São Tomé e Príncipe e Rússia, arrogância e preconceito

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 16/05/2024)

Passados 50 anos, não se assimilou o facto das relações de Portugal com os novos países de língua oficial portuguesa terem de se subordinar a uma lógica de pares inter pares.


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Nos 50 anos do 25 de Abril, o Presidente da República (PR) de Portugal tomou a importante iniciativa de reunir no Centro Cultural de Belém os seis presidentes das antigas colónias portuguesas, que malogradamente arruinou por declarações inoportunas e sem sentido.

A assinatura de um acordo de cooperação militar entre São Tomé e Príncipe (STP) e a Federação da Rússia provocou um enorme frisson no establishment político doméstico. O PR disse que não sabia nada sobre o referido acordo, mas que o vai “querer conhecer”, defendendo simultaneamente a importância de salvaguardar a unidade da CPLP; o Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) afirmou que Portugal e “outros Estados europeus manifestaram estranheza, apreensão e perplexidade perante este acordo”.

Além disso, um muito preocupado deputado da Iniciativa Liberal (IL) afirmou que Portugal não se pode manter “surdo e mudo” perante o que se está a passar ao nível da política externa de vários estados-membros da CPLP, referindo-se à participação do presidente da Guiné-Bissau nas celebrações do dia da vitória sobre as tropas nazis em Moscovo.

Tal ousadia das autoridades são-tomenses e guineenses exigia uma reprimenda pública para terem vergonha e não voltarem a “prevaricar”. Habituados a calarem-se quando outros Estados opinam sobre a sua política interna, presumiu-se que os visados se iriam comportar do mesmo modo. Mas o tiro saiu pela culatra. A resposta foi direta e poderosa, com o inconveniente de algumas das considerações serem difíceis de engolir. Puseram-se a jeito.

Não precisamos de Portugal“, disse o primeiro-ministro Patrice Trovoada. STP não precisa de Portugal para se relacionar com a Europa. As autoridades portuguesas só conhecerão o acordo militar com a Rússia se vier a ser publicado. “Aqui há o respeito pela soberania e há o respeito das regras diplomáticas, por conseguinte há coisas que não fazem sentido”, prosseguiu Trovoada.

Em resposta ao MNE, Trovoada disse que “isto é o problema do MNE de Portugal. Nós [STP] temos relações bilaterais com muitos países e não precisamos de Portugal para nos relacionarmos com outros países. Sejamos claros, se um país europeu quer manifestar preocupação, fala comigo, e não fizeram isso”. “[STP] Não pede para ver quando Portugal assina acordos com terceiros.”

E para dar o assunto por terminado, o chefe do governo são-tomense recordou que muitos países, incluindo os europeus, continuam a manter relações com a Rússia, apesar da guerra com a Ucrânia. “Eu quero também lembrar que muitos países europeus… continuam a importar gás, petróleo e urânio da Rússia”. Adiantando que “as coisas estão claras, estão tranquilas”, e o acordo com a Rússia “está em vigor” e vai acontecer.

O presidente guineense Umaro Sissoco Embaló fez declarações semelhantes às do primeiro-ministro Trovoada: “Não preciso de autorização de nenhum outro país ou Presidente da República para visitar a Rússia ou onde quer que seja. Eu sou soberano… não vou aceitar também que um presidente me peça autorização para visitar o Senegal. Isso não. A Guiné-Bissau é um Estado soberano e independente”, salientando que a política externa do país é determinada pelo respetivo governo.

No mesmo sentido, Zacarias da Costa, Secretário Executivo da CPLP, afirmou mais diplomaticamente que o acordo de cooperação militar celebrado entre STP e a Rússia “não é um drama”, sublinhando que, “naturalmente, temos [CPLP] de respeitar as decisões soberanas das autoridade de STP”. Seria bom retirar ilações destas reações, que colocaram Portugal numa situação incómoda e de grande fragilidade.

Cinquenta anos parece não ter sido tempo suficiente para se ultrapassar o paternalismo e algum complexo de superioridade do tempo colonial. Não se assimilou o facto das relações de Portugal com os novos países de língua oficial portuguesa terem de se subordinar a uma lógica de pares inter pares.

As declarações dos intervenientes nacionais foram tremendamente insensatas e imprudentes. Não nos recordamos de alguma vez terem criticado publicamente o Brasil pela adesão aos BRICS, ou os países europeus que participaram nas sanções à Rússia e que continuam a fazer negócio com Moscovo. Não entendemos por que motivo não expressaram o seu desconforto sobre o modo como a Hungria e a Eslováquia se relacionam com o Kremlin.

Comportamentos desta natureza não ajudam a diplomacia nacional a ganhar votos no Sul Global, ainda não refeito das marcas do colonialismo, na candidatura de Portugal a ocupar um dos dois lugares de membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, atribuído ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados, para o biénio 2027-2028.

As declarações do PR e do MNE criaram tensões desnecessariamente e alienaram a posição de Portugal no seio da CPLP. A crispação e o ruído que se seguiram não contribuíram para reforçar a coesão da organização. A participação do Brasil nos BRICS não colocou em causa a CPLP. Não se percebe porque é que o aprofundamento das relações de STP com a Rússia iria colocar agora. Faz sentido que os países diversifiquem as suas relações exteriores e escolham os seus parceiros. É uma prerrogativa dos Estados soberanos.

Os puristas da indignação tardia deviam fazer jus à sua incomodidade e levantar a voz contra a presença da Guiné Equatorial na CPLP, um país que não pauta exatamente o seu comportamento pelos valores democráticos que defendem. E, já agora, por uma questão de coerência, estenderem o critério a Angola e a Moçambique.

Estes desenvolvimentos com a Rússia não comprometem as cordiais relações de STP com os EUA, nomeadamente ao nível militar. Não há manifestação da vontade de STP renunciar ao acordo celebrado com a Voz da América, respeitante às estações de retransmissão que esta mantém em território são-tomense.

Ao contrário do que afirmam as cartomantes do comentário, o acordo entre STP e a Rússia, que só a estes diz respeito, não tem por objetivo atacar Portugal. São comentários sem sentido, que escamoteiam o cerne da questão e o que está verdadeiramente em jogo: as tensões que opõem o Ocidente à Rússia e à China numa competição geopolítica por influência no Sul Global. Esta é a interpretação mais plausível para esses acordos. Está ainda por perceber até onde vai a concertação entre Moscovo e Pequim. É subordinado a esta lógica que se deve ver a presença do presidente Embaló em Moscovo.

No debate deste tema, não podemos excluir a assinatura de um memorando de entendimento entre empresas chinesas e a Guiné-Bissau para construir infraestruturas ferroviárias, rodoviárias e aeroportuárias no país, em particular, um porto de águas profundas em Buba, que permitirá o escoamento da bauxite e a atracagem, em simultâneo, de três navios até 70 mil toneladas, abrindo as portas ao interior do continente.

A sua concretização contribuirá para aumentar a integração regional, desbloqueando o comércio internacional e o desenvolvimento do fluxo comercial de mercadorias em grande escala. Sem nos esquecermos do petróleo e do gás que existem em grandes quantidades nas águas sob soberania da Guiné-Bissau e do Senegal.

Como nos recordou em tempos um primeiro-ministro, estamos mesmo fadados para sermos alunos bem-comportados. A reprimenda à STP e à Guiné-Bissau serviu para mostrar serviço e obediência a um Deus maior, mesmo que isso seja em detrimento do interesse nacional. Assim, é difícil construir um país a sério.

8 pensamentos sobre “São Tomé e Príncipe e Rússia, arrogância e preconceito

  1. Claramente, o nosso presidente está com saudades do tempo do paizinho. Se nem os EUA conseguem impor o bonito respeitinho em África, de que estava à espera Marcelo Rebelo de Sousa?

    Citando the Guardian:

    Numa entrevista exclusiva, o primeiro-ministro Ali Mahaman Lamine Zeine [do Níger] atribuiu a culpa pelo colapso [das relações] diretamente aos Estados Unidos, acusando as autoridades americanas de tentarem ditar quais os países com os quais o Níger poderia fazer parceria e de não justificarem a presença de tropas dos EUA, agora programada para terminar nos próximos meses.

    https://www.theguardian.com/world/article/2024/may/14/niger-us-military-agreement?ref=hans.news

    The times, they are a changing…

    • Está aqui tudo no link e a ‘faena’ foi rematada com um ferro bem cravado:
      “O líder do Níger disse que disse a Phee que ela “veio aqui para nos ameaçar no nosso país. Isso é inaceitável. E você veio aqui para nos dizer com quem podemos nos relacionar, o que também é inaceitável. E você fez tudo isso com um tom condescendente e falta de respeito.”
      Merece sair em ombros da praça.

  2. Sobre a força militar que está destacada em São Tomé e Príncipe, o autor não disse nada, mas devia ter dito. Como o custo das missões é complicado de calcular, é matéria tipo cálculos na engenharia de foguetes espaciais, se calhar a despesa que estamos a ter, não vai entrar no Deve e Haver da “exploração” portuguesa por esse Mundo fora.

    Não disse, mas poderia ter dito, eu compreendo que não diga, já que deve passar o tempo a “informar-se” junto de fontes anglo-americanas:
    Empresa russa Rusal oferece assistência à Guiné-Bissau para construir ferrovia
    https://fr.sputniknews.africa/20240516/la-societe-russe-rusal-offre-son-aide-a-la-guinee-bissau-pour-construire-un-chemin-de-fer–1066577401.html

    Podia também ter dito, que não vai ser nos seus Comandos que eles vão aprender:
    Membros das Forças Armadas da Guiné-Bissau virão à Chechénia para formação – vídeo
    https://fr.sputniknews.africa/20240512/des-militaires-de-guinee-bissau-viendront-en-tchetchenie-pour-une-formation—video-1066496844.html

    Esta já um pouco antiga, mas que conta muito:
    Rússia cancelou 26,7 milhões de dólares em dívidas com a Guiné-Bissau
    https://fr.sputniknews.africa/20240320/la-russie-a-efface-267-millions-de-dollars-de-dette-a-la-guinee-bissau-1065644769.html

    • Então não envias ao “traidor da pátria” esses tão preciosos dados de informação confidencial classificada?
      Para ver se o PR entra nos eixos, capelão. Ele até foi a Fátima pedir o milagre… se calhar foi rezar pelo Papa e o 4.º Pastorinho…

  3. Ainda hoje um amigo meu perguntava como é que esta gente foi acreditar nas promessas eleitorais do Montenegro. Era o que o homem dizia, se até fosse do PSD mas fosse uma cara nova que nada tivesse a ver com os troikanos ate se compreendia.
    Mas toda a gente tinha obrigação de se lembrar da performance do actual PM como inabalável defensor disso de ir alem da troika. O tal que convidou quem estava mal a mudar se.
    Mas acreditaram mesmo no que o homem prometeu quando, como dúzia outro, tinham obrigação de saber que, desde há 50 anos a esta parte, é política da direita prometer tudo e mais alguma coisa para chegados ao poder dizerem “no hay plata”.
    Devem ter aprendido com Churchill que dizia com todo o descaro que o que se prometia em campanha quando se era oposição não tinha nada a ver com o que se fazia quando se era Governo.
    Tornando perfeitamente legítimo isto de aldrabar em campanha.
    Quanto a querermos continuar a mandar nas nossas antigas colónias é defeito de todos os antigos colunialistas europeus que não hesitam em fazer revoluções coloridas quando o Governo não agrada. Se conseguirem que o dirigente seja morto, melhor ainda.
    E até mesmo europeus podem apanhar uns tiros no bestunto quando não seguem o rebanho.
    A maneira como a nossa comunicação social tem coberto o atentado contra Robert Fico quase da a entender que o homem só teve o que mereceu.
    Como o Diário de Notícias se ter saído com a história peregrina de o homem ser instigador e vítima da polarização no seu país. Como quem diz “o malandro estava a pedi las”.
    Ora por muito populista, o que quer que isso signifique na boca de gente desta, não consta que o homem andasse a apelar ao assassínio de adversários políticos. Mas até poderia te lo feito se achasse normal tirar ao seu povo para comprar armas para mandar para a Ucrânia.
    Ao nosso anterior Governo também não foi o dar 250 milhões de euros a Herr Zelensky que o livrou de um embroglio legal a brasileira. Os nossos amos queriam um Governo ainda mais dócil e conseguiram.
    Não tenho muito estômago para serviços noticiosos mas hoje tenho me dado ao trabalho de ver onde chega. A SIC tinha como rodapé da peça que o homem quase assassinado não reúne consenso. Supõem se assim que seria legítimo que alguém expressasse essa falta de consenso abatendo o como um cao. Felizmente a pontaria do candidato a assassino não foi a melhor e o homem é rijo.
    Porque ninguém merece acabar morto por não nos fazer o frete como acabou o Olof Palme.
    Quanto a nós temos mais quatro anos pela frente. Depois disso vejam lá bem se querem mesmo fazer “melhor” ainda é ir votar no quarto pastorinho.
    Se é uma Argentina que querem força nisso. Mas não se esqueçam que quem boa cama fizer, nela se deitara.

  4. Até bufam e deitam fumo pelas orelhas, o senhor capelão e as cartomantes do comentário. Podem sempre votar Patega ou Iniciativa Chavascal, para condenarem por traição o Presidente da República de Portugal. E desculparem-de dizendo que a culpa de votarem em charlatões é dos outros que não acreditam neles.

    • Fui ao dicionário para confirmar:
      Patego= ignorante e pouco inteligente; Chavascal = terreno que não presta para searas.
      Para mim bate certo!

      • Claro que sim, o mais triste é que o facilitador de más colheitas e gente pouco inteligente é o basbaque do PR, mas andam mais preocupados com o que fazem o representante da Guiné e o de S. Tomé e Príncipe, aproveitando o basbaque-mor do rectângulo ibérico para lhes apontar o dedo, levando a manada de pategos e lorpas a desviar as atenções dele e das suas óperas budas e espectáculos burlescos. Tudo gente às direitas, como o senhor capelão.
        Já na União Europeia funciona assim, como o artigo anterior sobre as eleições europeias aborda. Aponta-se o dedo ao Putin e ao Orban, e deixa-se passar todos os abusos das cúpulas dirigentes, e os lobbys que servem, sobre as populações dos países membros, todos os cambalachos, todos as restrições sejam elas a “austeridade”, a censura sobre a liberdade de informação, o isolamento forçado, e propaganda para pategos e barrascos em doses cavalares. E a culpa de sermos uns patetas que só dizem aldrabices e fazem figura de ursos é dos outros, sempre dos outros, pois claro.

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