Olhar a cores, decidir a preto e branco

(Pacheco Pereira, in Público, 26/02/2022)

Pacheco Pereira

Era de manhã cedo e uma pequena delegação da NATO estava à espera de ser recebida no Ministério da Defesa russo, pouco tempo depois do fim da URSS, com uma Federação Russa, ainda indefinida no seu novo estatuto de ex-URSS, e existia a Comunidade de Estados Independentes como instituição de transição. Havia um português, eu, um americano militar ligado aos serviços de informação do exército, sempre à civil, um holandês e um general inglês, que alternava a farda com roupa civil, e que trazia um ajudante de campo que lhe transportava a mala. Um grupo bizarro, num tempo bizarro, num sítio não menos bizarro, e altamente improvável.

Estava-se num período excepcional, em que se deu uma genuína possibilidade de transformar o fim da Guerra Fria numa relação pelo menos amigável entre os dois blocos inimigos. Havia a Partnership for Peace e uma vontade de aproximação que durou pouco, e que talvez nunca tivesse condições para durar muito. Ninguém era imune às suas ilusões e, como se sabe, isso é sempre muito perigoso. Houve depois uma sucessão de erros que podemos identificar a posteriori, mas havia muita história complicada, em cima e por baixo, e também demasiada geografia. Lembrei-me muitas vezes do ditado polaco que dizia “trocamos a nossa gloriosa história por uma melhor geografia”.

No meio do bulício da entrada, com militares a passar apressados, a segurança nos portões e gente por todo o lado, chegou uma senhora de bata branca, um lenço branco na cabeça, uma mãe russa com ar cansado, indiferente a tudo, vinda de umas cozinhas algures no gigantesco edifício, empurrando um carrinho com sopa quente, com as canecas a fumegar. Dirigia-se lentamente aos gabinetes do interior. Era invisível, ninguém falava com ela.

Num daqueles momentos difíceis de explicar, os homens sentados à espera, nós, parámos de falar e houve um súbito silêncio. O nosso americano, talvez o mais expansivo de todo o grupo, quebrou-o, dizendo mais ou menos isto: “Nós pensávamos que estávamos a lidar com uma grande potência e esmagámo-los”. Não havia uma ponta de arrogância na frase, havia uma estranha pena. O “esmagámos” não era para os militares, com fardas cheias de condecorações, era para a senhora do carrinho.

Ninguém disse nada e o silêncio tornou-se incómodo. A URSS era uma grande potência militar e aqueles homens sabiam disso muito bem. Mas o nosso olhar agora via outras coisas, as cortinas puídas, a água com um sabor miserável, um enorme cansaço colectivo todos os dias à vista nas ruas, com homens e mulheres de saco na mão a tentar encontrar as coisas de que precisavam e que, umas vezes chegavam, outras não. E, nos contactos com os poderosos, percebia-se uma brutalidade inscrita nas relações de poder, que ia das ruas ao topo da hierarquia. Não havia pobreza? Aparentemente não, nas cidades que conheci, pelo menos pobreza ostensiva, embora houvesse alguns sinais de pobreza escondida que se via nas filas de pessoas a vender coisas que tinham em casa à porta das estações de metro. Mas isto são impressões. Havia felicidade? Claro que havia no meio daquilo tudo, as pessoas têm uma capacidade infinita de se adaptar e a vida é única.

Mas, de um modo geral, a vida era difícil, num grau de exaustão quotidiana que era o dia-a-dia do russo comum, e em breve ir-se-ia tornar ainda mais difícil quando as experiências liberais, trazidas pelos economistas de Chicago que tomaram conta das Finanças, distribuíram a riqueza da URSS em vouchers que não valiam nada, e foram comprados em massa pelos novos oligarcas em formação. Estes ficaram com os bens nacionais, numa distribuição em que a família de Ieltsin teve um papel relevante, e os que se portavam bem politicamente estão hoje com Putin. Os outros estão na cadeia. Seguiram-se as violentas expulsões de casas apetecíveis no mercado, e a ostentação mais chocante. Já não sei se nessa viagem ou noutra, recordo-me de ir a um dos novos restaurantes na moda em Moscovo, com uma menina que tocava harpa, comida imitada dos restaurantes franceses e de um modo geral tão má quanto cara, e cá fora filas de carros de luxo e dezenas de guarda-costas.

Quando subimos para o nosso encontro estava Shaposhnikov e passou Akromeyev, cada um com a sua carga de história em cima, no passado e no futuro. Ambos iriam ter nesses anos de revolução um papel relevante, Yevgeny Ivanovich Shaposhnikov viria a fazer a transição que muitos russos do topo da hierarquia fizeram, de ser o último ministro da Defesa da URSS, o chefe das Forças Armadas da CEI, para acabar nos negócios de armamento à frente da poderosa Rosoboronexport. Em vez de morrer das habituais maleitas, Shaposhnikov morreu também com a história, de covid. Sergey Fyodorovich Akhromeyev, um militar com uma carreira brilhante, com um papel na invasão do Afeganistão, era conhecido no Ocidente pelas suas “explicações” do abate do avião civil coreano pelos soviéticos em 1983. Também teve como futuro as habituais armadilhas da história: participou no golpe contra Ieltsin em 1991, e suicidou-se. Tudo boa gente.

Numa altura em que Putin – um antigo agente do KGB e depois do FSB, que ascendeu ao poder com uma provocação mortífera atribuída aos chechenos independentistas, para ter um pretexto para “corrigir” a derrota militar que os russos tinham tido em Grozny e acabar com a independência da Chechénia – está a colocar a Ucrânia a ferro e fogo, lembrei-me da frase do americano no Ministério da Defesa e da senhora de bata branca.

Na verdade, nós não vimos muita coisa ao “esmagá-los”, e não vimos o poder da humilhação quando é sentida por todo um povo. Não vimos o papel do patriotismo, por exemplo. Uma coisa que achamos que temos por cá, mas não temos nada. Mas os russos e americanos têm, de formas muito diferentes. O patriotismo russo é alicerçado numa memória trágica de muitos milhões de mortos e destruições sem paralelo, a maior parte na Bielorrússia e na Ucrânia.

E se tivéssemos melhor conhecimento da “máquina da historia” percebíamos que há muito tempo Putin manifestou com clareza a sua pena com o fim da URSS, e levou essa pena à prática na Chechénia, na Geórgia, na Crimeia, e recebeu de herança a Transnístria na Moldova. E percebíamos, como quase todos os russos e todos os ucranianos, o que significa chamar “nazi” aos dirigentes ucranianos, num país em que no lado ocidental abundam os memoriais a Stepan Bandera e no lado oriental as estátuas de Lenine ficaram de pé.

Fique bem claro, antes de começarem os disparates nas “redes sociais”, que eu condeno sem ambiguidades a invasão da Ucrânia, por razões que são mais do que evidentes. Putin e a nostalgia imperial são muito perigosos numa Europa sem defesa a não ser os americanos. Acresce que, por muito dividida que esteja a Ucrânia, a sua independência é fundamental para conter a Rússia e manter a face do direito internacional que, mesmo que seja apenas a face, é importante para as democracias.

Mas a obrigação para quem tem uma escrita pública é perceber que a complexidade da história pode e deve ser compreendida, e que não olhar para as coisas a preto e branco não impede que se tenha posição, bem pelo contrário. Nestes tempos de enorme simplificação, em que o conforto de ver a preto e branco domina as posições e induz ao clubismo politico, nunca quis deixar de ver a cores, ou seja a tentar perceber a complexidade de qualquer humano assunto.

Isso não ajuda a legitimar Putin, mas a combatê-lo com mais eficácia.

Historiador


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