We musk talk about this

(Carmo Afonso, in Público, 15/04/2022)

A democracia não precisa do Twitter, precisa de nós. E desde quando está Elon Musk preocupado com a defesa da democracia?


Sabemos que quem controla as redes sociais também nos controla. Não é uma teoria da conspiração, são factos do conhecimento público. E, aqui, a realidade supera a imaginação. As nossas atividades, e as nossas faltas de atividade, são registadas, estudadas e as conclusões são usadas. Somos transparentes enquanto navegamos, e interagimos, no mundo digital, e deixamos mais informação sobre nós mesmos do que nos passa pela cabeça, certamente mais do que aquela que quereríamos deixar.

Porque somos tão transparentes? Desde logo porque nos sentimos livres. Curiosa ironia. Quanto mais livres nos sentimos, na gestão das escolhas que fazemos quando estamos online, mais informações deixamos sobre nós mesmos. A consciência, ou ilusão, de que ali somos inteiramente livres no que fazemos ou dizemos é o motivo do nosso cárcere. Quem age como se não estivesse a ser observado, mas estando, revela quem é e a sua intimidade.

Sabemos de tudo isto mas não agimos em conformidade. Ainda nos chocamos porque, por exemplo, na China os cidadãos são controlados e não acedem livremente à Internet. Porventura serão os chineses mais opacos, por isso mais protegidos, aos olhos de quem os observa. Não há aqui uma apologia da censura digital na China. Trata-se sim, e nesta parte, de uma reflexão sobre a nossa incoerência.

Quem domina o espaço digital domina o mundo. Enquanto estamos nas redes sociais a discutir e a mostrar conteúdos intelectuais ou afectivos, somos peixes num aquário observado. Nada de novo. Sabemos disto.

Aquando do escândalo da massiva fuga de dados de milhões de utilizadores do Facebook, ainda se refletiu sobre o tema, mas foi sol de pouca dura. E verifica-se um fenómeno interessante, e que distingue os utilizadores do Facebook e do Instagram dos do Twitter, é que estes últimos sentem a sua rede como uma espécie de aldeia dos gauleses. Um exercício de liberdade e até de resistência. São utilizadores que não se sentem utilizados.

Jack Dorsey – o autor do primeiro tweet da rede, um dos fundadores da empresa e até finais do ano passado a exercer as funções de presidente executivo – ligava bem com a fantasia dos utilizadores do Twitter. Tinha aura de “one of us”. Mas os tempos mudaram e a estrutura acionista também. O Jack saiu e há novidades.

Elon Musk ofereceu 43 mil milhões de dólares pela compra do Twitter REUTERS/MIKE BLAKE

Notícias dão conta da oferta de Elon Musk para a compra da totalidade das ações do Twitter. Musk é apontado como o homem mais rico do mundo. A sua fortuna, como a de todas as pessoas que integram a lista dos mais abastados e que são sobretudo homens, põe em causa o próprio combate às desigualdades sociais. A concentração da maior parte do capital em dúzia e meia de seres humanos diz muito sobre o longo caminho que temos pela frente até à construção de um mundo mais justo.

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Elon Musk é também o homem da Neuralink, empresa apostada em remover o que separa o pensamento do seu impacto na realidade. Cérebros diretamente ligados a máquinas, dando ordens sem recurso a quaisquer mecanismos tácteis ou vocais. Musk fala ainda num mundo sem linguagem já nos próximos anos. Segundo ele, a linguagem, em menos de cinco anos, passará a ser usada apenas por razões sentimentais. Será dispensável. Os cérebros poderão comunicar, também entre si, sem recurso à linguagem. Musk fala com ligeireza daquilo que seria uma nova fase da vida humana, desta forma liderada por ele.

O Twitter tem sido o Cheers, aquele bar de alguns milhões de pessoas. Nunca foi o espaço de liberdade que quem o usa gosta de pensar que é, mas o que se passa ali tem realmente influência

Diz-se agora apostado em transformar o Twitter, fazer dele a grande plataforma da liberdade de expressão por esse ser um imperativo da democracia. Ora, quem conhece a plataforma sabe que o seu maior problema é a desinformação e não a falta de liberdade de expressão. Dúvidas houvesse, no caso do Twitter, no da democracia não há: a desinformação, e a própria concorrência que as redes sociais fazem ao jornalismo, é que a põem em causa. E desde quando está Elon Musk preocupado com a defesa da democracia?

O Twitter tem sido o Cheers, aquele bar, de alguns milhões de pessoas. Nunca foi o espaço de liberdade que quem o usa gosta de pensar que é, mas o que se passa ali tem realmente influência. É certo que a democracia não precisa que o salvemos. No limite, e no que diz respeito ao Twitter, a democracia precisa que passemos mais tempo próximos uns dos outros e menos tempo ligados uns aos outros. A democracia não precisa do Twitter, precisa de nós.

E se Elon Musk conseguir concretizar esta compra, ficará mais claro que o Twitter não é nenhum Cheers, é um Starbucks.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico


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