O abc da geopolítica atual explicado às crianças

(Whale project, in Estátua de Sal, 31/08/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a guerra da Ucrânia e as eleições nos EUA, (ver aqui). Pela sua atualidade, e por em termos simples conseguir explicar, em grande medida, a situação geopolítica atual, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 31/08/2024)


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Para a Rússia, em especial para o provinciano Gorbatchev, a conversão ao capitalismo e a destruição da União Soviética parecia ser um bom negócio.

E tinha tudo para ser um bom negócio se, do lado de cá, não fossemos uma cambada de ladrões e não tivéssemos, do outro lado do mar, uma nação (EUA) violenta, belicista, a sonhar com o seu próprio reinado de 1000 anos sobre o mundo.

Com o fim da União Soviética a Rússia ficou com um território que ainda corresponde a um nono da superfície seca do planeta, cheio de recursos naturais e capaz de conseguir a auto suficiência e mesmo a capacidade de exportação alimentar, nomeadamente de cereais.

Livrou-se dos apêndices que eram as repúblicas da Ásia Central que só tinham, em termos de recursos importantes, petróleo e gás que também não faltam na Rússia, mas dependiam da Rússia em tudo o resto tendo grandes défices de produção alimentar.

Sendo capitalistas, também nós não teríamos motivo para os bloquear e tentarmos minar a sua ação, em todo o lado. Tinha tudo para correr bem, mas não correu. E não podia correr.

Em primeiro lugar porque nunca, a tal nação do outro lado do mar aprendeu a fazer negócios com honestidade. Nas relações com os seus vizinhos do Sul sempre se pautou por, simplesmente, tomar pela corrupção ou pela força o que lhe interessasse, qualquer que fosse o regime que lá existisse. E, para que o regime fosse amigo, não se importavam de apoiar a criatura mais sanguinária que houvesse nessa terra, e até derrubar líderes democraticamente eleitos, como Allende.

E, foi esta receita que foi aplicada na Rússia, quando conseguiram fazer eleger, por uma população pouco habituada às coisas do jogo eleitoral, um bêbado sem préstimo e sem capacidade para gerir, nem o clube de setas de Papa Leitinho de Baixo, Boris Ieltsin de seu nome.

E, durante esses anos de Ieltsin, foi uma pilhagem à tripa forra: calcula-se que três milhões de russos tenham morrido de fome e de frio.

A prisão do oligarca Kodarkovsky – quando este se preparava para vender a um consórcio americano o que hoje é o complexo Gazprom -, fez soar o alarme em todas as chancelarias ocidentais mostrando que o tempo do entreguismo e do saque, poderia muito bem ter acabado.

Ai começou a diabolização da Rússia em geral – e de Putin em particular -, até porque um país desigual, e cheio de contradições como os Estados Unidos, cedo percebeu que precisava de um inimigo externo para unir o gado.

O problema é justamente este messianismo que os faz acreditar que têm de dominar todos os povos do mundo e que, se para o conseguir tiverem de destruir todo o resto do hemisfério ocidental, não hesitarão em o fazer.

Por isso, muitos sonham, justamente, com a destruição da Europa pela Rússia enquanto eles destroem a Rússia e assistem no camarote à nossa destruição.

A Rússia já garantiu que não se limitará a destruir a Europa se as coisas derem mesmo para o torto. O que me arrepia nisto tudo, é o facto de ainda haver, na Europa, tanta gente pró americana. Que não percebe que, aquela gente americana não é como a maior parte de nós, que apenas quer ir levando a vida como pode. Que é uma gente messiânica, em boa parte fundamentalista cristã, que sonha, tal como Hitler, num reinado de 1000 anos, não importa a destruição que isso custe.

Quanto às eleições americanas, estamos quilhados, ganhe quem ganhar. Kamala é uma belicista que se gabou que o seu país tem o exército mais letal do mundo.

Por isso, não há mais remédio, a não ser prepararmo-nos para o pior porque, penso eu, já todos percebemos que, para a Rússia, aceitar a sua própria destruição sem que nós soframos, ou ter um “entreguista” e voltar para a miséria negra dos anos de Ieltsin, são opções inaceitáveis.

É assim esta gente, que não consegue deixar de acreditar que, com a força de Deus e das suas armas, destruirão finalmente o demónio russo. Tem tudo para correr mal.


6 pensamentos sobre “O abc da geopolítica atual explicado às crianças

  1. Deixei um comentário sobre o papel de Gorbachov na URSS que não foi publicado até agora.
    Não respeitei alguma regra ?

    • Quem já tenha publicado comentários – como é o seu caso -, publica sem necessidade de aprovação. Algo correu mal com esse comentário, pois não chegou cá. Publique de novo. Não podemos fazer nada.

  2. Tem razão o Wale.

    Se não se entende nada sobre o que realmente se passa em termos de geopolítica profunda… Se não se compreende a geopolítica, então não se pode compreender nada . Se não se compreende o que se passa debaixo da mesa, então não se compreende nada sobre o que vai acontecer nos próximos meses/anos.

  3. Simples, sem ser simplista, uma boa síntese explicativa das motivações que se encontram a montante do conflito Rússia – Ucrânia.

    Só não se percebe de facto como é que boa parte da população europeia não consegue enxergar tais motivações. Claro que a comunicação social entorpece, e é agora o ópio do povo, mas, francamente, como é que, apesar de tudo, não se consegue ver o óbvio. E o óbvio é que este conflito, desde o inicio, só interessa aos Estados Unidos e às elites capitalistas que lucram com a venda de armamento e com a ‘destruição criativa‘ que lhes vai permitir continuar a lucrar com futura reconstrução.

    É lamentável também o estado a que a Europa chegou e o estilo de líderes que coloca no comando que, das duas uma, ou têm nítido défice intelectual, ou são apenas oportunistas que defendem os seus interesses de classe, ou então, as duas coisas juntas.

    O mais grave é que podem arrastar-nos para uma guerra estúpida e muito perigosa pois pode acontecer não vir a sobrar ninguém para contar a história. Isto tudo num cenário caótico de crise climática acelerada e da implementação de uma nova tecnologia – a pretensa inteligência artificial – que, na mão e sob o controlo de um reduzido numero de corporações bilionárias, não permite prever nada de bom para o futuro da humanidade.

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