Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 sob o signo do niilismo neoliberal – Parte II: a negação da diferenciação sexual pelo Comité Olímpico InternacionaI

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 22/08/2024) 

    Jogos Olímpicos de Paris 2024. Imagem gerada por IA (inteligência artificial). Concebida por Freepik.

A primeira parte deste artigo, Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 sob o signo do niilismo neoliberal (I) [que pode ser lida  aqui, analisou a usurpação do olimpismo pelo Comité Olímpico Internacional (COI) — um processo que se desenvolve há 40 anos.

Em continuação, este artigo analisará outra faceta reveladora do niilismo neoliberal que impregna o modo de actuação do Comité Olímpico Internacional e que impregnou o modo de actuação do Comité de Organização dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 (JOP 2024).

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2 pensamentos sobre “Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 sob o signo do niilismo neoliberal – Parte II: a negação da diferenciação sexual pelo Comité Olímpico InternacionaI

  1. Paulo Marques (PM para abreviar), o autor do comentário anterior, atribui-me coisas que eu não escrevi no meu artigo. Diz ele: «o autor observa que os testes [de verificação da identidade sexual que outrora foram feitos às atletas femininas dos Jogos Olímpicos] foram sendo desactualizados e eram um importúnio [??] e uma humilhação para quem, supostamente, quer proteger».

    Talvez PM se esteja a referir ao relato que fiz dos exames visuais das atletas em pêlo feitos por médicas. Esses exames só seriam humilhantes se não fossem consentidos ou se fossem feitos por homens, ainda que médicos, embora possamos admitir como plausível que tivessem sido embaraçosos para as concorrentes mais púdicas. Mas não temos provas disso, nem do seu contrário. Seja como for, esses exames só estiveram em vigor durante um ano. Os testes cromossómicos que se lhes seguiram durante 30 anos foram sendo aperfeiçoados (e não “desactualizados”) ao longo do tempo. Eram (e são) realizados de forma simples, económica, rápida e não invasiva. Não demoram mais do que alguns minutos. E nada seria mais oportuno do que restabelecê-los.

    PM acrescenta ao trecho supracitado: «e não só não faz [refere-se a mim, JCS] a óbvia ligação, como deixa de mencionar que tal continua». Que ligação? Só ele saberá. Quanto ao «que tal continua», presumo que PM se refira aos testes cromossómicos de verificação da identidade sexual. Se assim for, convém salientar que mencionei explicitamente que «tal não continua», visto que esses testes foram abandonados pelo Comité Olímpico Internacional (COI) a partir de 1998. Considero esse abandono um grave atentado ao desporto feminino olímpico e expliquei porquê. Na verdade, o meu artigo, que tanto desagradou a PM, consiste na defesa, com factos e argumentos, de uma dupla tese:

    ― 1) as mulheres apuradas para os Jogos Olímpicos têm o direito e precisam de ser defendidas, através de testes adequados de verificação sexual, da concorrência desleal (i) de homens com ADS [anomalias de diferenciação sexual] que acreditam serem mulheres e concorrem como mulheres; (ii) de impostores (homens com ADS que tomaram consciência, através de testes apropriados, do seu real sexo cromossómico e gonádico, mas que insistem, mesmo assim, em fazer-se passar, fraudulentamente, por mulheres); (iii) de “mulheres trans” — isto é, homens que alegam serem mulheres por terem feito um tratamento hormonal dito “feminizante” com antiandrógenos, estrogénios progestogénios e moduladores da hormona libertadora de gonadotrofina e/ou por se terem submetido a uma castração cirúrgica radical ⎼ incluindo orquiectomia (remoção dos testículos) e penectomia (remoção do pénis) com encurtamento uretral ⎼ seguida da reconstrução cirúrgica dos órgãos genitais (vulvoplastia e vaginoplastia) para parecerem mulheres.

    ― 2) A renúncia do Comité Olímpico Internacional (COI) a defender as atletas olímpicas relativamente às três circunstâncias enunciadas em 1). Esta renúncia foi oficializada em 1998, como indiquei no meu artigo. E não se ficou por aqui. Transformou-se, a partir de 2004, como também indiquei no artigo, numa militância activa do COI para abrir as modalidade e provas desportivas das categorias “comuns de dois” exclusivamente acessíveis às atletas do sexo feminino à participação dos três tipos de intrusos caracterizados no ponto 1).

    PM entende, pelos vistos, que o COI e as Federações Desportivas Internacionais que compartilhem (e nem todas o fazem) a atitude relativamente às mulheres desportistas de alta-competição que resumi no ponto 2) estão no bom caminho. Temos, pois, opiniões diametralmente opostas e inconciliáveis sobre este assunto.

    Não sei o que seja «a mitologia da superioridade genital» (de quem? sobre quem?) que PM refere, nem por que razão ela foi para aqui chamada. Mas é curioso que PM afirme que os nazis eram obcecados por essa enigmática “superioridade genital” com o propósito de insinuar que eles seriam hoje os maiores críticos do comportamento do COI referido em 2). É que o registo histórico mostra exactamente o contrário. Os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, organizados pela Alemanha de Hitler, foram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna em que um homem com ADS foi admitido como concorrente numa prova acessível exclusivamente a mulheres. Isso foi possível devido, precisamente, à ausência de qualquer teste ou exame da identidade sexual das concorrentes. (Regressarei a este assunto no 5.º artigo da série “Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 sob o signo do niilismo neoliberal”).

    PM acusa-me, por fim, de nutrir «uma inabalável fé no “cientismo”». Se ele me permitir substituir “fé” por “confiança”, tirar as aspas a “cientismo” e definir este último termo do modo que vou indicar a seguir, aceito de muito bom-grado essa acusação.

    «CIENTISMO ― A concepção de que a investigação científica é o melhor caminho para assegurar o conhecimento factual rigoroso. É uma componente tanto do positivismo lógico como do realismo científico. O cientismo tem impulsionado todas as tentativas [bem-sucedidas] de transformar este ou aquele capítulo das disciplinas “humanísticas” num ramo da ciência: relembrar, por exemplo, as origens da antropologia contemporânea, da psicologia, da linguística e das ciências sociais. O termo foi usado pejorativamente por Friedrich Hayek e outros a fim de designar as tentativas de arremedar a ciência natural nos estudos sociais. Ele e outros membros do campo “humanístico” (de gabinete) nas ciências sociais vêem no cientismo, mais do que uma anticiência ou uma pseudociência, o seu principal inimigo» (Mario Bunge, “Philosophical Dictionary”. Prometheus. Enlarged Edition. 2003. [Minha tradução]).

  2. O autor observa que os testes foram sendo desactualizados ao mesmo tempo que eram um importúnio e uma humilhação para quem, supostamente, quer “proteger”, e não só não faz a óbvia ligação, como deixa de mencionar que tal continua, com uma inabalável fé no “cientismo” que nada acrescenta à avaliação e adaptação que as federações vão fazendo.
    Esta estranha obsessão com a mitologia da superioridade genital que partilham com os nazis é um bocado para o estranha.

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