O preço da botija de gás

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 12/04/2025)

(Este foi um debate entre os problemas concretos da grande maioria e o catecismo distópico da governação para uma minoria de iluminados. Ainda bem que o Milei lusitano não sabe pregar aos peixes, não sabe o preço da botija de gás e, sobre a Argentina, só sabe que é lá longe… Resumindo: cilindarado.

O debate na íntegra, entre Paulo Raimundo e Rui Rocha, pode ser visto aqui

Estátua de Sal, 12/04/2025)


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Conheço o Paulo há aproximadamente 25 anos. Não fez qualquer curso de oratória, não é visita frequente de estúdios de televisão, não bebe aperitivos em festas privadas com outras figuras da política, da economia e da comunicação social, não trata banqueiros e empresários por tu.

Fomos muitos os que aprendemos com ele e tantos outros, entre cargas policiais, na universidade das ruas. Que ele saiba o preço da botija de gás e que a carregue ele próprio em ombros para casa só surpreende porque estamos demasiado habituados a que nos vendam líderes políticos que vivem distanciados dos trabalhadores e do povo.

Quando Leonardo di Caprio se sentou à mesa com os ricos na primeira classe do Titanic, não sabia que talheres usar. Aquilo a que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou ‘habitus’ é inculcado de geração em geração para que uma determinada classe social pareça sempre acima dos que vivemos em permanência na terceira classe. Aprendem como falar, são estimulados desde cedo a conviver com formas superiores de arte, frequentam as melhores universidades, convivem entre si e têm o capital social de se defender enquanto classe. Nesse sentido, governam para si e para os seus. Para defender a sua ideologia têm jornais, rádios e televisões. É por isso que mesmo dando prejuízo não abdicam desses meios.

É neste campo mediático, onde permanentemente se silenciam sindicatos, coletividades, associações de mulheres, moradores de bairros pobres e, naturalmente, comunistas, que o Paulo tem de se bater.

Em condições absolutamente desfavoráveis, o Paulo mostrou que é um de nós e que, ao lado do seu partido, luta por cada um de nós. Fala como nós, carrega botijas de gás como nós, recebe mal como nós e revolta-se como nós.

 E não é um candidato folclórico para que dele tenhamos compaixão como fizeram com Tino de Rans. É portador de um projeto coletivo, de um programa extenso com propostas em todas as áreas e com a herança de grandes avanços num partido com gente com muita experiência também no poder local.

Num mundo em que fazem tudo para que esqueçamos as nossas raízes, para que apaguemos o nosso ‘habitus’ de classe, lembremo-nos dos nossos pais e avós. Daqueles que trabalhavam descalços no campo, dos analfabetos que despertavam de madrugada e entravam na fábrica ao som da sirene, que fizeram tudo por nós, e que nunca esqueceram a que classes pertenciam.

Quando vivemos na era da religião do empreendedorismo e do individualismo arrivista, recordemos que ser trabalhador não deve ser motivo de vergonha. Por isso, devemos ter orgulho no Paulo Raimundo. Porque é um de nós.

10 pensamentos sobre “O preço da botija de gás

  1. Se, e este SE é enorme, se a realidade fosse exactamente e apenas o que nos conta o camarada, então estamos perante um absurdo, visto o partido estar em queda livre há décadas em termos de apoio popular. Logo, há algo de essencial a faltar nesse raciocínio. O que será????

  2. Foi com profundo pesar que li a triste notícia da morte do Major General Matos Gomes. Vão fazer muita falta as suas reflexões sobre o conturbado mundo em que vivemos. Como fazem falta homens da coragem e sagacidade do Carlos Matos Gomes! Paz á sua alma!

  3. Subscrevo. Uma pessoa corajosa, frontal, uma luz numa era de trevas.
    Sei de alguns da treva que devem estar todos contentes, porque e essa a sua natureza de víboras.
    São da raça dos que se congratulavam quando, na era de tretas vacineira morria de COVID alguém que não estava vacinado.
    Porra, vou ter saudades dos textos dele. Da sua coragem. Gente dessa faz tanta falta nos tempos que correm…

  4. Adaptando um pouco o que disse o poeta: morrem (demasiado) cedo aqueles que os deuses amam. Morreu Carlos Matos Gomes. Morreu fisicamente. Compete-nos manter-lhe a alma viva.

    • Soube à pouco. A Estátua podia fazer uma compilação dos textos aqui publicados, até acrescentar mais alguns, e publicar, ou até mesmo editar em formato digital (pdf, epub, etc), revertendo as receitas para a família ou para a constituição de um espólio. Não sei, é apenas uma sugestão.
      Paz à alma de Carlos Matos Gomes, cuja sagacidade, inteligência, experiência e conhecimento, expostos aqui na Estatuária, onde tantos dos seus textos foram publicados e divulgados, são tão vastos e abrangentes quanto profundamente emergentes, e condolências à família e amigos.
      Está entre os grandes pensadores incontornáveis da filosofia, do conhecimento e da historiografia portuguesa recente, como Agostinho da Silva, ou Viriato Soromenho Marques. Íntegros, honestos, independentes, genuínos. Estes são tão raros que não se fazem muitos, mas os que se fazem valem por muitos.

  5. Compreendo a solidariedade do Bruno Amaral de Carvalho com Paulo Raimundo e até acho que, com o betinho sabichão, ele marcou pontos que não conseguiu noutros debates, mas, de cada vez que o ouço, não consigo evitar saudades de Álvaro Cunhal, que teria posto o betinho a gaguejar, a fazer beicinho ou mesmo a chorar. Esclareço desde já que não sou nem nunca fui do PCP, apesar de nele ter votado inúmeras vezes.
    Paulo Raimundo parece boa pessoa, esforça-se, faz o melhor que pode, mas, como secretário-geral do partido, é, quanto a mim, um erro de casting. Um exemplo: quando, no fim do debate, o betinho mentiroso disse que o PCP tinha apoiado a invasão da Ucrânia pela Rússia, Paulo Raimundo reagiu dizendo várias vezes, enquanto o outro continuava a falar: “Fica-lhe mal acabar o debate dessa maneira.” Ora o que ele devia ter dito, com clareza e assertividade, como se diz agora e sem ambiguidades cinzentas, era o seguinte: “FICA-LHE MAL ACABAR O DEBATE COM UMA MENTIRA!”

  6. Como alguns que conheci que até passaram pelas masmorras da PIDE para depois verem filhos e netos meterem se no PSD e outros partidos da treta e andarem a dizer m*rdas tipo “quem tem unhas e que toca guitarra”.
    Era preciso serem realmente muito decentes e ter paciência para não lhes irem aí focinho ou o mandarem comer a casa de um fascista.
    Já também conheço um que o pai morreu sem saber que um dos filhos se tinha tornado militante comunista.
    Nem sabia que reação teria o pai, um velho ressabiado por ter sido corrido de África se soubesse tal coisa.
    Enfim, coisas da democracia com que os liberais ate dizer Chega se fartam de encher a boca.
    E que tal dizer ao senhor Rui Rocha que avião para a Argentina e capaz de haver todos os dias?
    Antes de alguém pensar votar em tal traste tratem de se informar do que vai pela Argentina com descidas de salários e reformas.
    E que o que sou se esta a passar vai muito para além do despedimento de dezenas de milhares de funcionários públicos, ideia que pode ser cara a gente que acha que os ditos funcionários são culpados de todos os males do país havidos e a haver.
    E inflação galopante, desregulação total, descida de salários e reformas.
    E quem se vem queixar para a rua pode contar com balas de borracha, canhões de água, detencoes e acusações até de terrorismo.
    Manifestações de reformados são dispersadas a balas de borracha. Com feridos graves.
    Se e isto que querem para Portugal votem nesta d noutra direita torta.
    Depois não digam que não sabiam nem que não foram avisados.

  7. «Num mundo em que fazem tudo para que esqueçamos as nossas raízes, para que apaguemos o nosso ‘habitus’ de classe, lembremo-nos dos nossos pais e avós. Daqueles que trabalhavam descalços no campo, dos analfabetos que despertavam de madrugada e entravam na fábrica ao som da sirene, que fizeram tudo por nós, e que nunca esqueceram a que classes pertenciam».
    O problema é esse mesmo, a relativa facilidade com que, muitas vezes, vendo-se «doutores», esquecem a sua origem de classe, o sacrifício dos seus para que uma vida melhor do que a deles pudessem ter !

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