Para o povo nada, para o militarismo tudo

(João Oliveira, in Diário de Notícias, 25/01/2025)


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Se um país quiser investir em habitação, saúde, educação, transportes, infraestruturas, se quiser apoiar a actividade produtiva ou o desenvolvimento científico e tecnológico, se quiser aumentar salários e pensões ou combater a pobreza e a exclusão social, isso só pode ser feito desde que não sejam ultrapassados os limites do défice orçamental e da dívida pública fixados pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (na formulação revista e reforçada pelos diversos mecanismos de controlo económico e orçamental que estão hoje ao dispor da União Europeia).

Se quiser investir em equipamento militar, armas, munições, tecnologia militar ou no prolongamento de uma guerra aprovada pela UE – nomeadamente a guerra na Ucrânia – não precisará de se preocupar com os limites do Pacto porque a Comissão Europeia vai criar uma excepção para esses gastos.

É este absurdo político que resulta das palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, quando afirmou recentemente que irá propor a ativação da cláusula de derrogação (do Pacto de Estabilidade e Crescimento) para os investimentos em Defesa.

Vinte anos depois da aprovação do Pacto, a racionalidade económica e orçamental dos seus critérios continua por explicar. Mas estão bem à vista as consequências e os fins da sua aplicação. E é também evidente que essa aplicação não é a mesma para todos nem para tudo.

As consequências dos critérios do Pacto estão à vista na queda do investimento público, na degradação dos serviços públicos, no agravamento do atraso relativo de Portugal face às principais potências da UE, na crescente dependência externa, na contenção dos salários.

Os fins a que se destina a aplicação do Pacto ficaram especialmente à vista com as políticas dos PEC e das troikas em Portugal, entre 2008 e 2015. Foi em nome dos seus critérios que se impuseram medidas draconianas de controlo político e económico, de entrega de empresas e sectores económicos estratégicos a multinacionais, de drenagem de recursos nacionais para as grandes potências da UE, de aprofundamento da exploração dos trabalhado- res em benefício dos grandes grupos económicos e financeiros.

Quando se tratou de aplicar o Pacto de Estabilidade a Portugal, Irlanda, Grécia ou Espanha para satisfazer os interesses dos megabancos e especuladores internacionais não se poupou nada. Quando são as potências da UE, como a França, a assumir abertamente que não vão cumprir os seus critérios, nada acontece.

As declarações de Von der Leyen sobre a excepção para os gastos com o militarismo mostram que a prioridade da UE é a aventura belicista e militarista. Esse é o ponto de partida para novas medidas de favorecimento dos grupos económicos e das multinacionais, apresentando a guerra como motor de uma economia concebida como economia de guerra.

A resposta aos problemas dos povos fica para trás e nem como excepção é considerada.

Quem não aceitar este caminho que levante a voz contra o Pacto!

Eurodeputado

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

7 pensamentos sobre “Para o povo nada, para o militarismo tudo

  1. Quanto ao artigo, é certeiro e esclarecido. A União Europeia é uma fraude, ao serviço dos interesses de algumas classes de alguns dos estados-membros, foi cooptada por estes em dado momento e qualquer propósito de “paz, solidariedade, e convergência sociais” foi por água abaixo. Mas quando se reconduz uma Ursula von der Leyen não se pode esperar mudanças, a não ser continuar na senda da sabotagem da Europa para os Europeus (inclusiva e não exclusiva).

  2. Trump, sendo o novo hiPOtamUS, com todos os defeitos que tem, foi eleito por milhões de eleitores, muitos deles comedores de propaganda para idiotas, mas é assim em todo o lado, e não me venham dizer que é só na Rússia que há propaganda, a propaganda é o que permite a Marcelo tudo fazer para enviar Costa para Bruxelas e pôr no seu lugar o assalariado da Solverde, da Cofina, etc… também esse foi, à tangente, votado pelos eleitores, em coligação (AD), mesmo à pele, e é esse fantoche que é hoje o Primeiro-Ministro da Pategónia, o homem que exigia códigos de conduta a todos os ministros e secretários-de-estado do anterior governo de maioria absoluta, desfeito pelo lawfare que agora parece mais tímido e hesitante, com outros pesos e medidas.
    Zelensky é um ditador de facto, que além de proibir todos os partidos que não alinharam com as suas políticas, quis alterar costumes na Ucrânia, relegando a russofonia para uma espécie de estatuto pária no Estado Ucraniano, que não soube dirigir, nem unificar, nem proteger, estando hoje no estado que se encontra depois de biliões em ajuda externa, pacotes financeiros, armamento, recursos bélicos materiais e humanos, logística e com a Rússia sob sanções draconianas, arresto de bens e contas bancárias, que acabaram por ser tão ou mais nocivas para a Europa do que para a Rússia propriamente dita, que está agora na posição de vencedora da guerra, a negociar com a Casa Branca os termos dos acordos de cessar-fogo e, eventualmente, de paz.
    Há pouco na CNN assisti João Póvoa Marinheiro a debitar um chorrilho de baboseiras e lugares comuns, fazendo de Zelensky um pobre coitado e de Trump um mauzão. Quem os viu a bajular o nosso Grande Irmão e quem os vê agora a desdenhá-lo, correndo para os braços, ou abraçando a “vítima” Zelensky. Disse o pivot, entre outras baboseiras, com um estilo de “info-entretenimento” quase lírico, digno de um apresentador da casa dos degredos, que a Sala Oval é “a sala mais poderosa do mundo!” Já Trump é só um adereço naquela mesma sala, pelo discurso lamechas, um mero bibelot, pois parece que o poder, na “sala mais poderosa do mundo”, não passa por ele, dado que devia ter sido cordial e até prestável para Zelensky, esse sim o dínamo que “está a defender os nossos valores e a demo-cracia”.
    Se ainda acreditam nesta charada toda, nestas ladaínhas de literatura de cordel, então sugiro que comecem a abrir os olhos para a realidade. Ela está aí a bater à porta, contra todas as histórias da carochinha feitas na Central de Informação Ucraniana. Essa fonte super-credível de informação para idiotas úteis e pategos crédulos.
    Trump é sem dúvida execrável, mas já não alinha com o regime ucraniano, nem está disposto a passar cheques em branco para as diatribes do ditador que é vedeta na Europa. Lá, “na sala mais poderosa do mundo” (que pedantismo!), ele não passa de um enguiço malcriado e desgovernado. O outro também é, mas tem a legitimidade de dezenas de milhões de eleitores, que mal ou bem o preferiram, e de longe, à candidatura da administração anterior.
    Já agora, desfazendo outra mentira dita ontem por outro pivot (penso que foi outro), não foi Macron o primeiro chefe-de-estado a visitar a Casa Branca, não senhor. Foi o criminoso de guerra, genocida e anti-semita Benjamin Netanyahu. Mas aí já estes senhores locutores de novelas cor-de-rosa não demonstraram qualquer indignação, e nem por uma vez se referiram aos mandatos de captura emitidos pelo Tribunal Penal Internacional. Coerências…
    Como diria o Arnaldo Matos: “isto é tudo um putedo”… e é mesmo!

  3. Depois do castigo cruel que nos foi imposto para conter o défice, obrigando nos a cortar na saúde, na educação, nos salarios, nas pensões, espalhando doença e fome, desesperança, suicídios, estimulando emigração em massa, no meio dos mais soezes insultos racistas, acordando nos de preguiça, corrupção, gastar em mulheres e vinho virem nos agota dizer que se for para torrar em armas já podemos gastar a vontade custa a roer.
    Custa mesmo muito.
    E parece que o encontro entre o Tiranossauro e Herr Zelensky não correu lá muito bem.
    Esta gente perdeu de vez a vergonha no focinho e nem um tubarão branco merece o destino cruel de ter de os tragar.

    • Poucas vezes é tão evidente ao serviço de quem está a cúpula da U.E. Com este descaramento todo, se os europeus não acordam e tiram o tapete a esta camarilha, nunca mais o irão fazer. Acordem! Que diabo!

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