia que pudesse ser eleito para gerir os destinos do país.
    Nos anos da troika o homem revelou se um verdadeiro psicopata, com desprezo total pelo povo e pelas consequências nefastas que aquilo a que se chamou ajustamento teve nas suas vidas.
    Disse coisas terríveis como a celebre atoarda de que a vida das pessoas não estava melhor mas o pais estava e foi o incansável defensor do “ir para além da troika”.
    Se neste primeiro ano de Governo deu alguma coisa a alguns grupos profissionais em termos monetários qualquer um que trabalhe no sector público sabe que a penúria de meios e hoje maior que nos anos da troika.
    O SNS, que já tinha muitos problemas, tem sido sistematicamente desmantelado, gente morreu mas a culpa e sempre dos outros.
    A psicopatia continua a ser a imagem de marca tanto de Montenegro como dos seus ministros.
    A responsável pela habitação, ante as rendas incomportáveis, a praga do alojamento local e a consequente explosão do número de sem abrigo diz que não cabe ao Governo resolver o problema da habitação. Então para que queremos um ministro da habitação?
    A Ministra da saúde diz que perante um cenário de urgências maternas fechadas e aumento da mortalidade infantil diz que a culpa é do governo anterior.
    Sobre as falhas no INEM também garantiu não ter nada a ver com isso.
    No SNS parece só haver recursos para tentar convencer idosos e doentes crónicos a ir dar a vacina da COVID. A pontos de haver idosos a reencaminhar as chamadas do seu telemóvel para familiares mais capazes de responder com umas peixeiradas a nortenha.
    Montenegro continua igual a si próprio, um psicopata do piorio, acusando quem critica o colapso em curso de serem profetas da desgraça e quem critica os seus negócios de andar a fazer mexericos políticos.
    E dizem as sondagens que este grandessissimo psicopata vai voltar a ser primeiro ministro com uma vantagem mais folgada que nas últimas eleições.
    E dizem que uma tal Iniciativa Liberal, cujos dirigentes afirmam ter como modelo o psicopata Javier Milei vai subir muito.
    Talvez um bom psiquiatra consiga explicar isto. Como pessoa leiga na matéria não avanço explicações.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.

  9. Grande João Sardo, grande cozinheiro! No “restaurante” Estátua de Sal, saímos sempre consolados, de barriga cheia! Obrigado, amigo!

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.