O futuro da Ucrânia

(José Preto, in VK, 25/03/2022)

É natural que a destruição das infraestruturas militares e de abastecimento em campanha sirvam o primeiro objectivo territorial – a devolução das fronteiras próprias às Repúblicas do Donbass e a eliminação da ameaça que sobre elas pesava.

Libertado integralmente o território – o que não pode já tardar muito mais – os dois estados soberanos decidirão quanto haja de fazer-se.

É de notar que as duas repúblicas se perfilam em dissonância (amistosa) com o Kremlin.

São Repúblicas Populares. Ou seja, os pressupostos da estruturação socialista do Estado presidiram às respectivas proclamações de independência.

Já o Estado Federal Russo não comporta constitucionalmente mais do que a forma republicana de Estado e a forma de governo cristalizada na estruturação da Democracia Parlamentar com regime presidencialista.

A Rússia não tem intenções de ocupação ou anexação.

Evidentemente, se essas Repúblicas, ou alguma delas, decidirem – por eventual referendum – pedir a integração como estados federados, logo se verá.

Isto deixa interrogações quanto ao demais território de população russa, filorussa e russófona, maioritárias no sul e nordeste, com histórica expressão nos territórios a leste do eixo que una Kiev a Odessa.

O exército russo está já nesses territórios e as unidades das FFAA ucranianas estão nos “caldeirões” dos cercos respectivos. E a ideia de ver o vencedor abandonar “simplesmente” os territórios que dominou é repugnante por constituir uma auto-derrota.

Mas a verdade é que o exército russo não parece inclinado a substituir-se às populações locais. E estas perguntam se já “são russas outra vez”.

A resposta é que serão quanto quiserem ser, bastando para tanto organizarem-se para manifestar de modo suficiente a vontade política à qual haja lugar. O que é preciso, talvez, é evitar que as populações fiquem submissamente à espera de uma direcção política dos territórios saída da estrutura militar russa, enquanto o exército e o Estado Federal Russo esperam a estruturação política de iniciativa popular.

Falso impasse. É preciso dissipar esta hesitação.

Outra questão – e não é pequena – é saber o que ocorrerá na impropriamente chamada “Ucrânia ocidental”. Lvov e a Galicia, a Bucovina do norte e a Transcarpácia (com população originariamente eslovena e húngara, mantendo as suas tradições culturais).

A Polónia está visivelmente ávida relativamente a Lvov. E deve ser energicamente contrariada pela destruição da aberração greco-católica, igreja de nazis (vão dizer que não, mas é o que são nos tempos que correm e já o tinham sido no passado) e pela desarticulação do fascismo católico, que nem a liberdade de religião consegue respeitar na região onde ainda campeia.

Os nacional-católicos costumam demarcar-se do fascismo. Não são hegelianos, dizem. Pois não. A diferença está pois na recusa do estado como expoente máximo da consciência dos valores da sua época. Isso é para eles apanágio da igreja. Os resultados práticos são bastante piores. Designadamente no que à liberdade de consciência respeita. O papismo traz um fenómeno chamado “direcção de consciência”, convém não o esquecer. Pior, portanto. A designação de fascismo católico é uma solução expressiva e deve ser mantida por isso, no debate político.

Lvov deve cair também, do ponto de vista do objectivo – crucial para a segurança colectiva – da desnazificação da Ucrânia.

Efectivada esta, os locais decidirão o que fazer, como em todos os outros lugares. Um estado federal, ou confederal, não pareceria má ideia.

E não parece má ideia, mesmo que as liberdades próprias tenham de ser impostas, em alguns casos, manu militari. Não seria a primeira vez. O papismo é tão avesso às liberdades civis e políticas que provocou uma guerra civil entre os helvetas, na qual as liberdades — hoje pacificamente exercidas — tiveram de ser impostas aos papistas em seu próprio benefício. O papismo foi o último a aderir à independência romena (outro exemplo), o último a reconhecer Timor (para quem se tenha esquecido). O último, até, a reconhecer a independência portuguesa (o primeiro heresiarca só o fez depois do Rei de Espanha transigir). A liberdade gera ali um qualquer alarme de alma e é mais prático e mais fácil vencê-lo do que convencê-lo.

Mas o respeito pela cultura de cada comunidade não parece evitável, sem prejuízo do enraízado pluralismo de presenças étnicas e culturais. Estas devem naturalmente continuar a expressar-se, com a liberalidade à qual têm integral direito. A liberdade da existência das comunidades é uma condição da paz.

Não deve pois ser mal compreendida a atitude das FFAA russas. Elas não estão em solo ucraniano para exercerem uma tutela com o pressuposto da (abusiva) consideração da incapacidade das populações locais.

Elas eliminam os ukro-nazis e o sbu (estrutura de polícia política incumbida da intimidação maciça e assassinato como política quotidiana de “estado”). Foi quanto se propuseram. É quanto estão a fazer.

As populações têm de concretizar quanto lhes incumbe. As FFAA russas não são a estrutura adequada à instituição de novos governos estaduais ou regionais, com eventual fundamento num qualquer direito de conquista. Elas devolvem a liberdade às populações. Não foram assumidas ou fixadas, por ora, incumbências com outra amplitude.


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13 pensamentos sobre “O futuro da Ucrânia

  1. Este blog era sem duvida um dos blogs que acompanho que tinha textos mais interessantes e inteligentes, a postura pro Russa de todos os textos desde o inicio da invasão da Ucrânia pela Rússia e repito “invasão militar da Ucrânia por parte da Rússia” para mim representa uma postura relativamente ao que está a acontecer nojenta, dar voz a opiniões diferentes eu entendo e defendo, tentar sistematicamente defender o assassinato de milhares de pessoas com base em ideologias politicas é repugnante. Eu sendo defensor de politicas de esquerda sinto-me envergonhado com as posições que a esquerda portuguesa e os seus comentadores têm tido desde o inicio deste conflito.
    Não que isso tenha qualquer importância mas eu sou daqueles que acreditam que a livre iniciativa informativa deve ser ajudada e consequentemente sou dos que tenho ocasionalmente feito doações para a estatuadesal, já não voltarei a fazer, recuso-me a apoiar quem apoio de forma tão unilateral e faciosa um agressor brutal, assassino sem escrúpulos que se pudesse fazia o que está a ser feito na Ucrânia ao resto da europa (ainda ontem o seu “cão de estimação” disse isso mesmo), por isso continuem a tentar defender e justificar o indefensável e injustificável, mas continuem sem o meu apoio. Não consigo perceber como é que pessoas claramente inteligentes consegue defender o Putin e no fim do dia olharem para a família, para o espelho e não sentirem vergonha na cara…

  2. Não tenho dúvidas que “ousar entender a situação sobre outras perspectivas” é sempre salutar. Dar sistematicamente a perspectiva do kremlin já me parece menos ousado e mais apparatchik. Se aos senis do PCP ainda se dá de barato, num blog que até era do mais interessante que por aí se publicava (embora de semeação alheia) parece-me de lamentar. Com efeito, alguns dos textos aqui publicados provocam uma tal repugnância que é difícil de explicar.
    O nível de insanidade que é preciso ter para explicar, com conhecimentos de erudito trapaceiro, que a Rússia só quer “desnazificar”a Ucrânia só pode merecer repúdio.

  3. Parabéns ao blog por ousar dar oportunidade de entender a situação sob outras e mais variadas perspectivas que não a da mídia Europeia comprada e patrocinada pelos EUA. Com isso não significa que apoio qualquer intervenção militar de quaisquer país. Porém é óbvio que vivemos num mundo de dois pesos e duas medidas onde o imperialismo norte americano me parece ser capaz de fazer qualquer coisa por poder e petróleo.

  4. Eu que moro longe tinha o hábito de vir aqui ler artigos em português. Pela disponibilização de inúmeros textos interessantes estou grato a este blogue. Infelizmente, alguns daqueles que me tinha habituado vir ler deixaram de marcar presença aqui, a começar pelo Daniel Oliveira. A qualidade diminuiu, tendo entrado aqui Fox News e Reseau Voltaire, por exemplo. É a legítima linha editorial do blogue, mas é pena.

  5. Quem não está a passar bem é o estátua de sal. Tanto na óptica moral como política. E fica-se conversado sobre essa matéria, quando, graças aos bons ofícios do estátua de sal, lemos a opinião de gente como josé preto, que nos oferece um recital de complacência para com a guerra de putin. Mais uma daquelas pombas da paz que comem o milho na mão do dono.

    • Há quem o faça melhor que nós também, pelo que não iremos por aí. Mas se acha que a política externa dos EUA e o sua avaliação é uma questão de terraplanismo, estamos conversados sobre a sua fé na justeza dos “bons”: você está mesmo ao nível dos terraplanistas. Não na optica geografica mas na optica moral e politica. Passe bem.

    • o nosso amigo da terra plana tem a sua razão e esta pode ser enunciada segundo uma simples regra de três: terraplanismo está para a ciência como o Reseau Voltaire está para a política … desculpem-me mas foi mais forte que eu … houba houba

  6. Sr. Aguinaldo, têm pelo menos 20 canais televisivos e todos os jornais deste país a defender e a veicular informação exclusiva mente pró (usa) Ucrânia. Não lhe chega ?

  7. Entre as vítimas desta guerra está o estátua de sal. O que se lamenta, como se lamentam todas as vítimas. Mesmo aquelas que, como neste caso, estão longe de ser inocentes. E que, por vontade própria, vestem a farda russa…camuflada de pacifismo.

  8. Não é propriamente o caso da presente crónica, mas este blogue escrutina e só publica o que está na linha da adesão partidária por que optou neste conflito: justificar o invasor atribuindo as culpas a outros. Isto é um procedimento canalha porque um país que invade e ataca outro destruindo e matando não tem ponta de justificação e não tem perdão. Por exemplo, porque é que este blogue não seleccionou o artigo de Timothy Snyder publicado no Público de 27 deste mês? Pois claro, pois claro, a razão é óbvia.
    Este blogue nunca mais vai livrar-se desta nódoa vergonhosa.

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