Da atoarda sobre os soldados norte-coreanos ao míssil balístico hipersónico Orechnik

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 02/12/2024) 

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O mês de Novembro de 2024 foi muito rico em acontecimentos relativos à 2.ª guerra na Ucrânia, em curso há mais de 1.000 dias desde o seu início, em 24 de Fevereiro de 2022.

Embora importantes, vou deixar de lado alguns desses acontecimentos. É o caso, por exemplo, (i) dos avanços das tropas russas (600 km2) nas 4 zonas russófonas e maioritariamente russófilas que foram integradas na Rússia, após referendos realizados de 23 a 27 de Setembro de 2022, mas cujo território a Rússia só controla parcialmente até à data; e (ii) do regresso voluntário de mais de 100 mil habitantes dessas zonas aos territórios controlados pela Rússia [1]. Refiro-me às repúblicas de Lugansk e Donetsk, na bacia hidrográfica do Donets conhecida por Donbass, e aos oblasti de Zaporíjia e Quérson.

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6 pensamentos sobre “Da atoarda sobre os soldados norte-coreanos ao míssil balístico hipersónico Orechnik

  1. Devemos referir-nos à guerra em curso na Ucrânia como um processo único, que se iniciou em 2014 e que continuou até aos nossos dias, sem fim à vista (como defende Carlos Marques no primeiro comentário publicado mais acima)? Ou devemos distinguir muito bem dois processos diferentes, duas guerras bem distintas, embora estreitamente interligadas ⎼ uma que se iniciou em 2 de Maio de 2014 e outra que se iniciou em 24 de Fevereiro de 2022 ⎼ que se fundiram militarmente numa só em 19 de Fevereiro de 2023, a qual se prolongou até aos nossos dias, sem fim à vista?

    Defendo esta segunda posição. Num livro intitulado, “Dissipando a névoa artificial da guerra — um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal” (Editora Primeiro Capítulo, 2023, Lisboa), qualifiquei as guerras referidas no parágrafo anterior e no título do livro como “1.ª guerra na Ucrânia” e “2.ª guerra na Ucrânia”, respectivamente, e expliquei as causas contribuintes de uma e de outra, além de várias questões conexas que não vêm agora ao caso. Não vou repetir aqui, naturalmente, o que disse sobre o assunto nesse livro. Limitar-me-ei a salientar as vantagens cognitivas da posição que enunciei sobre a que sugere Carlos Marques.

    A 1.ª guerra na Ucrânia (2 de Maio de 2014-19 de Fevereiro de 2023) travou-se entre o regime ucraniano de Oleksandr Turchinov, Petro Poroshenko e Volodymyr Zelensky (doravante, para abreviar, regime TPZ) contra uma parte da população da Ucrânia de então — a população que constituiu, em Maio de 2014, a República Popular de Lugansk (RPL) e a República Popular de Donetsk (RPD), ambas situadas na bacia hidrográfica do Donets conhecida por Donbass.

    Esta população era (e é) maioritariamente russa e/ou russófona e russófila e pretendia (1) sacudir o jugo do Estado ucraniano ⎼ dominado, desde o golpe de Estado de Maidan de 22 de Fevereiro de 2014, pelo regime TPZ profundamente russofóbico, banderista e liberticida ⎼ e (2) alcançar a autodeterminação e o autogoverno de uma das três formas seguintes: (2.a) autonomia política e administrativa no quadro da sua integração numa futura Ucrânia federal; (2.b) autonomia política e administrativa no quadro da sua integração na Federação Russa; (2.c) independência.

    Vale a pena lembrar que a Rússia (incluindo o seu presidente Putin) recusou a opção (2.b) ― a preferida por muitos habitantes, se não mesmo a maioria dos cidadãos da RPL e da RPD ― e declarou-se favorável à opção (2.a), uma opção que o regime TPZ da Ucrânia começou por recusar liminarmente. O que não deixou outra alternativa à população da RPL e da RPD que não fôsse, à época, a luta pela independência, a opção (2.c). Esta opção foi aprovada em referendo realizado em 11 de Maio de 2014.

    A reacção do regime TPZ da Ucrânia a estas decisões foi a de iniciar uma guerra sem quartel destinada a destruir a RPL e a RPD e a afogar em sangue a luta emancipatória da sua população. A derrota infligida pelas milícias de autodefesa da RPL e da RPD às tropas ucranianas nas batalhas de Ilovaïsk (7 de Agosto ⎼ 2 de Setembro de 2014) e Debaltsev (14 de Janeiro – 20 de Fevereiro de 2015), levou o regime TPZ a recuar e a aceitar a posição (2.a). Foi essa a posição que ficou consagrada nos Acordos de Minsk-1 (5-09-2014) e Minsk-2 (2-12-2015), celebrados entre a Ucrânia (beneficiando da mediação e do aval da França e da Alemanha) e os representantes da RPL e RPD (beneficiando da mediação e do aval da Rússia).

    Mas sabemos hoje ― por confidências entretanto feitas pelos próprios protagonistas de uma das partes destes acordos (Poroshenko, Angela Merkel e François Hollande) ― que esses acordos foram assinados com reserva mental, com a intenção, tão-somente, de ganhar tempo, para permitir às forças armadas da Ucrânia lamberem as feridas, reconstituirem-se, reforçarem-se e voltarem ao ataque em melhores condições e com o mesmo propósito: aniquilar a RPL e a RPD e afogar em sangue as aspirações autonomistas da sua população. Foi por isso que os Acordos de Minsk nunca foram cumpridos pelo regime TPZ e que a 1.ª guerra na Ucrânia prosseguiu, apesar dos Acordos de Minsk, por mais 7 anos, com o seu cortejo enorme de mortes, feridos e destruições materiais. As zonas residenciais e comerciais da cidade de Donetsk, por exemplo, eram bombardeadas praticamente todas as semanas pelas tropas ucranianas do regime TPZ.

    Destarte, podemos qualificar esta guerra, do ponto de vista da RPL e RPD, como uma guerra de libertação nacional contra um regime golpista (e por conseguinte, ilegal e ilegítimo), opressivo, russofóbico e liberticida. Este é o ponto fundamental a reter para efeitos de comparação com a 2.ª guerra na Ucrânia, que começou como uma “Operação Militar Especial” desencadeada pela Rússia, em 24 de Fevereiro de 2022.

    É fácil ver o que mudou a partir dessa data. Entrou em liça um novo e poderoso beligerante, a Rússia, cujos objectivos não se resumiam aos da RPL e RPD — pois incluíam também a desnazificação, a desmilitarização e a neutralização militar da Ucrânia, com o concomitante afastamento da ameaça existencial que representaria para a Rússia a concretização, pelo regime TPZ, da sua reiterada intenção de instalar armas nucleares (de fabrico próprio ou alheio) no território da Ucrânia e a entrada desta na OTAN [/NATO].

    Mais: a partir de 15 de Abril de 2022, como consequência da sabotagem ― por Boris Johnson, Joe Biden, Emmanuel Macron e Olaf Scholz ― dos Acordos de Paz de Istambul firmados entre a Ucrânia e a Rússia no fim de Março-início de Abril de 2022, a 2.ª guerra na Ucrânia mudou qualitativa e quantitativamente de figura, entrando numa 2.ª fase. Na 1.ª fase, entre 24 de Fevereiro e 15 de Abril de 2022 era uma guerra que opunha a Rússia, juntamente com os seus pequenos mas aguerridos aliados/protegidos (RPL e RPD), à Ucrânia. Porém, a partir de 15 de Abril de 2022, passou a ser uma guerra que opõe o chamado “Ocidente alargado” (EUA, Canadá, Reino Unido, OTAN, UE, Suíça + Coreia do Sul, Singapura, Japão, Austrália e Nova Zelândia) à Rússia, por interposta Ucrânia, a sua peonagem no campo de batalha.

    Mais ainda: a partir de 17 de Novembro de 2024, a 2.ª guerra na Ucrânia entrou numa 3.ª fase, com a entrada directa no campo de batalha dos EUA, Reino Unido e França (cf. “Da atoarda sobre os soldados norte-coreanos ao míssil balístico hipersónico Orechnik”, https://estatuadesal.com/2024/12/ 03/da-atoarda-sobre-os-soldados-norte-coreanos-ao-missil-balistico-hipersonico-orechnik/).

    Se afirmarmos, sobre a 2.ª guerra na Ucrânia, que «[a] guerra é a mesma da primeira, do Donbass. Não é uma segunda guerra», apagamos todas estas mudanças cruciais e os factos conexos. (Dois deles, por exemplo, são a abnegação e o heroísmo dos milicianos das milícias de autodefesa da RPL e RPD, que conseguiram aguentar-se sozinhos durante 8 anos contra um inimigo muito superior em número e armamento). A nossa compreensão dos acontecimentos ficaria muito mais empobrecida. É o mesmo que aconteceria se substituíssemos um filme a cores de um grande acontecimento desportivo ― o campeonato mundial de estafetas 4 X 100, por exemplo ― por um retrato a carvão.

  2. Alguém que acredite nos 11000 coreanos invisíveis, sem saber, está a ser mais infantil(izado) que uma criança de 5 anos a quem se diz para escrever uma carta ao Pai Natal, e para se portar bem se quer que ele lhe traga os presentes desejados, e ainda que veio ao mundo e foi entregue aos pais numa fralda pendurada no bico de uma cegonha.
    Mas como a pategada já não precisa de provas, só patranhas rebuscadas, para acreditar em estórias “sensacionais” da propaganda ocidental que lhes é servida em doses cavalares diariamente, então continue a sonhar com coreanos, enquanto a sua cabeça é ocupada por mitos ucranianos como o Fantasma de Kiev e os Herói da Ilha da Serpente. Sem esquecer o bravo “democrata” Zelensky…

  3. E como se tudo isto não chegasse temos o mainstream merdia a tentar levar já ao colo o almirante que acredita, ou diz acreditar, que impediu uma invasão russa pelo Sul e que promete imolar nos a todos no altar da NATO se assim tiver de ser.
    E entao o almirante obteria uns espantosos…23,5 por cento, mas quem ler as gordas de muitos jornais o homem já está eleito.
    Temos ainda o nosso Rui Rocha, da fascista Iniciativa Liberal a ver “pontos de contacto” no Governo assassino e miserabilizador de Javier Milei e até a garantir que “parece haver estudos de opinião que mostram, que apesar das dificuldades, os argentinos satisfeitos”.
    E ver a satisfação com que, quem ainda pode, procura os sites que divulgam maneiras mais fáceis de emigrar para a Europa ou os Estados Unidos.
    E a satisfação com que muito boa gente pede nas ruas comida para as cantinas sociais.
    Satisfação so mesmo a da polícia, que em todo o lado leva boas lavagens ao cérebro para malhar o povo quando é preciso, a malhar manifestantes como quem malha centeio.
    Votem em gente desta, que devia ir ver se o mar da tubarão branco cheio de larica e depois digam que há bruxas.

  4. “2.ª guerra na Ucrânia, em curso há mais de 1.000 dias desde o seu início, em 24 de Fevereiro de 2022”

    A guerra é a mesma da primeira, do Donbass. Não é uma segunda guerra. Quer desde 2014 quer desde 2022, opõe Ucranianos ultra-nazionalistas pró-NATO aos seus opostos (sejam Ucranianos russófonos ou Russos): os democratas anti-nazi e anti-NATO.

    A pausa entre as fases quentes foi isso mesmo, uma pausa, com a Missão de Monitorização da OSCE a veriricar pequenas violações esporádicos dessa fase fria.
    Os acordos de Minsk não foram um tratado de paz nem nunca foram totalmente implementados.

    E finalmente, a segunda fase quente dessa guerra não teve início a 24-Fevereiro-2022, mas sim no momento em que as violações dos acordos de Minsk se tornaram graves e frequentes: desee 16-Fevereiro-2022, segundo a tal Missão de Monitorização da OSCE.

    O que teve início a 24-Fevereiro-2022 foi a intervenção Russa na guerra que já estava em andamento. Ou melhor, a intervenção Russa para tentar colocar fim rapidamente à segunda fase quente da guerra iniciada em 2014.

    É quase 2025 e ainda andamos nisto…
    É preciso ter paciência!

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