Porque o Ocidente interrompeu um processo de paz na Ucrânia?

(Por Connor Echols*, in Velho General, 04/09/2022)

Um artigo recente da Foreign Affairs revelou que Kiev e Moscou tinham um acordo provisório para acabar com a guerra em abril.


A Rússia e a Ucrânia chegaram a um acordo provisório para encerrar a guerra em abril, segundo com um artigo recente da Foreign Affairs. “Os negociadores russos e ucranianos pareciam ter concordado provisoriamente com os contornos de um acordo provisório negociado”, escreveram Fiona Hill e Angela Stent. “A Rússia se retiraria para sua posição de 23 de fevereiro, quando controlava parte da região de Donbass e toda a Crimeia e, em troca, a Ucrânia prometeria não buscar a adesão à OTAN e, ao invés disso, receber garantias de segurança de vários países.”

A notícia destaca o impacto dos esforços do ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson para interromper as negociações, como observou o jornalista Branko Marcetic no Twitter. A decisão de adiar o acordo coincidiu com a visita de Johnson a Kiev em abril, durante a qual ele pediu ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky que interrompesse as negociações com a Rússia por duas razões principais: não se podia negociar com Putin e o Ocidente não estava pronto para o fim da guerra.

A aparente revelação levanta algumas questões-chave: por que os líderes ocidentais queriam impedir Kiev de assinar um acordo aparentemente bom com Moscou? Eles consideram o conflito uma guerra por procuração com a Rússia? E, mais importante, o que seria necessário para voltar a um acordo?

Por enquanto, podemos apenas especular sobre as respostas para as duas primeiras perguntas. A terceira talvez não seja menos desafiadora, especialmente considerando o fato de que tanto a Ucrânia quanto a Rússia (pelo menos publicamente) endureceram significativamente suas posições de negociação nos últimos meses. Mas há algumas pistas que podem nos ajudar a respondê-la.

Um caminho possível de volta a um acordo de paz é aproveitar o acordo de grãos de julho, no qual Kiev e Moscou concordaram em reiniciar as exportações de trigo dos portos do Mar Negro da Ucrânia. O acordo manteve-se forte apesar das contínuas hostilidades, permitindo que mais de um milhão de toneladas métricas de grãos entrassem no mercado mundial até agora. Este acordo mostra que cada lado está pelo menos interessado em reduzir o impacto global da guerra.

A outra opção é mais complexa, mas não menos importante. Ainda ontem, uma equipe de inspetores internacionais chegou à usina nuclear de Zaporizhzhya, controlada pela Rússia, que foi ameaçada por bombardeios nas proximidades nas últimas semanas. A visita, que permitirá aos especialistas garantir que a fábrica se mantém em condições de segurança, é fruto de intensas conversações, apoiadas pela pressão da comunidade internacional. Nesse caso, tanto a Rússia quanto a Ucrânia estão sinalizando seu compromisso de evitar uma catástrofe nuclear.

Em outras palavras, Kiev e Moscou mostraram que querem mitigar os efeitos secundários do conflito e estão dispostos a negociar com o inimigo para fazê-lo. Mas, enquanto esta guerra se arrastar, as pessoas ao redor do mundo continuarão a sofrer, e o espectro de um evento catastrófico – seja por meio de um ataque errôneo em uma usina ou uma escalada descontrolada para uma guerra nuclear – continuará a pairar. É hora de a Rússia, a Ucrânia e o Ocidente reconhecerem que só há uma maneira de acabar com esses riscos: deponham as armas e venham para a mesa de negociações.

Outras notícias diplomáticas relacionadas à guerra na Ucrânia

• A União Europeia deve suspender um acordo de visto com a Rússia, o que tornará mais difícil (e mais caro) para turistas russos visitarem países do bloco, segundo a Reuters. A decisão é um compromisso entre os membros da UE que querem proibir todos os viajantes russos de entrar no Espaço Schengen e outros que consideram tal medida contraproducente. Em uma declaração conjunta, a França e a Alemanha explicaram sua oposição a uma proibição total: “Avisamos contra restrições de longo alcance em nossa política de vistos, a fim de evitar alimentar a narrativa russa e desencadear reações não intencionais em torno dos efeitos da bandeira e/ou distanciamento gerações futuras.”

• A Rússia bloqueou um acordo da ONU destinado a reforçar o tratado de não proliferação nuclear (TNP), citando preocupações sobre cláusulas relacionadas à situação na usina nuclear de Zaporizhzhya, segundo o The Guardian. A medida destaca o efeito negativo que a invasão da Rússia teve nos esforços de não proliferação nos últimos meses. Mas, como Shannon Bugos argumentou no Responsible Statecraft, Washington ainda deveria fazer tudo ao seu alcance para trabalhar com Moscou para reduzir os estoques nucleares de cada país. “A estrutura para um acordo de controle de armas EUA-Rússia não é perfeita e exigirá concessões de Washington e Moscou”, escreveu Bugos. “[Mas] isso faz parte da barganha do controle de armas, e os benefícios, como o não uso de armas nucleares na guerra desde 1945, superaram consistentemente os custos percebidos”.

• Na quinta-feira, o presidente francês Emmanuel Macron deu um resumo detalhado de sua posição em relação à guerra na Ucrânia, segundo a AP. Macron argumentou que a Europa “deve se preparar para uma longa guerra” para colocar a Ucrânia na melhor posição possível para as negociações. Ele também defendeu sua decisão de continuar conversando com Putin, argumentando que “devemos fazer tudo para tornar possível uma paz negociada”.

Notícias do Departamento de Estado dos EUA

• Em uma coletiva de imprensa na terça-feira, o porta-voz Vedant Patel respondeu às preocupações de que as transferências de armas dos EUA para a Ucrânia tenham reduzido os estoques de armas do Pentágono a níveis “desconfortavelmente baixos”. “Os Estados Unidos estão ao lado do povo da Ucrânia há 31 anos e continuaremos firmemente ao lado deles enquanto defendem sua liberdade e independência”, disse Patel. “Vamos continuar com a Ucrânia pelo tempo que for necessário.”


*Connor Echols é repórter na Responsible Statecraft. Foi editor associado da Nonzero Foundation, onde co-escrevia um boletim semanal de política externa. É bacharel pela Northwestern University, onde estudou jornalismo e Estudos do Oriente Médio e Norte da África, e concluiu recentemente uma bolsa de estudos no Centro de Estudos Árabes no Exterior em Amã, Jordânia.

Fonte aqui


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Da ignorância atrevida

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 01/09/2022)

Tenho sido criticado por alguns dos meus amigos devido ao meu vernáculo em relação a alguns dos personagens envolvidos pela Guerra na Ucrânia. Entendo por isso que são necessários alguns esclarecimentos relativos a essa minha postura.

Como alguns saberão, completei há poucos anos um doutoramento em “História e Estudos de Segurança e Defesa”. Durante o mesmo (em 2016), no âmbito de uma das matérias e por puro acaso, tive de fazer um trabalho sobre a Ucrânia e a sua relação com a Rússia, pelo que tive de pesquisar e analisar com muito cuidado toda a literatura que pude então encontrar sobre esse tema; posteriormente e quando elaborei a minha tese (relativa à independência do Kosovo), resolvi apresentar o caso da Crimeia como um dos exemplos, pelo que, de novo, tive de estudar muito bem todas as referências que encontrei. Por tudo isto se pode afirmar que as minhas opiniões sobre a história anterior local e regional, os aspectos jurídicos e políticos e a evolução militar conflitual (desde 2014), são sólidas, estão muito fundamentadas e consolidadas e será muito difícil uma qualquer argumentação fazer com que as minhas convicções se alterem.

Não me ofende minimamente que haja amigos meus que tenham opiniões completamente diferentes das minhas (na política, no futebol, e no sexo tenho amigos com opções diametralmente opostas às minhas), ofende-me e irrita-me sim (e muito) levando-me mesmo a ser demasiado cáustico, aqueles que sabendo bem a realidade do que se passa, venham argumentar e apresentar análises repletas de falsidades, só para não perderem o colinho onde estão acoitados.

E então, quando entram no domínio do esotérico, não se importando por estarem a insultar a inteligência de quem os ouve ao alvitrarem situações inverosímeis e sem qualquer substrato ou prova, apetece mesmo levar esses autores a uma passagem pela “máquina de estalos”.

Quem goste de ouvir a voz fanhosa do palhaço Zé Lêndeas, que lhe faça bom proveito… eu é que já não consigo ouvir aquele aldrabão, vigarista e carrasco do seu próprio povo… como dizia um amigo meu: – “ele que faça a barba e vista uma camisa lavada”.

Volto a chamar a atenção que, não concordo em absoluto com as opções políticas do Sr. Putin, mas, infelizmente, em relação ao conflito com a Ucrânia, tenho de compreender as suas razões. E continuo a ser da opinião que o início desta fase do conflito (a invasão da Ucrânia) podia ter sido perfeitamente evitado se os EUA, a UE e o Zé Lêndeas o tivessem desejado, mas nem ele nem o dito “ocidente” se importaram com a desgraça e miséria que se iria abater sobre um povo que, na sua maioria, é honesto, bom e trabalhador… e merecia melhor sorte e futuro.

Chamo ainda a atenção dos meus amigos para o comportamento provocatório, insano e até fascistóide das repúblicas bálticas e da Polónia, que, como estão respaldadas pela OTAN julgam que tudo lhes é permitido. Depois, se o tio Vladimir perder a paciência e os “arrasar” ele é que é mau… mas o que vale é que a sua postura cobarde é-lhes bem característica, e lá teremos nós de ir, o resto dos europeus, sacrificarmo-nos no altar que eles é que estão a erguer. Esta gente, tal como os ucranianos “vikings”, têm a mania que são superiores aos eslavos “pretos”. E não se iludam os meus amigos que é mesmo isso que também pensam em relação aos latinos “preguiçosos” do sul da Europa.

Para finalizar, permito-me aconselhar os meus amigos a irem ler um pouco de história e ver onde as divisões SS dos nazis iam buscar tantos voluntários para os seus efectivos… pois é – lá estão e abundavam os “loiros de olhos azuis” citados no parágrafo anterior.


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A festa do Avante chateia…

(Miguel Esteves Cardoso, in Revista Sábado, 13/09/2007)

(Este texto é um notável tesourinho. Não sei se hoje – 15 anos passados -, com o atual ambiente inquisitorial de perseguição e ostracização ao PCP, o MEC teria coragem de o escrever. Talvez. O MEC é muito persistente nas suas idiossincrasias, para o bem ou para o mal. Em qualquer caso é uma bofetada magnífica em todos os torquemadas encartados.

Estátua de Sal, 04/09/2022)


Dizem-se muitas mentiras acerca delas mas, por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas.

A Festa do Avante! é a maior iniciativa político-cultural do país. Ela é, como se sabe, o resultado do trabalho voluntário de milhares e milhares de militantes e simpatizantes comunistas. A forma como é tratada pela comunicação social dominante é um exemplo, dos mais evidentes, do silenciamento a que é submetida nos jornais, revistas, rádios e televisões toda a actividade do PCP. Uma actividade que, sublinhe-se, é maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos.

Quando não é o silêncio, é a inverdade. Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do Avante!: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.

As festas do Avante!, por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas. É espantoso ver o que se alcança com um bocadinho de colaboração. Não só no sentido verdadeiro, de trabalhar com os outros, como no nobre, que é trabalhar de graça. Mas não basta trabalhar: também é preciso querer mudar o mundo. E querer, só por si, não chega. É preciso ter a certeza que se vai mudá-lo. Por isso o conceito do PCP de “colectivo partidário” parece provocar indisposições a muito comentador de serviço.

Porque os comunistas não se limitam a acreditar que a história lhes dará razão: acreditam que são a razão da própria história. É por isso que não podem parar; que aguentam todas as derrotas e todos os revezes; que são dotados de uma avassaladora e paradoxalmente energética paciência; porque acreditam que são a última barreira entre a civilização e a selvajaria. Por isso sobre a construção da festa cai um silêncio ensurdecedor.

Não há psicologias de multidões para ninguém: são mais que muitos, mas cada um está na sua. Isto é muito importante. Ninguém ali está a ser levado ou foi trazido ou está só por estar. Nada é forçado. Não há chamarizes nem compulsões. Vale tudo, até o aborrecimento. Ou seja: é o contrário do que se pensa quando se pensa num comício ou numa festa obrigatória. Muito menos comunista. Todos os portugueses haviam de ir de cinco em cinco anos a uma Festa do Avante!, só para enxotar estereótipos e baralhar ideias. Por isso, a festa é um “perigo” que há que exterminar.

Assim se chega a outro preconceito conveniente. Dava jeito que a festa do PCP fosse partidária, sectária e ideologicamente estrangeirada. Na verdade, não podia ser mais portuguesa e saudavelmente nacionalista. Sem a orientação e o financiamento de Moscovo, o PCP deveria ter também fenecido e finado. Mas não: ei-lo. Grande chatice.

A teimosia comunista é culturalmente valiosa porque é a nossa própria cultura que é teimosa. A diferença às modas e às tendências dos comunistas não é uma atitude: é um dos resultados daquela persistência dos nossos hábitos. Não é uma defesa ideológica: é uma prática que reforça e eterniza só por ser praticada.

Enquanto os outros partidos puxam dos bolsos para oferecer concertos de borla, a que assistem apenas familiares e transeuntes, a Festa do Avante! enche-se de entusiásticos pagadores de bilhetes.

E porquê? Porque é a festa de todos eles. Eles não só querem lá estar como gostam de lá estar. Não há a distinção entre “nós” dirigentes e “eles” militantes, que impera nos outros partidos. Há um tu-cá-tu-lá quase de festa de finalistas. Por isso, ao programa da festa, anunciado em conferências de imprensa, é concedido meia dúzia de linhas ou de segundos.

Ser-se comunista é uma coisa inteira e não se pode estar a partir aos bocados. A força dos comunistas não é o sonho nem a saudade: é o dia-a- dia; é o trabalho; é o ir fazendo; e resistindo, nas festas como nas lutas. Por isso a dimensão e o êxito da festa chateiam. Põem em causa as desculpas correntes da apatia. 


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